Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
‘’Porque, meu amor, t’amo...
Tenho medo deste silêncio que nos cerca.
Procuro, não te acho!
Restaram-me saudades.
E, agora, o que faço?
Entrei em contradição
De tanta paixão! Vejo-me caída ao chão…
Seu amor é uma dádiva divina e eterna.
Minha melodia, sutil e bela, enlouquece.
Com paciência e lágrimas, padeço paixão.
Não apunhale o meu
coração, pois sangra...’’
Fabiane Braga Lima
Contemplar
as ruas vazias e o silêncio absoluto, naquela hora perdida e notívaga, era uma
dádiva para Bruno Papadopoulos. Um sentimento extremo, que ele não
experimentava havia muito tempo, pois os últimos dias e noites foram agitados.
Saber que o alcance de suas mãos invisíveis havia se expandido fora uma
surpresa. O que o preocupava, realmente, era aquela figura desconhecida que
surgira em meio às ações que ele havia planejado e executado tão bem.
Bruno
Papadopoulos sabia das "sombras do tempo", também conhecidas como
criaturas da noite eviterna: seres místicos que permeavam as realidades do
tempo e do espaço. Um prólogo de algo maior e arriscado que ele não havia
calculado naquele campo fluido que não controlava. O que bem sabia era que ele
e os amigos poderiam ser tragados pelos vórtices que essas criaturas habitam.
Os avisos foram dados antes de iniciarem aquela negra saga. Bruno pensou
naquela criatura da noite, sedutora e misteriosa, sempre presente. Aquela
sombra do tempo.
Usando
um casaco clássico tipo capa de chuva, cinza e quase aos pés, chapéu, máscara
de gás e negros coturnos lustrosos, Bruno transformara-se em outra pessoa. Uma
intensa luta interna começou. Tudo estava tão certo que parecia estar
terrivelmente errado, pois Bruno conhecia bem aquelas ruas — sempre
movimentadas e iluminadas. As conhecidas edificações, modernas e envidraçadas,
estavam colossalmente agigantadas e um tanto amorfas; a iluminação
intercalava-se com intervalos de completa escuridão.
As
câmeras de vigilância, postadas em prédios e em finos postes de titânio estavam
lá, acrescidas de drones — aparelhos de diversos formatos que flanavam acima
das ruas com câmeras multifocais que giravam e giravam. Bruno não pôde deixar
de pensar em Carcosa ou R’lyeh. Então, soube que definitivamente não estava
mais em casa; era outro mundo, outra cidade. Um lugar similar àquele onde
morava, mesmo que as numerações e nomes das ruas denunciassem a cidade em que
nasceu e viveu a vida inteira.
Ele
caminhava em direção ao Instituto de Ensino Hermes. Figuras distópicas iam e
vinham. Bruno deparou-se com vultos decadentes: jovens garotas e garotos de
programa exercendo sua função. De lados opostos das ruas, homens e mulheres não
se misturavam. Trabalhadores do sexo vestiam-se de preto, com roupas justas de
vinil, como outras criaturas noturnas, típicos habitués das aventuras notívagas. Acertados os programas, os
casais efêmeros caminhavam para os intervalos escuros e eram tragados pela
escuridão, que os devolvia em átomos de segundos.
Bruno
Papadopoulos divisou ao longe um carro-patrulha. Os cantos vivos do veículo
luziam; ele passou em alta velocidade, com a sirene gritando. Uma
motocicleta-patrulha surgiu por trás de Bruno. Saltava aos olhos o design
futurista: as cores preto-carvão e vermelho-sangue eram chamativas e impunham o
respeito tático de uma arma bélica.
Bruno
sentiu seu rosto ser escaneado pelo visor do capacete do agente. A palavra
“tenente” saiu do guarda com voz robotizada, em um idioma alienígena que,
estranhamente, Bruno compreendeu. A expressão “guarda pretoriano” surgiu em sua
mente.
O
patrulheiro, fortemente armado, deu partida e perdeu-se na avenida. Bruno ouviu
um som forte, olhou para cima e viu dois trens monotrilho passarem em
velocidade extrema. A essa altura, ele deixou de fazer quaisquer
questionamentos. Foi quando escutou o sutil ronronar de um grande felino
selvagem. As lentes de contato nos olhos de Bruno ativaram o modo de busca; ele
olhou para todos os quadrantes, mas nada encontrou. Olhou para cima e viu um
diáfano vulto negro, com agilidade sobrenatural, locomovendo-se entre os
prédios.
—
Leve os seus amigos para casa quando todas as luzes se apagarem — disse uma voz
sensual de mulher.
Bruno
levou a mão ao antebraço e acionou a manopla de cristal líquido. Lembrou-se das
memórias residuais; por fim, deu-se conta de que não estava sonhando, mas
vivendo em outra realidade.
—
Mande os seus amiguinhos de volta para casa! — repetiu a voz dentro de sua
cabeça.
Bruno
percebeu, então, os cães acossados (ajustado de 'acidentados') ao seu entorno:
feras monstruosas que ganiam e salivavam, com olhos vermelhos e dentes ebúrneos
à mostra. Bruno deu adeus aos amigos, que evanesceram. Sentiu um forte abraço
envolvê-lo e uma garra apertar-lhe a garganta; unhas finas cravaram-se em seu
pescoço.
—
Precisamos conversar! — disse a mulher negra diante dele. Ela era ágil, bela,
usando um sensual traje de vinil, longos cabelos platinados, botas negras de
salto e cano longo, óculos espelhados e acessórios branco-gelo. A estética das
peças era de um outro plano, extraterrestre. Ela sorriu, e ele sorriu de volta.
Fragmento do livro: Sono Paradoxal, texto de
Samuel da Costa, poeta, novelista e contista. Itajaí, Santa Catarina.
Nenhum comentário:
Postar um comentário