domingo, 1 de fevereiro de 2026

CRÔNICA DO DIA: A FLORISTA DA RUA 57 E A REVISTA ASTRO-DOMO (3ª PARTE)

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

Eu que passei boa parte
Da minha jovem vida dormitando
Dentro de mim,
Agora desperto e brado.

 

Seção subtexto da revista Astro-domo: No alto da torre!

Dos terrores e horrores que ocorrem, na calada da noite, em becos e vielas escuras; dos pequenos massacres das classes baixas, que estampam as capas de jornais, nas telas de TVs e nas ondas dos rádios. Bandidos armados, o baixo meretrício, batedores de carteira e o tráfico de ilícitos nas periferias. Violências de toda sorte, acometidas em gente empobrecida, que resvalam em toda a sociedade. E também não podemos esquecer das aventuras de membros das classes mais abastadas, em empreitadas perigosas nos subterrâneos sombrios da sociedade.

Um preâmbulo bem conhecido, um tanto apelativo e universal, que não poderia ficar de fora neste pequeno espaço que a mim foi concedido. Pois a história que vou relatar se desenrolou no alto do edifício Solaris IV, para além do enigmático e do delicado. Uma história aterradora, cheia de lacunas, e os burburinhos do local onde ocorreu o sinistro, numa pequena cidade, preenchem, exageram e subtraem. Digo aqui que não tenho a pretensão de trazer a verdade para a luz do dia, mas sim de trazer alguns fatos e demolir muitas mentiras. Levantar delicadas questões.

O cenário do sinistro: o alto da torre Solaris IV, um condomínio misto, residencial, com comércio e prestações de serviços. Com áreas comuns abertas ao público e áreas restritas. O edifício, em si, faz parte de um conjunto de outros cinco edifícios, assunto no qual não vamos nos aprofundar neste diminuto espaço. Vamos nos ater ao sinistro ocorrido no alto da torre Solaris IV, esplendorosa torre azul pós-modernista, localizada a poucos metros do oceano Atlântico. Para ser mais específica, no glamoroso jardim, projeto da paisagista e urbanista Margarida Buerger Gross. Um vergel greco-romano, ornado com plantas e mármores vindos de todas as partes do Mediterrâneo. Assim como pequenas estatuetas em mármore, feitas por artistas também do Mediterrâneo.

Não vou mencionar os nomes envolvidos. O sinistro ocorreu no final do solstício de verão, na alvorada rubra, quando uma moradora do edifício Solaris IV requisitou o espaço comum aos moradores do condomínio: o jardim greco-romano. Era para ser um ensaio de peça teatral amadora, a ser encenada na instituição de ensino de elite que funciona no próprio edifício. Os envolvidos foram seis jovens mulheres, que estudavam na mesma instituição de ensino. Eram estudantes de destaque de uma escola particular de elite. A outra pessoa envolvida era um professor convidado de artes da referida instituição. Ele, um renomado e respeitado músico e ator experimental, conhecido e reconhecido na cena cultural, no cenário nacional alternativo e também no exterior.

O professor foi encontrado morto, e as seis jovens mulheres, desmaiadas. Elas estavam em formação de semicírculo diante do corpo sem vida do professor. As moças vestiam-se e estavam ornadas com roupas brancas de sacerdotisas, e o homem trajava vestes romanas, como um militar de média patente. Presume-se que estivessem ensaiando a referida peça teatral amadora e experimental. Dos figurinos, não se sabe a origem; apenas que não foram feitos com tecidos modernos, sendo costurados à mão e sem qualquer acabamento elétrico ou mecânico moderno.

Da investigação em si, rumores sobre uma sociedade secreta mística foram apurados, e nada foi constatado como verdadeiro. O que restou foi a hipótese de um pequeno grupo de jovens mulheres que, por convívio, dividiam os mesmos espaços. Das investigações, aqui e no exterior, sobre a vida do professor, nada de relevante ou anormal foi encontrado. Sua obra, voltada ao folclore primitivo dos povos ancestrais ao redor do globo, baseava-se inteiramente em pesquisas. As relações entre as jovens mulheres e o professor revelaram-se apenas relações de alunas e professor, nada mais profundo até então.

Quanto ao corpo sem vida do professor, constatou-se que recebeu uma enorme carga elétrica, com queimaduras severas nos olhos, boca, nariz e nas pontas dos dedos. Os corpos das jovens mulheres também receberam descargas elétricas, porém não letais. Os figurinos das pretensas atrizes amadoras estavam impregnados de elementos comuns da alta atmosfera terrestre, a exosfera. O corpo do professor encontrava-se no parlatório, voltado para trás, enquanto as jovens estavam dispostas em formação de semicírculo, voltadas para o oceano Atlântico, e o professor, para o pôr do sol.

O que foi mais aterrador e inexplicável dessa história macabra: mais tarde constatou-se que as moças haviam sido violadas de forma violenta e que todas engravidaram. Os exames genéticos deram conta de que os frutos das agressões sexuais eram do professor.

Concluo que não há conclusão alguma. As notícias permanecem vagas na dita imprensa profissional, enquanto os burburinhos são sussurrados nas ruas, corredores e salas privativas dos andares da alta sociedade. Mais um escândalo aterrador em tempos de uma sociedade hiperconectada.

 

Fragmento do livro: Do Diário de uma Louca, texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.

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