domingo, 1 de fevereiro de 2026

OPERA MUNDI: LEVE SEUS AMIGOS PARA CASA QUANDO TODAS AS LUZES SE APAGAREM! (EPÍLOGO)

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

‘’Porque, meu amor, t’amo...

Tenho medo deste silêncio que nos cerca.

Procuro, não te acho!

Restaram-me saudades.

E, agora, o que faço?

Entrei em contradição

De tanta paixão! Vejo-me caída ao chão…

Seu amor é uma dádiva divina e eterna.

Minha melodia, sutil e bela, enlouquece.

Com paciência e lágrimas, padeço paixão.

 Não apunhale o meu coração, pois sangra...’’

Fabiane Braga Lima

 

Contemplar as ruas vazias e o silêncio absoluto, naquela hora perdida e notívaga, era uma dádiva para Bruno Papadopoulos. Um sentimento extremo, que ele não experimentava havia muito tempo, pois os últimos dias e noites foram agitados. Saber que o alcance de suas mãos invisíveis havia se expandido fora uma surpresa. O que o preocupava, realmente, era aquela figura desconhecida que surgira em meio às ações que ele havia planejado e executado tão bem.

Bruno Papadopoulos sabia das "sombras do tempo", também conhecidas como criaturas da noite eviterna: seres místicos que permeavam as realidades do tempo e do espaço. Um prólogo de algo maior e arriscado que ele não havia calculado naquele campo fluido que não controlava. O que bem sabia era que ele e os amigos poderiam ser tragados pelos vórtices que essas criaturas habitam. Os avisos foram dados antes de iniciarem aquela negra saga. Bruno pensou naquela criatura da noite, sedutora e misteriosa, sempre presente. Aquela sombra do tempo.

Usando um casaco clássico tipo capa de chuva, cinza e quase aos pés, chapéu, máscara de gás e negros coturnos lustrosos, Bruno transformara-se em outra pessoa. Uma intensa luta interna começou. Tudo estava tão certo que parecia estar terrivelmente errado, pois Bruno conhecia bem aquelas ruas — sempre movimentadas e iluminadas. As conhecidas edificações, modernas e envidraçadas, estavam colossalmente agigantadas e um tanto amorfas; a iluminação intercalava-se com intervalos de completa escuridão.

As câmeras de vigilância, postadas em prédios e em finos postes de titânio estavam lá, acrescidas de drones — aparelhos de diversos formatos que flanavam acima das ruas com câmeras multifocais que giravam e giravam. Bruno não pôde deixar de pensar em Carcosa ou R’lyeh. Então, soube que definitivamente não estava mais em casa; era outro mundo, outra cidade. Um lugar similar àquele onde morava, mesmo que as numerações e nomes das ruas denunciassem a cidade em que nasceu e viveu a vida inteira.

Ele caminhava em direção ao Instituto de Ensino Hermes. Figuras distópicas iam e vinham. Bruno deparou-se com vultos decadentes: jovens garotas e garotos de programa exercendo sua função. De lados opostos das ruas, homens e mulheres não se misturavam. Trabalhadores do sexo vestiam-se de preto, com roupas justas de vinil, como outras criaturas noturnas, típicos habitués das aventuras notívagas. Acertados os programas, os casais efêmeros caminhavam para os intervalos escuros e eram tragados pela escuridão, que os devolvia em átomos de segundos.

Bruno Papadopoulos divisou ao longe um carro-patrulha. Os cantos vivos do veículo luziam; ele passou em alta velocidade, com a sirene gritando. Uma motocicleta-patrulha surgiu por trás de Bruno. Saltava aos olhos o design futurista: as cores preto-carvão e vermelho-sangue eram chamativas e impunham o respeito tático de uma arma bélica.

Bruno sentiu seu rosto ser escaneado pelo visor do capacete do agente. A palavra “tenente” saiu do guarda com voz robotizada, em um idioma alienígena que, estranhamente, Bruno compreendeu. A expressão “guarda pretoriano” surgiu em sua mente.

O patrulheiro, fortemente armado, deu partida e perdeu-se na avenida. Bruno ouviu um som forte, olhou para cima e viu dois trens monotrilho passarem em velocidade extrema. A essa altura, ele deixou de fazer quaisquer questionamentos. Foi quando escutou o sutil ronronar de um grande felino selvagem. As lentes de contato nos olhos de Bruno ativaram o modo de busca; ele olhou para todos os quadrantes, mas nada encontrou. Olhou para cima e viu um diáfano vulto negro, com agilidade sobrenatural, locomovendo-se entre os prédios.

— Leve os seus amigos para casa quando todas as luzes se apagarem — disse uma voz sensual de mulher.

Bruno levou a mão ao antebraço e acionou a manopla de cristal líquido. Lembrou-se das memórias residuais; por fim, deu-se conta de que não estava sonhando, mas vivendo em outra realidade.

— Mande os seus amiguinhos de volta para casa! — repetiu a voz dentro de sua cabeça.

Bruno percebeu, então, os cães acossados (ajustado de 'acidentados') ao seu entorno: feras monstruosas que ganiam e salivavam, com olhos vermelhos e dentes ebúrneos à mostra. Bruno deu adeus aos amigos, que evanesceram. Sentiu um forte abraço envolvê-lo e uma garra apertar-lhe a garganta; unhas finas cravaram-se em seu pescoço.

— Precisamos conversar! — disse a mulher negra diante dele. Ela era ágil, bela, usando um sensual traje de vinil, longos cabelos platinados, botas negras de salto e cano longo, óculos espelhados e acessórios branco-gelo. A estética das peças era de um outro plano, extraterrestre. Ela sorriu, e ele sorriu de volta.

Fragmento do livro: Sono Paradoxal, texto de Samuel da Costa, poeta, novelista e contista. Itajaí, Santa Catarina.

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