Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
“A
tempestade marca a vida da gente
Quando
muito forte é amiga da morte
Traz
enchentes, deslizamentos, raios, doenças e pestes
Faz com
que as pessoas fiquem sem roupas...
Passem
fome, sede e frio
Algumas
são levadas pelos rios
E não
podem ser salvas, nem por navios
Faz
coisas que provocam arrepios.”
João Carlos Pereira
—
Quando! Quando foi a primeira vez que a
viu?
Jonas
Dhabi estava mais preocupado em admirar as bravias ondas que quebravam a poucos
metros e sentir o ar fresco da noite à beira-mar do que em ouvir as palavras de
Missael. O pintor neorromântico tinha um cigarro em uma mão e um copo de
cerveja na outra. Fazia muito tempo que não fumava nem bebia; Jonas ficou
relutante em aceitar o convite do promotor público Missael da Maia, que, àquela
altura, parecia ser uma outra pessoa desde que assumiu o cargo. Aproximou-se
recentemente, em demasia, de figuras suspeitas; na verdade, há muito Jonas
duvidava do caráter do filho do seu mestre. Via ali um apreço desmedido pelo
poder, e como isso era perigoso.
— Quando o teu pai vem, guri? Faz tempo que não falo com ele! — disse Jonas Dhabi,
levemente embriagado e muito impaciente.
—
Passou na casa do coronel Alencastro, vem
logo. Fica calmo, homem de Deus, por favor! — respondeu o promotor público
estadual Missael da Maia, também levemente embriagado.
—
Aposto que ele não vem sozinho, vem escoltado
pelo coronel! — falou o pintor de profissão.
Na
verdade, Missael omitiu o fato ao aluno e amigo do seu pai. Não sabia qual
seria a reação de Jonas, mas decidiu dar a notícia ali mesmo. Já não tinha nada
a perder àquela altura.
— Vem
com o Cabo Silveira, na verdade! Por quê? — falou de forma solene o promotor
público; disse como se estivesse diante de um juiz em um tribunal.
— Seu
canalha! Maldito! — Foi com um sorriso que o pintor deu a resposta que Missael
tanto temia.
—
Canalha não, sou um reles advogado antes de tudo! Não tenho por hábito mentir!
Vez ou outra omitir, só isso! — O tom de pilharia na voz do promotor era
evidente.
— Esta
tua profissão danada ainda vai acabar te botando em alguma enrascada, doutor
promotor Japa! — devolveu o tom de pilharia o pintor Jonas Dhabi.
— Eu
gostaria de saber quem foi que me deu esse apelido tão infame. Até parece que
as pessoas perderam o respeito pelo poder constituído, ora bolas — diz Missael
com a voz cambaleante pelo efeito do álcool, levando o copo de cerveja à boca.
— O que
sei é que foi aquele galego baixinho que veio do Alto Vale, aquele cabo. Foi a
primeira vez que ouvi alguém falar da vossa excelência excelentíssima dessa
forma tão vil. Van Peter, aquele cretino racista! Teuto maldito! O que sei
também é que ele ficou um bom tempo dirigindo para o Alencastro antes de pedir
baixa da Polícia Militar. E falava horrores da tua falecida mãezinha, que Deus
a tenha na glória! — Era evidente o estado de embriaguez do pintor.
— Ele
queria sair de onde estava, não queria? Pois foi justamente isso que aconteceu
com ele, meu caro amigo pintor. Eu o ajudei a sair do Vale Europeu para
respirar ares marítimos. É a dita lógica cartesiana, caro amigo e pintor Jonas!
— diz Missael após tomar um gole da cerveja importada e dar uma tragada no
cigarro que estava na outra mão.
— Queres saber mesmo quando eu vi a
cigana pela primeira vez? Não posso saber ao certo. A única certeza, meu amigo
promotor, são as flores e o olhar penetrante dessa Iemanjá. Posso te dizer que a
vejo desde que era uma criança, no Mercado Público e também no terreiro dos
meus avós. Venho cultuando a Rainha do Mar desde que me conheço por gente. E
provavelmente bem antes disto também, meu caro amigo adepto da lógica
positivista — discursou o pintor Jonas Dhabi, levando o cigarro à boca para uma
longa tragada.
—
Nossa, que coisa. Isso é para eu ficar apavorado? Pois não estou! Só sei que
não há registro algum dessa mulher, não há nada em parte alguma, nem fotos
existem. E quando pergunto a alguém, é sempre a mesma coisa — isso quando
encontro alguém que fale algo. A descrição é a mesma: mulher com roupas
coloridas, que exala flores pelos poros e vende ervas no Mercado Público. Aí,
meu amigo, tem uma coisa muito engraçada...
— Qual
é a graça, amigo promotor? Se é que existe alguma graça nesta vida que a gente
leva nesta terra de Deus. Já ia me esquecendo que és ateu, igual ao teu pai...
ou era? — O tom de Jonas era irônico; o álcool enfim o fazia relaxar. Mas o
fato era que Jonas queria evitar essa conversa desagradável com o filho do
amigo.
— As
datas não batem. Alguns dizem que a conhecem há anos, outras pessoas, há
décadas. Algumas pessoas que vivem aqui há décadas dizem que a conhecem há
meses. Acho que vou ficar louco, Jonas. Sempre a mesma descrição, sempre a
mesma pessoa. Eu vi essa criatura há poucas horas; ela deveria estar morta
segundo...
—
Segundo o teu mais novo amigo policial militar? — perguntou Jonas Dhabi.
