ÉRAMOS DEUSES: LÁGRIMAS DE ÉBANO

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)



 Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

‘’’Lyoto encerrou a carreira do Vitor e intimou Bisping,

Não se aposente antes de me enfrentar. ’’

Cássio Ubirajara Pereira


 

Éramos deuses: lágrimas de ébano

 

Para a poetisa Clarisse da Costa

 

A afra-rainha Sibelly refez a mesma pergunta que fizera para si muitas e repetidas vezes, ao longo de tempos imemoriais: — Por que tenho que esperar tanto? Por que esta provação sem fim tem que continuar? — A semideusa estava mesmo muito cansada pela longa e interminável espera; era muito tempo que o aguardava. A negra e fria noite eviterna se abatera sobre ela e não dava sinais de querer ir embora tão cedo. Não que a negra rainha Sibelly se importasse com a equidistância entre eles, pois amava-o tanto e sabia que aquela longa espera iria acabar um dia.

A dor pungente tinha que acabar; aquela dor lancinante tinha que ter um fim. Mas a negra dor da solidão absoluta era muito grande. A semideusa deteve um prolongado e perdido olhar em direção ao seu amado, o místico bardo Adérito Muteia. Era como se fosse a primeira vez que repousava os olhos nele, um olhar que trespassou distâncias astrais inimagináveis. O consorte da negra rainha estava exilado no mundo em vigília.

E naquela hora derradeira, depois de tanto tempo, a imortal afra-rainha rogou aos seus antiquíssimos ancestrais, que reinavam absolutos nas moradas dos astrais deuses imortais das álgidas infinitudes cósmicas. Pois, pela primeira vez, a afra-rainha vislumbrou uma fresta de possibilidade de poder dividir algo real com ele. Foi quando uma lágrima brotou na negra face do mítico vate Adérito Muteia, e outra, na bela face de ébano da negra rainha Sibelly Lopez.

Fragmento do livro: Em dias de sol e calor, em noites de tempestades e frio. Texto de: Clarisse Cristal — poetisa, contista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.

PONTO NULO NO CÉU: CHUVA NEGRA

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)



Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

O vento álgido que soprava forte àquela hora morta fez rodopiar as folhas secas no asfalto negro noturno. Bruno, o militar de baixa patente, contemplou absorto a dança etérea por uns instantes; olhou para cima e viu os relâmpagos que riscavam o céu. Escutou um forte estrando! Depois, levou as mãos à face e notou, nas palmas, pequenas e álgidas gotículas negras. O cabo Marques lembrou dos livros de história, que lera na adolescência, sobre a chuva negra que caiu depois do holocausto nuclear de Hiroshima e Nagasaki. Era uma chuva negra que caía.

O cabo Bruno Marques levou um tempo para processar o que ocorria: se de fato estava sonhando o pior de todos os pesadelos ou se era a hirta realidade que se impunha com toda a ferocidade. Se todo o rigor do impossível, do pouco provável ou mesmo do inimaginável ocorria ali, àquela hora noturna e naquele lugar.

O policial militar, tirou um lenço branco, feito de algodão egípcio, do bolso do uniforme, limpou as mãos e levou a peça imaculada até a face. O delicado tecido africano se recobriu de negro petróleo; então, o policial jogou a pequena peça importada no chão com força. Bruno sentiu algo que passou rápido sobre os seus coturnos. Ele olhou poucos metros à frente e viu um descomunal rato de minúsculos olhos vermelhos reluzentes, no meio do pátio. De repente, uma pequena luz vermelha se fixou no corpo do animal. Um silencioso tiro certeiro, um rápido ganido agonizante e o roedor estava morto.

Bruno olhou para cima, para a torre sul de observação. O sargento Alexander, o franco atirador-mor do coronel de ferro, dava seu pequeno espetáculo tétrico com toda a certeza deste mundo, pensou o cabo. Bruno, por fim, seguiu a sua marcha. Então, uma enorme nuvem de pássaros negros fez um sobrevoo desconexo pelo alto do quartel. A revoada desceu e subiu lentamente; era uma valsa noturna, macabra e muito barulhenta. As negras aves de longas patas finas e bicos alongados — animais exóticos — caíram mortas. Os pequenos corpos sem vida atingiram o pátio do quartel, fazendo um enorme barulho. Bruno ficou atônito e mais uma vez pensou se não estava vivendo um vívido pesadelo. Mas não estava. Retomou a marcha; de um jeito ou de outro, sabia que as respostas para tudo o que ocorria não tardariam.

