domingo, 1 de fevereiro de 2026

EDITORIAL


Fevereiro chega como um sopro quente sobre o Cerrado, trazendo consigo a força das palavras que insistem em permanecer. Nesta edição, a Revista Cerrado Cultural reafirma seu compromisso com a pluralidade: atravessamos o íntimo e o político, o cotidiano e o mítico, o humano e o digital.

Os textos que compõem este número revelam um Brasil que pensa, sente e se reinventa. Há crônicas que iluminam as esquinas anônimas das cidades, reflexões que confrontam nossos impasses morais, diálogos que atravessam o tempo, e a presença vibrante da arte digital — prova de que a criação continua a expandir fronteiras.

Entre memórias, inquietações e epifanias, cada autor oferece um fragmento de mundo, e juntos formam um mosaico que convida à pausa e ao pensamento. Em tempos de mudanças aceleradas, a palavra permanece como território de resistência, beleza e encontro.

Que esta edição inspire, provoque e acompanhe o leitor na travessia de mais um mês. A cultura, afinal, é o que nos ancora e nos impulsiona.


Paccelli M. Zahler

Editor-Chefe

SEM DIPLOMA NÃO SE PASSA DE HABILIDOSO

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal) 

 

A semana passada recebi a inesperada visita de amigo. Daquele que escrevem pelo Natal e telefonam pelo aniversário. Recebi-o na sala de visitas, que é, igualmente sala de jantar, já que o apartamento é pequeno.

Vivia nos arredores, mas a idade, e a dificuldade de movimentação, obrigaram-me a morar no centro, em prédio de Esquerdo – Direito, com vizinhos, felizmente, educados, pelo menos no meu andar.

Enquanto conversamos e petiscávamos biscoitos da velhíssima fábrica de Valongo, acompanhados a Vinho do Porto, meu amigo reparava nos quadros que brilham pelas paredes, principalmente para o óleo, que mostra natureza morta. Sabendo que era de meu pai, elogiou-o:

- Dou-lhe os meus parabéns! Seu pai tem muita habilidade! Pensava que só escrevia...

Respondi-lhe que expôs poucas vezes, mas, mesmo assim, está representado em várias pinacotecas. Então, acercou-se da tela, para melhor apreciá-la, e:

- Como aprendeu a pintar?

- Tinha o curso das Belas – Artes. Foi discípulo de Acácio Lino, e Joaquim Lopes, e recebeu noções de escultura do Mestre Teixeira Lopes.

Meu amigo, melhor diria – conhecido, – escancarou a boca de espanto, e continuou:

-Logo vi, que era artista!...

Era artista, porque frequentara as Belas – Artes.

 -Disse, com razão, Marden, in: Poder da Vontade": "Dá-se mais importância ao diploma, que representa sabedoria fictícia, que a verdadeira sabedoria, sem a garantia de diploma".

Eis o motivo de Erasmo, após ter obtido o grau de doutor, resolveu ir a Itália:" Porque ninguém, mesmo as pessoas sensatas, acreditam no nosso mérito, se não atravessarem o oceano", disse Léon E Halkin, no livro: "Erasmo".

O mesmo acontece a muitos, no nosso tempo, que procuram obter o doutoramento em Universidades estrangeiras... para que lhes deem valor à sua sabedoria.

Escreveu Silva Pinto, sobre Cesário Verde: " Matriculou-se no Curso, em homenagem às Letras, como se as Letras lá estivessem no curso."

MUDAM-SE OS TEMPOS; MUDAM-SE OS CONCEITOS

 Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal) 

 

No mês de dezembro, mês húmido e sombrio, aproveitei os raros dias de céu lavado e, de amena temperatura, para almoçar num centro comercial.

Após suculento repasto, juntamente com minha mulher, percorri pausadamente vários estabelecimentos, e estaquei, por fim, numa livraria – das poucas que conseguiram sobreviver à falência da leitura.

Estava eu a ver as novidades livreiras, quando acidentalmente, escutei diálogo travado entre senhora, e jovem de pouco mais de doze anos, logo presumi que era sua filha.

- Preciso de comprar os "Maias" – disse a menina. O professor de português recomendou a leitura desse livro, que é próprio para a nossa idade.

Inclinando pudicamente os olhos, a mãe murmurou, quase segredando:

-Já o li. Parece incrível que menina da tua idade o leia. Como é possível, que professor diga – que esse livro é próprio para a tua idade!...

Tagarelando afetuosamente, encaminharam-se para a saída de mãos enlaçadas. A menina saltitava de contentamento, levando na mão o grosso volume.

O diálogo entre mãe e filha, fez-me lembrar o que Dona Emília Cabral, me contou, quase à puridade: a cena ocorrida entre a Marquesa do Ficalho e a nora, Dona Maria das Dores, neta (como ela,) de Eça de Queiroz.

Certa ocasião a Marquesa encontrou-a enterrada no macio sofá da biblioteca, lendo, sofregamente, livro do avô. Qual? Já não me recordo:

- “Menina! - Bradou irada a respeitada fidalga. Esse livro não é indicado para jovens da sua idade!...”

