quarta-feira, 1 de abril de 2026

FRONTEIRAS: A GUERRA SEM FIM!

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)




Quisera eu experimentar...
Novos sabores
Em novos lugares...
Novos amores
Novos sabores...
Com novos temperos
Com novos amores...
Em outros lugares
Com novos atores...
Acordar em teus braços...
Para perder-me em teus braços

Em memória de Miguel Maria da Costa

Diante do Monte Roraima, um desespero incomum tomou de assalto a figura ajoelhada, de pele alvíssima e olhos azuis. Ele olhou para cima e não acreditava na realidade em que vivia. Aquele monte era a prova de que os continentes Africano e Americano um dia foram uma coisa só. Foi em uma aula ministrada no Velho Mundo, no continente negro, pelo professor António Assis Júnior, que ficou sabendo desse fato.

O velho professor, que o iniciara na luta pela libertação do seu país. Com os olhos rasos d’água, a postura de soldado em guerra desaparecera por completo, dando lugar a um ser humano como outro qualquer, perdido por muito tempo e que acabara de se reencontrar na vida.

— O Amazonas, enfim... o Brasil, afinal... — foi o que ele conseguiu balbuciar em voz baixa, mesmo sem ninguém para ouvir. Mas tinha que voltar à postura de soldado, pois a guerra precisava continuar. O perímetro em que se encontrava era justamente como os mapas que havia estudado e mentalizado na Europa: mata rasteira e um céu acinzentado, destoando — e muito — da visão romântica de uma selva amazônica cortada por grandes rios e uma imensidão verde a perder de vista.

Era preciso pôr-se em marcha, mas os nomes de João Amazonas, Apolônio de Carvalho, Luiz Carlos Prestes, Jorge Amado, Oscar Niemeyer e Agildo Barata lhe vinham à mente com toda a força.

Assim como a missão que lhe fora dada no Velho Mundo. Ao erguer-se para pôr-se em marcha, deixando o Jeep Willys MB para trás, chegou a pensar nos riscos de deixá-lo parado ali, mas atear fogo ao automóvel seria muito pior: poderia chamar atenção, pois a fumaça seria vista a quilômetros de distância, tanto por terra quanto pelo ar.

Jogar com a sorte era um fator a ser considerado naquela altura. Bastaram poucos metros sob o sol abrasador, com a boca seca, para que os olhos do soldado avistassem, no horizonte, um acampamento. Um acampamento cigano no meio do nada, em plena selva amazônica — parecia um sonho surreal.

As cores vivas e fortes das roupas, a dança e a música vibrante moviam-se ao redor de uma fogueira; parecia que celebravam alguma coisa:

— Inferno, não consta nada disto nos mapas que me mandaram memorizar... e agora? O que faço?

Ao se aproximar, uma figura — possivelmente o chefe da tribo — destacou-se dos demais. De longos cabelos, com uma pistola Luger P08 na cintura, limitou-se a sorrir ao viajante que passava. O viajante, por instinto, ergueu bem alto as chaves do Jeep e as colocou no chão lentamente, sem tirar os olhos do romani a poucos metros dele.

— Faça bom proveito, Barô Kalon. Um presente meu para Santa Sara Kali! — O viajante seguiu em frente e não se arriscou a olhar para trás. Teria muito que caminhar — na verdade, um continente a desbravar.

 

Fragmento do livro: Cabística. Texto de Samuel da Costa — contista, cronista, poeta e novelista. Itajaí — Santa Catarina.

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