DESDIZER

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

Absorto. Rezo indistintos espíritos: sofro
a materialidade do ato no desconsolo
por estar sozinho. Entrego ao nada o destino
e o predador avança suas presas. Sou
presa fácil. Destruo a casa no evitar
dizer sobre o pai. O pântano interior
congela a imagem no submerso
transfigurado em herói. Acordo
em orações ligeiras: em perigo
acudo ao dito pelo não dito.


GLORIOSOS FORAM OS NOSSOS DIAS


Por Samuel da Costa (ALB, Anápolis, GO)

(Para a Negra Valquíria)

Como foram gloriosos
E cheiros de virtudes
O tempo de paz
Quando eu
  Rendia-te tributos
Minha divinal musa
***
Mas o tempo de guerra
Chegou até nós dois
Então tudo mudou 
Meu sacrossanto
E imortal amor
***
Como são saudosos
Os tempos
Que te venerava
Amada minha
***
Mas os nossos gloriosos dias
Se foram
E a guerra bate a nossa porta
E destino cruel me levou
Para longe de ti
***
Foi um tempo bom
Que passei junto a ti
Onde abrigávamos
No nosso mítico vergel encantado
Em meio às hialinas brumas
***
Como era puro e verdadeiro
A minha sagrada devoção por ti
Divina musa imortal
***
Óh! Como foram gloriosos
Os tempos em que eu de joelho
Contemplava-te
De divinizava-te
Divina Negra 
Que serpenteava e incendeia
 O estro meu


EM VIOLETAS PAIXÕES (AMOR PURO)


Por Samuel da Costa (ALB, Anápolis, GO)

Não! Não quero mais ser sua
Não quero mais
Os teus ternos carinhos
Nem tão pouco os beijos teus 
***
Não! Eu não vou ficar
Mais ao teu lado
E quando eu sair pela porta afora
 Não me peça para voltar
***
Não me procures mais
Nunca mais
Nem fiques de joelhos
Implorando o meu amor
Para que volte
Para a nossa solidão a dois
***
Não! Não me traga inexatas flores
Não! Não me peça perdão
Em violetas paixões
***
Não! Não acredito mais
No teu amor puro

PEDIDO DE PASSAGEM

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

A gente não prefere o liso, a gente se vê obrigada a usar o liso. E quando assumimos o que somos e o cabelo que temos, ficamos livres de todas às amarras nos impostas. E para esse ano o nosso lema é: Porque crespo é legal! Porque ser negro é legal! Porque ser negro é fazer parte da história! Chega de ser o coadjuvante, temos um papel importante na sociedade.
Não pense que por sermos negros não merecemos o nosso lugar no mundo.
Somos muito mais que você pensa. O que é o macaco? Apenas um, ser vivo da natureza criado por Deus, você crendo nele ou não.
E nós? Seres humanos como qualquer outro na face da terra. Chega de disse me disse. Somos o que somos Negros construindo caminhos!
Talvez uma ponte entre a realidade e o idealismo. Mas a certeza de que sempre seremos lutadores. E algo além, disso, viveremos escrevendo a nossa história.
Por isso peço a voz, meus senhores e senhoras, deixem o negro passar com sua cor, pois é ela que vai colorir o mundo.


MEU PRIMEIRO BEIJO

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

Quando surge a oportunidade não há quem não fale do seu primeiro beijo e ainda há quem diz que esse momento ninguém esquece. Eu esqueci. Eu devo ser a única. Ou há mais alguém por aí?
Mas bem... Eu fico a me perguntar: e os outros beijos, ninguém fala? Nem sempre o primeiro beijo é inesquecível como também nem sempre a primeira transa é inesquecível, principalmente para uma mulher.
Digamos que o primeiro beijo é o portal para outros beijos por isso é de tal importância. Mas não o suficiente para ser inesquecível. Claro que, não posso afirmar que me esqueci 100% do meu primeiro beijo, mas não é algo que eu possa me orgulhar ou então delirar de desejo querendo mais e mais do que poderia ter sido o meu melhor momento.
Porém posso falar tranquilamente sobre ele. Não é algo que me reprime, ou me faça chorar. Não sei bem quando, só lembro-me exatamente que foi aos meus dezoito anos de idade.
Nossa tão tarde assim!- você deve está pensando. Mas sabe o que eu acho? Não foi tarde não. Foi no momento certo. No ponto exato em que as bonecas não faziam mais parte da minha vida.
E também não é bom ficar lembrando o tempo todo do que se passou. Está bem... Você quer saber o que eu achei né? Pois então... Foi para mim algo nojento. Quando vi aquela língua sobre a minha e a saliva escorrendo em minha boca eu só pensava em querer ir embora, e fora isso a vontade de vomitar era tão grande que eu não sabia se ia segurar por muito tempo.
Só sei de uma coisa, não devia ter olhado. Esse foi o meu erro. Mas não, né, eu quis ter a certeza de que isso estava acontecendo comigo de verdade.
Às vezes acontecem coisas com a gente que precisamos ter a certeza de que não é apenas um sonho, ou uma confusão do nosso cérebro. É que um lado da gente é descrente pra certas coisas. E algumas de nós mulheres tendem há ter menos confiança em si.
Eu não achava que poderia ficar com alguém naquele dia, ou até mesmo ser beijada. O máximo que eu esperava daquela noite não passava de ouvir uma boa música e dançar.

