Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
‘’Ainda que essa dor... venha desse amor
Eu quero ter tempo... para me curar
E olhar através da janela
Como as coisas podem ser belas.
É respirar e entender que tudo é vida.
Porque cada gesto é
Um ato de sobrevivência. ’’
Clarisse da Costa
A
portentosa mesa de jantar posta, repleta de frutos do mar, disputava o brilho
com o aparelho de jantar. O choque geracional era inevitável e esperado todas
as vezes que pai e filho ali se reuniam.
Eulália veio retirar a mesa para, depois, trazer a sobremesa.
—
Eulália! Como está o teu filho? — perguntou Arturo com terno carinho.
A
secretária da casa estava ao lado do patrão; carregava uma bandeja de prata. A
luso-brasileira, esbelta e de cor amendoada, devolveu o riso para o dono da
casa.
—
Acabou de se formar em Direito,
como o primeiro da turma! Ele foi o orador da formatura — disse a mulher de meia-idade, enquanto dispunha as taças
com sorvete de maracujá.
A
secretária deixou a sala de jantar e voltou para a cozinha; saiu em total silêncio.
—
Quando fizer o bem, faça-o aos poucos; quando for praticar o mal, faça-o de uma
só vez. Assim disse Maquiavel! — disse Bruno, olhando para o pai.
— Se
és escravo, não podes ser amigo; se fores tirano, não podes ter amigos! Assim
disse Friedrich Nietzsche — devolveu Arturo com vigor.
O
choque geracional marcou os dois contendores em um jogo de soma zero. O
silêncio abissal tomou conta da sala e ambos degustaram a sobremesa. Eulália
voltou com uma garrafa de conhaque escocês e duas taças de cristal ricamente
ornadas; deixou-as em cima da mesa e terminou de recolher o aparelho de jantar.
—
Então, meu querido filho, como foi o teu dia? — perguntou Arturo, tirando do
bolso uma cigarreira de prata. Retirou um cigarro e ofereceu-o a Bruno, que
aceitou. Arturo tirou um isqueiro a butano, levantou-se da cadeira e acendeu o
cigarro que Bruno levou à boca. Voltou para a cadeira, tirou outro cigarro,
levou-o à boca e acendeu. Ambos tragaram e se extasiaram com os sabores de
cravo e canela.
—
Papai? Deixemos a filosofia e as amenidades! Vá direto ao ponto! — disse Bruno,
para depois dar uma tragada e olhar para Arturo com frieza.
Arturo,
então, jogou um grosso relatório a poucos centímetros do filho. O olhar
indignado do empresário não atormentou Bruno, que não se deu ao trabalho de
tocar no papel. Arturo, desde criança, ouvia aqui e ali sobre uma sociedade
secreta; homens de sua família eram possíveis membros. O rico empresário, que
sempre fora um homem prático, nunca se interessara pelos rumores absurdos. O
lema era: — Não me acorde antes de amanhecer o dia!
— O
dossiê que mandei fazer é aterrador e eu exijo explicações! — gritou Arturo a
plenos pulmões.
— Eu
não sei do que se trata e nem...
—
Quantos foram, meu filho? Quantos, Bruno? Por Deus! — bradou Arturo em
desespero.
— Eu
volto a dizer que nada sei! — disse enfático o filho.
—
Papai? — a pergunta balbuciada forçou o dono da casa a dizer o que não queria.
— Os
meus amigos, estraçalhados...
—
Aqueles que foram acampar com meninos e meninas no meio do nada? — falou Bruno
com uma voz gutural que assustou
Arturo.
—
Foram estraçalhados por cães! Foi justamente quando sofreste de uma crise! Outra crise! — disse Arturo, chorando, e
continuou — Aquele professor de educação física, que foi atacado pelo seu
próprio cão... o rosto dele ficou desfigurado! Aquele professor que...
— Foi
acusado de abusos por várias alunas e alunos do Instituto Hermes? — perguntou
Bruno, com uma agudez quase
inaudível.
— E
outra crise de narcolepsia! Estavas dormindo e aquele menino, filho de um amigo
meu, caiu na falésia à
beira-mar? A autópsia revelou que as costelas dele foram quebradas por patas de
cão. O que ele tinha contra...
—
Surrou um amigo meu, que quase morreu! — confessou Bruno com desdém.
—
Estavas sofrendo de crises de sono! E quantos mais? — a voz de Arturo era fraca
e vacilante.
—
Pula uma geração, papai, como me foi confidenciado! Demora para controlar, mas
as crises foram embora, nunca mais voltaram. Quantos mais foram? Pergunta
desnecessária. Amigos teus? Sim. O ponto em comum não sou eu, são seus amigos,
associados teus — disse Bruno, e um sorriso gélido brotou em seus lábios.
Os
olhos de Bruno brilharam e se acinzentaram. Os trabalhadores da casa adentraram
a sala e ficaram atrás dele. Arturo tentou se levantar da cadeira e não
conseguiu; tentou erguer as mãos e falhou; com a voz embargada, não conseguiu
dizer nada. Os olhos dos serviçais se acinzentaram e Arturo ouviu gélidos uivos
vindos do jardim. E os serviçais, pessoas que ele conhecia há décadas,
mostraram-lhe os dentes semicerrados.
As
fortes dores de cabeça, o estômago embrulhado e os olhos turvos denunciavam
mais uma crise de narcolepsia. Bruno olhou para o pai ao lado dele, que
segurava o pulso do filho, controlando os sinais vitais no relógio digital.
— Tu
andaste fumando e bebendo, seu infeliz? — bradou Arturo com os olhos
lacrimejando.
— O
que foi? E o relatório? Papai, o relatório? — perguntou Bruno, balbuciando.
Arturo,
atônito, não compreendeu do que o filho falava. Um uivo atravessou a janela dos
fundos e inundou a mansão. Arturo então percebeu os olhos do filho, que estavam
acinzentados, e os funcionários da casa, que entravam na sala com olhos
igualmente cinzentos e andar trôpego.
Fragmento do livro: Sono paradoxal,
texto de Samuel da Costa, poeta, novelista e contista em Itajaí, Santa
Catarina.
Nenhum comentário:
Postar um comentário