Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
“Se pensam que me afligem com palavras
etéreas,
Pequenos escritos que o vento leva, estão
enganados.
Minha ancestralidade desconhece essa
palavra.
Aqueles que desde sempre lutaram pela
liberdade
Não tiveram medo dos grilhões, dos
açoites, das mordaças e das emboscadas.
Agora, seus herdeiros continuam avançando
até o topo.
Sem temer, sempre serenos, seremos o que
queremos: respeito”.
Luana Santos de Oliveira
Alice é mesmo uma mulher diferente; era
isso que pensava Omar. Levá-la para o seu lugar favorito não era um jeito de
demonstrar o quanto ele a considerava especial — e sim descartá-la, como fazia
com as outras mulheres que usava. Pois amar alguém mais do que a si mesmo era
uma demonstração de fraqueza. Era assim que Omar pensava àquela hora perdida,
tarde de uma noite fria de outono.
— Tu sabes que eu nunca… nunca…
— Ficou ou namorou uma mulher negra? —
disse Alice, para terminar aquela situação constrangedora.
— Alguém de Escorpião! — desconversou
Omar.
— Não! Não mesmo. Tem algo diferente em
ti que eu não sei bem explicar. Por exemplo: esses óculos espelhados… é tarde
da noite, aqui não tem luz. — O tom preocupado de Omar não passou despercebido
por Alice.
A mulher negra, alta e esguia, tirou os
óculos redondos e revelou olhos negros enigmáticos. O álgido brilho abissal
suscitou sentimentos contraditórios no cerne de Omar. O lado racional emitiu
uma grande onda de alertas e o lado emocional ordenou que ele se jogasse no
negro abismo.
Omar lembrou da primeira vez que pôs os
olhos nela. Estava à beira da piscina, deitada em uma espreguiçadeira de vime,
ouvindo músicas francesas antigas em um pequeno rádio. Estavam em um hotel não
muito longe de onde agora se encontravam. Ela, com os seus longos cabelos liso
e perolado, ela de biquíni verde minúsculo, lia uma revista. Usava brincos,
joias, colares e pulseiras de estética africana; eram ornamentos caros,
sofisticados e exclusivos. Oferecer um drink da moda foi o primeiro passo, logo
recusado, sem que ela sequer olhasse para ele quando o garçom apontou para Omar
no bar próximo da piscina.
Dali começou o cerco. Entre bilhetes e
olhares trocados, levou quase uma semana para conversarem pessoalmente; levou
poucos dias para ele saber tudo sobre Alice — que foi coisa nenhuma. Ou quase
nada. Apenas soube que ela vivia no estrangeiro, era solteira, estava sozinha
no hotel em férias de outono e tinha alguma condição médica excepcional. Uma
mulher do mundo, poliglota, sofisticada e de idade indeterminada.
— Eu não posso ficar sem os meus óculos
por muito tempo. Uso lentes de contato, tenho fotofobia severa. Fui a diversos
médicos e especialistas, faço um combo de tratamentos, pois os sabichões da
medicina não encontraram a causa do meu infortúnio — disse Alice, muito
desconfortável com a situação.
— “Não saia de casa quando as luzes se
apagarem” é uma das frases estúpidas que ouvi em uma escola estúpida que já
frequentei! — disse Omar, estranhando o som de uma forte onda quebrando nas
rochas aos pés de uma falésia. Pareceu uma pequena explosão.
Os sons de violões sendo dedilhados, uma
cantoria em língua inglesa caribenha, risos e trôpegos palavrórios alegres
quebravam o clima soturno da pequena floresta onde estavam. A elevação acima do
mar vivia seus melhores e seus piores dias.
— Por isso tu não bebes e não fumas? —
perguntou Omar.
— Sim! Coisas da vida, meu bom e velho
quase-amigo! — A resposta, nada surpreendente, foi seguida do completo
desmontar dos planos de Omar. De todas as conquistas, esta seria a mais
desafiadora e sublime.
Os dois jovens estavam sentados em um
tronco de árvore caída, próximos ao mar.
— Tu ouviste isso? — disse Omar,
levantando-se abruptamente. Olhou em direção ao continente, estranhou o
repentino silêncio sepulcral do lugar e fitou as altas copas das árvores.
— O que há? Senta aqui, meu amor! —
disse Alice, com uma voz doce de menina.
—
Olhe! — falou Omar, apontando para cima, para as copas das árvores. — Não estou
vendo nada, meu bem! — Alice olhou para cima e viu sombras negras e
translúcidas se movendo de uma árvore para outra.
Omar voltou a sentar no tronco. Estava
nervoso, com um medo que nunca sentira na vida.
— Ouvi falar da tal escola que você
mencionou. Uma cheia de fadas, gnomos, duendes, bruxos e bruxas! — falou Alice,
com a voz grave.
— O quê? — O alerta disparou novamente
no interior de Omar.
— Fiz a minha lição de casa também, meu
querido. O que quer dizer que sei das tuas aventuras noturnas, dos teus
pequenos deslizes com arma em punho e de como vossa senhoria tratava os teus
coleguinhas de escola — disse Alice em tom casual.
— Quem és tu? O que tu és? — falou Omar,
dando um salto do tronco. Ia caminhar rumo ao continente; percebeu que
precisava se afastar daquela mulher o quanto antes. Recuou e mudou de ideia,
rumou para a beira da falésia. Ouviu os choros das crianças menores do que ele,
quando as agredia nos tempos de escola. Reviu o desespero dos atendentes de
pequenos comércios e postos de gasolina que ele e os amigos assaltavam por pura
diversão.
Omar estava à beira da falésia. Olhou
para trás na esperança de não ver Alice. Queria que fosse um sonho ruim do qual
logo acordaria no conforto do quarto. Contudo, lá estava ela: esbelta, linda,
usando roupas casuais negras, os olhos vermelhos em chamas. Séria e soberana
como se fosse uma rainha.
Foi quando Omar ouviu os gritos de pavor
dos amigos, que estavam a poucos metros dele, na floresta. Foi quando viu algo
aterrador: uma massa disforme, acinzentada, e ouviu uivos atrozes que cresciam
e cresciam.
Omar voltou-se para o mar, para a
imensidão atlântica noturna, e sentiu algo atingir-lhe as costas. Tentou
agarrar o ar, gritou em desespero enquanto o vento noturno invadia lhe a
garganta. Nada sentiu quando o corpo caiu em meio ao frio rochedo e uma onda
arrastou seu corpo sem vida para o oceano.
Fragmento do livro Sono
Paradoxal, texto de Samuel da Costa, poeta,
novelista e contista, Itajaí, Santa Catarina.
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