Mas às vezes a vida te leva por vários caminhos e você sem saber ou até mesmo sem prestar a atenção cai em armadilhas. O meu primeiro beijo foi uma armadilha, no entanto o portal para outros beijos. Como por exemplo, na era da tecnologia, o beijo virtual, mas isso é assunto para outro dia.

CAIO GAKRAN

Por Urda Alice Klueger (Blumenau, SC)


                                   Hoje eu chorei de emoção. Um povo antigo aqui da minha terra continua fazendo seu resgate na História de forma linda e acelerada, e hoje houve outro grande fato que iluminou os horizontes deste vale aonde vivo e me deixou cheia de orgulho e de alegria.

                                   Foi com o Caio, mas eu só vou falar dele mais para a frente. Quero contar, primeiro, um pouquinho sobre o seu povo, o antigo dono desta terra onde hoje eu piso e tantos pisam, terra que já era do povo de Caio pelo menos há 5.000 anos, conforme cerâmicas descobertas já neste milênio pelo arqueólogo Marco Antônio Nadal de Masi .

                                   Valente povo! Conservou seu território no passado mais distante e se aferrou a ele nos últimos 500 anos, desde quando por aqui começaram a aparecer os europeus e seus descendentes: primeiro os invasores portugueses, depois os imigrantes alemães, italianos e outros, sequiosos por terra, cada um a roubar o que era possível do vasto território da gente que vivia segundo costumes antigos, integrada na natureza. Estou falando do povo Xokleng-Lãklanô, primeiro habitante da maior parte de Santa Catarina e de um pouco dos dois estados vizinhos, caçadores-coletores que tinham como alimento-base o pinhão, que o invasor quase iria extinguir na sua sede por madeira.

                                   Com seu território paulatinamente cada vez menor e suas fontes de alimento, consequentemente, também cada vez mais ínfimas, o Xokleng-Lãklanô resistiu bravamente ao contato com o branco invasor que, além de lhe roubar as terras e a comida, empreendeu tal caçada humana institucionalizada, com os horrores cometidos devidamente contados nos jornais da época, que o município de Blumenau, por exemplo, no alvorecer do século XX, foi parar no Tribunal de Haia, acusado de genocídio.

                                   Houve um momento, já no século XX, que aconteceu o que o branco chama de “apaziguamento”, expressão vil para se denominar o “submetimento” do povo antigo pelo invasor – esse contato com o “branco” vai resultar em mais diversas formas de dizimação dos submetidos, como a contaminação por doenças trazidas da Europa, a ponto de haver um momento em que o Xokleng-Lãklanô teve apenas, ainda, somente cerca de 400 indivíduos.

                                   Povo aguerrido, no entanto, guardou sua língua, seus costumes, sua cultura – creio que faz uns 30 anos que a população subira, de novo, para mais de 4.000 indivíduos. Na verdade, não sei quantas pessoas Xokleng-Lãklanô existem hoje, mas não devem ser poucas. É aí que entra a minha emoção de hoje e o Caio. Faz tempo que os irmãos de etnia de Caio estão frequentando as universidades e fazendo muitas coisas maravilhosas na vida, como o pai de Caio, Nanblá Gakran, o primeiro doutor do povo, formado pela Universidade de Brasília, linguista que participa de grandes congressos internacionais em lugares como a Suécia, por exemplo, e a irmã de Caio, já no terceiro ano de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina – penso por ter notícias da família de Caio faz tempo é que me levou a toda esta emoção. Sabem o que aconteceu hoje? Saiu a lista de aprovados da UFSC, e o Caio passou... em Medicina! Vai ser o primeiro médico Xokleng-Lãklanô dos tempos modernos (claro que lá no passado houve outros médicos na sua etnia, que tinham saberes antigos).