Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)
‘’Madrugada chegou, silêncio no peito,
Mente oscila, atrita a voz silenciosa,
Alma rasgando, grito calado de aflito,
Saudade daquele amor antigo, amigo.
No oceano de lamúria, a insônia castiga,
Lembranças infindas, ilusões, intrigas,
Lágrimas caem no rosto, sob desgosto,
Entrego, vivo, amo: universos opostos.
Nítido ver quem minh’alma chorou, sofreu,
Calado esperar o amor que aflorou, viveu.
Do nada se calou, o amor padeceu?
Não! O coração avisou, sofreu, revigorou,
Seguiu na sua jornada, amou, não negou!
Hoje a alma silenciosa vive... sobreviveu!’’
Fabiane
Braga Lima
Fazia tempo que Bartira não sentia
aquela sensação; era como se arame farpado dilacerasse seu corpo mortal, cegada
por luzes negras astrais. É um fenômeno comum quando ela ressurge em uma nova
espécie, sem distinguir o certo do errado. São dores cósmicas que se tornam
chagas no âmago mais profundo. São olhos novíssimos, ardendo em chamas de
cosmovisão, onde cada novo olhar corta como o metal farpado que lhe retalha a
alma imortal.
Ela, que sobreviveu à noite negra do
fogo eviterno; ela, que nunca parou de observar o fogo celestial — a chama
consumidora nas próprias mãos. Somente agora, comandando o Dirigível Mare Crisium, sentia que estava indo
ao chão. Como Ícaro ao aproximar-se do Sol, era levada à queda. Mas era tarde
demais para apagar as chamas que ela mesma abanara.
O perigo rugia próximo. As asas
desfaziam-se enquanto o Mare Crisium
rumava ao Sol; ela não atingiria o solo, mas a própria fornalha estelar. O
silêncio na ponte de comando era ensurdecedor. A Almirante Bartira estava
sozinha, devidamente trajada em seu uniforme de hussardo. Com um comando
mental, ativou o campo de força via telecinese e abriu uma ponte de
Einstein-Rosen.
Para Bartira, não era o fim, mas um
recomeço. Para ela, para a rainha afra Luna Dark e para o cyborgue, o vate
Yendel — ao menos, era esse o seu desejo. Antes de impulsionar a nave, Bartira
revisou os cálculos, acessando manuscritos, manuais e tratados seculares
através de seu palácio das memórias.
No vazio existencial, soltou um brado de
guerra, como seu povo fazia antes do combate. Era hora de iniciar o motim, a
rebelião definitiva contra Hastur e Calibor. "Somente quando se encara a
morte é que as pessoas se sentem vivas", dizia um velho provérbio de sua
linhagem. Reverenciando os deuses antigos, deu partida no motor.
Ao ressurgir na imensidão, Bartira
encarou o astro-rei. À proa, visualizou as duas cápsulas de energia quântica em
distância segura, envolvidas por potentes campos de força. Doze tanques Aparai
AS13 as conduziam. Ela sabia que a operação era insustentável a médio prazo;
restava-lhe pouco tempo.
A comandante interrompeu a marcha
automática e dirigiu-se à proa. Desceu as escadas lentamente, acionando o
protocolo de segurança manual. Os tanques estancaram. Movendo o dirigível para
o vácuo profundo, ela levou as mãos à cabeça e dissolveu o campo de força que
separava o casal. Bartira observou-os, separados por meros centímetros: a
rainha Luna, predileta de Hastur, em suas vestes brancas e amarelas com o
diadema de diamantes; e o vate Yendel, bibliotecário-mor de Calibor, trajando
sua bata negra cerimonial da Turris
Ebúrnea.
A precisão precisava ser absoluta.
Bartira ergueu as mãos, elevando as cápsulas de pura energia. Uniu os punhos
com lentidão; as esferas fundiram-se em uma onda magnética que fez o Mare Crisium vibrar violentamente.
Ela abriu a escotilha, e o vácuo inundou a proa, embora o campo de força
pessoal a protegesse.
Unindo os dedos e abrindo-os em um gesto
de arremesso, lançou a cápsula fundida à imensidão. Através da manopla em seu
punho direito, abriu uma fenda dimensional que tragou o artefato para o
desconhecido.
Restava o ato final. — Agora é tarde
demais para apagar a chama que eu mesma abanei — sussurrou para si mesma.
Ajustou a rota.
O dirigível agora era uma flecha
apontada para o coração do Sol.
— Ícaro, não voe tão perto do sol! —
bradou Bartira, enquanto a luz a consumia.
Fragmento do livro: Sustentada no ar por negras
asas fracas — de Clarisse Cristal, poetisa, contista, cronista, novelista
e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.
Argumento de Samuel da Costa, poeta,
contista e novelista em Itajaí, Santa Catarina.
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