Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)
“Não me cabe ceder à
escuridão.
Quero ver, no final do dia, o brilho na lua.
Mas quero ceder ao voo dos passarinhos
Para sentir o prazer da liberdade.
E, ainda que não me dê tempo para tantos feitos,
Quero ser livre do medo.”
Clarisse da Costa
O então capitão interino Alejandro Contreras
sentiu um leve desconforto na garganta. Então decidiu levar a mão direita à
manopla e digitou alguns comandos; a inteligência artificial deu o seu
diagnóstico, sussurrando no ponto de ouvido do agente da lei:
— Dedos finos e inumanos lhe apertaram o
pescoço, o suficiente para deixá-lo inoperante. O ser desconhecido, não
catalogado, atacou-o pelas costas, imobilizou-o e disse algo no seu ouvido
esquerdo, pois encontramos uma leve surdez nesse ouvido. Não foram encontrados
vestígios de DNA ou digitais do ser desconhecido! — a voz doce de mulher falou
de forma hipnótica no ouvido do capitão interino Alejandro Contreras.
O homem da lei não estava chocado com o fato
inusitado, pois acabara de pôr os pés naquela cidade envolta em rumores de
anomalias quânticas. O capitão interino Alejandro Contreras estava parado na
calçada, na frente de um grande e imponente condomínio fechado. Um prédio
envidraçado, às margens de uma longa avenida, que estava estranhamente
desértica naquela madrugada; as criaturas da noite, ao que parecia, evitavam
aquela zona morta.
— Carmen! Diga-me quanto tempo durou a
anomalia quântica na nossa existência? — A pergunta, sussurrada no vazio,
chegou à inteligência artificial e levou um eterno segundo para ser respondida.
— Eu não sei responder a esta pergunta,
senhor — respondeu Carmen com a voz trêmula. — O que há, senhor, é um registro
anormal, um pico nos seus sinais vitais, que ocorreu quando o capitão saiu da
viatura; durou poucos segundos, para depois voltar ao normal. A máscara de gás
foi ativada, cobriu-lhe o rosto antes do pico nos sinais vitais e logo foi
desativada quando o pico terminou. Depois, surgiram hematomas no seu pescoço,
além de leves luxações nos braços e nas costas — diagnosticou Carmen, desconfortável
com a situação absurda e insólita.
O capitão interino olhou para a porta
giratória e para as outras duas portas de vidro temperado à sua frente. O
policial não tinha tempo a perder; em uma época em que a previsibilidade era um
lema e algo a se buscar, aquela situação, por si só, devolvia-lhe a humanidade
perdida. A ausência de dois guardas pretorianos na entrada e no hall do prédio
era um bom sinal. Alejandro Contreras quebrou o protocolo, levou a mão à
manopla digital, desligou a inteligência artificial e adentrou o prédio.
Lá estava Raoul Márquez. Atrás do enorme
balcão de mármore escuro, a célula de infiltração cumpria seu papel como
esperado. As lentes de contato do agente infiltrado detectaram que o capitão
estava com seu sistema desligado, e logo ele entendeu o que estava acontecendo.
Era uma situação fora do protocolo oficial; o alarme do agente infiltrado ligou
no máximo. Ele levou a mão esquerda à manopla e desligou as câmeras de
vigilância do hall do condomínio.
— Onde ele está? — perguntou o capitão
interino ao se aproximar do balcão.
— Alien Dictator, o Gottverlassen, está
detido aqui mesmo, senhor! — disse Raoul Márquez com firmeza, diante do seu
superior.
— Que diabos de nomes são estes? — perguntou
Alejandro, já prevendo a resposta.
— Um refugiado indocumentado, possivelmente
de origem holandesa ou germânica, senhor! — respondeu o subordinado.
Foi durante a crise econômica nos países do
norte que uma grande onda de emigrados se deslocou para países periféricos. Os
ditos nômades digitais, trabalhadores remotos de grandes corporações,
destacaram-se dessa massa amorfa de desesperados deslocados econômicos. As
ilhas urbanas que se formaram desses prestadores de serviços digitais logo
sofreram forte oposição de moradores locais empobrecidos. Assim, os exilados
digitais, pela natureza laboral, não se integraram às comunidades locais; ao
contrário dos demais emigrados, passaram a enclausurar-se em guetos. Apartados
das muitas realidades locais e sujeitos às fluidezes do mundo digital, vivendo
em bolhas próprias, acabaram tragados pelos submundos criminosos da realidade
sólida.
— Creio que o problema é bem outro — disse o
capitão interino.
— Senhor? — devolveu Raoul Márquez.
— O detido provavelmente é da terceira
geração de emigrados digitais. Mas isso veremos depois. Onde está o meliante? —
era moderado o tom do interino Alejandro Contreras.
O agente infiltrado convidou o superior com o
olhar. Ambos trespassaram uma porta embutida atrás do balcão. Com Raoul à
frente, Contreras deparou-se com o que seria uma sala de descanso dos
recepcionistas: um cubículo de quarenta metros quadrados, com beliches
embutidos e banheiro minúsculo. No centro, um homem de idade indefinida,
careca, de pele alvíssima, trajado com uma surrada jaqueta de couro. De olhos
vermelhos, o homem olhava para baixo. Alejandro não precisou da inteligência
artificial para diagnosticá-lo como portador de xeroderma pigmentoso. Os dois
guardas pretorianos ao lado do detido bateram os cascos e se retiraram assim
que os dois agentes da lei se aproximaram.
O capitão interino levou a mão à manopla, mas
parou. Lembrou-se de que estava no módulo orgânico. Então foi até os
iluminadores e baixou o foco das luzes. Tirou do bolso do sobretudo bege um
pequeno estojo, sacou óculos escuros e colocou-os no detido. Em seguida, livrou
as mãos do homem das algemas que o prendiam à mesa.
— Cigarros? — perguntou Alejandro, em
holandês.
— Quero, sim, mas falemos no vosso idioma
nativo, para não constranger o vosso amigo e fiel subordinado — disse o detento
em um impecável alemão berlinense, aceitando o cigarro e levando-o à boca.
O capitão tirou do bolso do sobretudo um
isqueiro a butano e acendeu o cigarro. Então o detento prestou atenção ao
relevo de tema marinho do isqueiro de prata; ele estremeceu.
— Bom assim — disse o capitão, que ergueu a
mão esquerda e estalou os dedos.
Ao adentrarem, a energia amarela emanada
pelos trajes dos dois guardas pretorianos iluminou o ambiente à meia-luz. Eles
ergueram o atônito detento, despiram-no com rapidez inumana e depositaram um
disco em seu peito; o cigarro caiu no chão. O homem foi recoberto por um
exoesqueleto — um traje pretoriano para detentos. A mesa e a cadeira retráteis
se recolheram, desaparecendo, e o traje forçou o detento a marchar para fora da
sala.
— O que está acontecendo aqui, capitão? —
perguntou o atônito Raoul Márquez.
— Passe a voz do detento pelo banco de dados,
no nosso e no das forças de segurança estrangeiras. Identifique o elemento e
envie-me o relatório assim que possível — ordenou Alejandro Contreras, logo
após religar a inteligência artificial.
O capitão interino levou a mão à manopla, e
um tecido digital lhe cobriu as mãos. Ele se abaixou e pegou o cigarro do chão.
— Colha o DNA e faça a busca no CODIS. — O
capitão repassou o cigarro ao agente infiltrado, deu meia-volta e deixou o
subordinado atônito à meia-luz.
Texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista,
novelista e bibliotecária de Balneário Camboriú, Santa Catarina.
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