Por Maria Félix Fontele (Brasília, DF)
Revista literária online com periodicidade mensal, uma viagem cultural pela literatura, poesia, cinema e artes. Editada, desde 2011, em Brasília, DF, pelo jornalista e escritor Paccelli José Maracci Zahler (ISNI 0000 0005 3053 7228, RP/MTE nº 14402/DF; FENAJ; FIJ nº BR20943). Poemas, crônicas, contos, ensaios, e o melhor da cultura nacional e internacional. Todas as opiniões aqui expressas são de responsabilidade dos autores. Aceitam-se colaborações. Contato: cerrado.cultural@gmail.com
HÁBITOS
Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)
Hábitos alimentares engordam o corpo
como opas mal cortadas amorfas em cores
distraídas maneiras de dizer: tenho tantos
anos de estudo e letras conversam comigo
enquanto sereias e siriemas agrestes gritam
músicas e não comem no mesmo prato
do profeta Calam o gole dentro do copo
e hábitos profetizam o futuro passado
ao rasgar caminhos e esfolar joelhos A náusea
nos atinge ao olharmos o outro de soslaio
o lacaio avisa o porteiro indica ao chefe
da corporação em alerta solerte a sorte
invade o castelo No hábito a glória
da continuidade: cravos e espinhos
nas costas em flagelo Secas pancadas
continuadas O corpo emagrece o hábito
é terrível o hálito de quem tem fome.
SILÊNCIOS ABSTRATOS
Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
Dos
múlti-plos silêncios
Surreais
Que
recaem sob nos
Os
mais lancinantes deles
São
as infindas distâncias
Cósmicas
mais-que-perfeitas
Entre
os mortais
E
a deidades imortais
***
Dos
múlti-plos álgidos silêncios
Abissais
Que
recaem sob nos dois
Minha
negra musa
O
que mais dói em mim
É
perceber
A tua pelágica figura
Etérea
Valsando ad aeternum
No
perdido Éden
Sem
mim
***
Dos
múlti-plos abstratos silêncios
Equidistante
Que
recaem sob nos dois
Afro-deusa
O
mais atroz deles
É
a celestial equidistância
Entre
nos dois
FLUTUA
Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
Flutua afro-deusa
Flutua
Negra ninfa enluarada
Nos dias de todos os santos
***
Flutua
Entre a bruma matinal
Entre o aqui
E o acolá
***
Flutua
No alvor de um
Novíssimo dia
Entre as abstratas laranjeiras
E as surreais oliveiras
***
Flutua
Entre-mundos
Magnânima negra rainha
OS TEUS MÚLTI-PLOS SILÊNCIOS
Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
Dos muitos silêncios
Na pós-modernidade
Fluída
Os mais cruéis deles
São os teus múlti-plos
Silêncios
Que recaem inteiros
Em mim
***
Das minhas múlti-plas
Inexistências
No deserto do real
Na realidade fluída
A mais atroz
São as tuas muitas
Inexistências
Na minha vida inexistente
***
Das múlti-plas
Insignificâncias
Na pós-contemporaneidade
Que incidem completamente
Em mim
É o meu quimérico
Amor líquido
Que eu sinto por ti
Celestial negra musa
CARTA Nº 7 - DE TEREZA BATISTA PARA KATTY
Por Urda Alice Klueger (Enseada de Brito, SC)
Oi, Katty:
A gente ainda não se
conheceu formalmente, mas é como se eu já a conhecesse a longo tempo. Sou a
cachorrona da Urda, que sempre saio a passear com coleira e guia, pois no
passado, quando era uma cachorra abandonada e um filhotinho meu foi morto por
um carro, fiquei tão revoltada que saí mordendo uma porção de gente. Daí criei
a fama de cachorra mordedora, e muita gente começou a fazer maldade comigo,
como me jogar pedras e paus, me dar veneno e estourar bombinhas para eu me
assustar. Andava desesperada e então mordi mais gente ainda – um dia, soube que
iam me matar. Daí fui me esconder na casa da Urda e agora isso já faz 18 meses
e nunca mais mordi ninguém. De qualquer forma, continuo saindo de coleira para
evitar qualquer tentação, pois sempre podemos encontrar algum dos meus antigos
desafetos, não? Mas já esqueci de quase todos, menos de um velhinho que, sempre
que me vê ameaça me jogar pedras e eu fico doida para pegá-lo, mas como ele já
tem mais de 80 anos, a Urda e a Maria Antônia sempre dizem para eu esquecer e
me comportar como uma lady. Elas ficam
muito admiradas quando saímos do Canto da Enseada, porque aí nunca quero morder
ninguém, e vamos sempre à Barra do Aririu, à Palhoça, já passei dia na praia do
Sambaqui, lá na capital, junto com o Raul Longo e o cachorrinho dele, o
Chiquinho (cá entre nós, é um cachorrinho de uns 5 kg,
mas ficou apaixonado por mim, que tenho 25 kg!). Já fui, também, ao Natal Luz
da cidade de São José e me diverti muito!
Mas o que eu queria contar era outra coisa. Ontem fomos
todos à Palhoça, tomar vermífugo, o carro lotado de cachorros e gato, e logo
que saímos da nossa rua encontramos, ferido, o cachorro chamado Tijucano, que
não tem dono e é um pouco de cada um. Quando ele apareceu por aqui, abandonado,
veio com sarna, e daí que o chamavam de Sarnento, mas a Urda mudou o nome dele
para Tijucano, porque ela sempre conta que alguém muito distante, que foi a mãe
dela, era daquela cidade, e em Tijucas tem um versinho que diz assim:
“Amarelo da goiaba
Morreu na segunda-feira
Se não fosse a goiaba
Durava a semana inteira”
Como esse cachorro é amarelo com olhos pretos (tem um outro
que é amarelo com olhos verdes, por aqui), ele agora é o Tijucano, e ontem
estava ferido na beira da rua, assim na perna ou no pé. Paramos o carro, mas
era tanto cachorro que não dava para leva-lo junto, e ele ficou para ser
atendido depois. A nossa linda veterinária, a tia Danny, já mandou remédio para
ele – sei que um é para dor, mas há mais dois.
Só que voltamos e... cadê o Tijucano? Tinha sumido, e por
mais que a Urda e a Maria Antônia procurassem pela pasto, pelo mato e pela
praia, ele não apareceu mais. A Urda estava muito triste e rezava para um tal
de São Francisco de Assis, mas ele só apareceu hoje de noitinha, mancando e
morto de fome. Tomou todos os remédios dentro de pedaços de salsicha, sem
cuspir nenhum, como eu faço, e está dormindo aqui em casa, na varanda, num
tapete com dois travesseiros, e vai ficar até melhorar.
É por isto que estou escrevendo. Eu e Zorrilho estamos em
vigília, para ele não entrar em casa, pois onde já se viu um cachorro de rua
querer entrar na “nossa” casa? Estamos em vigília na sala, e então deu tempo
para escrever.
Já ouvi falar muitas coisas boas sobre você e acho que já a
amo. Fico doidinha para conhece-la. Decerto um dia vai dar, não? Deixo muito
amor e não precisa ter medo de mim: a Urda abre a minha boca e tira osso de
dentro dela e eu deixo.
Sua amiga,
Tereza Batista, cansada de guerra.
Cachorra
Sertão de Enseada de Brito, em 30 de novembro de 2018.
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