quarta-feira, 1 de abril de 2026

ADEUS, GESTALT: O COMANDANTE CONRAD (3ª PARTE)

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)






Repousa, minha amada...
Fina flor de aço e de concreto!
Repousa e aflora!
A divina flor,
No vai e vem...
No fim do século!
Aflora a fina flor...
Que nasce, cresce e perece!
Na fauna, na flora...
E no concreto!
É o Fauno...
A regar a fina flor de aço...
E de concreto,
Que cresce em descompasso,
No aço! E no concreto!
Inexata flor de aço...
No fim do século!
Nasce, cresce e perece,
Minha divina flor!
Em descompasso...
Minha despetalada flor!
No outono e no inverno,
Minha flor inexata,
A repousar
No fim de tudo
E em meio ao nada!
Nasce, cresce e perece!
Na fauna, na flora e no concreto.

 Para Margarida Maria do Nascimento Rita

         

— Qualquer lugar é melhor que Berlim! — A sentença, dita em voz baixa e agonizante, não foi escutada pelo comandante Conrad. O comandante estava de pé, a poucos centímetros do subordinado, empunhando uma pistola Luger P08. A ordenança queria estar em outro lugar naquela hora, queria estar bem longe dali. Otto Van Peter vivia sonhando com viagens ao estrangeiro; a mente de Van Peter passeava pelo mundo dos trópicos, com cores vívidas e calor abrasador. Seu pai, marinheiro da marinha mercante, de Hamburgo, vivia trazendo presentes de outros países. Uma dessas viagens trouxe um livro antigo, de gravuras de um alemão que vivia no Brasil. O naturalista Fritz Müller, alemão nascido em Erfurt, que há muito emigrara para terras brasileiras, era o autor do livro, há muito editado.

Otto ainda era criança quando recebeu esse presente do pai; na verdade, era um presente de familiares que por lá viviam. O pai de Otto bem tentava contar ao menino como a vida no Brasil era muito diferente de onde viviam: — Quando essa maldita guerra acabar, mudo para o Brasil de vez por todas! — Van Peter vivia repetindo essa frase, ora velada, ora dita abertamente para quem quisesse escutar. Otto queria estar longe de Berlim; era mais que um sentimento, era uma necessidade que gritava dentro dele. Quando o designaram para secretariar o comandante Conrad, Otto pensou em pedir sua transferência para o front oriental ou mesmo para a escaldante África. Qualquer lugar era melhor que Berlim; qualquer posto era melhor que ficar ao lado do comandante Conrad — mesmo que fosse rebaixado, pois era essa a condição para sua transferência. Pegar em armas definitivamente não estava nos planos de Otto Van Peter. Desde que se formara na faculdade, onde sua habilidade com outros idiomas aflorava, junto com o desejo de vivenciar novas paisagens, tudo tomara corpo. Mas a guerra se fez presente e o fez tornar-se um burocrata do governo.

Otto amava os livros, em definitivo; amava expandir seus conhecimentos. Na outra ponta, o pavor pelas armas de fogo e toda a sua contrariedade com a guerra em curso — mas era alemão e não poderia faltar com sua amada pátria naquela hora. A ideia de tirar a vida de outra pessoa sequer passava pela cabeça de Otto Van Peter. Foi esse o último e derradeiro pensamento de Van Peter.

Das muitas lembranças que Max tinha de sua infância, a mais amarga e dolorosa foi ver o pai aos beijos com aquela empregada judia. A dor o acompanhou até ali; aquela mulher era um fantasma que o perseguia por toda a vida. Somadas às muitas traições do pai com as empregadas da casa, atormentavam-no como pesadelos vivos, no meio da noite. Max não sabia — e nunca teve coragem de perguntar — como sua mãe suportava aquele calvário infernal: — Maldita raça, malditos judeus! — Aquele sentimento arrastou-se por anos e anos, e como Max queria que seu pai estivesse vivo agora.