Devo revelar o leitor, se ainda não conhece, que o escritor não queria que os filhos, principalmente a Maria, lessem as suas obras.

A filha querida do grande estilista, só conheceu as obras do pai, em Portugal, em Tornes, com avançada idade!

Tive oportunidade de conhecer as netas do genial escritor, que me revelaram os escrúpulos de Dona Emília de Castro Pamplona (Resende), sentia quando tinha que abordar livros do marido.

No tempo do Eça, mesmo décadas depois da morte, a 16 de agosto de 1900, as meninas, mormente senhoras, consideradas da boa sociedade, eram bastante recatadas; e se o aguilhão da curiosidade as acicatasse a lerem livros do Eça, faziam no decoro do quarto. E nunca revelavam que as conheciam, porque o pejo não lhas permitia.

Agora, em plena liberdade, na decadência da civilização, as nossas donzelas: leem, conversam e debatem, temas mais apimentados, que as cenas escabrosas, descritas pelo romancista.

Não admira, portanto, que os professores as recomendem, até as incentivem, essas, e outras, moralmente mais reprováveis.

Não estamos no século XXI, onde tudo deve ser lido, provado e incentivado?

Não estamos num " Mundo em Chamas", interessante obra de Billy Graham ?

IMPASSES

 Por Catarina Osoegawa (Florianópolis, SC)

 

Como um cinturão que não se amarra na cintura, mas na região do tórax, Elvira esforçava-se por prendê-lo e fechar a fivela, que seguia após um pequeno retrato de um casal preso a uma das pontas do cinturão. E dizia repetidamente através de gestos e murmúrios: Esta foto deve ser distribuída a todos para ajudar a disseminar o DNA!!

Esta cena ocorreu após a busca por Elvira, em uma das trilhas que estávamos percorrendo ao sul da Ilha de Florianópolis em Santa Catarina em uma viagem de final de semana. Elvira havia se perdido. Após muito procurar, nossa amiga Eliane pode encontrá-la em uma das grutas que havíamos passado por ocasião de um outro passeio nesta mesma trilha.  Elvira encontrava-se em posição fetal e já não conseguia falar. Eliane olhou para as mãos dela, havia um anel com a fotografia de um casal, seria ela e o namorado? Elvira não conseguia articular as palavras, não podia elaborar uma frase sequer, sua expressão verbal tornara-se totalmente ininteligível, seu semblante refletia algo como se estivesse vivendo uma cena de horror, a qual não conseguíamos compreender e não sabíamos como lidar.

Elvira ria e chorava ao mesmo tempo, acenava com a cabeça ao concordar com algumas hipóteses que tecíamos sobre o que haveria acontecido, expressava-se com grunhidos e gestos fortes e impositivos, às vezes gritava, em meio à uma grande agitação psicomotora. O cinturão com o retrato do casal passou a ser o nosso guia de orientação e tentativas de interpretação. Tudo era muito estranho naquela cena que aludia a um ideal alucinatório de casamento e à transmissão de um DNA que a deixava aflita, tensa e agitada. O que haveria ocorrido com a nossa amiga neste lapso de tempo em que se perdera pelo caminho? Sabíamos que o seu sonho de casamento com um ex-namorado de olhos verdes e cabelos loiros tingidos pelo sol e pelas ondas das marés onde se embalava diariamente, não havia se realizado por trágico destino do rapaz. Sabíamos que Elvira sonhava reencontrá-lo a qualquer custo, não importando por onde tivesse que procurá-lo e por quais obstáculos tivesse que transpor!



Era como se a cena do casamento carregasse no oportuno imaginário a potência de se materializar no real, e o DNA, marcado e disseminado através da fotografia, nos indicasse algo da força do desejo sexual e da memória que não se dissolve ao longo dos dias, mas se perpetua no imaginário da fuga de limites, assim como se disseminam as sementes dos ideais construídos ao vento, que se materializam em imagens nítidas a seu criador. Como se a ficção que deixa de ser fantasiosa pudesse acessar uma verdade que a tornasse capaz de ser compartilhada, de tão real que se apresentava à mente de Elvira. Ao mesmo tempo, partilhando uma realidade tão particular, somente a sua subjetividade podia trilhar uma linha simbólica de significados e coerência a partir de uma lógica que não era racional, mas própria da invasão do inconsciente no seu funcionamento mental.

Podemos não ter reconhecido os protagonistas que Elvira nos indicava, a fotografia se mostrava desgastada pelo tempo, estava craquelada, quase não identificávamos os seus detalhes, e chegamos a pensar que seria uma foto antiga dos pais ou mesmo dos avós de Elvira, uma imagem se personalizando como um testemunho vivo de desejos na busca de uma identidade na história familiar, uma memória esfumaçada e fugidia articulando presente e passado, real e fantasia revelando em delírios e alucinações os devaneios oníricos da nossa querida amiga.



