BOM GOSTO É SINÔNIMO DE RIQUEZA?

Por Humberto Pinho da Silva (Vila Nova de Gaia, Portugal)

Quando meus avós paternos faleceram, meu pai tinha oito anos. Foi nomeado Conselho de Família, e coube à avó materna a missão de tutora.
Como órfão indefeso, parte do modesto património, foi lapidado, não pela tutora, que era uma santa mulher, mas por alguns membros do Conselho de Família, que aproveitaram sua ingenuidade.
Mas isso, são, como se usa dizer, águas passadas.
Do pequeno património que meu pai recebeu, havia velha casa de alforge, do século XlX, de ar sisudo e solene, cujas largas e grossas tábuas do soalho, encontravam-se luradas de caruncho, e com fundos sulcos de esfregas, a carqueja e piaçaba.
Após o casamento, estabelecida a vida, meu pai iniciou o embelezamento do velhíssimo prédio.
O dinheiro era escasso; não permitia obras profundas.
Os gastos soalhos, foram cobertos a viochene, e receberam generosa camada de cera. Nas partes degradadas, pequenos tapetes taparam as mazelas.
As paredes de estuque, enegrecido pelo fumo de candeeiros a petróleo, foram forradas a papel. As salas nobres, a tons escuros; os quartos, a cores alegres.
As grosseiras portas de castanho, levaram esmalte branco, que tapou indesejadas imperfeições; e as inestéticas almofadas, das mesmas, substituídas por vidraças, alegradas a papel vitral.
Os velhos móveis foram cuidadosamente encerados e colocados harmoniosamente. As paredes guarnecidas de aguarelas e óleos, quase todos da sua autoria, já que cursara Belas-Artes. Completava a decoração, pratos de faiança e estatuetas oferecidas por artistas, que meu pai, como jornalista, ajudou a divulgar-lhes a obra.
Terminado o modesto arranjo, passou de simples trabalhador a abastado proprietário.
Os que o visitavam, gabavam-lhe a bela casa e saiam convencidíssimos que recebera herança ou lhe saíra a lotaria.
Até familiares, que conheciam seus proventos, estranhavam tanto “luxo”, e murmuravam, ente si, que estava rico, para ter casa assim.
Engraçado, se tem graça, é que empresários de sucesso e gestores abastados, comparando suas moradias, despidas de carpetes, de paredes nuas e móveis maltratados, invejavam-lhe o gosto; interrogando-se de onde provinha tais rendimentos.
Daqui se conclui, que ter bom gosto e lar cuidado, para muitos, é sinónimo de abundância e dinheiro.
Esse conceito, tão entranhado está, mormente em quem nunca viveu em ambientes de bom gosto, que torna-se difícil mudarem de opinião.

Para eles, casa cuidada é sinónimo de riqueza.

REFLEXÕES PARA O DIA DE FIEIS DEFUNTOS

Por Humberto Pinho da Silva (Vila Nova de Gaia, Portugal)

Despreocupadamente, vagueio ao longo de estreito carreirito de terra pardacenta, entalado entre campas rasas, no cemitério local.
Diante de mim, ladeando o caminho, há jazigos, de mármores brancos, bem cuidados, alegrados de frescas flores, que adoçam enjoativamente o leve ar doirado da manhã; e outros, desventrados, enegrecidos, de densa poeira, de pedras e cruzes quebradas.
Em todos ou quase todos, tristes palavras de saudade eterna.
Agora reparo numa singela capelinha, toda branca, toda resplandecente, faiscando à macia luminosidade da manhã coberta de sol. Nela, lê-se, inscrito a negro a palavra - “Ninguém”…
Ninguém?! Sim, ninguém! Para quê mencionar nomes!? Já não existem!; e muitos morreram, também, no coração de amigos e familiares.
Com eles, pareceram, igualmente: os da sua geração, os objetos que usaram, e, quantas vezes, a casa onde nasceram e viveram.
Tudo desapareceu. Tudo mergulhou no pó do esquecimento. Existiram, mas é como nunca existissem.
Piso a terra sagrada, respeitosamente; há nela gerações desaparecidas, metamorfoseadas, transmudadas em seiva, que corre nas verdes folhas dos velhos ciprestes do cemitério.
Sob a terra que calco, apodrece quem: riu, sonhou, sofreu e chorou. Os que receberam acotoveladas e ingratidões. Os que amaram e odiaram com ardor. Todos irmanados, todos reduzidos a pó. Como se nunca tivessem nascido e vivido.
Pensativo, melancólico, taciturno, meditando na vida e na morte, nas vaidades e orgulhos, na cobiça e na inveja, regresso tristemente a casa.
Por desfastio, folheio volume encadernado a percalina preta, com filetes a prata, do ano de 1913, da “Ilustração Portuguesa”.
Diante de meus olhos míopes, passam, a preto e branco, imagens de: artistas, jornalistas, escritores, empresários, professores, políticos de sucesso. Figuras iminentes, incontornáveis, inesquecíveis; mas, para mim, homem do século vinte e um, ilustres desconhecidos, que as enciclopédias esqueceram-se de registar.
Compara-se a morte a uma porta; à passagem de um rio; ao sono reparador; à feia lagarta, que se torna na bela borboleta. Para mim, a morte, é o segundo nascimento:
Sai a criança das trevas para a luz; morre o homem da ignorância para a Verdade. E sempre, nos nascimentos, há: choro e dor.
Brevemente os crentes, irão visitar seus mortos. Bonita e significativa tradição.
Costume, pelo facto de o ser, perdeu significado. Felizmente, a maioria, ainda conserva respeito, lembrando-se, que em breve - anos ou décadas, - serão pó, serão nada: sejam sábios ou iletrados, ricos ou pobres.

