AHORA ES CUBA

Por Pablo Neruda (1904-1973)

Y luego fue la sangre y la ceniza.

Después quedaron las palmeras solas.

Cuba, mi amor, te amarraron al potro,
te cortaron la cara,
te apartaron las piernas de oro pálido,
te rompieron el sexo de granada,
te atravesaron con cuchillos,
te dividieron, te quemaron.

Por los valles de la dulzura
bajaron los exterminadores,
y en los altos mogotes la cimera
de tus hijos se perdió en la niebla,
pero allí fueron alcanzados
uno a uno hasta morir,
despedazados en el tormento
sin su tierra tibia de flores
que huía bajo sus plantas.

Cuba, mi amor, qué escalofrío
te sacudió de espuma la espuma,
hasta que te hiciste pureza,
soledad, silencio, espesura,
y los huesitos de tus hijos
se disputaron los cangrejos.


Por Pablo Neruda (1904-1973)

Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...

Mas sê o melhor no que quer que sejas.

SINTO

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

Sinto pelo atraso: a chuva
                              e o casaco
                                       impedem
                                       o apressado.

Nunca sei a hora incerta da chegada.
Muitas vezes me enredo nas teias da janela.
Nunca saio mais cedo para o trabalho.
Muitas vezes sou o último na batalha.

Refaço o jarro e jogo a água:
a flor se afoga
em gargarejos. A água revolta
a terra residual. O vaso quebrado
na ilusão da liberdade.

Desculpe-me pelo atraso: a água
                                             escorre
                                             as flores

                                             ao piso.

TRAIR

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

No desgosto
          da hora
 retiro o gesto
de despedida.

A porta fechada
     a passagem.
O rosto impassível
        na passagem.
A passagem deixada

            em resposta.

VIVER

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

Vivo momentos sem comentários
na análise de séries intercaladas.

Reviso momentos escutando
histórias de vidas ultrapassadas.

Reavivo momentos em calado
          discurso de vida inteira.

Vivo momentos: retiro da árvore
o fruto e o descasco em lâminas.

Revivo o instante no momento
               que me é simpático.

MAL SECRETO

Por Raimundo Correia (1859-1911)

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste

Em parecer aos outros venturosa!

AS POMBAS

Por Raimundo Correia (1859-1911)

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

E á tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,

E eles aos corações não voltam mais...