Havia um desconforto incomensurável, como poderíamos ajudá-la neste momento de impasse de uma crise psicótica, em meio a uma trilha longe de quaisquer recursos de saúde? Como poderíamos acalmá-la em meio àquele turbilhão de ideias e sentimentos aparentemente desconexos e irracionais? Estar diante de alguém em surto psicótico leva-nos a dimensões jamais imaginadas de um sentimento de impotência radical e uma impossibilidade de compreensão que eleva o estresse e o sentimento de solidão a uma potência extrema. Sentíamos a dor da solidão como se estivéssemos em outro país tentando nos comunicar com alguém que fala uma língua completamente estranha e incompreensível. Não sabíamos o que fazer diante daquela situação de agitação de Elvira, e sem recursos, a não ser a nossa presença, decidimos simplesmente escutá-la, e manter o foco naquilo que poderíamos acolher diante da sua angústia, tranquilizando-a quanto àquele cinturão que houvera subtraído a sua voz peremptoriamente.

Havia um conflito bem nítido entre fechar o cinturão e se calar ou destravá-lo e libertar-se de um aprisionamento profundo de passagens traumáticas. Bem sabíamos que os dramas que a aprisionavam faziam-na permanecer em estado de melancolia e impediam-na de tecer novas oportunidades e novos laços amorosos. Elvira acreditava naquela fotografia como a grande determinação e germinação de um DNA que pudesse salvá-la daquela cena de horror que estava vivendo alucinatoriamente, provavelmente na tentativa de libertar-se de um trauma mais antigo. O protagonista agora se transformara em imagem, vivenciado como um ser vivo que, ao mesmo tempo que a libertava, a comprimia em sua fragilidade emocional, atacava a sua estrutura e desagregava uma possibilidade de reorganização mental.



Como toda imagem visual, algo do real se permite destacar-se e perpetuar-se, mas também algo se oculta entre os jogos de luzes e ângulos de enquadramento, amplificando o que se apresenta em primeiro plano, mantendo em estado latente o que se enxerga em segundo plano. No psiquismo de Elvira, a imagem conflituosa do casamento inicia-se como um retrato de família e termina com a necessidade de composição de um DNA sonhado e desconhecido ao mesmo tempo. Sua disseminação representada pela esperança de recuperar sua potencialidade para a vida, em uma linha muito tênue, apresentava sem dúvida uma lógica que expressava a sua subjetividade entre as crises que diziam de sua essência e verdade interior.

O episódio vivido por Elvira, marcado pela sua súbita mudez e pelo simbolismo do cinturão com o retrato do casal, desenrolou-se como uma sequência de um filme, onde as cenas não necessariamente respeitam uma continuidade linear. Assim, o silêncio de Elvira, que antes parecia insuperável, aos poucos foi se desfazendo, como se o roteiro interno da nossa amiga autorizasse uma transição repentina de estado, e as palavras que antes mal conseguira articular, começaram a ser destravadas. Neste intervalo de tempo que exercitamos o controle da nossa ansiedade, acolhemos a nossa amiga com todas as reservas emocionais que tínhamos guardado, e todo este processo que nos demandou um máximo de equilíbrio e parceria…nos pareceu uma eternidade.



No desenrolar do nosso reencontro, o impasse do silêncio se dissipou e a voz de Elvira voltou a fluir, o cinturão — símbolo de aprisionamento e de conflitos internos — finalmente se abriu. Esse gesto, aparentemente simples, reverberou como uma libertação não apenas do silêncio, mas também das amarras emocionais que a dominavam naquele momento.

Sem questionamentos, nem olhar para trás ou necessidade de revisitar o passado recente, Elvira, Eliane e eu nos empenhamos em buscar o percurso de retorno à nossa trilha. Voltamos a fotografar, e o nosso caminhar se reorganizou como os versos de uma poesia, de um reencontro afetivo entre amigos, fortalecido por elos carregados de cuidados e emoção. Contemplamos paisagens, acolhemos as lembranças de Elvira, e sem que ela pudesse perceber, aceitamos os seus delírios como parte de uma realidade, que, embora não pudéssemos compartilhar, estivemos ao seu lado durante toda a caminhada.

 

    

A APOSTA

Por Dias Campos (São Paulo, SP)

 

            Já fazia um bom tempo que Roberto não ia dormir tão satisfeito. E três foram os motivos que contribuíram para essa sensação: Na manhã de sexta-feira, sua namorada adorou o convite para passarem o próximo feriado em um chalé na montanha; na hora do almoço, assinou um contrato de representação jurídica com uma multinacional para atuar em todo o território nacional; e à noite, ligou para os seus melhores amigos, um delegado de polícia e um promotor de justiça, a fim de relembrá-los da aposta que firmaram há um ano, e cujo prazo terminaria no dia seguinte. – “Ainda está para nascer quem me pregue uma peça”, jactanciava-se o advogado junto a seus contemporâneos de faculdade.

