Por
Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)
Acontecia, outrora, aos médicos
da província, cada uma, que nem ao mais levado mafarrico lembrava.
Fernando Namora, narra, com a
graça que lhe era peculiar, as suas aventuras, em: “ Retalhos da Vida de um
Médico”.
E muitas pitorescas e
engraçadas historietas, se contam, desses humildes “ João Semanas”: -
verdadeiros heróis, que alcançavam “ milagres” com os escassos recursos que
dispunham.
Ora, havia nesse tempo, jovem
médico, com consultório montado no centro da cidade de Bragança, considerado e
respeitado, por todos os brigantinos.
Suas curas, espampanantes,
espalharam-se por todo o distrito, desde Bragança até a terras de Miranda,
porque não havia maleita, que não sarasse, nem mal que não passasse.
Tinha o jovem doutor, tia,
velha, teimosa e rabugenta, que sofria de graves males, que seriamente a
atormentavam. Mas – apesar dos rogos, – recusava, peremptoriamente, ir ao
médico.
Os familiares andavam deveras
preocupadíssimos. Como demove-la da contumácia?
À Vila não queria ir. Também o
médico, que ai clinicava, estava tão ancilosado, que mal conseguia diagnosticar
a mais leve enfermidade.
Os desconfiados aldeões,
preferiam as antigas mezinhas das avós, ou a arte mágica de bruxas da região. -
Por sinal, poucas e ignorantes, e tão néscias como os rústicos campesino, - do
que ir à Vila.
O que fazer, então?, já que a
velhinha piorava a olhos vistos?
Após muito matutarem e
altercarem, entre si, os parentes da velha casmurra, assentaram encetar a árdua
e perigosa viagem, por vales e montes e caminhos escabrosos, até Bragança.
Terra grande, onde havia hospital e vivia o sobrinho (?) da enferma, que
granjeara reputação de “ sapiente”.
Mas como,
se a velha não queria?! …
Nessa recuado tempo, não havia
quem tivesse automóvel - nem na aldeia, nem, talvez, no concelho. - O remédio
era transportá-la de burro – animal pachorrento e amigo de fazer vontades.
Mas como convencer a velha?; se
não queria sair de casa?
Acordaram, por unanimidade,
chamar dois valentões, que agarraram e amarraram a mulher, com grossas cordas,
à albarda, coberta por velha e surrada liteira.
Bem segura e bem atada, lá foi
a nossa velha, bracejando e chorando, até à Praça da Sé, e da Praça até, à
porta do consultório do famoso médico, onde arreataram o jerico,
Estava o clínico, de
estetoscópio na mão, a auscultar conscientemente o peito de respeitosa idosa,
quando escuta grande alarido, que subia da rua. Algazarra infernal, chinfrinado
endiabrado, à mistura de muitos guinchos, berros e vozearia.
“ O que seria?!” – Pensou,
atónito, o jovem médico.
Esclareceu-lhe a curiosidade a
solicita empregada, que entrou afogueada no consultório, explodindo num misto
de surpresa e indignação:
- “ Senhor doutor: Está uma
mulher, a gritar e a estrebuchar, amarrada a um burrico! …e muita gente à
volta! … Dizem que é tia do Senhor doutor!!! …”
- “ Pois vá dizer: que não sei
quem é. E mande-os embora…Não atendo ninguém que venha amarrado a um burro! …”
Não houve outro remédio, apesar
dos rogos e altercações, senão regressarem à terra, com a velha amarrada, e
mais séquito de festiva garotada, até ao Loreto, que em risos e chalaças,
galhofavam com a grotesca e hilariante cena.
Mais tarde, parentes do jovem
médico, diziam, entre si, e para quem os queria ouvir, com olhos de indignação
cravados no céu:
_ “ Parece impossível! Ter
vergonha da tia! … Sangue do seu sangue! …”
E os aldeões, que os ouviam,
repetiam, com cibinho de ira, sacudindo negativamente a cabeça:
- “ Vão estudar para a cidade.
Ficam ricos, e não querem saber dos pobres! … É para isso que uma mãe cria o
filho! …”
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