O cabo, andou poucos metros e parou diante da porta de entrada da administração do batalhão. O cabo Bruno Marques, com os olhos semicerrados, encarou o hall através do vidro blindado. Minutos se passaram até o militar de baixa patente então decidiu, por fim, enfrentar o seu superior hierárquico. A porta abriu-se automaticamente assim que Bruno se aproximou. Numa olhada rápida, o cabo estranhou a solidão do recinto, pois o tenente-coronel Moreira César nunca andava só; quando estava no quartel, era raro ver o militar de alta patente desacompanhado, deveria ter uma ou duas sentinelas a postos ali. Somente andava sozinho quando, era visto perambulando, sem pressa alguma, pelas ruas do centro comercial da cidade. Como um político em plena campanha, parava para conversar com todo mundo, fosse quem fosse. Sempre fardado, pois o coronel nunca era visto sem as suas pomposas e imponentes dragonas ou sem o seu uniforme funcional para dias comuns.

Outro fato curioso: nesses passeios, ele estava sempre desarmado. Eram caminhadas que geralmente ocorriam nos fins de semana e feriados prolongados, sempre em plena luz do dia. Nunca parava para comprar, comer ou beber nada, mesmo que lhe oferecessem. Contudo, na funcionalidade do cargo, era comum vê-lo cercado de pequenos grupos de proeminentes jovens oficiais ou aspirantes ainda mais novos, todos bem armados, municiados e nada discretos. Poucas pessoas se lembravam de ter visto o homem fora da vida militar; o tenente-coronel Moreira César era um completo mistério na sua vida privada — que, de fato, não existia para o público interno ou externo.

Ao percorrer o hall da entrada da sede administrativa do batalhão, ignorando as ordens do sargento Alexander, do serviço secreto da corporação, Bruno se dirigiu com avidez até os elevadores. Aí lembrou que eles provavelmente não funcionavam e preferiu não arriscar ficar preso, mesmo que estivessem em modo mecânico. — Então tenho que enfrentar de novo as obsoletas escadas? Que seja o que Deus quiser e o que esse excêntrico quiser — disse em voz baixa.

Andou até o final do corredor vazio, na semiescuridão das luzes de segurança. Ao alcançar as escadarias, deu passos firmes e desapareceu na escuridão absoluta, pois ali, diferente do hall, as tênues luzes de emergência não funcionavam. Subiu trôpego por três andares até chegar ao topo, no andar do tenente-coronel, onde a iluminação de emergência estava operante.

Bruno percorreu o corredor do último andar do prédio secular, parou ao final do corredor e contemplou o espaço minúsculo através de uma parede de vidro temperado verde-fumê, o que ficou na mente do militar de baixa patente que o escritório do tenente-coronel era maior. O cabo Bruno vislumbrou o sombrio escritório de despachos do temido Moreira César. O àquela hora, o local estava longe de parecer o escritório de alguém que emanava poder. Era pequeno, nada funcional e totalmente obsoleto, com uma velha escrivaninha estilo clássico europeu de bronze e marchetaria, ladeada por um arquivo de aço de quatro gavetas. Havia também a pequena mesa do ajudante de ordens, com uma velha máquina de escrever Manzer, importada. Outro fato que chamou a atenção do cabo foi a sala estar bem iluminada, um contraste com o resto do prédio. — Onde está a dita besta-fera? — disse Bruno para si. Foi quando uma mão gelada tocou-lhe o ombro esquerdo de forma furtiva.

— Boa noite, cabo Bruno! — disse amavelmente o tenente-coronel ao sair das sombras e ao ver o cabo, que entrou em posição de sentido, Moreira Cesar se aproximou e emendou: — Descanse, cabo. Nada de formalismo marcial, pelo menos hoje. Meu bom amigo, não temos tempo para isto. Moreira César falava de forma álgida ao pé do ouvido do jovem militar, que bateu os calcanhares e prestou continência imediatamente após ouvir as primeiras palavras do superior. O tenente-coronel ergueu a mão direita e as portas de vidro se abriram. Para Bruno, parecia que os portais do paraíso haviam se aberto.

