domingo, 1 de fevereiro de 2026

OPERA MUNDI: NÃO ME ACORDE ANTES DE AMANHECER O DIA!

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

‘’Ainda que essa dor... venha desse amor

Eu quero ter tempo... para me curar

E olhar através da janela

Como as coisas podem ser belas.

É respirar e entender que tudo é vida.

Porque cada gesto é

Um ato de sobrevivência. ’’

Clarisse da Costa

 

A portentosa mesa de jantar posta, repleta de frutos do mar, disputava o brilho com o aparelho de jantar. O choque geracional era inevitável e esperado todas as vezes que pai e filho ali se reuniam. Eulália veio retirar a mesa para, depois, trazer a sobremesa.

— Eulália! Como está o teu filho? — perguntou Arturo com terno carinho.

A secretária da casa estava ao lado do patrão; carregava uma bandeja de prata. A luso-brasileira, esbelta e de cor amendoada, devolveu o riso para o dono da casa.

— Acabou de se formar em Direito, como o primeiro da turma! Ele foi o orador da formatura — disse a mulher de meia-idade, enquanto dispunha as taças com sorvete de maracujá.

A secretária deixou a sala de jantar e voltou para a cozinha; saiu em total silêncio.

— Quando fizer o bem, faça-o aos poucos; quando for praticar o mal, faça-o de uma só vez. Assim disse Maquiavel! — disse Bruno, olhando para o pai.

— Se és escravo, não podes ser amigo; se fores tirano, não podes ter amigos! Assim disse Friedrich Nietzsche — devolveu Arturo com vigor.

O choque geracional marcou os dois contendores em um jogo de soma zero. O silêncio abissal tomou conta da sala e ambos degustaram a sobremesa. Eulália voltou com uma garrafa de conhaque escocês e duas taças de cristal ricamente ornadas; deixou-as em cima da mesa e terminou de recolher o aparelho de jantar.

— Então, meu querido filho, como foi o teu dia? — perguntou Arturo, tirando do bolso uma cigarreira de prata. Retirou um cigarro e ofereceu-o a Bruno, que aceitou. Arturo tirou um isqueiro a butano, levantou-se da cadeira e acendeu o cigarro que Bruno levou à boca. Voltou para a cadeira, tirou outro cigarro, levou-o à boca e acendeu. Ambos tragaram e se extasiaram com os sabores de cravo e canela.

— Papai? Deixemos a filosofia e as amenidades! Vá direto ao ponto! — disse Bruno, para depois dar uma tragada e olhar para Arturo com frieza.

Arturo, então, jogou um grosso relatório a poucos centímetros do filho. O olhar indignado do empresário não atormentou Bruno, que não se deu ao trabalho de tocar no papel. Arturo, desde criança, ouvia aqui e ali sobre uma sociedade secreta; homens de sua família eram possíveis membros. O rico empresário, que sempre fora um homem prático, nunca se interessara pelos rumores absurdos. O lema era: — Não me acorde antes de amanhecer o dia!

— O dossiê que mandei fazer é aterrador e eu exijo explicações! — gritou Arturo a plenos pulmões.

— Eu não sei do que se trata e nem...

— Quantos foram, meu filho? Quantos, Bruno? Por Deus! — bradou Arturo em desespero.

— Eu volto a dizer que nada sei! — disse enfático o filho.

— Papai? — a pergunta balbuciada forçou o dono da casa a dizer o que não queria.

— Os meus amigos, estraçalhados...

— Aqueles que foram acampar com meninos e meninas no meio do nada? — falou Bruno com uma voz gutural que assustou Arturo.

— Foram estraçalhados por cães! Foi justamente quando sofreste de uma crise! Outra crise! — disse Arturo, chorando, e continuou — Aquele professor de educação física, que foi atacado pelo seu próprio cão... o rosto dele ficou desfigurado! Aquele professor que...

— Foi acusado de abusos por várias alunas e alunos do Instituto Hermes? — perguntou Bruno, com uma agudez quase inaudível.

— E outra crise de narcolepsia! Estavas dormindo e aquele menino, filho de um amigo meu, caiu na falésia à beira-mar? A autópsia revelou que as costelas dele foram quebradas por patas de cão. O que ele tinha contra...

— Surrou um amigo meu, que quase morreu! — confessou Bruno com desdém.

— Estavas sofrendo de crises de sono! E quantos mais? — a voz de Arturo era fraca e vacilante.

— Pula uma geração, papai, como me foi confidenciado! Demora para controlar, mas as crises foram embora, nunca mais voltaram. Quantos mais foram? Pergunta desnecessária. Amigos teus? Sim. O ponto em comum não sou eu, são seus amigos, associados teus — disse Bruno, e um sorriso gélido brotou em seus lábios.

Os olhos de Bruno brilharam e se acinzentaram. Os trabalhadores da casa adentraram a sala e ficaram atrás dele. Arturo tentou se levantar da cadeira e não conseguiu; tentou erguer as mãos e falhou; com a voz embargada, não conseguiu dizer nada. Os olhos dos serviçais se acinzentaram e Arturo ouviu gélidos uivos vindos do jardim. E os serviçais, pessoas que ele conhecia há décadas, mostraram-lhe os dentes semicerrados.

As fortes dores de cabeça, o estômago embrulhado e os olhos turvos denunciavam mais uma crise de narcolepsia. Bruno olhou para o pai ao lado dele, que segurava o pulso do filho, controlando os sinais vitais no relógio digital.

— Tu andaste fumando e bebendo, seu infeliz? — bradou Arturo com os olhos lacrimejando.

— O que foi? E o relatório? Papai, o relatório? — perguntou Bruno, balbuciando.

Arturo, atônito, não compreendeu do que o filho falava. Um uivo atravessou a janela dos fundos e inundou a mansão. Arturo então percebeu os olhos do filho, que estavam acinzentados, e os funcionários da casa, que entravam na sala com olhos igualmente cinzentos e andar trôpego.

           

Fragmento do livro: Sono paradoxal, texto de Samuel da Costa, poeta, novelista e contista em Itajaí, Santa Catarina.

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