Tudo passa. Tudo desaparece. Tudo se extingue. Tudo se torna terra e poeira; em poalha; em polvilho de nada.

PERFIL: MANOEL IANZER

 
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Por Paccelli José Maracci Zahler

Manoel Francisco Madeira Ianzer, administrador de empresas, microempresário e poeta, natural de Bagé, RS.

RCC. O senhor estudou no Grupo Escolar Silveira Martins. Quais são as melhores recordações de sua passagem por lá?

Ianzer: Estudei de 1958 a 1961. A mais marcante foi no primeiro ano, minha professora Lígia foi a melhor de todas. Muito educada, carinhosa e sensível com os seus alunos.

RCC. Naquela época, já pensava em dedicar-se à Literatura?

Ianzer: Não. Só pensava estudar e jogar futebol por brincadeira.

RCC. Quando o senhor ingressou no Colégio Estadual Dr. Carlos Kluwe?

Ianzer: Em 1965 e fiquei até 1967 (3ª série ginasial).

RCC. Naquele período, o senhor já trabalhava no Banco da Província do Rio Grande do Sul?

Ianzer:  Entrei no Banco em 1968 e fiquei até 1969, quando viajei para São Paulo.

RCC. Como foi prestar o serviço militar em 1967, no auge do regime militar no Brasil?

Ianzer: Foi bem tranquilo em Bagé. Ficamos de prontidão no quartel no dia que o Presidente Castelo Branco passou o cargo para o General Costa e Silva.

RCC. O senhor serviu no tradicional 12º Regimento de Cavalaria?

Ianzer: Prestei o serviço militar na 3ª Cia Média de Manutenção, ao lado do Rec Mec. Depois foi transferida para São Gabriel.

RCC. Nas décadas de 1960 e 1970, Bagé ficava localizada em uma área de segurança nacional, onde manifestações políticas não eram bem vistas. O senhor, como militar, chegou a participar de alguma operação preventiva ou de repressão como, por exemplo, a ocupação da redação do Jornal Correio do Sul?

Ianzer: Não, em nenhum momento participei ou fui envolvido em operações de ocupação ou repressão.

RCC. Por quanto tempo o senhor serviu como militar?

Ianzer: Durante 11 meses.

RCC. A sua transferência para Porto Alegre, RS, deu-se em função do serviço militar?

Ianzer: Não, já tinha dado baixa. Não tive interesse em seguir a carreira militar.

RCC. Em que escola de Porto Alegre o senhor concluiu o curso ginasial?

Ianzer: Na Escola Padre Rambo, no bairro Partenon.

RCC. O senhor radicou-se em São Paulo incentivado por sua irmã, Maria Ondina?

Ianzer: Morei uns meses em S.Paulo (1970), quando encontrei a Luzinete e começamos o namoro. Depois fomos para Porto Alegre. Ela não se adaptou ao frio do sul, resolvemos casar e voltar para a capital paulista. Nessa época minha irmã já estava aqui, isso também ajudou.