Em pé, andando de um lado para outro, com seu vigoroso uniforme prussiano, ornado com a Cruz de Ferro, o comandante olhou para o taquígrafo sentado na cadeira; parecia dormir profundamente. O homenzinho aguardava palavras a serem proferidas. Atarracado, com o uniforme desalinhado, acabou dormindo na cadeira, esperando as palavras a serem ditadas por Max. Aquele pobre diabo seguia ordens — e ordens eram para ser cumpridas. Era esse o pensamento do comandante: — Maldita raça subalterna, não merecem viver! — Não cansava de repetir para si mesmo. Max sentia nojo, sentia asco toda vez que olhava para aqueles subalternos preguiçosos e desalinhados, gente sem disciplina alguma, a se arrastar vagarosamente atrás dele, esperando ordens.

Foi naquela manhã que Max Conrad também tinha suas ordens a cumprir — ordens que coadunavam com seus pensamentos. Livrar-se de toda aquela raça maldita, de uma vez por todas, era o pensamento reinante na cabeça do comandante. E havia aqueles estranhos rumores de uma cigana rondando o campo: — Flores, comandante, ela cheira a flores! — Foi isso que um de seus engenheiros, que supervisionava o trabalho, relatara recentemente. Max pensou em mandar fuzilar o doutor-tenente na mesma hora.

— Ora, tenente! Não me aborreça com tamanha bobagem. Tenho mais o que fazer. Temos que corrigir a história da humanidade, a começar por aqui e agora; temos que pô-la no rumo certo. Chega de fraquezas. — Discursou o comandante de campo, Maximiliano Conrad.

Depois de ouvir o relatório oral de um de seus melhores subalternos, Herr Max decidiu sair a campo para supervisionar o trabalho do tenente. Mandou testar os chuveiros: os judeus entrariam no vestuário, ligariam as duchas — seria gás a sair delas, não água — assim que o isolamento da câmara estivesse pronto.

O comandante de campo, Maximiliano Conrad, não pôde deixar de sorrir com aquilo; era bem mais fácil e rápido. Precisava ver pessoalmente os corpos sem vida sendo retirados e empilhados para depois arderem nas fornalhas. Achou brilhante a ideia do engenheiro químico de trocar a rústica câmara de madeira pelo vestiário de alvenaria — maior, mais eficiente e seguro. Enfim, a “solução final” estava a caminho; aquela raça seria varrida da face da Terra de uma vez por todas.

— Comandante? O que foi, comandante? O que o senhor está olhando? — disse o subtenente Rudolf Heim assustou-se com a reação do superior. O engenheiro químico pensou que a cena dos corpos havia afetado a mente do comandante.

— ...a mulher! Você não a vê? — Balbucio Max, os olhos azuis de Conrad pareciam sem vida. Maximiliano pensou estar enlouquecendo. Aquela mulher era simplesmente a mais bela criatura que já vira. O odor de jasmim pairava no ar — as flores preferidas da mãe de Maximiliano Conrad. Em um instante, a entidade saiu do vestiário, em meio aos corpos mortos, e estava ao lado de Max.

— O que foi, Herr Max, comandante Maximiliano Conrad? Não foi você mesmo que me chamou? Não ansiava por minha presença? — A voz da romani soprou diretamente na mente do comandante. Fora de si, Max empunhou o punhal à cintura; a arma voou no vazio e atingiu o engenheiro-tenente, ferindo-o mortalmente no pescoço.

A pistola Luger P08 ainda fumegava quando Max decidiu apontá-la para a própria cabeça. À sua frente, no chão, o corpo sem vida da ordenança, que não soube o que o atingira. Max já não suportava mais o odor de jasmim impregnado no ar, nem a presença daquela estranha criatura etérea, vinda não sabia de onde, para assombrá-lo. Era hora de pôr fim a tudo. O eco da Luger P08 explodiu mais uma vez na pequena cela de Max. Ninguém ouviu o estrondo — somente a romani, que contemplava a cena com um sorriso na face.

 

Fragmento do livro Cabística. Texto de Samuel da Costa, contista, cronista, poeta e novelista. Itajaí — Santa Catarina.

 

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