CAPAZ

Por Pedro Du Bois (Itapema, SC)

Capaz de irradiar
o fato no sacrilégio
do acontecimento em lance
rápido de ataque. A sistematização
da defesa no entorno da praça. O contorno
do pássaro em ares enjaulado. Imprimir
no verso o movimento lento das parábolas.
Imprimir no selo a marca da passagem.

Ter na capacidade adjetivada

do referendo o dogma não acontecido.

NASCER

Por Pedro Du Bois (Itapema, SC)

Conhece do mar a correnteza
a força a cor e as ondas
restabelece com o ar relação de força
ao planar o objeto e contar o espaço
em velocidade no desfazer a terra
em pedaços loteados nos alicerces
das casas altas: reanima o corpo
sob o estupor da música
e se deixa ficar: a vida é a mesma
                    desde quando gerado.

PROVÍNCIAS

Por Pedro Du Bois (Itapema, SC)

Pensou ser histeria
a província. Estava
olhando o espaço
errado. A província
incógnita contém
ideias indigestas
trazidas de fora. O cosmo
fechado em buracos atrai
a sede da permanência:

bom dia boa tarde boa noite.

VIDRAÇAS

Por Pedro Du Bois (Itapema, SC)

A vidraça transcende defesas: mostra
aos olhos educados a graça da visão.

Determina a transparência e alucina
o corpo visto. Desconta as sombras
e alisa o rosto. Encontra o espaço
e se projeta no vazio da imagem.

Revista em séries inconcebíveis
a vidraça alonga a visão da casa
e a integra ao lado de fora.

Nada pretende além de ligar
o exposto e o imposto

ao silêncio.

A VOLTA DO MENINO

Por Ernesto Wayne (poeta bajeense, patrono da cadeira nº 9 da ALB/DF, 1929-1997)

Mas meu Deus, por que mundos se meteu,
Tomou talvez por que caminhos tortos,
Certo menino meigo que fui eu?
Por que mares singrou, de tantos portos?

E as imagens de si, tão altas, seu
Cismar de olhos de então, no céu absortos,
Tudo foi para sempre e se perdeu?
E os sonhos que ele tinha, estarão mortos?

Buscando esse menino me procuro,
Pois penso ser de novo o que já fui,
Mas tudo para trás é tão escuro:

Porém vai o menino renascer
Depois em mim no tempo que deflui:

Somos aquilo que pensamos ser.

DIDÁTICA GERAL DA CRIAÇÃO

Por Ernesto Wayne (poeta bajeense, patrono da cadeira nº 9 da ALB/DF, 1929-1997)

E Deus foi o primeiro professor:
Fez o dia com giz de cor
E, no alto quadro-negro da noite de breu,
Com giz de prata estrelas escreveu.

Para ensinar os anjos,
Na matéria fez arranjos:
Fez o mundo com Didática.
Primeiro, foi Matemática:
Dividiu o tempo e deu
Todo o Curso em sete dias.

Para gravar na memória,
A sequência desses dias,
O Senhor criou a História.

Eis que no segundo dia
Em que resolveu criar
Já lecionou Geografia:
Mundo, monte, mato e mar,
E nela nada lhe escapa,
Tudo estava em seu lugar,
Já bem antes de haver mapa.

Então, no terceiro dia,
Em aula de Astronomia,
Deus tomando dum compasso,
Riscou a Lua no espaço.
Brandindo na mão a vareta
Bateu no céu, saiu cometa.

Logo depois do recreio,
Deu Ciências Naturais,
Pois que foi pondo no meio
De vegetais, animais.

E assim foi nos outros dias,
Inventou substantivos
Ao dar nome a seres vivos.

Quando foi no sexto dia,
Deu lição de Anatomia,
Pois que, encerrando seu Plano,
Deus criou o ser humano,
Para não ficar sozinho;
E iluminando o caminho
Pôs luz na escuridão,
Fogo no meio da treva:
Ao homem chamou Adão
E à mulher deu nome de Eva.

E depois que fez o mundo,
Que o fez com o próprio punho,
Num minuto, num momento,
Deus desmanchou o rascunho,
O rascunho desse mundo,
Com o apagador do vento.

E, por fim, cansado da lida,
Soltou o mundo na amplidão
Como pandorga colorida
Ou como azulado balão
Com enormes gomos dourados

Faiscando na imensidão.

SAUDADE

Por Vânia Moreira Diniz (Brasília, DF)

Para meu irmão Raimundo Arraes Moreira (uma conversa com ele)

 
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(A casa onde crescemos em Copacabana, RJ)

Saudade de seus olhos verdes, de seu jeito descomprometido,
de seu humor sempre intenso e do modo de falar com carinho.
Saudade de querer sempre o melhor e conquistar o mundo,
Saudade de poder ouvir seu descontraído riso espontâneo
saudade de refletir sobre seus conceitos e amor profundo

Saudade de poder ouvir sua voz grave e vê-lo apreciar o melhor.
saudade de admirar sua forma de ajudar as pessoas
e de amar a vida e o prazer.
Saudade das discussões, do apoio nas horas inesperadas e da consciência
do próprio valor, desejando sempre mais e mais.
Saudade de termos crescido na mesma casa, na velha casa amada e barulhenta.
Saudade! Onde está você, mano? Pode me dizer?