—
Também! E segundo o Cabo Silveira, ela deveria estar morta, mas não está! —
falou o incrédulo promotor.
— O teu
novo amigo da polícia era muito próximo do teu velho amigo promotor que já não
está mais entre nós — comentou o pintor neorromântico Jonas Dhabi.
— O
promotor Fábio Ramos! — disse um alarmado Missael da Maia; de longe ele sabia
desse fato relatado pelo pintor.
— Tem
certos momentos na vida em que o melhor é não saber de nada. Se este teu mais
novo amiguinho disse que ela está morta, é porque deve estar mesmo. Quanto a
sair por aí dizendo que a viu, o melhor é ficar calado. Tem coisas na
vida que é bom nem tomar conhecimento! Se isso não couber na tua lógica
cartesiana, lamento muito, caro amigo, pois aí tiro o meu time de campo e me
dou por vencido — discursou Jonas Dhabi de forma sombria. Ele deu uma tragada
no cigarro e ficou tonto; fazia tempo que não fumava.
— Os
três vêm vindo aí! — anunciou em tom solene.
— Os
três? — perguntou um estupefato Missael da Maia.
— Sim!
O teu pai, o coronel e o cabo! — respondeu Jonas Dhabi.
— Por
que os chamas pela patente, Jonas? — perguntou Missael. Ao ver o jovem pintor
olhar para as mãos, teve uma ideia vaga. Algo lhe veio à cabeça e ele decidiu
perguntar sobre as cicatrizes e a aversão de Jonas a militares e ao poder
constituído.
— Me
diz uma coisa, como...
— Como
eu consigo pintar com essas mãos que foram perfuradas à bala? Eu mesmo não sei.
É como um martírio, dói muito por dentro e por fora. O que posso te dizer é que
foram homens com pomposos uniformes que produziram essas duas belezinhas, caro
amigo! — disse Jonas com amargura.
Missael
preferiu não perguntar mais nada. Viram descendo pela faixa de areia o pai de
Missael e os dois militares; vinham conversando alto, ambos com latas de
cerveja nas mãos e muito alegres. Missael poucas vezes viu o pai tão feliz após
a morte da matriarca da família. A última vez fora em fotografias antigas do
casamento dele com sua mãe; era estranho ver Aristo naquele estado. Ele sempre
fora sério e direto, principalmente depois da morte de Iara. Às vezes parecia
que um abismo havia engolido o velho soldado por inteiro.
— Pai?
Por que a demora, afinal? — perguntou Missael ao ver o grupo próximo ao portão
da casa de praia.
As
intromissões do filho já não irritavam Aristo da Maia. O velho soldado e
militante até achava bom ver o filho desobedecendo suas ordens, afinal de
contas.
— Antes
de tudo, diga boa noite aos meus amigos, garoto! — A voz de comando de Aristo
soou como tal.
— Boa
noite, Tenente-coronel Alencastro. Boa noite, Cabo Silveira. Por favor,
adentrem ao meu humilde castelo e sentem-se — anunciou o promotor Missael.
O trio
juntou-se a Missael e Jonas na mesa do quiosque. Pediram cervejas e cigarros;
uma nuvem negra parecia querer baixar no local. O único que não parecia se
importar era Aristo. Já não se importava com mais nada.
—
Amigos, já vivi o que tinha que viver, já não ligo para mais nada! Agora é
viver o que me resta. Já passei o bastão adiante, agora que meus filhos estão
criados, como esse menino que aqui está na minha frente e os outros dois!
Estudaram e casaram, o Nathan já tem as suas próprias crias...
— Pai,
não andou bebendo demais? — perguntou o promotor.
— Deixa
o homem, Missael... hoje é a noite dele. Teu pai é um soldado com a missão
cumprida! — disse Alencastro, que conhecia bem Aristo.
— Deixa
o teu pai, promotor Japa! Deixa o homem festejar, ora essa!
— Não
chama o homem desse jeito, Cabo Silveira, ele não gosta! — O pintor já estava
"bem alto" e já não ligava para nada.
— Desde
quando a viram, de fato? Quero
saber, e quero saber agora! — lançou Missael da Maia.
—
Filho, pelo visto não aprendeste nada na vida. Quando nosso bom amigo Jonas diz
para esquecer essa coisa, é para esquecer. Jonas e Alencastro são da mesma
religião, já a viram e vão presenciá-la de um jeito ou de outro — falou o pai
em tom paternal.
— E o
Cabo? — perguntou Missael, em desespero.
— Não
tenho nada para ver, meu amigo. Já não vejo mais nada e, se isso lhe incomoda,
a mim já não incomoda faz tempo. Só sei que vou prestar minhas contas com
alguém, em algum lugar — disse o Cabo Silveira, para depois levar um cigarro à
boca e encarar o promotor nos olhos; nem o frescor da beira-mar parecia
amenizar aquele olhar. — O resto é o resto, amigo promotor doutor Japa.
— O
resto é resto, de fato! — falou o coronel aposentado Alencastro.
O
promotor, naquela noite, sabia bem que aquilo não acabaria ali. Faltava alguma
coisa, e as respostas não viriam daquelas pessoas. Eram tão etéreas àquela
altura; Kriseide já passara pelas vidas deles e arrancara um pedaço de cada um.
Missael pensou no índio Xokleng que tinha tirado da cadeia há algum tempo. Como
ele tinha fugido da prisão agrícola, Missael teve a estranha sensação de que
era por ali que a coisa deveria começar.
Fragmento
do livro: Cabística, de Samuel da Costa — contista,
cronista, poeta e novelista. Itajaí — Santa Catarina.
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