RCC. Em São Paulo, durante o colegial e a faculdade de Administração de Empresas, o senhor, já trabalhava na Calispa, órgão ligado à Bolsa de Valores de São Paulo?

Ianzer: Quando casei e vim para S.Paulo, parei de estudar. Retomei os estudos bem depois, quando trabalhava na Corretora Codesbra.

RCC. Foi a busca de novos desafios que o fez ingressar na Codesbra – Corretora do Bradesco?

Ianzer: Depois do auge de 1970/71 da Bolsa de Valores, as coisas se acalmaram um pouco e tudo no mercado se ajustou, principalmente salários mais altos foram cortados. 
Recebi o convite para trabalhar na Codesbra, Corretora do Banco Bradesco, do gerente Sr. Aldo Andreoni - que me apresentou para a diretoria da corretora (Sr. Amaral, Sr. Paulo Carneiro e Sr. Alcides Lopes Tápias - este foi ministro do Presidente Fernando Henrique Cardoso). Foi enviada uma carta para a diretoria do Banco em Osasco (o presidente era o Sr. Amador Aguiar) e após 2 meses, foi aprovada a minha contratação para o cargo de chefia (eu estava com 25 anos). A minha contratação foi exceção, porque o Banco só admitia contínuo e escriturário, para fazer carreira na empresa. Voltei a estudar, terminei o Colegial e fiz Administração de Empresas na Faculdade São Judas Tadeu - 1985. Trabalhei 15 anos e cheguei ao cargo de Gerente administrativo.

RCC. Pelo seu histórico como bancário e corretor de valores, esperava-se que o senhor se tornasse empresário em uma área similar. Por que hidráulica?

Ianzer: O banco em situação difícil, devido o plano verão do Presidente Sarney em 1989, demitiu 30 gerentes. Com a minha demissão da corretora, fui convidado por um amigo para sociedade, algum tempo depois resolvi montar a minha empresa.

RCC. Voltando à Literatura, o senhor lançou seu primeiro livro de poesias “Galhos secos ou floridos, em 1980” mas, certamente, a sua atividade poética começou bem antes. A musa inspiradora foi sua esposa Luzinete?

Ianzer: Voltando aos anos 50/60, cantava com minha irmã e uma amiga no programa matinal da Rádio Cultura, aos domingos, com Adolfo Moraes no violão e Mary Terezinha com sua gaita. Era obrigado pelo meu pai, para ter direito de ir ao cinema - matinê. Como cantor, fui um fracasso! Então, ele exigiu que eu declamasse poesia gaúcha, me saindo bem nessa atividade. Paramos quando a Mary foi embora de Bagé com o Teixeirinha, em 1961.
Passei a gostar de poesia e após 1970, comecei a escrever. A Luzinete é minha musa inspiradora.

RCC. Fale-nos sobre sua participação na Feira do Livro de Bagé.

Ianzer: Participei das feiras de 2008 e 2011. Nos eventos ainda tive o auxilio e a presença constante de minha irmã Alaide Yanzer Médici. A participação nas Feiras foi muito importante, porque passei a ter contato com pessoas de excelente nível cultural, que com a afinidade e a troca de experiências valiosas, se tornaram amizades verdadeiras. Entre eles, a escritora e poetisa Sonia Alcalde (primeira amiga virtual), a escritora e poetisa Sarita Barros, o escritor Brandt Acosta, a artista plástico Rejane Karam Osório, o poeta e professor Diogo Correa,  a procuradora jurídica da Prefeitura de Bagé - Liane Silveira Fernandez Machado, ex-prefeito e escritor Luis Simão Kalil, a turma do Grupo Sonido del Alma Gaucha.  Além deles, conheci inúmeras pessoas, grandes de coração e de alma.

RCC. Recentemente, o senhor lançou o livro de poesias “Painel do tempo” em co-autoria com sua filha Danielle. Como foi essa experiência?

Ianzer: Começou com uma brincadeira entre pai e filha, pela internet. Mandei uma poesia e ela respondeu poeticamente.

RCC. O que nos chama a atenção é que sua filha Danielle é doutora em Ciências Biológicas. O senhor acredita que ela puxou ao talento poético do pai?

Ianzer: A Danielle tem muita sensibilidade e emoção, e pouco tempo para se dedicar a poesia.

RCC. Seu filho, Rogério, também aprecia e se dedica a arte poética?