            Sendo assim, mesmo que o sábado amanhecesse chuvoso, ele só o enxergaria ensolarado.

Mas o sol raiou absoluto. E como não houvesse nuvens, o azul do céu tornou-se ainda mais límpido, o que só fez aumentar o seu bem-estar.

Depois de fazer a toalete, e de tomar um lauto café, Roberto resolveu caminhar pelo bairro.

Mas esse estado de espírito começaria a abalar-se assim que ele alcançou o terceiro quarteirão...

Deparou-se com um cadeirante idoso que, de rosto súplice e sem ânimo, aguardava que deitassem esmolas na baciazinha de plástico apoiada sobre as pernas.

Roberto condoeu-se. E aproximou-se dele, e colocou uma nota de vinte Reais.

O deficiente ficou muito surpreso e agradeceu com um sorriso de extrema alegria.

Mais adiante, topou com uma mulher de meia idade que, sustentada por velhas muletas, pedia dinheiro aos motoristas que paravam no cruzamento.

Sem muito pensar, ele retirou outra nota – desta vez de dez Reais – e a ofereceu à pobre senhora, que agradeceu com um sorriso envergonhado e a guardou com ligeireza.

Depois de dois quarteirões, Roberto avistou um cego maltrapilho que também vivia da caridade alheia.

Preferindo moedas às notas, o bom cidadão pôs as esmolas dentro da caneca de metal que ele sacudia. E como fizessem barulho, o cego agradeceu com um leve sorriso e um “Deus te dê em dobro”. 

Com efeito, o bom ânimo do início do passeio diminuíra vertiginosamente.

Mas Roberto não desistiu da caminhada, pois seguiria em direção à casa onde moravam sua namorada e os futuros sogros. De lá, os casais sairiam para almoçar em um restaurante.

O dia passava ligeiro, como acontece às horas felizes. Por isso, o enamorado até se esqueceu dos coitados que o entristeceram.

Mas como tudo o que é bom tem um fim, era preciso voltar para casa.

Pois bastou pisar na calçada para que a lembrança daquelas criaturas ressurgisse. E perguntou-se se ainda estariam no mesmo lugar, esmolando.

Roberto andava a passos lentos, pensativo.

Ao se aproximar do quarteirão onde vira o cego pela manhã, e um dos achismos confirmou-se. Lá estava ele, parado, apoiado na bengala, contrito de frio, e esperando quem lhe desse moedas.

De repente, porém, notou que uma Kombi parava próxima ao pedinte.

O cego, então, virou o rosto para a direita... depois para a esquerda... E guardou os óculos escuros, e entrou na Kombi.

O fulano nunca fora cego. Era um vigarista!

Roberto ficou chocado. E teve vontade de correr até a Kombi e de falar umas verdades ao pilantra.

Mas mudou de ideia, pois não conseguia ver se dentro do veículo haveria alguém mais forte, ou armado.

Sua revolta, no entanto, só aumentaria. É que a Kombi ainda receberia mais dois passageiros...

A mulher de meia idade e o idoso chegaram em seguida. Este, empurrando a cadeira de rodas; e aquela, segurando as muletas, uma em cada mão.

Roberto estava boquiaberto!

E a Kombi acelerou, e sumiu noite adentro.

O enganado ficou alguns minutos estático, tentando ordenar os pensamentos, que revoluteavam sem parar.

Depois de algum tempo, o frio e o medo de assaltos reconduziram-no à realidade. E ele seguiu apressado rumo ao lar.

Não que fosse alienado e ignorasse a existência dos mendigos de profissão. Ele mesmo já vira mais de um falando ao celular.

Mas as cenas que presenciou revelavam uma esperteza extrema, imprimindo um status empresarial à mendicância, com diversificação de tarefas, transporte de funcionários, rígida carga horária e repartição dos lucros.

Por tudo isso, decidiu desmascarar aquela gangue.

Como era provável que os golpistas continuariam labutando no dia seguinte, Roberto iria filmá-los mendigando e no momento em que a Kombi os recolhesse. Depois, entregaria pessoalmente a filmagem para os seus velhos camaradas, o delegado e o promotor, que, por certo, adorariam colocá-los atrás das grades.

Mas como a filmagem só aconteceria no dia seguinte, à noite, achou melhor denunciar o golpe desde já. Assim, muitos outros não seriam prejudicados.

E postou o que descobriu nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp de que fazia parte.

Em que pese ter dado início à justiça, o que o alegrava, Roberto foi dormir bastante irrequieto. Pudera! A raiva teimava, permeando as suas entranhas.

Mas como os retornos sobre as safadezas que denunciou começaram a pipocar no celular, esses feedbacks acabaram por reconfortá-lo, e isso o ajudou a dormir.

No domingo, Roberto decidiu ouvir missa. Era como se buscasse uma confirmação celeste sobre a sua intenção de desmascarar aqueles embusteiros.

Chegou bem na hora em que o padre iniciava a pregação – “Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem.”

O recado, contudo, não conseguiu enraizar-se no coração do devoto.

