Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)
Nem sempre somos personagens de um teatro surreal.
Pois a vida é tão
fugaz que passa tão depressa.
Cuidemos das nossas almas!
Chega de fecharmos os nossos olhos,
Devemos enxergar a
realidade como ela é.
Fabiane Braga Lima
Ações
têm consequências e seus desdobramentos, alheios aos nossos desejos,
pensamentos e vontades. A vida real é sempre uma soma do que queremos, do que
merecemos e do que de fato nos é dado. E lá estava eu, acomodada na poltrona
cafona de papai, esperando os desdobramentos das minhas aventuras literárias.
Mesmo que no contexto de uma subliteratura, de subtextos publicados em um
veículo restrito, senti os olhares enviesados. Gente me evitando no trabalho e
na faculdade — não que essas coisas não ocorressem no passado, mas ocorrem
agora com mais intensidade, e possivelmente será assim no futuro.
Estava
sozinha em casa, pensando e pensando como será que o universo se reconstruiria
e me atingiria. Confesso que esperava que o lado racional me enquadrasse, mas
não foi papai que apareceu na minha frente com a cara amarrada de sempre,
depois de ler as minhas obras na revista Astro-domo. Estávamos sozinhas em casa
naquele começo de noite; mamãe trazia duas taças de vinho, entregou-me uma e
repousou a outra na mesinha de centro. Mamãe deu meia volta e rumou para a
cozinha; voltou com uma garrafa de vinho do Porto e um saca-rolhas. Abriu a
garrafa delicadamente; levantei a minha taça e logo ela a encheu, depois serviu
a dela e colocou a garrafa na mesa de centro. Ajustei a cadeira de papai, olhei
para ela sentada no sofá, ela em completo silêncio. Nunca vi mamãe assim:
estava aterrada e vi uma sombra nos olhos dela. Em uma olhada mais abissal, vi
a minha mãe como ela realmente é; senti que viria uma conversa definitiva e que
ela se revelaria para mim.
Pode
parecer estranho, pois, em um raro vislumbre, vi a minha progenitora vestida
com trajes brancos, como uma sacerdotisa, com um penteado romano, ornada com
delicadas joias resplandecentes. E não estava sozinha: era ela e mais cinco
mulheres, jovens, em uma biblioteca antiquíssima.
—
Mãe! — disse eu, em desespero.
—
Agnela! — retrucou a minha mãe em tom grave.
— Não
me chame assim...
—
Lady Cristal! Coisa mais ridícula, minha filha. Agnela é o nome da minha mãe e
da minha avó! — sentenciou mamãe em tom ainda mais grave e firme. A mulher
fútil com quem convivi a vida toda desapareceu por completo.
—
Sim! Estudei no Instituto Hermes, fiz o ensino médio ali com uma bolsa parcial,
assim como a minha mãe e a minha avó. Fiz também alguns cursos rápidos.
— Eu
nunca soube... coisa curiosa de saber nesta altura da vida! — falei, tentando
pôr as coisas na minha perspectiva. Eu, a criança tola que era à época. — Sim! Eu li toda a tua produção, até as
tuas escritas escondidas em cadernos e a produção digital que tu escondes tão
mal — disse com um tom de superioridade materna que só as mães podem ter.
— Não
estou surpresa! — disse, mentindo para mim mesma.
— Não
e não! Não perguntes da sociedade secreta — aliás, das sociedades secretas
daquele instituto. Somente digo que eram grupos fechados de estudos! — O tom
sombrio de mamãe teve como subproduto uma aproximação do que ela era e eu ainda
sou.
—
Agnes! O que podes dizer para mim? — disparei, tentando me proteger do que
vinha por aí depois de todo aquele preâmbulo.
—
Agnes? Então eu deixei de ser a tua mãe e tu a minha filha? — disse ela, e vi
novamente aquele vislumbre: Agnes lendo um pergaminho, um papiro, diante das
outras cinco mulheres em um semicírculo.
— Não
é assim que as sociedades secretas são? — falei com firmeza.
—
Verdade, Agnela! São assim as irmandades secretas: para além das convenções
sociais, somos todos iguais aos seus membros em um círculo fechado! — Ela me
olhou com uma profundidade atroz. Fiquei com medo, pois ela esperou a pergunta
definitiva.
—
Qual é o recado que te incumbiram de me dar? — perguntei com a voz trêmula.
Mamãe
— aliás, Agnes — ergueu a taça e fizemos um brinde. Tomamos os nossos vinhos
nos entreolhando; a mulher desconhecida na minha frente curvou-se e repousou a
taça na mesa. Ela tirou um maço de cigarros desconhecido para mim, ofereceu-me
um e tirou outro para ela. Tirou de algum lugar um isqueiro de butano e acendeu
o meu cigarro, depois o dela. Perdi-me nos ornamentos marítimos do isqueiro.
Depois, olhei com mais atenção a garrafa do vinho do Porto e vi as mesmas
inscrições oceânicas no rótulo e em relevo no gargalo.
Fumamos
em silêncio; eu sentia o gosto de cravo e canela, o sabor do vinho e do
cigarro. Nem sei quanto tempo durou este enlace com Agnes. E vi de novo a minha
mãe vestida com um esplendoroso traje de sacerdotisa.
—
Nunca mais volte a este tema, Agnela. Esqueça a coisa toda e tudo ficará bem! —
disse, em tom profético, aquele ser estranho à minha pessoa.
Fui jogada para trás; senti mãos
delicadas de mulheres me empurrando com força. Ouvi vozes sussurrando:
"Agora durma, minha querida!". E ali dormi. Não sei por quanto tempo,
só sei que acordei calma e tranquila. Papai e mamãe estavam na sala de jantar,
conversando amenidades domésticas e cotidianas. Levei a mão ao rosto, esperando
sentir o cheiro do cigarro, e constatei que não existia; o gosto frutado de
cravo e canela do doce vinho também não existia. Simplesmente rumei para o
banheiro para enfrentar o lavatório e o espelho. Logo eu, que não fumava e não
bebia, tinha na cabeça que estava com a face destruída. Lavei o rosto e olhei
para o espelho, e nada vi de diferente além da cara de sono. Voltei para a
realidade, fui jantar com os meus pais e todo o universo se recompôs. Logo
constatei que as coisas não terminariam ali, pois ações têm consequências e
seus desdobramentos, alheios aos nossos desejos, pensamentos e vontades.
Fragmento do livro: Do Diário de
uma Louca, texto de Clarisse Cristal,
poetisa, contista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa
Catarina.
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