— Vamos entrar. Apetece-me que faça um relato oral dos seus tediosos e precisos relatórios burocráticos passados. Quero saber profundamente o que são esses tais pontos cegos, ou melhor, como você mesmo descreveu: pontos nulos no céu!

Com o braço do oficial erguido apontando para dentro do escritório, Bruno não teve alternativa senão entrar no bunker do coronel. Ao entrar, sentiu a temperatura despencar.

— Sente-se, cabo. É uma ordem! — disse Moreira César, apontando para uma cadeira à frente da escrivaninha.

 — Então, coronel? Começo por onde? — disse Bruno que tinha acabado de se sentar na rústica e bela cadeira, estranhamente confortável para uma peça de museu. O tenente-coronel estava de costas, buscando algo sobre o arquivo de aço. Ao se virar, trazia uma caixa de charutos ricamente decorada em uma mão e dois copos de uísque na outra. Bruno ficou atento; nunca vira um oficial de alta patente quebrar o protocolo daquela forma com um praça, nem em eventos íntimos.

O oficial sorriu — um sorriso sádico, na interpretação de Bruno. O homem era da velha guarda, adepto da força bruta e com pouco tempo para estratégias elaboradas. Moreira César parecia deslocado no tempo e no espaço em relação à geração do cabo. Ele se sentou lentamente e colocou a caixa de charutos entalhada na mesa. Bruno, absorto com o objeto que remetia ao Caribe dos anos 50, demorou a notar uma cadeira de rodas no canto — uma peça cara, do tipo usado para pacientes abastados em passeios de outono.

Bruno Marques se lembrou de um rumor antigo sobre um acidente nebuloso envolvendo a esposa de Moreira César e um militar de baixa patente que fazia a sua segurança. A mulher, de família abastada, foi para em uma cadeira de rodas e o tal militar acabara morto. Bruno sentiu um cheiro forte de pólvora queimada no ar; a morte parecia ter invadido o lugar.

— Sabe de uma coisa, cabo Marques? O meu falecido pai, que também era militar, sempre dizia que primeiro vêm as obrigações e muito depois as diversões. Mas hoje não, meu amigo. Hoje não mesmo! — O oficial sacou por de baixo da escrivaninha uma garrafa de uísque importado e encheu os copos. — Prefiro à americana: puro e sem gelo. Beba, cabo, é por conta da casa. A Viúva é quem paga a conta hoje — disse, referindo-se ao poder público. — Sabe, é uma coincidência incrível: lidei com outro cabo chamado Bruno que me serviu como ajudante de ordens. Decepcionou-me muito. Era um jovem de futuro brilhante, mas que teve a carreira abreviada por uma tragédia particular. Deixemos o outro cabo Bruno entre os mortos e saudemos a vida entre os vivos.

Moreira César pensou na Condessa Fá Rodrigues Butler naquele momento. Desejou que a afra rainha Sibelly Lopez a jogasse pela vidraça do alto de uma daquelas torres onde a condessa vivia. Imaginou a cena em câmera lenta. Mas, por hora, tinha um problema para resolver: um dos subprodutos das traquitanas noturnas da Condessa escocesa-espanhola. E o problema estava parado à sua frente.

— O que estou fazendo aqui, coronel? — perguntou Bruno.

— Aproveite a viagem, apenas isto. O destino final é só um detalhe desagradável no nosso caso hoje — disse o oficial, erguendo o copo. Os copos de cristal tilintaram.

Moreira César parecia arrastar aquele teatro bufo para se divertir, diante de um subalterno. O prólogo seria longo, mas o desfecho, rápido, conforme as ordens específicas que recebera. Eles beberam; o uísque desceu macio. O coronel cortou dois charutos cubanos com precisão e acendeu o de Bruno, depois levou o seu a boca, tirou um isqueiro butano do bolso do uniforme, ascendeu e levou a peça de prata ao charuto de Bruno e depois ascendeu o seu charuto.

— Veja, cabo! Já chego lá. Quero falar sobre os desígnios da natureza. Um deles é o equilíbrio; tudo é regido por isso. A busca pela equidistância perfeita entre polos opostos. Assim disse um filósofo grego.

  A fala arrastada e professoral irritou Bruno.

