ROUGHNESS

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

I do not hear the sound of
the wind against the window

in the curtain’s rustling
the din

I am silence
carved in stone
arid
dry
uncover through time
crystallized.


(Marina Du Bois, English version)

ASPEREZA

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

Não ouço o som
do vento contra a vidraça

no farfalhar da cortina
o estampido

sou silêncio
esculpido em pedra
árida
seca
descoberta no tempo

cristalizado.

EPHEMERAL

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

The concern
           comes from the memory
           dimmed as the hours pass by
           and we are reset
                             repeated
                             recovered
                             and erased
                             in remembrances

           the left behind
           must worry
           about the gods

inicial refugees
from frailty.


(Marina Du Bois, versão em inglês)

EFÊMEROS

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

A preocupação
decorre da memória
esmaecida no passar das horas
em que somos repostos
repetidos
recuperados
e apagados
nas lembranças

os que ficam para depois
devem se preocupar
com os deuses

retirantes iniciais
da efemeridade.

A INGRATIDÃO DA ESPOSTOA

Por Humberto Pinho da Silva (Vila Nova de Gaia, Portugal)

Quando era menininho, ia na companhia de minha mãe, para aldeia perdida entre serranias. Ficava em quebrada de serra, que a protegia de ventos frios, e desabridos temporais, que fustigavam desapiedadamente as povoações vizinhas.
Quase todos os verãos abalávamos para Trás-os-Montes, em velhíssimo comboio de amplos bancos de madeira envernizada, que serpenteava as mansas águas do rio Douro.
Nessa recuada época, as águas do rio eram cristalinas e plácidas, e caminhavam tranquilas para a foz. Numa quietude quase absoluta: sem pressa, sem correrias, sem atropelos…
Numa dessas viagens comboianas (como gostava de cactos, e ainda gosto,) levei envasado, um, que comprara na florista da minha rua; e criara-o com esmero e amor, no peitoril da janela de meu quarto
Meu pai aconselhou-me a levá-lo. Segundo ele, a planta estiolaria e talvez morresse, no pequeníssimo vaso de barro vermelho, onde nascera.
De tanto o ver e cuidar, afeiçoei-me. Falava com ele; acariciava-o com os meus deditos; penteava-o com doçura a branca penugem sedosa; e convenci-me, que ele, de tanto me ver, de tanto o ter abraçado, também nutria por mim, sentimentos de grande ternura.
Replantei-o com carinho, em terra fofa e bem adubada. Todos os dias, logo que o Sol se levantava, visitava-o, dando-lhe os bons-dias; e, pelo anoitecer, quando a tarde calmosa, adormecia, ia vê-lo. Passava, então, largos minutos a cuidá-lo: libertando-o de indesejáveis bichinhos.
Foi em lágrimas que me despedi. Creio que o beijei; e convenci-me que ele, também chorou: pois cobriu-se de gotinhas de orvalho, na manhã da partida.
Quando, no aconchego do meu pequenino quarto, entre alvos lençóis, ouvia a chuva e o vento vergastarem as vidraças, da minha janela; e via, pelas frinchas das portadas de madeira, o clarão azul de raios, que rasgavam a noite negra, rezava, muito baixinho, para que o bom Deus o guardasse, com Sua Mão ou Seus anjos, das intempéries impiedosas.
Para me cativar, meu tio, fez-lhe uma estufa, com sólido telhadinho de colmo, que o defendia de agrestes invernadas.
No ano seguinte, parti ansioso. Não via hora de chegar: para o abraçar e quiçá, beijá-lo.
Para meu espanto, tinha crescido. Estava quase do meu tamanho! … Era, não digo, um cacto adulto, mas adolescente…
Aproximei-me para o abraçar, e logo recuei, com as mãos crivadas de pequeninos e agressivos espinhos.
Ralhei asperamente com ele. Eu, que o cuidara com tanta dedicação; que o amei tanto, fui recebido como estranho, como se fosse malfeitor! …
Olhei-o de frente – e, enquanto retirava, um a um, os espetos que se enterraram na epiderme, pensava com pesar.:
Quando era menina, a minha espostoa, recebia os meus carinhos, com alegria; e retribuía-os, acariciando-me, com os sedosos pelos, a minha mão acalentadora.
Crescera, tornara-se adulta, e considerou que não mais precisava de mim, e recebeu-me com indiferença; com a superioridade de quem tem esteiros sólidos, e não precisa mais de ajuda…
Lembrei-me de narrar a história da espostoa, porque, amiga minha, minhota de coração, e alentejana por casamento, em hora de amargura, contou-me: que casara ainda menina com industrial. E tão menina era, que não poucas vezes, o marido, surpreendeu-a a dançar o Vira, no quarto…Então, corava de vergonha…
Gostava muito de crianças, mas nunca foi abençoada. Dedicou-se de alma e coração ao filho do caseiro da quinta, onde morava.
Queria-lhe tanto, que se alegrava com suas alegrias e chorava quando ele chorava, pelo amor que lhe tinha. Resolveu, então, deixar-lhe a casa, onde vivia, por muito lhe querer.
O menino cresceu. Esqueceu os mimos que receberas; e, indiferente à velhinha entorpecida, que muito lhe queria, abandonou-a na companhia de rude criada, que mal falava o português! …
Minha amiga chorou muito, em segredo. Porque sentimentos e afectos sofrem-se em silêncio, para que o mundo não se ria de quem ainda os tem.
O mesmo acontecera comigo: a espostoa criou espinhos para se defender de inimigos; mas não soube recolhê-los, quando eu, cheio de ternura, e olhos radiantes de amor, a abracei.