E ele abandonou a celebração antes da bênção final.

Como o almoço seria macarronada no sobrado da nonna, e como não ficaria bem entrar na igreja carregando uma garrafa de vinho, Roberto teve que buscar em sua casa o tinto que separara.

Mas assim que apanhou a garrafa, a campainha soou estridente.

Ao abrir a porta, quase teve um enfarte, pois reconheceu aqueles mesmos três farsantes que o enganaram no dia anterior.

E foi o cadeirante quem primeiro falou, pedindo esmolas em nome de todos os santos e sendo seguido, em gestos e sorrisos, pela senhora de muletas e pelo cego.

Roberto sentiu o sangue ferver. Depois de ter sido feito de trouxa, os salafrários ainda tiveram a pachorra de irem até a sua casa para pedir mais dinheiro! Era muita desfaçatez!

Pois com o dedo em riste, ele descarregou um rosário de impropérios; e tão cabeludos, que até o cego levantou as sobrancelhas e afastou os óculos.

Prosseguiu dizendo que já avisara uma infinidade de pessoas sobre a fraude que praticavam, bem como o lugar onde estavam atuando, e que se não sumissem para sempre, por certo a polícia e o Ministério Público saberiam encontrá-los e os jogariam na cadeia.

Terminado o desafogo, e um silêncio se impôs...

Súbito, os espertalhões caíram na risada.

De olhos arregalados, ele não acreditava no que presenciava. Os safados, ou eram completamente loucos, ou, os sujeitos mais abusados do planeta!

Fosse como fosse, a afronta ultrapassara todos os limites possíveis, e ele já admitia enxotá-los dali sem se preocupar com futuros processos.

Antes, porém, que partisse para essa opção, Roberto percebia gargalhadas que se superpunham àquelas risadas...

De repente, os seus ex-colegas de classe, o delegado e o promotor de justiça, surgiram radiantes por detrás dos malandros. Ambos queriam falar, mas não conseguiam parar de gargalhar.

Desta vez, os olhos do pobre rapaz esbugalharam-se!

Como ficasse sem reação, as autoridades adiantaram-se e o encararam sorridentes e triunfantes.

E a lembrança da aposta despontou...

Ele ainda tentou esquivar-se, argumentando que só soubera da enganação no dia seguinte ao fato, o que o eximiria de qualquer responsabilidade.

Mas, por dois votos a um, a sua tese foi prontamente rechaçada.

Pois diante de tamanha criatividade, o derrotado não teve alternativa senão a de pagar o que apostaram aos vencedores – um serviço completo de rodízio, em uma famosa churrascaria –, repasto este de que também fizeram parte os três atores que seus amigos tinham contratado.

 

  

ÀS VEZES, ACHO MELHOR MORRER!

Por Liécifran Borges Martins (Cariacica, ES)


Nossa! Essa vida é difícil.

Tantas ilusões.

O que há de errado?

 

Tento uma coisa.

Busco outra.

Quebrou a cara.

 

Machuco meu coração.

Iludo meus olhos.

Arrebento meu ser.

 

Às vezes acho

melhor morrer.

Tudo é tão dificil.

 

As dificuldades

são enormes.

Só Deus.

 

NÃO BRINCA COM SENTIMENTOS!

Por Liécifran Borges Martins (Cariacica, ES)

Seja maduro, não imaturo.

Seja fiel e não infiel.

Não brinca de namorar.

Nem brinca com os corações.

 

O outro tem sentimentos.

O outro sente por dentro.

Seja responsável.

Livre-se das malandragens.

 

Pega a lealdade.

Prática responsabilidade.

Planta o respeito.

É cresça na confiança.

 

Não brinca com o outro.

Não brinca com sentimentos.

Seja maduro não imaturo.

Seja responsável.

ONDE ESTÃO SEUS OLHOS SENHOR?

Por Liécifran Borges Martins (Cariacica, ES)


Deus desde do meu nascer,

nada foi fácil.

Tu me dar lutas

atrás de lutas.

Questiona a ti senhor.

 

Onde estão teus olhos?

Será que não ver todo

os meus esforços.

É mesmo assim não

faz nada.

 

Pergunto o que te fiz

para me tratar assim?

Será que se esqueceu de mim?

Como dói viver aqui.

Quero partir.

 

Por quê senhor a vida

foi assim.

Misericórdia e piedade

de mim.

Às vezes eu peco contra a ti.

 

Minha vida senhor.

Será que se importa

comigo?

Vejo e sinto que não

e o meu amigo.

 

Nada faz como eu te pedi.

É a ansiedade

toma conta de mim.

Onde estão seus olhos senhor.

 

INSTAGRAM: @liecifranborgesmartins

A ARTE DIGITAL DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 






ANGELINA

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

O sargento Lopes escuta, ao longe, o som devastador de bravias ondas a baterem nas pedras e a se quebrarem na orla marítima. O cheiro forte da maresia e os sabores do vento costeiro atlântico invadem lhe os sentidos, e o policial militar não pode deixar de pensar na infância pobre, que tenta lutar no dia a dia para esquecer. Para o encontro com o genro irresponsável, Lopes, o policial militar, tinha o seu discurso mais do que pronto: — Canalha, maldito, calhorda! — diz Lopes para si mesmo.