 — Não entendo, coronel...

— Escute, cabo! O equilíbrio é assim: "Toda ação provoca uma reação de igual ou maior intensidade, mesma direção e sentido contrário". É uma lei simples da física que rege a nossa realidade. No submundo, pequenos delitos geralmente passam despercebidos; impunes, depois os pequenos infratores partem para escalas maiores, com o passar do tempo. Li a sua ficha; você é versado em ciência criminal e estatística. E bem poderia ter progredido mais na carreira, penso eu.

Moreira César exalou uma baforada nada discreta. Na sua mente, brotou a imagem do antigo ajudante de ordens nu, na cama com a sua esposa. A imagem veio como uma sentença severa. Um resquício de humanidade ainda pairava ali, por mais que estivesse enterrado no âmago enegrecido do homem de armas. O tenente-coronel levantou-se, pegou três pastas encadernadas da escrivaninha enferrujada e voltou a sentar-se em silêncio. Jogou a primeira pasta sobre a mesa; o barulho ecoou na sala.

— Não preciso dizer o óbvio, preciso? Primeiro ato: Kriseide. Foi o seu primeiro trabalho infiltrado, não foi?

Bruno, embora atônito, decidiu entrar no jogo.

— Se é para ser óbvio, o serei! Sim, foi meu primeiro caso infiltrado. E o senhor sabe que investigações de pós-crime não são das nossas atribuições, a menos que investiguemos a nós mesmos. Sim, eu redigi o relatório Kriseide.

Bruno estava curioso para saber onde Moreira César queria chegar ao desenterrar aquela aberração sobrenatural dos arquivos da burocracia.

— E o caso Kriseide estava ligado à corporação, não estava? — perguntou o tenente-coronel de forma incisiva.

— Sim. A arma que matou o promotor Fábio Ramos pertencia ao nosso arsenal. Até hoje não sei por que tive que redigir o texto em máquina de escrever e levá-lo direto ao Estado-Maior, quebrando a cadeia de comando.

— Um bom soldado nunca questiona ordens, cabo! E vejo um relatório cheio de lacunas.    — Não poderia ser diferente. Kriseide era uma cigana da tribo Caló; não descobrimos mais nada sobre a vida pregressa dela. O promotor Fábio Ramos a matou Acácio Caetano, o amasio dela, um pescador artesanal, o promotor o matou com as próprias mãos, desafiando as probabilidades. Um advogado engomado contra um homem do mar. Depois de solto, o promotor foi achado morto ao lado de uma pistola Taurus .40 da corporação que nem constava como saída do depósito. Especulo que um oficial de alta patente a emprestou para defesa pessoal. Como estamos até aqui?

— Segundo ato: Otto Kürten Wagner Van Petter Meisel — disse ríspido o coronel.

— Uma figura menor do submundo, desconhecida até aquela execução em praça pública. Ele voava abaixo do radar. Foi o início da nossa vigilância eletrônica de alta tecnologia. Otto era um traficante que flertava com a submundo da prostituição. Era excêntrico, poliglota, com contatos mundiais para um bandido pé de chinelo. Fazia reuniões em vários idiomas em plena praça, perto do porto. Até o incidente...

— O que não está no relatório, Bruno? — perguntou incisivo Moreira Cesar. 

— O corte cirúrgico na carótida dele, parecia de médico usando um bisturi. E teve o pulso eletromagnético: um campo magnético que queimou todos os aparelhos num raio de trezentos metros no ato do crime.

 — E o que mais? — perguntou de forma amena Moreira Cesar

 — Elias Grael, o dono do carrinho de cachorro-quente, não foi atingido pelo pulso. Dizem que ele era nosso informante.

— Terceiro ato: Adérito Muteia, o exilado luso-africano! — o tom agora era sutil.

— Uma figura ímpar. Nunca vi alguém tão inocente e tão culpado ao mesmo tempo. O homem era mais puro que um bebê recém-nascido, e isso justificava a vigilância: grandes criminosos costumam posar de bons homens e mulheres. Mas o real motivo de eu estar aqui é que eu sou o único elo entre os casos. Eu fiz as vigilâncias, eu redigi os relatórios. No caso Kriseide, só compilei dados de uma equipe que eu nem conhecia, supervisionada por alguém do Estado-Maior. Ninguém assina esses relatórios, coronel. Nem timbre eles têm.

