A GIORDANO BRUNO...

Por Gustavo Dourado (Taguatinga, DF)

Muitos(as) morreram queimados(as) nas fogueiras:
Em nome da fé, da ciência, da vida e da consciência...
Seus sonhos foram trucidados, desejos profanados:
Perseguidos, martirizados, proibidos, mui ultrajados...

Sobrevivem em cada um de nós que luta pela verdade:
Contra os sistemas da mentira que impõem o degredo..
Germinam nas pessoas que querem um mundo melhor:
Em todos que não se intimidam com o horror do medo...

Fica o exemplo de Giordano Bruno que resistiu:
Ao terror inquisitorial da abominável tortura...
É hora de abolir o códex do estado e do poder:
E fazer nascer um sistema de paz, amor, ternura...


NAVE

Por Gustavo Dourado (Taguatinga, DF)

Olhos rebrilham negros-loiros-azuis
Lábios fluem pássaros de neontem

Verdejo-te só ridente
Pri ma vera atômica
Navego-te oceânica
Cabala incógnita...

Quem é você?!
Onde habita teu ser?!


(11/11/1980)

EVAPORAR-SE

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

O que será de mim?
Quando a hirta realidade...
Por fim chegar...
E não sobrar mais nada!
De nós dois!
***
O que será de mim?
Quando o místico vergel.
Dissipar-se no arrebol…
Em meio a bruma encantada,
Bem diante...
Dos meus doridos olhos em chamas!
E o ignoto eflúvio da Halfeti...
Deixar-me entorpecido...
Por completo!
***
O que ficará de mim?
Quando a negra Valquíria...
Esvaecer em definitivo...
Partir para todo o sempre!
Dos meus vaporosos sonhos...
Mais que sagrados.
E me sobrar...
Somente a realidade liquefeita!
O que será de mim?
Quando tudo acabar!

À SOMBRA DE SEUS VERSOS

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

O assinalado
Poeta
À sombra
De seus versos
É censurado
Bloqueado
Calado
Questionado!
Apagam suas linhas
E cada palavra
Existente
Consequentemente
Querem ele nulo
Surdo
Mudo;
Uma geleira de sentimentos.
E poeta
Não mente
Sente
Vive
Escreve
Revela
Não tem vírgulas
Ou se quer esperas!

A VIDA COM ALEGRIA É OUTRA COISA

 Por Urda Alice Klueger (Enseada de Brito, SC)


                                                           Para Nelson Rosembrock[1]

                                    Tinha alguém que dizia isto, todos os dias, enquanto eu era criança, lá na década de sessenta. Era um radialista que viera anonimamente para Blumenau lá por volta de 1960, e que, meses depois, em 1961, acabara sendo o herói da cidade, quando perversa enchente tomou conta do nosso vale, deixando gregos e troianos ou submersos, ou ilhados e sem comunicação. Foi aí que entrou em cena o nosso radialista: ele permaneceu 72 horas ininterruptas no ar, transmitindo recados, achando gente perdida, organizando uma campanha de ajuda aos flagelados – enfim, era a única voz que o rádio nos trazia, uma voz que transmitia esperança. O nome desse radialista era Nelson Rosembrock.
                                    Ele chegara anonimamente em Blumenau, pouco antes – depois da enchente, passou a ser a pessoa mais conhecida da cidade. Ninguém esquecia do serviço que prestara à comunidade, daquelas 72 horas no ar, da “língua endurecida” que resultou daquelas 72 horas, conforme ele mesmo me contou. As homenagens foram muitas, e seus programas diários transformaram-se em sucesso. Quem não se lembra do “Pick-up da frigideira”, de “Conversando com o turista”, de “ A vida com alegria é outra coisa”? Ele me contou detalhadamente sobre cada programa desses, ano passado, quando tive a felicidade de gravar longa entrevista com ele, para os arquivos de História do município e da FURB.                                   Eu, criança, era contemporânea dos programas dele, e trouxe para a minha vida uma coisa que ele sempre afirmou: ”A vida com alegria é outra coisa”. Mais tarde, adulta, passei a classificá-lo como o nosso filósofo blumenauense (embora tenha nascido em Brusque) – quem mais ficara afirmando publicamente, por anos e anos, que a vida com alegria é outra coisa?
                                    Obrigada, seu Nelson Rosembrock, por ter me ensinado isso! Garanto-lhe que ouvi-lo por tantos anos, sempre a repetir tal verdade, fez-me absorvê-la, e tornou muita coisa diferente na minha vida.
                                    E se alguém não conhece esse nosso filósofo caseiro, e pensa que ele já dependurou as chuteiras (afinal, ele começou em rádio em 1948), vou dar o mapa da mina: Nelson Rosembrock continua no ar, aos domingos, a partir das cinco da manhã, na Rádio Nereu Ramos. Se você acordar cedo, dê uma ligadinha no programa dele. Quem sabe, como eu, você aprenda que a vida com alegria é outra coisa.

