quarta-feira, 1 de abril de 2026

CABÍSTICA

 

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

“A tempestade marca a vida da gente

Quando muito forte é amiga da morte

Traz enchentes, deslizamentos, raios, doenças e pestes

Faz com que as pessoas fiquem sem roupas...

Passem fome, sede e frio

Algumas são levadas pelos rios

E não podem ser salvas, nem por navios

Faz coisas que provocam arrepios.”

 João Carlos Pereira

 

— Quando! Quando foi a primeira vez que a viu?

Jonas Dhabi estava mais preocupado em admirar as bravias ondas que quebravam a poucos metros e sentir o ar fresco da noite à beira-mar do que em ouvir as palavras de Missael. O pintor neorromântico tinha um cigarro em uma mão e um copo de cerveja na outra. Fazia muito tempo que não fumava nem bebia; Jonas ficou relutante em aceitar o convite do promotor público Missael da Maia, que, àquela altura, parecia ser uma outra pessoa desde que assumiu o cargo. Aproximou-se recentemente, em demasia, de figuras suspeitas; na verdade, há muito Jonas duvidava do caráter do filho do seu mestre. Via ali um apreço desmedido pelo poder, e como isso era perigoso.

— Quando o teu pai vem, guri? Faz tempo que não falo com ele! — disse Jonas Dhabi, levemente embriagado e muito impaciente.

— Passou na casa do coronel Alencastro, vem logo. Fica calmo, homem de Deus, por favor! — respondeu o promotor público estadual Missael da Maia, também levemente embriagado.

— Aposto que ele não vem sozinho, vem escoltado pelo coronel! — falou o pintor de profissão.

Na verdade, Missael omitiu o fato ao aluno e amigo do seu pai. Não sabia qual seria a reação de Jonas, mas decidiu dar a notícia ali mesmo. Já não tinha nada a perder àquela altura.

— Vem com o Cabo Silveira, na verdade! Por quê? — falou de forma solene o promotor público; disse como se estivesse diante de um juiz em um tribunal.

— Seu canalha! Maldito! — Foi com um sorriso que o pintor deu a resposta que Missael tanto temia.

— Canalha não, sou um reles advogado antes de tudo! Não tenho por hábito mentir! Vez ou outra omitir, só isso! — O tom de pilharia na voz do promotor era evidente.

— Esta tua profissão danada ainda vai acabar te botando em alguma enrascada, doutor promotor Japa! — devolveu o tom de pilharia o pintor Jonas Dhabi.

— Eu gostaria de saber quem foi que me deu esse apelido tão infame. Até parece que as pessoas perderam o respeito pelo poder constituído, ora bolas — diz Missael com a voz cambaleante pelo efeito do álcool, levando o copo de cerveja à boca.

— O que sei é que foi aquele galego baixinho que veio do Alto Vale, aquele cabo. Foi a primeira vez que ouvi alguém falar da vossa excelência excelentíssima dessa forma tão vil. Van Peter, aquele cretino racista! Teuto maldito! O que sei também é que ele ficou um bom tempo dirigindo para o Alencastro antes de pedir baixa da Polícia Militar. E falava horrores da tua falecida mãezinha, que Deus a tenha na glória! — Era evidente o estado de embriaguez do pintor.

— Ele queria sair de onde estava, não queria? Pois foi justamente isso que aconteceu com ele, meu caro amigo pintor. Eu o ajudei a sair do Vale Europeu para respirar ares marítimos. É a dita lógica cartesiana, caro amigo e pintor Jonas! — diz Missael após tomar um gole da cerveja importada e dar uma tragada no cigarro que estava na outra mão.

— Queres saber mesmo quando eu vi a cigana pela primeira vez? Não posso saber ao certo. A única certeza, meu amigo promotor, são as flores e o olhar penetrante dessa Iemanjá. Posso te dizer que a vejo desde que era uma criança, no Mercado Público e também no terreiro dos meus avós. Venho cultuando a Rainha do Mar desde que me conheço por gente. E provavelmente bem antes disto também, meu caro amigo adepto da lógica positivista — discursou o pintor Jonas Dhabi, levando o cigarro à boca para uma longa tragada.

— Nossa, que coisa. Isso é para eu ficar apavorado? Pois não estou! Só sei que não há registro algum dessa mulher, não há nada em parte alguma, nem fotos existem. E quando pergunto a alguém, é sempre a mesma coisa — isso quando encontro alguém que fale algo. A descrição é a mesma: mulher com roupas coloridas, que exala flores pelos poros e vende ervas no Mercado Público. Aí, meu amigo, tem uma coisa muito engraçada...

— Qual é a graça, amigo promotor? Se é que existe alguma graça nesta vida que a gente leva nesta terra de Deus. Já ia me esquecendo que és ateu, igual ao teu pai... ou era? — O tom de Jonas era irônico; o álcool enfim o fazia relaxar. Mas o fato era que Jonas queria evitar essa conversa desagradável com o filho do amigo.

— As datas não batem. Alguns dizem que a conhecem há anos, outras pessoas, há décadas. Algumas pessoas que vivem aqui há décadas dizem que a conhecem há meses. Acho que vou ficar louco, Jonas. Sempre a mesma descrição, sempre a mesma pessoa. Eu vi essa criatura há poucas horas; ela deveria estar morta segundo...

— Segundo o teu mais novo amigo policial militar? — perguntou Jonas Dhabi.