— Esperava mais da sua memória eidética, cabo — disse Moreira César, enfadado.

— Então vamos apelar para ela: o policial do arsenal que liberou a arma do caso Kriseide é o mesmo que estava sob suspeita de envolvimento com Otto Kürten. E tem o quarto ato: os três policiais dizimados na praia deserta na mesma hora em que Otto era executado. A viatura deles também foi atingida por um pulso eletromagnético. O que faço aqui de fato, coronel? — perguntou Bruno, nervoso.

De repente, uma mulher loira de meia-idade saiu das sombras atrás do coronel. Ela sorriu para Bruno. Segurou a testa de Moreira César com uma mão e, com a outra, usou um bisturi para cortar a garganta do oficial. Um jato quente cobriu o cabo. Bruno viu uma tatuagem no braço da mulher: Agnes.

— Cabo! Cabo Bruno! — as pontas dos dedos gélidos do coronel sacudiam o ombro de Bruno. — Acorde, homem! Estamos quase no fim.

Bruno lembrou do nome. Agnes era outro elo. O capo Bruno Marques estava exausto.

— Quem é Agnes? Vou sair vivo daqui coronel? — sussurrou o cabo Bruno.

 — Paciência homem! — Moreira César levantou-se e pegou um relatório de capa branca: José Carlos Couto. Jogou-o na mesa com fúria. — Este é o marco zero, o princípio de tudo!

Bruno lembrou: José Carlos era um bêbado folclórico típico de bairro de periferia e de cidade pequenas.

— Apareceu morto, boiando no rio... É o primeiro pequeno delito? — perguntou Bruno.

— O Big Bang, cabo! A morte dessa figura opaca é o elo que liga seus relatórios aos pulsos magnéticos que inutilizam nossa tecnologia. Os pontos nulos no céu. Que o senhor nominou nos vossos relatórios! — disse o tenente-coronel.

— O homem pulou da ponte, coronel. Só isso! — ponderou o cabo Bruno.

— E as luzes da ponte queimaram no mesmo instante! Um corpo nas águas não é mais que um anônimo que deu um passo para a morte. É algo maior! Mas o passo seguinte é o que tu farás por nós. Você vai matar alguém. Não um anônimo qualquer. Agora vá para casa, não se comunique com ninguém, ninguém e aguarde ordens. Saia! É uma ordem cabo Bruno Marques! Vá! — gritou o coronel Moreira Cesar, que levantou da cadeira e apontou para porta.

Uma onda de energia atingiu Bruno, as luzes do escritório faiscaram e explodiram. Marques trôpego saiu do escritório. Poucos metros depois, o cabo ouviu o som abafado de um disparo de arma antiga e o baque de um corpo caindo. O cabo ficou aterrado, a poucos metros do sombrio bunker do coronel.

 

Fragmento do livro: Em dias de sol e calor, em noites de tempestades e frio. Texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.

A ARTE DIGITAL DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)










QUANDO TUDO TERMINAR (SEGUNDA PARTE)

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)





Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

Então toda a minha existência justificar-se-ia

E então eu me perderia na imensidão dos teus olhos

De um verde tão intenso.

E eu saberia, com toda a certeza,

Que já não posso viver sem você...

Sem tua doce presença na minha vida.

 

O aroma de alfazema pairava no ar, misturando-se à música romântica francesa antiga. A tênue luz vermelha do abajur deixava o quarto encoberto por mistérios à meia-luz. Roupas espalhadas por toda parte compunham o ambiente. Para os dois amantes clandestinos, não havia nada a dizer; o silêncio falava por si, e falava alto.

Ficaram abraçados na cama por mais tempo que o habitual, o que pareceu uma eternidade para ambos. Agnes bem sabia que aquilo não podia, nem devia, durar muito. Otto Meisel também sentia que as coisas não ficariam como estavam. Ele queria dizer algo, mas as palavras nasciam e morriam rápido demais em sua mente. Nos últimos dias, Agnes nem sequer dera espaço para a conversa, que deveriam ter. Mas o problema existia e ela, pragmática e profissional, decidira pôr fim à história de uma vez por todas. Conhecia Otto, o suficiente para saber onde golpear: seria abaixo da cintura, no momento exato em que ele estava fragilizado, cheio de culpas e remorsos.

