Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)
“Eu ousei adentrar...
Em mundos desconhecidos da minha vida cotidiana,
Como se houvesse uma vida com algo,
Ou alguém que, ao longe, clamava por mim.”
Fabiane
Braga Lima
Antes
de adentrar na câmara ardente, a almirante Bartira teve poucos nanosegundos,
mas o tempo foi suficiente para tecer algumas considerações sobre a afra rainha
Luna Dark e os passos tortuosos que a milady celestial percorreu após deixar o
deserto desolado. Depois que a afra rainha embarcou no Dirigível Mare
Crisium e adentrou a Bifrost, desembarcou da belonave e, por fim, se
embrenhou na Turris ebúrnea.
O que
houve de fato dentro da Turris ebúrnea, a almirante Bartira não sabia,
mas teve uma vaga ideia do que se desenrolou ali, pois, pela imprudência de
abandonar o exílio imposto por Hastur e devido à conexão neural, a militar de
alta patente compartilhou as sensações avassaladoras de vazio, desespero e
abandono quando a afra rainha Luna Dark percebeu, por fim, que o vate Yendel
ali não se encontrava mais, na Turris ebúrnea.
O
passeio em si da aristocrata, membro da corte de Hastur, pelos domínios etéreos
do deus cibernético Calibor, tinha tudo para dar errado. E Bartira, a militar
de alta patente, teve a noção exata da tragédia em si quando a afra rainha
voltou ao mundo em vigília e reincorporou o avatar que havia deixado para trás.
Foram dias e noites na terra dos sonhos, o que significava poucos minutos na
terra em vigília.
A
afra rainha Luna Dark produziu uma onda magnética devastadora ao reincorporar o
avatar. Ela fez ruir o elevado da autopista, que fez ruir a segunda pista e,
por sua vez, soterrou a primeira pista. Além de sair ilesa da devastação, gerou
muitas mortes e feridos, e a onda magnética também promoveu distúrbios em
aparelhos elétricos, mecânicos e eletrônicos por quilômetros.
Como uma das poucas vítimas
sobreviventes, a afra rainha Luna Dark teve que se reinventar ao longo dos
anos, depois de um longo tratamento psiquiátrico. Bartira foi informada de que
Luna havia se reinventado e assumira um cargo menor em um parlamento — na
verdade, na câmara alta — e, logo no primeiro dia, a aristocrata quase matou
uma mulher. Nos dias seguintes, a milady exilada da corte negra de Hastur
começou a burilar o ambiente usando a telecinese.
E não
demorou muito para o deus cibernético Calibor descobrir que a afra rainha Luna
Dark havia levado consigo o palácio das memórias do vate Yendel. Yendel, o
bibliotecário-mor de Calibor, encontrava-se desativado — o cyborgue depositário
do acervo de todas as aquisições e saques efetuados em civilizações e planetas
que Calibor promoveu durante incontáveis eras.
O
final desse imbróglio não poderia ser outro: o funeral Lavívi. As exéquias
imperiais fúnebres deveriam ser executadas, mesmo a afra rainha Luna Dark e o
vate Yendel não sendo casados formalmente. Pois a afra rainha Luna Dark, como
uma imortal semideusa, e o vate Yendel, sendo um cyborgue nascido de uma
explosão de supernova, também não poderiam morrer. Lançá-los ao astro-rei foi a
solução — era assim o rito do funeral Lavívi, raramente utilizado.
A
almirante Bartira, recém-promovida, teve essa incumbência, pois o funeral
imperial Lavívi somente poderia ser executado por um almirante — um militar de
alta patente consagrado nos campos de batalha. Mas Bartira teve outra ideia,
estapafúrdia a princípio, porém, depois, sussurros heréticos aqui e ali — vozes
veladas — davam conta de um mito esquecido há muito tempo: a união de máquinas
e seres vivos. Não que isso fosse uma novidade, pois Yendel era um cyborgue. O
desafio era unir os dois seres celestes, ambos detentores de poderes
inimagináveis e quase ilimitados. E a almirante Bartira pesquisou a fundo e
descobriu a existência de um rumor vago de que algo próximo disso já havia
ocorrido — e as pesquisas apontavam para o palácio da memória do vate Yendel.
Ao
adentrar na câmara ardente, feita de energia quântica, a almirante conecta-se
ao cyborgue Yendel, que estava encapsulado na sala da proa do vaso de guerra, o
Dirigível Mare Crisium. A almirante Bartira adentra a finitude do
palácio das memórias do vate. Ela se multiplicou e se multiplicou e se
multiplicou em um ciclo infinito. Pergaminhos digitais foram vasculhados,
bancos de imagens foram assistidos, arquivos de áudio foram ouvidos e
analisados. Hologramas foram projetados, antigos alfarrábios consultados e
proibidos grimórios recitados. Sigilos místicos, há muito esquecidos, foram
invocados; cânticos sagrados foram entoados; poemas foram bradados; e virtuais
computadores quânticos foram ligados. E, por fim, a almirante encontrou o que
procurava. A câmara ardente se desfez, e a almirante Bartira foi lançada ao
chão, exausta. Na mente da militar surgiu um nome: o Protocolo Lavívi, por fim, fora encontrado.
Fragmento do livro: Sustentada no ar por negras
asas fracas — texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, cronista, novelista
e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.
Argumento de Samuel da Costa, poeta,
contista e novelista em Itajaí, Santa Catarina.
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