— Também! E segundo o Cabo Silveira, ela deveria estar morta, mas não está! — falou o incrédulo promotor.

— O teu novo amigo da polícia era muito próximo do teu velho amigo promotor que já não está mais entre nós — comentou o pintor neorromântico Jonas Dhabi.

— O promotor Fábio Ramos! — disse um alarmado Missael da Maia; de longe ele sabia desse fato relatado pelo pintor.

— Tem certos momentos na vida em que o melhor é não saber de nada. Se este teu mais novo amiguinho disse que ela está morta, é porque deve estar mesmo. Quanto a sair por aí dizendo que a viu, o melhor é ficar calado. Tem coisas na vida que é bom nem tomar conhecimento! Se isso não couber na tua lógica cartesiana, lamento muito, caro amigo, pois aí tiro o meu time de campo e me dou por vencido — discursou Jonas Dhabi de forma sombria. Ele deu uma tragada no cigarro e ficou tonto; fazia tempo que não fumava.

— Os três vêm vindo aí! — anunciou em tom solene.

— Os três? — perguntou um estupefato Missael da Maia.

— Sim! O teu pai, o coronel e o cabo! — respondeu Jonas Dhabi.

— Por que os chamas pela patente, Jonas? — perguntou Missael. Ao ver o jovem pintor olhar para as mãos, teve uma ideia vaga. Algo lhe veio à cabeça e ele decidiu perguntar sobre as cicatrizes e a aversão de Jonas a militares e ao poder constituído.

— Me diz uma coisa, como...

— Como eu consigo pintar com essas mãos que foram perfuradas à bala? Eu mesmo não sei. É como um martírio, dói muito por dentro e por fora. O que posso te dizer é que foram homens com pomposos uniformes que produziram essas duas belezinhas, caro amigo! — disse Jonas com amargura.

Missael preferiu não perguntar mais nada. Viram descendo pela faixa de areia o pai de Missael e os dois militares; vinham conversando alto, ambos com latas de cerveja nas mãos e muito alegres. Missael poucas vezes viu o pai tão feliz após a morte da matriarca da família. A última vez fora em fotografias antigas do casamento dele com sua mãe; era estranho ver Aristo naquele estado. Ele sempre fora sério e direto, principalmente depois da morte de Iara. Às vezes parecia que um abismo havia engolido o velho soldado por inteiro.

— Pai? Por que a demora, afinal? — perguntou Missael ao ver o grupo próximo ao portão da casa de praia.

As intromissões do filho já não irritavam Aristo da Maia. O velho soldado e militante até achava bom ver o filho desobedecendo suas ordens, afinal de contas.

— Antes de tudo, diga boa noite aos meus amigos, garoto! — A voz de comando de Aristo soou como tal.

— Boa noite, Tenente-coronel Alencastro. Boa noite, Cabo Silveira. Por favor, adentrem ao meu humilde castelo e sentem-se — anunciou o promotor Missael.

O trio juntou-se a Missael e Jonas na mesa do quiosque. Pediram cervejas e cigarros; uma nuvem negra parecia querer baixar no local. O único que não parecia se importar era Aristo. Já não se importava com mais nada.

— Amigos, já vivi o que tinha que viver, já não ligo para mais nada! Agora é viver o que me resta. Já passei o bastão adiante, agora que meus filhos estão criados, como esse menino que aqui está na minha frente e os outros dois! Estudaram e casaram, o Nathan já tem as suas próprias crias...

— Pai, não andou bebendo demais? — perguntou o promotor.

— Deixa o homem, Missael... hoje é a noite dele. Teu pai é um soldado com a missão cumprida! — disse Alencastro, que conhecia bem Aristo.

— Deixa o teu pai, promotor Japa! Deixa o homem festejar, ora essa!

— Não chama o homem desse jeito, Cabo Silveira, ele não gosta! — O pintor já estava "bem alto" e já não ligava para nada.

— Desde quando a viram, de fato? Quero saber, e quero saber agora! — lançou Missael da Maia.

— Filho, pelo visto não aprendeste nada na vida. Quando nosso bom amigo Jonas diz para esquecer essa coisa, é para esquecer. Jonas e Alencastro são da mesma religião, já a viram e vão presenciá-la de um jeito ou de outro — falou o pai em tom paternal.

— E o Cabo? — perguntou Missael, em desespero.

— Não tenho nada para ver, meu amigo. Já não vejo mais nada e, se isso lhe incomoda, a mim já não incomoda faz tempo. Só sei que vou prestar minhas contas com alguém, em algum lugar — disse o Cabo Silveira, para depois levar um cigarro à boca e encarar o promotor nos olhos; nem o frescor da beira-mar parecia amenizar aquele olhar. — O resto é o resto, amigo promotor doutor Japa.

— O resto é resto, de fato! — falou o coronel aposentado Alencastro.

O promotor, naquela noite, sabia bem que aquilo não acabaria ali. Faltava alguma coisa, e as respostas não viriam daquelas pessoas. Eram tão etéreas àquela altura; Kriseide já passara pelas vidas deles e arrancara um pedaço de cada um. Missael pensou no índio Xokleng que tinha tirado da cadeia há algum tempo. Como ele tinha fugido da prisão agrícola, Missael teve a estranha sensação de que era por ali que a coisa deveria começar.

 

Fragmento do livro: Cabística,  de Samuel da Costa — contista, cronista, poeta e novelista. Itajaí — Santa Catarina.

 

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