— Amanhã mesmo, assim que o dia raiar, apareço no teu trabalho. E tu vai me preparar um senhor café da manhã, seu canalha, aproveitador miserável, desgraçado maldito. Vou querer ser servida por aquele teu amiguinho muito especial. Que tal torradas e chá com conhaque canadense? E pra Cigana, pão de mel e café morno sem açúcar, um limão cortado ao meio e dois saquinhos de adoçante importado. E tu vai nos servir, mais ninguém.

Não era do perfil de Agnes ser grosseira com clientes, fossem habituais ou ocasionais, mas aquilo precisava de um fim absoluto. Não podia sobrar uma centelha sequer da relação que construíra com Otto; era ruim para ambos. Agnes conhecia a sua realidade e não queria ilusões.

— Se tu fizeres isso, sua puta desgraçada, eu te mato! Tu sabes que a minha mulher trabalha comigo, não sabes? — esbravejou Otto. Ele ainda a abraçava com terno carinho, apesar do tom áspero e das palavras duras.

— Não! Eu não sabia... — A voz dela soou como um lamento sincero, um pedido de desculpas que camuflava a mentira.

— Pois agora tu sabes! Te mato se puser os pés lá. Mato tu e aquela tua amiga ordinária! — retrucou o teuto com todo o ódio do mundo, sem conseguir olhar nos olhos dela.

Lá fora, a noite se despedia lentamente. O dia vinha com as suas múltiplas possibilidades para expulsar Agnes da vida de Otto e Otto da cama de Agnes. Dessa vez, era para sempre. Ou, pelo menos, era o que ambos imaginavam.

 

EDITORIAL

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 8 (Agosto / 2026)



Por Paccelli M. Zahler, editor (Brasília, DF)

ISNI 0000 0005 3053 7228

A edição de agosto da Revista Cerrado Cultural reafirma o compromisso que orienta este projeto desde sua criação: oferecer ao leitor um espaço de circulação da literatura, da arte e da reflexão contemporânea. Em um ambiente digital marcado pela velocidade e pela dispersão, escolhemos seguir pelo caminho da consistência editorial, da curadoria cuidadosa e da valorização da produção cultural em suas múltiplas expressões.

Nesta edição, reunimos conteúdos que dialogam com temas essenciais do nosso tempo — da poesia às artes visuais, da cultura digital às questões identitárias, das narrativas breves às reflexões sobre espiritualidade e sociedade. A diversidade de vozes e perspectivas reforça nossa missão de ampliar horizontes e promover encontros significativos entre autores, leitores e artistas.

Que esta edição de agosto acompanhe você — seja na leitura breve de um poema, na contemplação de uma fotografia ou na reflexão mais profunda de um ensaio.

A Revista Cerrado Cultural segue adiante com responsabilidade editorial, respeito ao leitor e dedicação à cultura.



CRUZ

Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 8 (Agosto / 2026)



Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

A cruz, assim como uma faca ou uma forca, foi instrumento de tortura e morte, usado durante o tempo do violento Império Romano. Era destinada aos condenados pelas autoridades, escravos rebeldes, criminosos perigosos, piratas, inimigos que aplicariam golpes ao Estado. Só as pessoas de condição social inferior eram crucificadas, açoitadas, obrigadas a carregar a trave horizontal da cruz no ombro até a chegada ao local de execução. Depois eram pregadas ou amarradas na cruz, deixadas expostas para morrerem lentamente. Um suplício por horas ou dias. Uma humilhação. Uma advertência pública de intimidação para quem desafiasse o poder. Aquela crueldade seria a consequência.

Imaginemos as estradas, as colinas, os montes, os portais da cidade por onde entravam viajantes e comerciantes, cheios de cruzes fincadas no solo. Que espetáculo de terror. Depois da revolta liderada por Espártaco, por exemplo, cerca de mil escravos foram crucificados ao longo da Via Ápia.

Foram cinco séculos de crucificação: desde o período da República, passando pelos reinados dos imperadores Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio, Nero, Vespasiano e Tito. Era assim que exerciam o controle.

A cruz aparece em diversos textos da literatura latina. O filósofo Sêneca (c.