                                             
                                              


[1] Seu Nelson Rosembrock faleceu antes da publicação deste texto, em outubro de 2005.

DESMISTIFICANDO O CHÁ DE COCA

Por Urda Alice Klueger (Enseada de Brito, SC)


Em 1993, minha amiga Sônia e eu fizemos os preparativos para uma viagem à Bolívia e ao Peru no meio de muita farra: voltaríamos casadas com traficantes de cocaína, voltaríamos viciadas em chá de coca. É claro que não queríamos casar e nem nos tornarmos viciadas, mas nossos amigos riam muito dos nossos planos.
Viajamos, enfim. A primeira cidade boliviana que conhecemos foi Santa Cruz de La Sierra, ainda na parte baixa da Bolívia, antes de se subir os Andes. Santa Cruz nos surpreendeu por ser uma cidade grande e bonita, plana e planejada, cujo centro, com uma antiga catedral espanhola, linda praça e casario espanhol, é cercado por moderna cidade de prédios modernos, agradável e aconchegante.
Chegamos de manhã à Santa Cruz, e gastamos o dia conhecendo a linda cidade (eu esperava uma cidadezinha de tugúrios, muito feia) e, de tardinha, passamos por um mercadinho, onde havia na vitrine ... chá de coca! Há que se lembrar que o chá de coca, na Bolívia, é tão legal e consumido quanto o cafezinho, no Brasil; mas ainda não sabíamos disso, e o chá famoso exercia uma grande atração sobre nós, dava uma idéia de proibido, de pecado, e quem não gosta de experimentar o proibido? Olhando para os lados, para ver se ninguém nos via, Sônia e eu entramos no mercadinho e compramos uma caixa de chá, com os mesmos cuidados que as pessoas têm quando compram pornografia.
A caixinha de chá que compramos era de famosa marca alemã, tinha linda embalagem envolta em papel celofane, e o chá vinha em saquinhos, como qualquer chá respeitável. Escondemos a caixa na bolsa e voltamos correndo para o hotel, onde mandamos preparar duas chávenas. Quando nos entregaram as xícaras, em nosso apartamento, Sônia e eu nos deitamos para tomá-lo, para que quando acontecesse o "barato", estivéssemos deitadas e nada nos acontecesse. Até hoje eu morro de rir ao lembrar como ficamos as duas deitadas, após tomar o chá, esperando o "barato". Dez minutos depois eu perguntei:
- Sônia ... tudo bem aí?
Estava tudo bem, assim como comigo, nada estava acontecendo com ela. Mais dez minutos, e Sônia pergunta:
- Urda ... tudo bem?
Era hilariante a cena, nós a esperarmos o "barato" que não veio. Uma hora depois, morrendo de rir, resolvemos voltar aos nossos passeios. O chá de coca não dá barato nenhum.
Só fui entender a verdadeira função do chá de coca depois que subimos os Andes. Naquela altitude de 4.000 m, não sei como se viveria sem ele. O mal-estar da altitude é uma coisa terrível, que não se tem como fugir - mesmo deitada, mesmo dormindo, a altitude nos faz sentir muito mal - mesmo dentro do sono, tem-se a sensação de que se respira agulhas, ou navalhas, e a cabeça está sempre com a sensação que vai explodir. Qualquer pequeno esforço, como o de se subir uma escadinha de cinco degraus, deixa-nos sem forças, derreados, com o coração disparado, e é nessas horas que o chá de coca é benvindo. Ele nos ajuda um monte a melhorar, dá-nos a sensação de que se vai conseguir sobreviver, é o melhor remédio que existe contra os males da altitude.
No Bolívia, toma-se chá de coca tanto no botequim da esquina, quanto no mais fino restaurante. Os mais refinados garçons do país, quando vêm chegarem turistas derreados, que jogam os braços e as cabeças sobre as mesas e não conseguem nem mais falar, sabem direitinho o que eles precisam. Polidamente, aproximam-se e perguntam :
- Mate de coca?
E a gente dá graças a Deus que o garçom perguntou, que não precisou gastar aquele tiquinho de energia necessário para pedir a infusão que vai devolver um pouco das forças, porque força a altitude tirou toda.
Eu sempre digo que Deus faz as coisas perfeitas, o Diabo é que as estraga depois. Num lugar alto como os Altiplanos andinos, onde é tão difícil viver, Deus colocou a coca e o seu chá terapêutico (o gosto não é bom, mas a gente o acha maravilhoso pelo bem que ele nos faz.). O Diabo, depois, fez com que o homem descobrisse a forma de, com aquelas folhas ingênuas e boas, produzir cocaína.