Ianzer: O Rogério aprecia a poesia. Até o momento, não demonstrou interesse para se dedicar.

RCC. O senhor espera que suas netas, Luanna e Milena, também se tornem poetisas?

Ianzer: A Luanna sempre foi uma menina bem agitada. A Milena tem um perfil bem delicado e sensível. Mesmo assim, acredito que as duas irão trilhar outros caminhos.

RCC. Onde o senhor  promoveu o lançamento dos seus livros?

Ianzer: Na Bienal de São Paulo, 2008; na Feira do livro de Bagé, 2008; em São Lourenço da Mata, PE, 2009; na Bienal de São Paulo, 2010; no Zio Vito Restaurante, São Paulo, 2011; na Feira do livro de Bagé, 2011; na Livraria Nobel, Shopping Total, Porto Alegre, 2011; no Carmel Salão de Festas, Belo Horizonte, MG, 2012; na Bienal de São Paulo, 2012; no Chaves Bar, Galeria Chaves, Porto Alegre, 2012; no Santa Maria Bar Lanches, Cachoeira do Sul, 2012; e no Madre Maria Restaurante, Bagé, 2012.

RCC. Quais são seus próximos projetos literários?
Ianzer: Tenho um blog sobre a minha cidade - "Bagé além da fronteira" ( http://bagealemfronteira.blogspot.com.br ), que pretendo passar para um livro. Uma obra que contará os casos e momentos interessantes vividos na nossa cidade. Uma oportunidade para os mais jovens e estudantes ficarem por dentro de muitas histórias do povo que aqui nasceu e deixou um legado importante de fatos e cultura; e, também, um blog de poesias  http://manoelianzerpoesia.blogspot.com.br.
Aqui fica o meu agradecimento ao Paccelli Zahler, pela oportunidade de manifestar as minhas opiniões e contar um pouco da minha história na Revista Cerrado Cultural.
Para encerrar - "não estou aqui para fazer fama e nem decifrar enigmas, mas simplesmente para poetizar a ALMA."

A ALMA É LIVRE

Por Manoel Ianzer

a alma é livre
para sobrevoar através dos sonhos
os lugares mais distantes
de um mundo místico
             e enigmático

a alma é livre
para bailar ao som de uma harpa
acenar pelos cantos de uma trajetória
ou pelas curvas da atmosfera

a alma é livre
para ouvir uma simples sinfonia
sem qualquer repressão
dos meros terríveis mortais

a alma é livre
das algemas
de um alforriado de qualquer
                                    cor


(Do livro “Sem Ponto”)

PERDÃO MEU DEUS

Por Manoel Ianzer

Deus de caminhos
Deus de estradas
Deus de encontros
e eu não me encontro

Deus de pura luz
Deus de grandiosidade
Deus de generosidade
e eu não me regenero

Deus de paz
Deus de amor
Deus de tranquilidade
e eu na minha intranquilidade

Deus infinito
Deus líder
Deus afeto
e eu me sinto afetado

Deus poderoso
Deus sublime
Deus presente
e eu me considero ausente

Deus tudo
Deus completo
e eu repleto
de promessas para cumprir

Deus de tolerância
Deus de indulgência
e eu na minha intransigência
cheio de dívida para pagar


(Do livro "A internet tomou conta do planeta Terra...)

UMA FOTO ANTIGA

Por Manoel Ianzer

olhei aquela foto antiga
Escola Silveira Martins
eu tinha apenas 12 anos

um filme veio a minha cabeça

foto de escola
que não se esquece jamais
aquela pose com ar de gente grande
cheio de orgulho e juventude

minha primeira professora
tão carinhosa e meiga
uma verdadeira mestra
nobre em seus atos
foi como um raio de luz
aquele clarão de sabedoria
que alegrou meus dias
passou tão rápido
mas deixou sua marca
de inteligência e amor


(Do livro “Painel do Tempo”, Ed. Scortecci, 2011)

SÃO TANTAS COISAS

Por Danielle Ianzer

É tão difícil pensar
são tantas coisas a aprender.

É tão difícil falar,
são tantas coisas a passar.

É tão difícil conseguir,
são tantas coisas a querer.

É tão difícil vencer,
são tantas coisas a lutar.

É tão difícil viver,
são tantas coisas a fazer.

Mas como fazer,
Se só consigo sentir?


(Do livro “Painel do Tempo”, Ed. Scortecci, 2011)