Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
Repousa,
minha amada...
Fina flor de aço e de concreto!
Repousa e aflora!
A divina flor,
No vai e vem...
No fim do século!
Aflora a fina flor...
Que nasce, cresce e perece!
Na fauna, na flora...
E no concreto!
É o Fauno...
A regar a fina flor de aço...
E de concreto,
Que cresce em descompasso,
No aço! E no concreto!
Inexata flor de aço...
No fim do século!
Nasce, cresce e perece,
Minha divina flor!
Em descompasso...
Minha despetalada flor!
No outono e no inverno,
Minha flor inexata,
A repousar
No fim de tudo
E em meio ao nada!
Nasce, cresce e perece!
Na fauna, na flora e no concreto.
Para Margarida
Maria do Nascimento Rita
—
Qualquer lugar é melhor que Berlim! — A sentença, dita em voz baixa e
agonizante, não foi escutada pelo comandante Conrad. O comandante estava de pé,
a poucos centímetros do subordinado, empunhando uma pistola Luger P08. A
ordenança queria estar em outro lugar naquela hora, queria estar bem longe
dali. Otto Van Peter vivia sonhando com viagens ao estrangeiro; a mente de Van
Peter passeava pelo mundo dos trópicos, com cores vívidas e calor abrasador.
Seu pai, marinheiro da marinha mercante, de Hamburgo, vivia trazendo presentes
de outros países. Uma dessas viagens trouxe um livro antigo, de gravuras de um
alemão que vivia no Brasil. O naturalista Fritz Müller, alemão nascido em
Erfurt, que há muito emigrara para terras brasileiras, era o autor do livro, há
muito editado.
Otto
ainda era criança quando recebeu esse presente do pai; na verdade, era um
presente de familiares que por lá viviam. O pai de Otto bem tentava contar ao
menino como a vida no Brasil era muito diferente de onde viviam: — Quando essa
maldita guerra acabar, mudo para o Brasil de vez por todas! — Van Peter vivia
repetindo essa frase, ora velada, ora dita abertamente para quem quisesse
escutar. Otto queria estar longe de Berlim; era mais que um sentimento, era uma
necessidade que gritava dentro dele. Quando o designaram para secretariar o
comandante Conrad, Otto pensou em pedir sua transferência para o front oriental
ou mesmo para a escaldante África. Qualquer lugar era melhor que Berlim;
qualquer posto era melhor que ficar ao lado do comandante Conrad — mesmo que
fosse rebaixado, pois era essa a condição para sua transferência. Pegar em
armas definitivamente não estava nos planos de Otto Van Peter. Desde que se
formara na faculdade, onde sua habilidade com outros idiomas aflorava, junto
com o desejo de vivenciar novas paisagens, tudo tomara corpo. Mas a guerra se
fez presente e o fez tornar-se um burocrata do governo.
Otto
amava os livros, em definitivo; amava expandir seus conhecimentos. Na outra
ponta, o pavor pelas armas de fogo e toda a sua contrariedade com a guerra em
curso — mas era alemão e não poderia faltar com sua amada pátria naquela hora.
A ideia de tirar a vida de outra pessoa sequer passava pela cabeça de Otto Van
Peter. Foi esse o último e derradeiro pensamento de Van Peter.
Das
muitas lembranças que Max tinha de sua infância, a mais amarga e dolorosa foi
ver o pai aos beijos com aquela empregada judia. A dor o acompanhou até ali;
aquela mulher era um fantasma que o perseguia por toda a vida. Somadas às
muitas traições do pai com as empregadas da casa, atormentavam-no como
pesadelos vivos, no meio da noite. Max não sabia — e nunca teve coragem de
perguntar — como sua mãe suportava aquele calvário infernal: — Maldita raça,
malditos judeus! — Aquele sentimento arrastou-se por anos e anos, e como Max
queria que seu pai estivesse vivo agora.