4 a. C- 65 d. C.) observa que havia formas diferentes de crucificar, como neste trecho:

“Vejo cruzes, não de um só tipo, mas feitas de diferentes maneiras, alguns têm a cabeça para baixo, outros são empalados pelas partes íntimas; outros estendem os braços no patíbulo.” Em Cartas a Lucílio, acrescenta que a cruz é o limite da dor física. Cícero (106-43 a. C) mencionou a cruz diversas vezes sem seus discursos, afirmando:

 “A própria palavra ‘cruz’ deve estar longe não apenas do corpo de um cidadão romano, mas também de seus pensamentos, seus olhos e seus ouvidos.” O historiador Tácito (c.56- 120 d. C) confirma e execução de um tal Jesus, da cidade de Nazaré, na obra Anais, ao registrar: “Cristo, de quem deriva esse nome, sofreu a pena extrema durante o reinado de Tibério, por sentença do procurador Pôncio Pilatos.”

Mas foi Petrônio (60-65 d. C.), árbitro da elegância na corte de Nero, no seu livro Satiricon, um romance picaresco, cheio de humor, erotismo, que revela os costumes e a linguagem da sociedade romana do século I, que encontramos o episódio conhecido como “A Matrona de Éfeso”. A cruz aqui não tem sentido religioso. Reflete a realidade cotidiana daquela sociedade sangrenta. A cruz como punição extrema, vergonhosa, degradante. Conta que uma viúva permanecia no túmulo do marido, decidida a morrer de tristeza. Perto dali criminosos haviam sido crucificados e um soldado vigiava os corpos para que não fossem retirados. O soldado se apaixona pela viúva e abandona o seu posto.

Um dos corpos desaparece da cruz, levado, provavelmente, por familiares. O soldado entra em desespero. A falha na missão poderia custar-lhe a vida. A viúva sugere que se retire o cadáver do marido do túmulo e o pendurassem na cruz. Afinal, amava o marido e o amante.

Escritores como James Joyce, Proust e Jorge Luís Borges admiravam o Satiricon, de Petrônio. O célebre filme Fellini Satiricon dirigido por Federico Fellini (1920-1993) teve esse livro como base. Cenas de corrupção, tormentos físicos e psicológicos, intrigas palacianas, banquetes e orgias lembram o ambiente e as questões contemporâneas.

É nesse contexto que Jesus foi crucificado sob a acusação política de se apresentar como “Rei dos Judeus”. Quando aconteceu essa mudança de percepção dacruz na história do Ocidente? Que loucura, que insensatez, que impacto levaram um cidadão romano como Paulo a declarar que pregava “Cristo crucificado”? Um verdadeiro escândalo para os valores daquela nação. Um acontecimento surpreendente.

A cruz passara de infâmia a redenção, a símbolo de sacrifício, amor, esperança, salvação. O homem capaz de impor crucificação ao próprio homem poderia por esse caminho reconciliar-se com Deus? A História foi abalada em seus alicerces, partida em dois períodos: antes e depois da cruz.

Descrevi a cena da crucificação neste poema:

 

Jesus ensanguentado,

Carregando o madeiro,

A coroa de espinhos na cabeça;

Fisionomias assustadas,

Satânicas,

Nuvens de pó,

De cuspe

E suor;

Jesus suspenso na cruz

Como um fruto de carne,

Os pregos perfurando as juntas.

 

Como se pode morrer assim?

Como uma ovelha?

Como um peixe que se retalha?

Como uma criança inocente

Massacrada numa batalha?

Ah! Será que podemos ainda

Oferecer-lhe água?

Tocar em seu manto?

 

Tecer para ele uma mortalha?

 

Será que depois de tantos séculos

Ainda somos esse povo que desama?

Essa turba assassina?

Essa gentalha?

 

Carrego uma carga pesada nos ombros, em meio a tribulações. Agora cheguei a um ponto de passagem, uma encruzilhada, duas linhas que se intersectam.

Terei que fazer uma escolha, uma mudança a essa altura da vida. Dou o primeiro passo?

A ODISSEIA: O POEMA E O FILME

 Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 8 (Agosto / 2026)



Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

A autoria da Odisseia, poema épico fundador da literatura ocidental, é atribuída ao poeta Homero, da Grécia Antiga (928 a. C.- 898 a. C). Há muitas polêmicas sobre sua real existência histórica, mas ele é a personificação coletiva de toda a memória dos gregos, a culminância de séculos de histórias contadas oralmente.

