Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
“Se pensam que me afligem com palavras
etéreas,
Pequenos escritos que o vento leva, estão
enganados.
Minha ancestralidade desconhece essa
palavra.
Aqueles que desde sempre lutaram pela
liberdade
Não tiveram medo dos grilhões, dos
açoites,
Das mordaças e das emboscadas.
Agora seus herdeiros continuam avançando
até o topo.”
Luana Santos de Oliveira
A quietude da biblioteca beirava uma paz
clerical; ali, a bibliotecária Agnela era a papisa soberana absoluta. Passava
pelas brancas mesas arredondadas, uma por uma, recolhendo livros, onde o código
Dewey Cutter era a constituição que organizava aquele espaço. O silêncio ali
imperava de forma absoluta, e qualquer distúrbio era, por si só, apaziguado
pelos olhares ferinos da bibliotecária-mor do Instituto de Ensino Hermes.
E o que é o Instituto de Ensino Hermes?
O Instituto nasceu da iniciativa de um grupo de professores em conversas
informais e encontros familiares. A ideia era organizar aulas de reforço para
alunos do ensino fundamental básico, alunos em comum do referido núcleo de
profissionais. Em sua maioria, tanto professores quanto alunos eram moradores
ou frequentadores do condomínio fechado Solaris IV. Margarida Buerger Gross —
urbanista, paisagista e arquiteta — encampou o projeto educacional voluntário,
reestruturou-o e expandiu-o: cursos de curta duração, seminários abertos ao
público, escola para alunos superdotados e ensino médio. Eram núcleos autônomos
de pesquisa e debates, de poucos e para poucos; também concediam bolsas de
estudo e patrocinavam publicações. A pluralidade de pensamentos, ligada a uma
tradição rígida, era o norte da instituição, gerando núcleos fechados que pouco
interagiam entre si. Os núcleos de artes e música gozavam de liberdade e
autonomia.
O núcleo heterônimo reunido ali, na
biblioteca do Instituto Hermes, ia na contramão do que naturalmente acontecia
fora das reuniões forçadas do convívio social e institucional. O conclave não
agendado daquele pequeno grupo diverso não passou despercebido por Agnela, que
acompanhava a uma distância segura. A bibliotecária consultou os cronogramas e
conversou informalmente pelos corredores com os professores e orientadores dos
referidos alunos. Não havia nada que justificasse aquele convescote de última hora.
— Então, meus amigos e amigas, esta é a
pauta da nossa reunião! — disse Bruno Papadopoulos, que olhou para a porta da
pequena sala de estudos e, a poucos metros, viu Camilla e Cassilda jogando
xadrez; o conjunto de peças persas era movido de forma cautelosa pelas irmãs,
estudantes de matemática. — Mas antes, temos que ficar a sós!
O estudante do ensino médio, com ênfase
em letras modernas e clássicas, ergueu a mão e moveu-a da esquerda para a
direita; a porta da sala fechou-se lentamente. A manobra do estudante de
belas-letras não passou despercebida por Agnela nem pelas duas irmãs, que não
se deram ao trabalho de olhar o ocorrido.
— Imprudente, meu bom amigo! — disse, em
tom de preocupação, Lucius Dias, o proeminente jogador de basquete e também
estudante do Instituto Hermes.
— Pelo menos a nossa querida Bela
Adormecida não caiu no sono desta vez! — ponderou com certo desdém a jovem
convidada Martina Gomez, estudante superdotada, escritora e jornalista.
Bruno olhou para o relógio digital de
pulso e verificou seus sinais vitais, que estavam normais, para o espanto do
próprio.
— Vamos à pauta, da mais complexa para a
mais simples, por favor — propôs Dionísio Rossi, músico do Instituto.
— Estou mesmo curiosa com a coisa toda!
Por que estamos aqui, afinal? — perguntou Maitê Pezzini, universitária de moda
que usava a biblioteca para pesquisas.
Os jovens se entreolharam e voltaram os
olhares para Bruno Papadopoulos, que sorriu e tornou a olhar para o relógio.
— Então vamos do mais complexo para o
mais simples! — disse Bruno com ênfase, prosseguindo friamente. — Primeiro, o
que nos uniu unilateralmente e, depois, a ideia de editar a revista cultural e
de variedades: Astro-domo é o nome provisório.
Um clima pesado tomou conta do ambiente.
— Então?! — perguntou Maitê,
visivelmente nervosa.
— Todos os casos têm algo em comum. Eu
vou logo explicando — Bruno olhou para Lucius e disse: — O pequeno grupo de
senhores que anda levando meninos carentes para festas particulares em lugares
ermos é ligado à minha família, aos negócios do meu pai, para ser mais
específico. — Bruno olhou para Martina e depois para Maitê: — O professor
assediador deste mesmo instituto é protegido pela minha família; é um pupilo do
meu pai.
— Falta um! — interveio Dionísio,
nervoso.
— O nosso bom amigo em comum de classe,
é claro! Não esquecemos dele. Vem nos perseguindo de forma cruel há tempo. E
digo: nada será feito!
A mesa tremeu e a cadeira de Bruno foi
abruptamente arrastada para trás. O relógio digital disparou; o estudante
sentiu um leve mal-estar. Bruno havia calculado as respostas dos colegas.
— Eu digo que vocês nada farão, mas sim
estarão lá quando a coisa acontecer! Serão meus! Meus amigos e amigas, eu
prometo! — disse Bruno, sem abrir sequer a boca. — Estaremos todos lá. Não
adormeçam antes da noite chegar!
Os olhos acinzentados, a face animalesca
e a voz gutural de Bruno foram recebidos com certa curiosidade. Algo acontecia
ali, e todos perceberam. A cadeira do estudante voltou para o lugar.
— Agora podemos pautar a revista Astro-domo!
— disse Bruno, de volta com os olhos negros, a face de bom menino e a voz
mussolinosa.
Fragmento do livro: Sono Paradoxal, texto de Samuel da Costa, poeta, novelista e
contista em Itajaí, Santa Catarina.
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