Agora, diante do genro, um branco total toma a mente do homem que, um dia, jurou defender as leis e a sociedade. A ideia de matar o jovem, ali diante dele, de repente lhe vem à cabeça — um lampejo apenas.

— Angelina, minha filha, vem aqui, quero que tu também escutes o que eu tenho pra dizer — diz o policial militar, em tom paternal, para a filha, que ainda permanecia no banco de passageiros do carro, a poucos metros dele. — Olha aqui, moleque, tive que emancipar a minha filha pra ela poder casar contigo. O policial militar para e retoma o fôlego, pois precisava continuar: — Agora que ela tá grávida, tu me aprontas uma dessas, rapaz. Vender a casa que comprei e mobilhei pra vocês dois morarem, e tu vai e queima as roupas do teu filho, que sequer nasceu ainda! Não vou te prender agora, guri, mas creio que tu vai parar em cana logo, bem logo, rapaz! — O sargento Lopes recusou-se a dizer o nome do genro.

Desde que foi apresentado àquele jovem rapaz, o sargento Lopes teve um pressentimento nada agradável. Não pelo fato de ele ser negro — pois, embora importasse, pois o policial militar não gosta mesmo de negros —, mas algo soava mais estranho, do que o normal. Algo estava escondido por detrás daquele sorriso simpático e do olhar cândido daquele jovem na frente dele.

Agora, diante daquele indivíduo, as coisas pareciam se encaixar perfeitamente. O olhar raivoso, a postura defensiva e o sorriso sombrio o denunciavam. Dar meia-volta e partir para a tranquilidade da zona rural, para depois procurar o advogado da família e tratar do divórcio do jovem casal, parecia e foi a melhor opção.

E, de fato, poucos dias se passaram após essa conversa do sargento Lopes com André de Sousa Andrade. André de Sousa Andrade, que nunca cometera um ato ilegal na vida, foi preso após um assalto malsucedido. Em sua nova residência, foram encontradas armas, mercadorias roubadas e drogas.

Fragmento do livro: Não acordem a cidade. Texto de Samuel da Costa, poeta, contista e novelista em Itajaí, Santa Catarina.               

 

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OPERA MUNDI: LEVE SEUS AMIGOS PARA CASA QUANDO TODAS AS LUZES SE APAGAREM! (EPÍLOGO)

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

‘’Porque, meu amor, t’amo...

Tenho medo deste silêncio que nos cerca.

Procuro, não te acho!

Restaram-me saudades.

E, agora, o que faço?

Entrei em contradição

De tanta paixão! Vejo-me caída ao chão…

Seu amor é uma dádiva divina e eterna.

Minha melodia, sutil e bela, enlouquece.

Com paciência e lágrimas, padeço paixão.

 Não apunhale o meu coração, pois sangra...’’

Fabiane Braga Lima

 

Contemplar as ruas vazias e o silêncio absoluto, naquela hora perdida e notívaga, era uma dádiva para Bruno Papadopoulos. Um sentimento extremo, que ele não experimentava havia muito tempo, pois os últimos dias e noites foram agitados. Saber que o alcance de suas mãos invisíveis havia se expandido fora uma surpresa. O que o preocupava, realmente, era aquela figura desconhecida que surgira em meio às ações que ele havia planejado e executado tão bem.

Bruno Papadopoulos sabia das "sombras do tempo", também conhecidas como criaturas da noite eviterna: seres místicos que permeavam as realidades do tempo e do espaço. Um prólogo de algo maior e arriscado que ele não havia calculado naquele campo fluido que não controlava. O que bem sabia era que ele e os amigos poderiam ser tragados pelos vórtices que essas criaturas habitam. Os avisos foram dados antes de iniciarem aquela negra saga. Bruno pensou naquela criatura da noite, sedutora e misteriosa, sempre presente. Aquela sombra do tempo.

Usando um casaco clássico tipo capa de chuva, cinza e quase aos pés, chapéu, máscara de gás e negros coturnos lustrosos, Bruno transformara-se em outra pessoa. Uma intensa luta interna começou. Tudo estava tão certo que parecia estar terrivelmente errado, pois Bruno conhecia bem aquelas ruas — sempre movimentadas e iluminadas. As conhecidas edificações, modernas e envidraçadas, estavam colossalmente agigantadas e um tanto amorfas; a iluminação intercalava-se com intervalos de completa escuridão.

As câmeras de vigilância, postadas em prédios e em finos postes de titânio estavam lá, acrescidas de drones — aparelhos de diversos formatos que flanavam acima das ruas com câmeras multifocais que giravam e giravam. Bruno não pôde deixar de pensar em Carcosa ou R’lyeh. Então, soube que definitivamente não estava mais em casa; era outro mundo, outra cidade. Um lugar similar àquele onde morava, mesmo que as numerações e nomes das ruas denunciassem a cidade em que nasceu e viveu a vida inteira.

