Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)
‘’Estás querendo impressionar quem?
Se eu pudesse voltar no tempo
E contar para aquela menina
Que ela se tornaria a mulher que ela sempre sonhou...
Ela sempre esteve aqui.
Eu só precisei aprender a enxergá-la com amor. ’’
Luana Santos de Oliveira
O silêncio clássico da biblioteca foi quebrado pelo
caminhar ritmado de solas de botas de cano alto batendo no frio peso do
mármore. Martina, parada na frente do balcão, não se atreveu a olhar para trás;
a estudante não suportava encarar a bibliotecária sênior. As vestes negras e
pesadas da funcionária não assustavam Martina — irritavam-na em demasia.
— Senhorita Martina! — disse a bibliotecária sênior, com o
peso do cargo que exercia.
Martina não olhou para trás. Fixou os olhos no livro que a
mulher colocou no balcão.
— A senhorita tem um gosto peculiar para livros, devo dizer
— sentenciou a jovem bibliotecária de pele amendoada, maquiagem pesada e olhos
negros.
— Meta-se com a sua vida! — disse Martina, sem olhar para a
jovem. A estudante passou a mão na capa do livro As Filhas do Sol.
— Deu trabalho encontrar. E tenho que dizer que a senhorita
não pode levar este livro daqui! — proferiu a bibliotecária sênior, tocando-o
com os dedos finos e pálidos, de unhas esmaltadas em preto-carvão e
vermelho-sangue.
Martina voltou-se para ela. Os olhares se cruzaram e os
olhos negros de ambas entraram em guerra. Martina reparou na portentosa cruz de
madeira de Pau-Santo no pescoço da outra; a estudante desvencilhou a mão da
bibliotecária do livro encadernado em couro cor de carne, pegou o volume e
moveu-se para a sala de estudos.
Ao folhear as páginas de As Filhas do Sol, escrito em
português arcaico, Martina leu com facilidade e maravilhou-se. Memorizou cada
linha do ritual, evitando com muito custo proferir em voz alta as orações e os
cânticos. Levantou-se sorrindo, extasiada; tinha muito a fazer. Precisava
reunir as irmãs, preparar o templo e encontrar-se com o oráculo.
As braçadas fortes de Priscilla na piscina impressionavam o
instrutor, que há muito desistira de soprar o apito. O homem de meia-idade
apenas apreciava a performance da aluna promissora, que, de repente, parou de
nadar e saiu da água às pressas. Priscilla ignorou o professor e foi direto ao
vestiário; não retirou os óculos nem a touca. Lá chegando, abriu o armário
pessoal e encontrou um pequeno papel onde estava escrito: Kavla. A
nadadora sorriu, tirou os óculos e a touca, e partiu para se unir às irmãs.
Camilla e Cassilda estavam no laboratório analisando
bactérias, preparando-se para um estudo de caso que deveriam apresentar dali a
pouco. As duas irmãs, simultaneamente, afastaram os olhos dos microscópios e se
entreolharam. Afastaram-se da bancada, ignorando o professor assistente, que
protestou ao ver as alunas brilhantes saírem ignorando todos os protocolos. As
duas encontraram Catarina e Penélope na porta; as atletas usavam uniformes da
equipe de xadrez. As enxadristas prodígios levantaram dois pequenos papéis
brancos dobrados. Camilla e Cassilda pegaram os papéis e leram a
palavra: Kavla.
A bem da verdade, Martina pensava que a estética clássica
greco-romana de Margarida Buerger Gross era um exagero saudosista atroz, assim
como aquele nome infantil da irmandade: ILY (I Love You). Mas as coisas
são o que são; vive-se o tempo que se tem. Os astros estavam alinhados, o
manuscrito encontrado, os sigilos decorados e o ritual programado. O altar para
Dagon estava pronto. Não se podia perder nos detalhes; era assim que Martina
pensava naquela hora. Hermes estava pronto; as irmãs estavam prontas.
O pai de Hermes era o responsável pelo jardim no alto da
Torre Solaris IV, na Rua 57. Calisto fora contratado para cuidar de todos os
jardins das quatro torres espalhadas pela cidade — aqueles monólitos azuis.
Para Martina, eram aberrações estéticas: a junção do pós-modernismo com o
classicismo greco-romano em jardins suspensos no topo de edifícios
envidraçados.
Martina observava Calisto a uma distância segura. Ver os
trabalhadores e o próprio Calisto compartilharem vinho após o expediente não a
surpreendeu; era uma sagração aos deuses antigos. Ao levar o caso à irmandade e
verificar que o mesmo ritual ocorria nas outras Torres Solaris, o que estranhou
foi saber que não eram Baco ou Dionísio os consagrados. Era Dagon: o deus da
fertilidade, pesca e agricultura, cultuado por filisteus e cananeus.
A luz se acendeu na irmandade que Martina liderava, nascida
de um grupo de estudos esotéricos. Sussurros ecoaram na imensidão astral e
chegaram até Marte e suas associadas; sonhos, pesadelos e a intuição atingiram
as seis jovens mulheres simultaneamente. Antiguíssimas forças cósmicas
alinhavam-se em um chamado aterrador e sublime. Um convite para a imortalidade:
o culto ao feminino e à fertilidade.
Fragmento do livro: Do Diário de uma Louca, de
Clarisse Cristal, poetisa, contista, novelista e bibliotecária em Balneário
Camboriú, Santa Catarina.
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