Em
pé, andando de um lado para outro, com seu vigoroso uniforme prussiano, ornado
com a Cruz de Ferro, o comandante olhou para o taquígrafo sentado na cadeira;
parecia dormir profundamente. O homenzinho aguardava palavras a serem
proferidas. Atarracado, com o uniforme desalinhado, acabou dormindo na cadeira,
esperando as palavras a serem ditadas por Max. Aquele pobre diabo seguia ordens
— e ordens eram para ser cumpridas. Era esse o pensamento do comandante: —
Maldita raça subalterna, não merecem viver! — Não cansava de repetir para si
mesmo. Max sentia nojo, sentia asco toda vez que olhava para aqueles
subalternos preguiçosos e desalinhados, gente sem disciplina alguma, a se
arrastar vagarosamente atrás dele, esperando ordens.
Foi naquela manhã que Max Conrad também tinha
suas ordens a cumprir — ordens que coadunavam com seus pensamentos. Livrar-se
de toda aquela raça maldita, de uma vez por todas, era o pensamento reinante na
cabeça do comandante. E havia aqueles estranhos rumores de uma cigana rondando
o campo: — Flores, comandante, ela cheira a flores! — Foi isso que um de seus
engenheiros, que supervisionava o trabalho, relatara recentemente. Max pensou
em mandar fuzilar o doutor-tenente na mesma hora.
—
Ora, tenente! Não me aborreça com tamanha bobagem. Tenho mais o que fazer.
Temos que corrigir a história da humanidade, a começar por aqui e agora; temos
que pô-la no rumo certo. Chega de fraquezas. — Discursou o comandante de campo,
Maximiliano Conrad.
Depois
de ouvir o relatório oral de um de seus melhores subalternos, Herr Max decidiu
sair a campo para supervisionar o trabalho do tenente. Mandou testar os
chuveiros: os judeus entrariam no vestuário, ligariam as duchas — seria gás a
sair delas, não água — assim que o isolamento da câmara estivesse pronto.
O
comandante de campo, Maximiliano Conrad, não pôde deixar de sorrir com aquilo;
era bem mais fácil e rápido. Precisava ver pessoalmente os corpos sem vida
sendo retirados e empilhados para depois arderem nas fornalhas. Achou brilhante
a ideia do engenheiro químico de trocar a rústica câmara de madeira pelo
vestiário de alvenaria — maior, mais eficiente e seguro. Enfim, a “solução
final” estava a caminho; aquela raça seria varrida da face da Terra de uma vez
por todas.
—
Comandante? O que foi, comandante? O que o senhor está olhando? — disse o
subtenente Rudolf Heim assustou-se com a reação do superior. O engenheiro
químico pensou que a cena dos corpos havia afetado a mente do comandante.
—
...a mulher! Você não a vê? — Balbucio Max, os olhos azuis de Conrad pareciam
sem vida. Maximiliano pensou estar enlouquecendo. Aquela mulher era
simplesmente a mais bela criatura que já vira. O odor de jasmim pairava no ar —
as flores preferidas da mãe de Maximiliano Conrad. Em um instante, a entidade
saiu do vestiário, em meio aos corpos mortos, e estava ao lado de Max.
— O
que foi, Herr Max, comandante Maximiliano Conrad? Não foi você mesmo que me
chamou? Não ansiava por minha presença? — A voz da romani soprou diretamente na
mente do comandante. Fora de si, Max empunhou o punhal à cintura; a arma voou
no vazio e atingiu o engenheiro-tenente, ferindo-o mortalmente no pescoço.
A
pistola Luger P08 ainda fumegava quando Max decidiu apontá-la para a própria
cabeça. À sua frente, no chão, o corpo sem vida da ordenança, que não soube o
que o atingira. Max já não suportava mais o odor de jasmim impregnado no ar,
nem a presença daquela estranha criatura etérea, vinda não sabia de onde, para
assombrá-lo. Era hora de pôr fim a tudo. O eco da Luger P08 explodiu mais uma
vez na pequena cela de Max. Ninguém ouviu o estrondo — somente a romani, que
contemplava a cena com um sorriso na face.
Fragmento do livro Cabística. Texto de Samuel da Costa, contista, cronista,
poeta e novelista. Itajaí — Santa Catarina.
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