Ele caminhava em direção ao Instituto de Ensino Hermes. Figuras distópicas iam e vinham. Bruno deparou-se com vultos decadentes: jovens garotas e garotos de programa exercendo sua função. De lados opostos das ruas, homens e mulheres não se misturavam. Trabalhadores do sexo vestiam-se de preto, com roupas justas de vinil, como outras criaturas noturnas, típicos habitués das aventuras notívagas. Acertados os programas, os casais efêmeros caminhavam para os intervalos escuros e eram tragados pela escuridão, que os devolvia em átomos de segundos.

Bruno Papadopoulos divisou ao longe um carro-patrulha. Os cantos vivos do veículo luziam; ele passou em alta velocidade, com a sirene gritando. Uma motocicleta-patrulha surgiu por trás de Bruno. Saltava aos olhos o design futurista: as cores preto-carvão e vermelho-sangue eram chamativas e impunham o respeito tático de uma arma bélica.

Bruno sentiu seu rosto ser escaneado pelo visor do capacete do agente. A palavra “tenente” saiu do guarda com voz robotizada, em um idioma alienígena que, estranhamente, Bruno compreendeu. A expressão “guarda pretoriano” surgiu em sua mente.

O patrulheiro, fortemente armado, deu partida e perdeu-se na avenida. Bruno ouviu um som forte, olhou para cima e viu dois trens monotrilho passarem em velocidade extrema. A essa altura, ele deixou de fazer quaisquer questionamentos. Foi quando escutou o sutil ronronar de um grande felino selvagem. As lentes de contato nos olhos de Bruno ativaram o modo de busca; ele olhou para todos os quadrantes, mas nada encontrou. Olhou para cima e viu um diáfano vulto negro, com agilidade sobrenatural, locomovendo-se entre os prédios.

— Leve os seus amigos para casa quando todas as luzes se apagarem — disse uma voz sensual de mulher.

Bruno levou a mão ao antebraço e acionou a manopla de cristal líquido. Lembrou-se das memórias residuais; por fim, deu-se conta de que não estava sonhando, mas vivendo em outra realidade.

— Mande os seus amiguinhos de volta para casa! — repetiu a voz dentro de sua cabeça.

Bruno percebeu, então, os cães acossados (ajustado de 'acidentados') ao seu entorno: feras monstruosas que ganiam e salivavam, com olhos vermelhos e dentes ebúrneos à mostra. Bruno deu adeus aos amigos, que evanesceram. Sentiu um forte abraço envolvê-lo e uma garra apertar-lhe a garganta; unhas finas cravaram-se em seu pescoço.

— Precisamos conversar! — disse a mulher negra diante dele. Ela era ágil, bela, usando um sensual traje de vinil, longos cabelos platinados, botas negras de salto e cano longo, óculos espelhados e acessórios branco-gelo. A estética das peças era de um outro plano, extraterrestre. Ela sorriu, e ele sorriu de volta.

Fragmento do livro: Sono Paradoxal, texto de Samuel da Costa, poeta, novelista e contista. Itajaí, Santa Catarina.

A ARTE DIGITAL DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 










OPERA MUNDI: NÃO SAIA DE CASA QUANDO AS LUZES SE APAGAREM!

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

“Se pensam que me afligem com palavras etéreas,

Pequenos escritos que o vento leva, estão enganados.

Minha ancestralidade desconhece essa palavra.

Aqueles que desde sempre lutaram pela liberdade

Não tiveram medo dos grilhões, dos açoites, das mordaças e das emboscadas.

Agora, seus herdeiros continuam avançando até o topo.

Sem temer, sempre serenos, seremos o que queremos: respeito”.

Luana Santos de Oliveira

 

Alice é mesmo uma mulher diferente; era isso que pensava Omar. Levá-la para o seu lugar favorito não era um jeito de demonstrar o quanto ele a considerava especial — e sim descartá-la, como fazia com as outras mulheres que usava. Pois amar alguém mais do que a si mesmo era uma demonstração de fraqueza. Era assim que Omar pensava àquela hora perdida, tarde de uma noite fria de outono.

— Tu sabes que eu nunca… nunca…

— Ficou ou namorou uma mulher negra? — disse Alice, para terminar aquela situação constrangedora.

— Alguém de Escorpião! — desconversou Omar.

— Não! Não mesmo. Tem algo diferente em ti que eu não sei bem explicar. Por exemplo: esses óculos espelhados… é tarde da noite, aqui não tem luz. — O tom preocupado de Omar não passou despercebido por Alice.

A mulher negra, alta e esguia, tirou os óculos redondos e revelou olhos negros enigmáticos. O álgido brilho abissal suscitou sentimentos contraditórios no cerne de Omar. O lado racional emitiu uma grande onda de alertas e o lado emocional ordenou que ele se jogasse no negro abismo.

