Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)
Eu que
passei boa parte
Da minha jovem vida dormitando
Dentro de mim,
Agora desperto e brado.
Seção subtexto da revista Astro-domo: No
alto da torre!
Dos terrores e horrores que ocorrem, na
calada da noite, em becos e vielas escuras; dos pequenos massacres das classes
baixas, que estampam as capas de jornais, nas telas de TVs e nas ondas dos
rádios. Bandidos armados, o baixo meretrício, batedores de carteira e o tráfico
de ilícitos nas periferias. Violências de toda sorte, acometidas em gente
empobrecida, que resvalam em toda a sociedade. E também não podemos esquecer
das aventuras de membros das classes mais abastadas, em empreitadas perigosas
nos subterrâneos sombrios da sociedade.
Um preâmbulo bem conhecido, um tanto
apelativo e universal, que não poderia ficar de fora neste pequeno espaço que a
mim foi concedido. Pois a história que vou relatar se desenrolou no alto do
edifício Solaris IV, para além do enigmático e do delicado. Uma história
aterradora, cheia de lacunas, e os burburinhos do local onde ocorreu o
sinistro, numa pequena cidade, preenchem, exageram e subtraem. Digo aqui que
não tenho a pretensão de trazer a verdade para a luz do dia, mas sim de trazer
alguns fatos e demolir muitas mentiras. Levantar delicadas questões.
O cenário do sinistro: o alto da torre
Solaris IV, um condomínio misto, residencial, com comércio e prestações de
serviços. Com áreas comuns abertas ao público e áreas restritas. O edifício, em
si, faz parte de um conjunto de outros cinco edifícios, assunto no qual não
vamos nos aprofundar neste diminuto espaço. Vamos nos ater ao sinistro ocorrido
no alto da torre Solaris IV, esplendorosa torre azul pós-modernista, localizada
a poucos metros do oceano Atlântico. Para ser mais específica, no glamoroso jardim,
projeto da paisagista e urbanista Margarida Buerger Gross. Um vergel
greco-romano, ornado com plantas e mármores vindos de todas as partes do
Mediterrâneo. Assim como pequenas estatuetas em mármore, feitas por artistas
também do Mediterrâneo.
Não vou mencionar os nomes envolvidos. O
sinistro ocorreu no final do solstício de verão, na alvorada rubra, quando uma
moradora do edifício Solaris IV requisitou o espaço comum aos moradores do
condomínio: o jardim greco-romano. Era para ser um ensaio de peça teatral
amadora, a ser encenada na instituição de ensino de elite que funciona no
próprio edifício. Os envolvidos foram seis jovens mulheres, que estudavam na
mesma instituição de ensino. Eram estudantes de destaque de uma escola
particular de elite. A outra pessoa envolvida era um professor convidado de
artes da referida instituição. Ele, um renomado e respeitado músico e ator
experimental, conhecido e reconhecido na cena cultural, no cenário nacional
alternativo e também no exterior.
O professor foi encontrado morto, e as
seis jovens mulheres, desmaiadas. Elas estavam em formação de semicírculo
diante do corpo sem vida do professor. As moças vestiam-se e estavam ornadas
com roupas brancas de sacerdotisas, e o homem trajava vestes romanas, como um
militar de média patente. Presume-se que estivessem ensaiando a referida peça
teatral amadora e experimental. Dos figurinos, não se sabe a origem; apenas que
não foram feitos com tecidos modernos, sendo costurados à mão e sem qualquer
acabamento elétrico ou mecânico moderno.
Da investigação em si, rumores sobre uma
sociedade secreta mística foram apurados, e nada foi constatado como
verdadeiro. O que restou foi a hipótese de um pequeno grupo de jovens mulheres
que, por convívio, dividiam os mesmos espaços. Das investigações, aqui e no
exterior, sobre a vida do professor, nada de relevante ou anormal foi
encontrado. Sua obra, voltada ao folclore primitivo dos povos ancestrais ao
redor do globo, baseava-se inteiramente em pesquisas. As relações entre as
jovens mulheres e o professor revelaram-se apenas relações de alunas e
professor, nada mais profundo até então.
Quanto ao corpo sem vida do professor,
constatou-se que recebeu uma enorme carga elétrica, com queimaduras severas nos
olhos, boca, nariz e nas pontas dos dedos. Os corpos das jovens mulheres também
receberam descargas elétricas, porém não letais. Os figurinos das pretensas
atrizes amadoras estavam impregnados de elementos comuns da alta atmosfera
terrestre, a exosfera. O corpo do professor encontrava-se no parlatório,
voltado para trás, enquanto as jovens estavam dispostas em formação de
semicírculo, voltadas para o oceano Atlântico, e o professor, para o pôr do
sol.
O que foi mais aterrador e inexplicável
dessa história macabra: mais tarde constatou-se que as moças haviam sido
violadas de forma violenta e que todas engravidaram. Os exames genéticos deram
conta de que os frutos das agressões sexuais eram do professor.
Concluo que não há conclusão alguma. As
notícias permanecem vagas na dita imprensa profissional, enquanto os
burburinhos são sussurrados nas ruas, corredores e salas privativas dos andares
da alta sociedade. Mais um escândalo aterrador em tempos de uma sociedade
hiperconectada.
Fragmento do livro: Do Diário de
uma Louca, texto de Clarisse Cristal,
poetisa, contista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa
Catarina.
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