Por Catarina Osoegawa (Florianópolis, SC)
Como um cinturão que
não se amarra na cintura, mas na região do tórax, Elvira esforçava-se por
prendê-lo e fechar a fivela, que seguia após um pequeno retrato de um casal
preso a uma das pontas do cinturão. E dizia repetidamente através de gestos e
murmúrios: Esta foto deve ser distribuída a todos para ajudar a disseminar o
DNA!!
Esta cena ocorreu após
a busca por Elvira, em uma das trilhas que estávamos percorrendo ao sul da Ilha
de Florianópolis em Santa Catarina em uma viagem de final de semana. Elvira
havia se perdido. Após muito procurar, nossa amiga Eliane pode encontrá-la em
uma das grutas que havíamos passado por ocasião de um outro passeio nesta mesma
trilha. Elvira encontrava-se em posição
fetal e já não conseguia falar. Eliane olhou para as mãos dela, havia um anel
com a fotografia de um casal, seria ela e o namorado? Elvira não conseguia
articular as palavras, não podia elaborar uma frase sequer, sua expressão
verbal tornara-se totalmente ininteligível, seu semblante refletia algo como se
estivesse vivendo uma cena de horror, a qual não conseguíamos compreender e não
sabíamos como lidar.
Elvira ria e chorava
ao mesmo tempo, acenava com a cabeça ao concordar com algumas hipóteses que
tecíamos sobre o que haveria acontecido, expressava-se com grunhidos e gestos
fortes e impositivos, às vezes gritava, em meio à uma grande agitação
psicomotora. O cinturão com o retrato do casal passou a ser o nosso guia de
orientação e tentativas de interpretação. Tudo era muito estranho naquela cena
que aludia a um ideal alucinatório de casamento e à transmissão de um DNA que a
deixava aflita, tensa e agitada. O que haveria ocorrido com a nossa amiga neste
lapso de tempo em que se perdera pelo caminho? Sabíamos que o seu sonho de casamento
com um ex-namorado de olhos verdes e cabelos loiros tingidos pelo sol e pelas ondas
das marés onde se embalava diariamente, não havia se realizado por trágico
destino do rapaz. Sabíamos que Elvira sonhava reencontrá-lo a qualquer custo,
não importando por onde tivesse que procurá-lo e por quais obstáculos tivesse
que transpor!
Era como se a cena do
casamento carregasse no oportuno imaginário a potência de se materializar no
real, e o DNA, marcado e disseminado através da fotografia, nos indicasse algo
da força do desejo sexual e da memória que não se dissolve ao longo dos dias,
mas se perpetua no imaginário da fuga de limites, assim como se disseminam as
sementes dos ideais construídos ao vento, que se materializam em imagens
nítidas a seu criador. Como se a ficção que deixa de ser fantasiosa pudesse
acessar uma verdade que a tornasse capaz de ser compartilhada, de tão real que
se apresentava à mente de Elvira. Ao mesmo tempo, partilhando uma realidade tão
particular, somente a sua subjetividade podia trilhar uma linha simbólica de
significados e coerência a partir de uma lógica que não era racional, mas
própria da invasão do inconsciente no seu funcionamento mental.
Podemos não ter
reconhecido os protagonistas que Elvira nos indicava, a fotografia se mostrava
desgastada pelo tempo, estava craquelada, quase não identificávamos os seus
detalhes, e chegamos a pensar que seria uma foto antiga dos pais ou mesmo dos
avós de Elvira, uma imagem se personalizando como um testemunho vivo de desejos
na busca de uma identidade na história familiar, uma memória esfumaçada e
fugidia articulando presente e passado, real e fantasia revelando em delírios e
alucinações os devaneios oníricos da nossa querida amiga.
