domingo, 1 de fevereiro de 2026

IMPASSES

 Por Catarina Osoegawa (Florianópolis, SC)

 

Como um cinturão que não se amarra na cintura, mas na região do tórax, Elvira esforçava-se por prendê-lo e fechar a fivela, que seguia após um pequeno retrato de um casal preso a uma das pontas do cinturão. E dizia repetidamente através de gestos e murmúrios: Esta foto deve ser distribuída a todos para ajudar a disseminar o DNA!!

Esta cena ocorreu após a busca por Elvira, em uma das trilhas que estávamos percorrendo ao sul da Ilha de Florianópolis em Santa Catarina em uma viagem de final de semana. Elvira havia se perdido. Após muito procurar, nossa amiga Eliane pode encontrá-la em uma das grutas que havíamos passado por ocasião de um outro passeio nesta mesma trilha.  Elvira encontrava-se em posição fetal e já não conseguia falar. Eliane olhou para as mãos dela, havia um anel com a fotografia de um casal, seria ela e o namorado? Elvira não conseguia articular as palavras, não podia elaborar uma frase sequer, sua expressão verbal tornara-se totalmente ininteligível, seu semblante refletia algo como se estivesse vivendo uma cena de horror, a qual não conseguíamos compreender e não sabíamos como lidar.

Elvira ria e chorava ao mesmo tempo, acenava com a cabeça ao concordar com algumas hipóteses que tecíamos sobre o que haveria acontecido, expressava-se com grunhidos e gestos fortes e impositivos, às vezes gritava, em meio à uma grande agitação psicomotora. O cinturão com o retrato do casal passou a ser o nosso guia de orientação e tentativas de interpretação. Tudo era muito estranho naquela cena que aludia a um ideal alucinatório de casamento e à transmissão de um DNA que a deixava aflita, tensa e agitada. O que haveria ocorrido com a nossa amiga neste lapso de tempo em que se perdera pelo caminho? Sabíamos que o seu sonho de casamento com um ex-namorado de olhos verdes e cabelos loiros tingidos pelo sol e pelas ondas das marés onde se embalava diariamente, não havia se realizado por trágico destino do rapaz. Sabíamos que Elvira sonhava reencontrá-lo a qualquer custo, não importando por onde tivesse que procurá-lo e por quais obstáculos tivesse que transpor!



Era como se a cena do casamento carregasse no oportuno imaginário a potência de se materializar no real, e o DNA, marcado e disseminado através da fotografia, nos indicasse algo da força do desejo sexual e da memória que não se dissolve ao longo dos dias, mas se perpetua no imaginário da fuga de limites, assim como se disseminam as sementes dos ideais construídos ao vento, que se materializam em imagens nítidas a seu criador. Como se a ficção que deixa de ser fantasiosa pudesse acessar uma verdade que a tornasse capaz de ser compartilhada, de tão real que se apresentava à mente de Elvira. Ao mesmo tempo, partilhando uma realidade tão particular, somente a sua subjetividade podia trilhar uma linha simbólica de significados e coerência a partir de uma lógica que não era racional, mas própria da invasão do inconsciente no seu funcionamento mental.

Podemos não ter reconhecido os protagonistas que Elvira nos indicava, a fotografia se mostrava desgastada pelo tempo, estava craquelada, quase não identificávamos os seus detalhes, e chegamos a pensar que seria uma foto antiga dos pais ou mesmo dos avós de Elvira, uma imagem se personalizando como um testemunho vivo de desejos na busca de uma identidade na história familiar, uma memória esfumaçada e fugidia articulando presente e passado, real e fantasia revelando em delírios e alucinações os devaneios oníricos da nossa querida amiga.



