COM(PAIXÃO)

Por Maria Félix Fontele (Brasília, DF)


QUASE NADA


Por Maria Félix Fontele (Brasília, DF)


HÁBITOS

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)


Hábitos alimentares engordam o corpo

como opas mal cortadas amorfas em cores

distraídas maneiras de dizer: tenho tantos

anos de estudo e letras conversam comigo

enquanto sereias e siriemas agrestes gritam

músicas e não comem no mesmo prato

do profeta Calam o gole dentro do copo

e hábitos profetizam o futuro passado

ao rasgar caminhos e esfolar joelhos A náusea

nos atinge ao olharmos o outro de soslaio

o lacaio avisa o porteiro indica ao chefe

da corporação em alerta solerte a sorte

invade o castelo No hábito a glória

da continuidade: cravos e espinhos

nas costas em flagelo Secas pancadas

continuadas O corpo emagrece o hábito

é terrível o hálito de quem tem fome.


SILÊNCIOS ABSTRATOS


Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

Dos múlti-plos silêncios
 Surreais
Que recaem sob nos
Os mais lancinantes deles
São as infindas distâncias
Cósmicas mais-que-perfeitas
Entre os mortais
E a deidades imortais
***
Dos múlti-plos álgidos silêncios
Abissais
Que recaem sob nos dois
Minha negra musa
O que mais dói em mim
É perceber
 A tua pelágica figura
Etérea 
 Valsando ad aeternum
No perdido Éden
Sem mim
***
Dos múlti-plos abstratos silêncios
Equidistante
Que recaem sob nos dois
Afro-deusa
O mais atroz deles
É a celestial equidistância
Entre nos dois



FLUTUA


Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)


Flutua afro-deusa
Flutua
Negra ninfa enluarada
Nos dias de todos os santos
***
Flutua
Entre a bruma matinal
Entre o aqui
E o acolá
***
Flutua
No alvor de um
 Novíssimo dia
Entre as abstratas laranjeiras
E as surreais oliveiras
***
Flutua
Entre-mundos
Magnânima negra rainha


OS TEUS MÚLTI-PLOS SILÊNCIOS


Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)


Dos muitos silêncios
Na pós-modernidade
Fluída
Os mais cruéis deles
São os teus múlti-plos
 Silêncios
Que recaem inteiros
 Em mim
***
Das minhas múlti-plas
Inexistências
No deserto do real
Na realidade fluída
A mais atroz
São as tuas muitas
 Inexistências
Na minha vida inexistente
***
Das múlti-plas
Insignificâncias
Na pós-contemporaneidade
Que incidem completamente
Em mim
É o meu quimérico
 Amor líquido
Que eu sinto por ti
Celestial negra musa



CARTA Nº 7 - DE TEREZA BATISTA PARA KATTY


Por Urda Alice Klueger (Enseada de Brito, SC)
Oi, Katty:
A gente ainda não se conheceu formalmente, mas é como se eu já a conhecesse a longo tempo. Sou a cachorrona da Urda, que sempre saio a passear com coleira e guia, pois no passado, quando era uma cachorra abandonada e um filhotinho meu foi morto por um carro, fiquei tão revoltada que saí mordendo uma porção de gente. Daí criei a fama de cachorra mordedora, e muita gente começou a fazer maldade comigo, como me jogar pedras e paus, me dar veneno e estourar bombinhas para eu me assustar. Andava desesperada e então mordi mais gente ainda – um dia, soube que iam me matar. Daí fui me esconder na casa da Urda e agora isso já faz 18 meses e nunca mais mordi ninguém. De qualquer forma, continuo saindo de coleira para evitar qualquer tentação, pois sempre podemos encontrar algum dos meus antigos desafetos, não? Mas já esqueci de quase todos, menos de um velhinho que, sempre que me vê ameaça me jogar pedras e eu fico doida para pegá-lo, mas como ele já tem mais de 80 anos, a Urda e a Maria Antônia sempre dizem para eu esquecer e me comportar como uma lady. Elas ficam muito admiradas quando saímos do Canto da Enseada, porque aí nunca quero morder ninguém, e vamos sempre à Barra do Aririu, à Palhoça, já passei dia na praia do Sambaqui, lá na capital, junto com o Raul Longo e o cachorrinho dele, o Chiquinho (cá entre nós, é um cachorrinho de uns 5 kg, mas ficou apaixonado por mim, que tenho 25 kg!). Já fui, também, ao Natal Luz da cidade de São José e me diverti muito!
              Mas o que eu queria contar era outra coisa. Ontem fomos todos à Palhoça, tomar vermífugo, o carro lotado de cachorros e gato, e logo que saímos da nossa rua encontramos, ferido, o cachorro chamado Tijucano, que não tem dono e é um pouco de cada um. Quando ele apareceu por aqui, abandonado, veio com sarna, e daí que o chamavam de Sarnento, mas a Urda mudou o nome dele para Tijucano, porque ela sempre conta que alguém muito distante, que foi a mãe dela, era daquela cidade, e em Tijucas tem um versinho que diz assim:
         “Amarelo da goiaba
         Morreu na segunda-feira
         Se não fosse a goiaba
         Durava a semana inteira”
         Como esse cachorro é amarelo com olhos pretos (tem um outro que é amarelo com olhos verdes, por aqui), ele agora é o Tijucano, e ontem estava ferido na beira da rua, assim na perna ou no pé. Paramos o carro, mas era tanto cachorro que não dava para leva-lo junto, e ele ficou para ser atendido depois. A nossa linda veterinária, a tia Danny, já mandou remédio para ele – sei que um é para dor, mas há mais dois.
         Só que voltamos e... cadê o Tijucano? Tinha sumido, e por mais que a Urda e a Maria Antônia procurassem pela pasto, pelo mato e pela praia, ele não apareceu mais. A Urda estava muito triste e rezava para um tal de São Francisco de Assis, mas ele só apareceu hoje de noitinha, mancando e morto de fome. Tomou todos os remédios dentro de pedaços de salsicha, sem cuspir nenhum, como eu faço, e está dormindo aqui em casa, na varanda, num tapete com dois travesseiros, e vai ficar até melhorar.
         É por isto que estou escrevendo. Eu e Zorrilho estamos em vigília, para ele não entrar em casa, pois onde já se viu um cachorro de rua querer entrar na “nossa” casa? Estamos em vigília na sala, e então deu tempo para escrever. 
         Já ouvi falar muitas coisas boas sobre você e acho que já a amo. Fico doidinha para conhece-la. Decerto um dia vai dar, não? Deixo muito amor e não precisa ter medo de mim: a Urda abre a minha boca e tira osso de dentro dela e eu deixo.
         Sua amiga,

                   Tereza Batista, cansada de guerra.
                   Cachorra

     Sertão de Enseada de Brito, em 30 de novembro de 2018.