A Odisseia narra a perigosa jornada de dez anos do herói Odisseu, também conhecido como Ulisses, para retornar à sua casa na ilha de Ítaca, após a guerra de Tróia, enquanto sua esposa, Penélope, resiste aos pretendentes estrangeiros que não desejavam somente o seu amor, mas o poder de seu reino. Penélope não é ingênua. Ela tem um pensamento político. Não quer entregar o governo a estranhos, que, certamente, matariam o seu filho, Telêmaco. E assim, bordando um sudário, aguarda a chegada improvável de seu amado Odisseu.

A partir dessa história, “odisseia” passa a ser sinônimo de travessia longa, cheia de aventuras, provações, percalços, perigos. O homem atirado ao mar dá vida, enfrentando ciladas, tempestades noturnas, contando exclusivamente com sua inteligência e astúcia. Visando o seu autoconhecimento. Alcançando o fundo de sua consciência.

A Odisseia continua inspirando o cinema contemporâneo. O filme “A Odisseia” de Christopher Nolan (1970), diretor, roteirista e produtor britânico, é grandioso, bárbaro, melancólico. Odisseu é interpretado com força contida por Matt Damon; Anne Hathaway é uma altiva Penélope e Tom Holland, um jovem atordoado e confuso Telêmaco, em busca de sua identidade. Mas a maior controvérsia é uma Helena de Tróia negra, encarnada na pele luzidia de Lupita Nyong’o. Surge o debate: Helena sempre foi mostrada com pele e cabelos claros. Homero não a descreve fisicamente em detalhes. Deixa que cada leitor imagine o seu ideal de beleza. Uma Helena negra revelaria a presença de etíopes entre os gregos. Uma deusa de ébano incorporando as trágicas irmãs gêmeas, Helena e Clitemnestra, esposa vingativa de Agamenon. A pesquisa, no entanto, remete ao fato de que Helena era prima de Penélope. Christopher Nolan deu um toque ousado e poético com essa escolha.

Os cenários são reais, locações espalhadas pela Europa e Norte da África. E todas as fabulosas fantasias transpondo a realidade para o plano místico estão lá: os furacões que inundam e partem os navios ao meio; sereias sedutoras e fatais, com suas vozes que puxam os viajantes para a morte; ninfas que tentam manter Odisseu prisioneiro, como Calipso, ofertando-lhe a flor azul e alucinógena de lótus; Circe, a feiticeira envelhecida no ódio e na maldade, horrenda, arrancando com as próprias mãos os espíritos de porcos encravados nos homens; a alma do adivinho Tirésias, entre zumbis bebedores de sangue. Odisseu guerreiro, de instinto prático, indomável, estrategista, artesão, criatura e criador, capaz de tecer redes, de moldar armas e reconstruir navios.

Sufocando sua emoção ao rever Penélope, Odisseu usa de um ardil para combater os famigerados pretendentes instalados no seu palácio. Entra no território inimigo disfarçado de mendigo. Evita o peito aberto. Infiltra-se. Luta corpo a corpo. O final é feliz. Penélope e Odisseu embarcando num navio rumo ao sol poente. O eterno convívio do grego com o mar. Com a sede de expansão do sonho de alargamento de fronteiras geográficas e psíquicas.

Um filme como “A Odisseia” faz repensar a necessidade de nos arremessarmos ao desconhecido, aos mares e ao espaço, com coragem e esperança. Algo extraordinário, potente. A luta contra o fatalismo do Destino, tendo a razão como única bússola.

Pensando em Odisseu, escrevi um poema erótico, na voz de uma sereia:

 

Vem, Odisseu,

Detém teu barco,

Sou sereia sedutora,

Sirena suave

Que atrai para o abismo.

 

Vem, meu navegante,

Para a minha caverna,

Minha gruta secreta

Onde te devoro

E te encanto.

 

Vem, meu bravo,

Venceste Tróia

Com tua astúcia,

Descansa em minha ilha,

Entre penhascos negros

E precipícios de espumas.

 

Vem,

Sou sereia,

 

Cauda de peixe,

Toda vulva,

Estranho molusco

Que te descarna

E te sepulta

Nos baixios do mar.