Tinha crescido…já não precisava dos meus carinhos…

O SEMEADOR E AS SEMENTES

Por Urda Alice Klueger (Blumenau, SC)

(Para o Gabriel)

                                   Era uma vez um jovem semeador que caminhava pelos sulcos dos campos arados a distribuir sementes. Tinha robustos braços cheios de vitalidade e no rosto as cores das rosas cor de rosa, e seu coração abrigava um mundo tão grande que nele cabiam todas as músicas e todas as ternuras. Assim como às vezes se vestia de seda, outras vezes usava as rústicas roupas azuis de trabalhador, e dentro daquele azul escuro e forte o rosa das suas faces e dos seus braços ressaltavam de beleza. E ele distribuía as sementes e umas nasciam e outras não, pois assim é a vida, mas o carinho dele era igual por cada uma, e sonhava que brotassem e florescessem e por sua vez gerassem outras sementes naquele florescer, pois seu ofício de semeador era uma coisa muito grandiosa e dele dependia a continuação da vida.
                                   Muito antes da hora de terminar a jornada, porém, o semeador teve seu afã interrompido e se foi, abduzido pela cauda de um cometa, e já não pode continuar naquele ofício para o qual era tão perfeitamente talhado. Ficou lá longe, dentre estrelinhas, espiando o que acontecia com as sementes germinadas, querendo achegar um pouco de terra às suas raízes frágeis, dar-lhes o conforto de um pouco de água, mas já não tinha como atravessar uma barreira que agora havia e só lhe restava ficar assim espiando e torcendo para que a semeadura desse certo.
                                   O tempo passou e as sementinhas germinaram, criaram raízes, cresceram. Na primavera estavam tão prontas para a vida que floresceram lindamente e por sua vez geraram outras sementes que o universo se encarregou de de novo transformar em vida, e lá do seu cometa, espiando por dentre as estrelinhas, o semeador olhava e via que sua obra continuava, mesmo não estando ele junto.
Ontem, era de noite e o semeador repousava seu cansaço na lindeza que era aquela curva da cauda do cometa que o acolhera, os braços cruzados por detrás da cabeça, o corpo reclinado entre os milhões de pedrinhas fosforescentes, um pequeno bocejo quase a mergulhá-lo no sono quando... sim, que era aquilo, quem estava ali? Ele nunca esperara tal felicidade, nunca pensara que a vida poderia tomar tais rumos, nunca pensara que pudesse acontecer – mas ali, ali pertinho dele, atravessava o pretume estrelado do veludo da noite, dentro de um veloz pássaro de prata, nada mais nada menos que uma semente das sementes que ele semeara um dia!
Desde que existia aquela semente que ele lhe prestava a maior atenção, e então não havia como se enganar – era, sim, uma sementinha consequência da sua obra, agora talvez já indo, por sua vez, desabrochar em flor e gerar outras sementes! Na fosforescência do cometa, dentre milhões de estrelinhas, o semeador ficou ali a espiar pela janelinha do avião aquela sementinha que passava dormindo, leve e em paz como sempre sonhara que seriam suas sementes e, coração aos pulos, ele ficou a olhar bem de pertinho enquanto foi possível, pois o ágil pássaro de prata voava de um hemisfério a outro num instante e em breve se distanciava dentre estrelas longínquas.

