quarta-feira, 1 de abril de 2026

OPERA MUNDI: ALIEN DICTATOR, GOTTVERLASSEN

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

“Não me cabe ceder à escuridão.
Quero ver, no final do dia, o brilho na lua.
Mas quero ceder ao voo dos passarinhos
Para sentir o prazer da liberdade.
E, ainda que não me dê tempo para tantos feitos,
Quero ser livre do medo.”
Clarisse da Costa

 

O então capitão interino Alejandro Contreras sentiu um leve desconforto na garganta. Então decidiu levar a mão direita à manopla e digitou alguns comandos; a inteligência artificial deu o seu diagnóstico, sussurrando no ponto de ouvido do agente da lei:

— Dedos finos e inumanos lhe apertaram o pescoço, o suficiente para deixá-lo inoperante. O ser desconhecido, não catalogado, atacou-o pelas costas, imobilizou-o e disse algo no seu ouvido esquerdo, pois encontramos uma leve surdez nesse ouvido. Não foram encontrados vestígios de DNA ou digitais do ser desconhecido! — a voz doce de mulher falou de forma hipnótica no ouvido do capitão interino Alejandro Contreras.

O homem da lei não estava chocado com o fato inusitado, pois acabara de pôr os pés naquela cidade envolta em rumores de anomalias quânticas. O capitão interino Alejandro Contreras estava parado na calçada, na frente de um grande e imponente condomínio fechado. Um prédio envidraçado, às margens de uma longa avenida, que estava estranhamente desértica naquela madrugada; as criaturas da noite, ao que parecia, evitavam aquela zona morta.

— Carmen! Diga-me quanto tempo durou a anomalia quântica na nossa existência? — A pergunta, sussurrada no vazio, chegou à inteligência artificial e levou um eterno segundo para ser respondida.

— Eu não sei responder a esta pergunta, senhor — respondeu Carmen com a voz trêmula. — O que há, senhor, é um registro anormal, um pico nos seus sinais vitais, que ocorreu quando o capitão saiu da viatura; durou poucos segundos, para depois voltar ao normal. A máscara de gás foi ativada, cobriu-lhe o rosto antes do pico nos sinais vitais e logo foi desativada quando o pico terminou. Depois, surgiram hematomas no seu pescoço, além de leves luxações nos braços e nas costas — diagnosticou Carmen, desconfortável com a situação absurda e insólita.

O capitão interino olhou para a porta giratória e para as outras duas portas de vidro temperado à sua frente. O policial não tinha tempo a perder; em uma época em que a previsibilidade era um lema e algo a se buscar, aquela situação, por si só, devolvia-lhe a humanidade perdida. A ausência de dois guardas pretorianos na entrada e no hall do prédio era um bom sinal. Alejandro Contreras quebrou o protocolo, levou a mão à manopla digital, desligou a inteligência artificial e adentrou o prédio.

Lá estava Raoul Márquez. Atrás do enorme balcão de mármore escuro, a célula de infiltração cumpria seu papel como esperado. As lentes de contato do agente infiltrado detectaram que o capitão estava com seu sistema desligado, e logo ele entendeu o que estava acontecendo. Era uma situação fora do protocolo oficial; o alarme do agente infiltrado ligou no máximo. Ele levou a mão esquerda à manopla e desligou as câmeras de vigilância do hall do condomínio.

— Onde ele está? — perguntou o capitão interino ao se aproximar do balcão.

— Alien Dictator, o Gottverlassen, está detido aqui mesmo, senhor! — disse Raoul Márquez com firmeza, diante do seu superior.

— Que diabos de nomes são estes? — perguntou Alejandro, já prevendo a resposta.

— Um refugiado indocumentado, possivelmente de origem holandesa ou germânica, senhor! — respondeu o subordinado.

Foi durante a crise econômica nos países do norte que uma grande onda de emigrados se deslocou para países periféricos. Os ditos nômades digitais, trabalhadores remotos de grandes corporações, destacaram-se dessa massa amorfa de desesperados deslocados econômicos. As ilhas urbanas que se formaram desses prestadores de serviços digitais logo sofreram forte oposição de moradores locais empobrecidos. Assim, os exilados digitais, pela natureza laboral, não se integraram às comunidades locais; ao contrário dos demais emigrados, passaram a enclausurar-se em guetos. Apartados das muitas realidades locais e sujeitos às fluidezes do mundo digital, vivendo em bolhas próprias, acabaram tragados pelos submundos criminosos da realidade sólida.

— Creio que o problema é bem outro — disse o capitão interino.

— Senhor? — devolveu Raoul Márquez.

— O detido provavelmente é da terceira geração de emigrados digitais. Mas isso veremos depois. Onde está o meliante? — era moderado o tom do interino Alejandro Contreras.

O agente infiltrado convidou o superior com o olhar. Ambos trespassaram uma porta embutida atrás do balcão. Com Raoul à frente, Contreras deparou-se com o que seria uma sala de descanso dos recepcionistas: um cubículo de quarenta metros quadrados, com beliches embutidos e banheiro minúsculo. No centro, um homem de idade indefinida, careca, de pele alvíssima, trajado com uma surrada jaqueta de couro. De olhos vermelhos, o homem olhava para baixo. Alejandro não precisou da inteligência artificial para diagnosticá-lo como portador de xeroderma pigmentoso. Os dois guardas pretorianos ao lado do detido bateram os cascos e se retiraram assim que os dois agentes da lei se aproximaram.

O capitão interino levou a mão à manopla, mas parou. Lembrou-se de que estava no módulo orgânico. Então foi até os iluminadores e baixou o foco das luzes. Tirou do bolso do sobretudo bege um pequeno estojo, sacou óculos escuros e colocou-os no detido. Em seguida, livrou as mãos do homem das algemas que o prendiam à mesa.

— Cigarros? — perguntou Alejandro, em holandês.

— Quero, sim, mas falemos no vosso idioma nativo, para não constranger o vosso amigo e fiel subordinado — disse o detento em um impecável alemão berlinense, aceitando o cigarro e levando-o à boca.

O capitão tirou do bolso do sobretudo um isqueiro a butano e acendeu o cigarro. Então o detento prestou atenção ao relevo de tema marinho do isqueiro de prata; ele estremeceu.

— Bom assim — disse o capitão, que ergueu a mão esquerda e estalou os dedos.

Ao adentrarem, a energia amarela emanada pelos trajes dos dois guardas pretorianos iluminou o ambiente à meia-luz. Eles ergueram o atônito detento, despiram-no com rapidez inumana e depositaram um disco em seu peito; o cigarro caiu no chão. O homem foi recoberto por um exoesqueleto — um traje pretoriano para detentos. A mesa e a cadeira retráteis se recolheram, desaparecendo, e o traje forçou o detento a marchar para fora da sala.

— O que está acontecendo aqui, capitão? — perguntou o atônito Raoul Márquez.

— Passe a voz do detento pelo banco de dados, no nosso e no das forças de segurança estrangeiras. Identifique o elemento e envie-me o relatório assim que possível — ordenou Alejandro Contreras, logo após religar a inteligência artificial.

O capitão interino levou a mão à manopla, e um tecido digital lhe cobriu as mãos. Ele se abaixou e pegou o cigarro do chão.

— Colha o DNA e faça a busca no CODIS. — O capitão repassou o cigarro ao agente infiltrado, deu meia-volta e deixou o subordinado atônito à meia-luz.

 

Texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, novelista e bibliotecária de Balneário Camboriú, Santa Catarina.

 

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