Omar lembrou da primeira vez que pôs os olhos nela. Estava à beira da piscina, deitada em uma espreguiçadeira de vime, ouvindo músicas francesas antigas em um pequeno rádio. Estavam em um hotel não muito longe de onde agora se encontravam. Ela, com os seus longos cabelos liso e perolado, ela de biquíni verde minúsculo, lia uma revista. Usava brincos, joias, colares e pulseiras de estética africana; eram ornamentos caros, sofisticados e exclusivos. Oferecer um drink da moda foi o primeiro passo, logo recusado, sem que ela sequer olhasse para ele quando o garçom apontou para Omar no bar próximo da piscina.

Dali começou o cerco. Entre bilhetes e olhares trocados, levou quase uma semana para conversarem pessoalmente; levou poucos dias para ele saber tudo sobre Alice — que foi coisa nenhuma. Ou quase nada. Apenas soube que ela vivia no estrangeiro, era solteira, estava sozinha no hotel em férias de outono e tinha alguma condição médica excepcional. Uma mulher do mundo, poliglota, sofisticada e de idade indeterminada.

— Eu não posso ficar sem os meus óculos por muito tempo. Uso lentes de contato, tenho fotofobia severa. Fui a diversos médicos e especialistas, faço um combo de tratamentos, pois os sabichões da medicina não encontraram a causa do meu infortúnio — disse Alice, muito desconfortável com a situação.

— “Não saia de casa quando as luzes se apagarem” é uma das frases estúpidas que ouvi em uma escola estúpida que já frequentei! — disse Omar, estranhando o som de uma forte onda quebrando nas rochas aos pés de uma falésia. Pareceu uma pequena explosão.

Os sons de violões sendo dedilhados, uma cantoria em língua inglesa caribenha, risos e trôpegos palavrórios alegres quebravam o clima soturno da pequena floresta onde estavam. A elevação acima do mar vivia seus melhores e seus piores dias.

— Por isso tu não bebes e não fumas? — perguntou Omar.         

— Sim! Coisas da vida, meu bom e velho quase-amigo! — A resposta, nada surpreendente, foi seguida do completo desmontar dos planos de Omar. De todas as conquistas, esta seria a mais desafiadora e sublime.

Os dois jovens estavam sentados em um tronco de árvore caída, próximos ao mar.

— Tu ouviste isso? — disse Omar, levantando-se abruptamente. Olhou em direção ao continente, estranhou o repentino silêncio sepulcral do lugar e fitou as altas copas das árvores.

— O que há? Senta aqui, meu amor! — disse Alice, com uma voz doce de menina.

— Olhe! — falou Omar, apontando para cima, para as copas das árvores. — Não estou vendo nada, meu bem! — Alice olhou para cima e viu sombras negras e translúcidas se movendo de uma árvore para outra.

Omar voltou a sentar no tronco. Estava nervoso, com um medo que nunca sentira na vida.

— Ouvi falar da tal escola que você mencionou. Uma cheia de fadas, gnomos, duendes, bruxos e bruxas! — falou Alice, com a voz grave.

— O quê? — O alerta disparou novamente no interior de Omar.

— Fiz a minha lição de casa também, meu querido. O que quer dizer que sei das tuas aventuras noturnas, dos teus pequenos deslizes com arma em punho e de como vossa senhoria tratava os teus coleguinhas de escola — disse Alice em tom casual.

— Quem és tu? O que tu és? — falou Omar, dando um salto do tronco. Ia caminhar rumo ao continente; percebeu que precisava se afastar daquela mulher o quanto antes. Recuou e mudou de ideia, rumou para a beira da falésia. Ouviu os choros das crianças menores do que ele, quando as agredia nos tempos de escola. Reviu o desespero dos atendentes de pequenos comércios e postos de gasolina que ele e os amigos assaltavam por pura diversão.

Omar estava à beira da falésia. Olhou para trás na esperança de não ver Alice. Queria que fosse um sonho ruim do qual logo acordaria no conforto do quarto. Contudo, lá estava ela: esbelta, linda, usando roupas casuais negras, os olhos vermelhos em chamas. Séria e soberana como se fosse uma rainha.

Foi quando Omar ouviu os gritos de pavor dos amigos, que estavam a poucos metros dele, na floresta. Foi quando viu algo aterrador: uma massa disforme, acinzentada, e ouviu uivos atrozes que cresciam e cresciam.

Omar voltou-se para o mar, para a imensidão atlântica noturna, e sentiu algo atingir-lhe as costas. Tentou agarrar o ar, gritou em desespero enquanto o vento noturno invadia lhe a garganta. Nada sentiu quando o corpo caiu em meio ao frio rochedo e uma onda arrastou seu corpo sem vida para o oceano.


Fragmento do livro Sono Paradoxal, texto de Samuel da Costa, poeta, novelista e contista, Itajaí, Santa Catarina.

A ARTE DIGITAL DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)