            A ternura ficou grande demais dentro do peito, e então o semeador chorou de tanta beleza!

VAMOS VIAJAR, MINHA PRINCESA?

Por Mara Narciso (Blumenau, SC)

            João e Maria casaram-se há muitos anos. Ele trabalha como carreteiro, desde antes do casamento, e a sua vida é uma interminável estrada. Ela não trabalhava fora, e quando engravidava via a barriga crescer sem o testemunho do marido. Quando João chegava, a barriga já estava grande. No período do parto, ele parava, e assim tiveram cinco filhos. Em certos períodos, até por muitos dias desse casamento, João estava viajando. Vinha um pouquinho e sumia nas entranhas desse imenso Brasil.
            Maria criou os filhos e os educou praticamente sozinha. Passou a vida tomando decisões, quase sem a participação do marido, das mais simples, como fazer compras, pagar contas, escolher a escola dos filhos e educá-los, até as mais complexas, como comprar uma casa para a família. Criança com febre alta na madrugada e no desamparo, ela teve de carregar nos braços para o hospital. Mas filho um dia cresce e de trabalho passa a dar gosto e alegria, e mais a frente dá segurança, demonstra reconhecimento pelo que os pais (no caso, mais a mãe) fizeram por eles.
            João viaja noite e dia transportando o que os brasileiros precisam. Para ganhar dinheiro, enfrenta tempestades, enchentes, calor, frio, cansaço (rebite?), solidão, comida e estrada ruins, engarrafamentos, greves, obstruções na estrada, impostos, tarifas altas de pedágio, perda de sono, risco de assalto, visão de desastres horríveis. O carreteiro é um sobrevivente de muitas vidas, e quem sabe de muitas mortes? Atravessar o Brasil incontáveis vezes, por décadas, levando uma carreta com milhões de reais dela e da carga e “nunca ter morrido” é inacreditável. João não sabe o que são férias. Raramente estaciona em casa uns poucos dias, e logo recomeça. No principio tinha medo, hoje tem precaução, até porque as ameaças aumentaram. Em casos limite viaja em comboio. O que tem mesmo é saudade de casa, mas uma saudade diferente, pois fica tanto tempo no caminhão que não sabe bem o que é estar em segurança com a família. Sempre rodando, o mundo parado lhe parece estranho.
            Muitas vezes João ficava fora por meses, e já sumiu pelos lados da Amazônia por um ano. Sem vê-lo, Maria cultivava a saudade em fogo brando, e o amor em altas labaredas. Mas esta mulher de fibra e de paixão não reclamava da vida. A norma era cuidar de si, da casa, dos filhos e esperar por João. Um dia ele chega, e logo depois ele se vai. Some na cabine da carreta, desaparece mais uma vez.
            Agora, Maria, de 53 anos tem saúde frágil, teve doença grave, não enxerga bem, porém não se queixa de nada, muito menos de João. Ele tem 59 anos, boa saúde, está registrado numa grande empresa, tem bom salário e se aposentará em breve. Usa com Maria uma maneira atenciosa, e, ao fim do expediente, costuma telefonar-lhe e lhe falar-palavras carinhosas, e na volta lhe traz um agrado. A mulher não sabe o que são ciúmes.
            O carreteiro estreava uma carreta nova. Madrugada ainda, ele a convidou para ver a novidade. Ela estava com roupa caseira e tinha terminado de fazer o café. Foi até a porta, e ele pediu para que entrasse na cabine confortável, sentisse a cama de casal e avaliasse o espaço. Maria subiu, gostou do que viu, e dele recebeu o convite. Vamos dar uma volta? Mas João, a carreta está carregada! Ele disse que eram 60 toneladas de maquinário pesado. Maria não recusou. Tomando a estrada, João falou que a levaria para aquela viagem. Desta vez retrucou, mas eu não trouxe nada, nem roupa, nem nada de higiene. A gente compra no caminho. Olha João, caso você queira uma cozinheira, pode voltar e me deixar em casa, mas se você for cozinhar para mim eu aceito, eu vou aonde você quiser. E foram.

            Viajaram românticos e inesquecíveis 40 dias, com mimos tais como presentes, comidinhas na boca, carinhos, delícias e banho de mar, de norte a sul do Brasil. Tudo compensou. A vida de Maria foi uma eterna espera, mas para cada partida, havia sempre uma chegada, enquanto a vida de João foi uma continua procura pelo porto seguro, e em cada deserto a busca de um oásis. O encontro dos dois foi uma explosão. Durável e invejável.