Blumenau, 25 de agosto de 1996.

MEU MOMENTO DE TRAFICANTE

Por Urda Alice Klueger (Enseada de Brito, SC)

         Em setembro de 1996, eu e minha amiga Lúcia viajávamos pelo Noroeste da América do Sul. Tínhamos chegado a Cartagena, no Caribe colombiano, e dali pretendíamos seguir em direção à Venezuela. Já tínhamos uma rota traçada, passando por Mérida e Coro, em direção a Caracas, mas daí surgiu um probleminha: para irmos à Venezuela, teríamos que seguir por uma estrada onde, só naquela semana, a guerrilha colombiana já havia queimado dez ônibus. Para não termos problemas na estrada, nossos planos balançaram. Que fazer? Fomos estendendo nossa estada na linda cidade de Cartagena, pensando no que fazer, até que resolvemos mudar de rumo: ao invés de seguirmos de ônibus para a Venezuela, tomaríamos um avião para Aruba, e depois, de lá, voaríamos diretamente a Caracas.
Já estávamos a quase vinte dias viajando pelo Equador e pela Colômbia, fazendo a rota dos europeus e dos israelenses (brasileiro não viaja pela América Latina), ficando nos mesmos albergues que eles, que vêm aos milhares conhecer a América. Europeu não gosta muito de banho e, quando em viagem pelo terceiro mundo, não gosta muito de trocar de roupa. Convivíamos com essa tribo há quase vinte dias, e tínhamos adquirido alguns hábitos, como o de usar a roupa sem passar e o de andar desleixadas com a aparência, embora não dispensássemos o banho sem o qual brasileiro não sabe viver. Além disso, minhas mochilas de lã de lhama estavam sujíssimas de tanto serem arrastadas pelas rodoviárias e albergues.
         Chegou a manhã de viajarmos para Aruba. Sabíamos que lá era primeiro mundo, e demos uma caprichada na aparência: Lúcia vestiu um vestido caribenho recém comprado; eu encarei um short branco. Achamo-nos muito chiques diante da tribo européia, e fomos pegar o avião, que, em mais ou menos meia hora nos levou até Aruba.
         Morro de rir quando me lembro. No momento em que nosso avião chegou ao aeroporto daquela ilha paradisíaca (antiga colônia holandesa - hoje país, com moeda própria, língua própria, bandeira própria), chegaram também outros dois aviões, um da Holanda e um dos Estados Unidos. Desembarcamos todos ao mesmo tempo e atulhamos a sala de emigração de Aruba. O pessoal dos outros aviões vinha chiquérrimo, tinha comprado coisas novas, de grife, para aquelas férias. Pensei no meu pobre short branco e na minha camiseta muito usada e vi a diferença, e ela ficou muito maior quando reparei nas malas dos passageiros dos outros vôos: eram modernas, elegantes, novas: contrastavam violentamente com as minhas sujas mochilas de lã de lhama. Corajosamente, fiz de conta que não tinha visto nada daquilo e continuei na fila que não andava.
         Pois é, nossa fila não andava. As filas do pessoal dos outros vôos iam diminuindo rapidamente, e nós não saíamos do lugar. Lúcia e eu nos cutucamos, e passamos rapidinho para uma outra fila. No mesmo instante um guarda percebeu:
-    Pessoal do vôo da Colômbia tem que ficar na outra fila!
Entendemos logo em seguida o porquê da diferença. Enquanto os holandeses e estadunidenses tinham seus passaportes carimbados rapidamente, quem vinha da Colômbia era minuciosamente revistado.
Chegou a nossa vez da revista. Revistaram e revistaram, e não acharam o que estavam procurando. Éramos casos especiais, e fomos introduzidas numa sala especial. O cara da imigração nos crivou de perguntas: tínhamos reservas de hotel? Não, não tínhamos. O que viéramos fazer em Aruba? Passear. E por aí afora.
Dei-me conta, então, da nossa situação. Para Aruba, parecíamos umas maltrapilhas, com aquelas roupas simples e aquelas mochilas de lã. Além de maltrapilhas, portávamos passaportes brasileiros e vínhamos da Colômbia, e não tínhamos sequer pouso certo em Aruba. Estava claro que só poderíamos ser traficantes. Onde estava a cocaína? Senti a barra pesando nas perguntas do homem, que nos amarrava a cara acusadoramente, e então achei melhor ser muito convincente:
-    Moço, só viemos conhecer a ilha. Não vamos causar nenhum  problema!
Não havia, mesmo, o que ser achado que nos comprometesse, e senti o contragosto do cara ao nos liberar de má vontade. Quase que a gente não entra em Aruba! Tive o meu momento de traficante!

                                               Blumenau, 10 de Maio de 1997.