Havia um desconforto incomensurável, como poderíamos ajudá-la neste momento de impasse de uma crise psicótica, em meio a uma trilha longe de quaisquer recursos de saúde? Como poderíamos acalmá-la em meio àquele turbilhão de ideias e sentimentos aparentemente desconexos e irracionais? Estar diante de alguém em surto psicótico leva-nos a dimensões jamais imaginadas de um sentimento de impotência radical e uma impossibilidade de compreensão que eleva o estresse e o sentimento de solidão a uma potência extrema. Sentíamos a dor da solidão como se estivéssemos em outro país tentando nos comunicar com alguém que fala uma língua completamente estranha e incompreensível. Não sabíamos o que fazer diante daquela situação de agitação de Elvira, e sem recursos, a não ser a nossa presença, decidimos simplesmente escutá-la, e manter o foco naquilo que poderíamos acolher diante da sua angústia, tranquilizando-a quanto àquele cinturão que houvera subtraído a sua voz peremptoriamente.

Havia um conflito bem nítido entre fechar o cinturão e se calar ou destravá-lo e libertar-se de um aprisionamento profundo de passagens traumáticas. Bem sabíamos que os dramas que a aprisionavam faziam-na permanecer em estado de melancolia e impediam-na de tecer novas oportunidades e novos laços amorosos. Elvira acreditava naquela fotografia como a grande determinação e germinação de um DNA que pudesse salvá-la daquela cena de horror que estava vivendo alucinatoriamente, provavelmente na tentativa de libertar-se de um trauma mais antigo. O protagonista agora se transformara em imagem, vivenciado como um ser vivo que, ao mesmo tempo que a libertava, a comprimia em sua fragilidade emocional, atacava a sua estrutura e desagregava uma possibilidade de reorganização mental.



Como toda imagem visual, algo do real se permite destacar-se e perpetuar-se, mas também algo se oculta entre os jogos de luzes e ângulos de enquadramento, amplificando o que se apresenta em primeiro plano, mantendo em estado latente o que se enxerga em segundo plano. No psiquismo de Elvira, a imagem conflituosa do casamento inicia-se como um retrato de família e termina com a necessidade de composição de um DNA sonhado e desconhecido ao mesmo tempo. Sua disseminação representada pela esperança de recuperar sua potencialidade para a vida, em uma linha muito tênue, apresentava sem dúvida uma lógica que expressava a sua subjetividade entre as crises que diziam de sua essência e verdade interior.

O episódio vivido por Elvira, marcado pela sua súbita mudez e pelo simbolismo do cinturão com o retrato do casal, desenrolou-se como uma sequência de um filme, onde as cenas não necessariamente respeitam uma continuidade linear. Assim, o silêncio de Elvira, que antes parecia insuperável, aos poucos foi se desfazendo, como se o roteiro interno da nossa amiga autorizasse uma transição repentina de estado, e as palavras que antes mal conseguira articular, começaram a ser destravadas. Neste intervalo de tempo que exercitamos o controle da nossa ansiedade, acolhemos a nossa amiga com todas as reservas emocionais que tínhamos guardado, e todo este processo que nos demandou um máximo de equilíbrio e parceria…nos pareceu uma eternidade.



No desenrolar do nosso reencontro, o impasse do silêncio se dissipou e a voz de Elvira voltou a fluir, o cinturão — símbolo de aprisionamento e de conflitos internos — finalmente se abriu. Esse gesto, aparentemente simples, reverberou como uma libertação não apenas do silêncio, mas também das amarras emocionais que a dominavam naquele momento.

Sem questionamentos, nem olhar para trás ou necessidade de revisitar o passado recente, Elvira, Eliane e eu nos empenhamos em buscar o percurso de retorno à nossa trilha. Voltamos a fotografar, e o nosso caminhar se reorganizou como os versos de uma poesia, de um reencontro afetivo entre amigos, fortalecido por elos carregados de cuidados e emoção. Contemplamos paisagens, acolhemos as lembranças de Elvira, e sem que ela pudesse perceber, aceitamos os seus delírios como parte de uma realidade, que, embora não pudéssemos compartilhar, estivemos ao seu lado durante toda a caminhada.

 

    

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