Havia um desconforto
incomensurável, como poderíamos ajudá-la neste momento de impasse de uma crise
psicótica, em meio a uma trilha longe de quaisquer recursos de saúde? Como
poderíamos acalmá-la em meio àquele turbilhão de ideias e sentimentos
aparentemente desconexos e irracionais? Estar diante de alguém em surto
psicótico leva-nos a dimensões jamais imaginadas de um sentimento de impotência
radical e uma impossibilidade de compreensão que eleva o estresse e o
sentimento de solidão a uma potência extrema. Sentíamos a dor da solidão como
se estivéssemos em outro país tentando nos comunicar com alguém que fala uma
língua completamente estranha e incompreensível. Não sabíamos o que fazer
diante daquela situação de agitação de Elvira, e sem recursos, a não ser a
nossa presença, decidimos simplesmente escutá-la, e manter o foco naquilo que
poderíamos acolher diante da sua angústia, tranquilizando-a quanto àquele
cinturão que houvera subtraído a sua voz peremptoriamente.
Havia um conflito bem
nítido entre fechar o cinturão e se calar ou destravá-lo e libertar-se de um
aprisionamento profundo de passagens traumáticas. Bem sabíamos que os dramas
que a aprisionavam faziam-na permanecer em estado de melancolia e impediam-na
de tecer novas oportunidades e novos laços amorosos. Elvira acreditava naquela
fotografia como a grande determinação e germinação de um DNA que pudesse
salvá-la daquela cena de horror que estava vivendo alucinatoriamente,
provavelmente na tentativa de libertar-se de um trauma mais antigo. O
protagonista agora se transformara em imagem, vivenciado como um ser vivo que,
ao mesmo tempo que a libertava, a comprimia em sua fragilidade emocional, atacava
a sua estrutura e desagregava uma possibilidade de reorganização mental.
Como toda imagem
visual, algo do real se permite destacar-se e perpetuar-se, mas também algo se
oculta entre os jogos de luzes e ângulos de enquadramento, amplificando o que
se apresenta em primeiro plano, mantendo em estado latente o que se enxerga em
segundo plano. No psiquismo de Elvira, a imagem conflituosa do casamento
inicia-se como um retrato de família e termina com a necessidade de composição
de um DNA sonhado e desconhecido ao mesmo tempo. Sua disseminação representada pela
esperança de recuperar sua potencialidade para a vida, em uma linha muito
tênue, apresentava sem dúvida uma lógica que expressava a sua subjetividade
entre as crises que diziam de sua essência e verdade interior.
O episódio vivido por Elvira, marcado pela sua súbita mudez e pelo
simbolismo do cinturão com o retrato do casal, desenrolou-se como uma sequência
de um filme, onde as cenas não necessariamente respeitam uma continuidade
linear. Assim, o silêncio de Elvira, que antes parecia insuperável, aos poucos foi
se desfazendo, como se o roteiro interno da nossa amiga autorizasse uma
transição repentina de estado, e as palavras que antes mal conseguira
articular, começaram a ser destravadas. Neste intervalo de tempo que exercitamos
o controle da nossa ansiedade, acolhemos a nossa amiga com todas as reservas
emocionais que tínhamos guardado, e todo este processo que nos demandou um
máximo de equilíbrio e parceria…nos pareceu uma eternidade.
No desenrolar do nosso reencontro, o impasse do silêncio se dissipou e a
voz de Elvira voltou a fluir, o cinturão — símbolo de aprisionamento e de
conflitos internos — finalmente se abriu. Esse gesto, aparentemente simples,
reverberou como uma libertação não apenas do silêncio, mas também das amarras
emocionais que a dominavam naquele momento.
Sem questionamentos, nem olhar para trás ou necessidade de revisitar o
passado recente, Elvira, Eliane e eu nos empenhamos em buscar o percurso de
retorno à nossa trilha. Voltamos a fotografar, e o nosso
caminhar se reorganizou como os versos de uma poesia, de um reencontro afetivo
entre amigos, fortalecido por elos carregados de cuidados e emoção.
Contemplamos paisagens, acolhemos as lembranças de Elvira, e sem que ela
pudesse perceber, aceitamos os seus delírios como parte de uma realidade, que,
embora não pudéssemos compartilhar, estivemos ao seu lado durante toda a
caminhada.
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