quarta-feira, 1 de abril de 2026

OPERA MUNDI-PARTE XI: EPÍLOGO (PARTE III)

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 


‘’Madrugada chegou, silêncio no peito,

Mente oscila, atrita a voz silenciosa,

Alma rasgando, grito calado de aflito,

Saudade daquele amor antigo, amigo.

No oceano de lamúria, a insônia castiga,

 Lembranças infindas, ilusões, intrigas,

 Lágrimas caem no rosto, sob desgosto,

Entrego, vivo, amo: universos opostos.

Nítido ver quem minh’alma chorou, sofreu,

Calado esperar o amor que aflorou, viveu.

Do nada se calou, o amor padeceu?

Não! O coração avisou, sofreu, revigorou,

Seguiu na sua jornada, amou, não negou!

Hoje a alma silenciosa vive... sobreviveu!’’

Fabiane Braga Lima

 

Fazia tempo que Bartira não sentia aquela sensação; era como se arame farpado dilacerasse seu corpo mortal, cegada por luzes negras astrais. É um fenômeno comum quando ela ressurge em uma nova espécie, sem distinguir o certo do errado. São dores cósmicas que se tornam chagas no âmago mais profundo. São olhos novíssimos, ardendo em chamas de cosmovisão, onde cada novo olhar corta como o metal farpado que lhe retalha a alma imortal.

Ela, que sobreviveu à noite negra do fogo eviterno; ela, que nunca parou de observar o fogo celestial — a chama consumidora nas próprias mãos. Somente agora, comandando o Dirigível Mare Crisium, sentia que estava indo ao chão. Como Ícaro ao aproximar-se do Sol, era levada à queda. Mas era tarde demais para apagar as chamas que ela mesma abanara.

O perigo rugia próximo. As asas desfaziam-se enquanto o Mare Crisium rumava ao Sol; ela não atingiria o solo, mas a própria fornalha estelar. O silêncio na ponte de comando era ensurdecedor. A Almirante Bartira estava sozinha, devidamente trajada em seu uniforme de hussardo. Com um comando mental, ativou o campo de força via telecinese e abriu uma ponte de Einstein-Rosen.

Para Bartira, não era o fim, mas um recomeço. Para ela, para a rainha afra Luna Dark e para o cyborgue, o vate Yendel — ao menos, era esse o seu desejo. Antes de impulsionar a nave, Bartira revisou os cálculos, acessando manuscritos, manuais e tratados seculares através de seu palácio das memórias.

No vazio existencial, soltou um brado de guerra, como seu povo fazia antes do combate. Era hora de iniciar o motim, a rebelião definitiva contra Hastur e Calibor. "Somente quando se encara a morte é que as pessoas se sentem vivas", dizia um velho provérbio de sua linhagem. Reverenciando os deuses antigos, deu partida no motor.

Ao ressurgir na imensidão, Bartira encarou o astro-rei. À proa, visualizou as duas cápsulas de energia quântica em distância segura, envolvidas por potentes campos de força. Doze tanques Aparai AS13 as conduziam. Ela sabia que a operação era insustentável a médio prazo; restava-lhe pouco tempo.

A comandante interrompeu a marcha automática e dirigiu-se à proa. Desceu as escadas lentamente, acionando o protocolo de segurança manual. Os tanques estancaram. Movendo o dirigível para o vácuo profundo, ela levou as mãos à cabeça e dissolveu o campo de força que separava o casal. Bartira observou-os, separados por meros centímetros: a rainha Luna, predileta de Hastur, em suas vestes brancas e amarelas com o diadema de diamantes; e o vate Yendel, bibliotecário-mor de Calibor, trajando sua bata negra cerimonial da Turris Ebúrnea.

A precisão precisava ser absoluta. Bartira ergueu as mãos, elevando as cápsulas de pura energia. Uniu os punhos com lentidão; as esferas fundiram-se em uma onda magnética que fez o Mare Crisium vibrar violentamente. Ela abriu a escotilha, e o vácuo inundou a proa, embora o campo de força pessoal a protegesse.

Unindo os dedos e abrindo-os em um gesto de arremesso, lançou a cápsula fundida à imensidão. Através da manopla em seu punho direito, abriu uma fenda dimensional que tragou o artefato para o desconhecido.

Restava o ato final. — Agora é tarde demais para apagar a chama que eu mesma abanei — sussurrou para si mesma. Ajustou a rota.

O dirigível agora era uma flecha apontada para o coração do Sol.

— Ícaro, não voe tão perto do sol! — bradou Bartira, enquanto a luz a consumia.

 

Fragmento do livro: Sustentada no ar por negras asas fracas — de Clarisse Cristal, poetisa, contista, cronista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.
Argumento de Samuel da Costa, poeta, contista e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

 

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