VIVO A SEGUIR-TE

Por Vivaldo Terres (Itajaí, SC)

Quando vejo- te longe já me encantas,
E fico a notar o teu perfil.
Este corpo a caminhar sem muita pressa.
Mas com classe que impressiona e que seduz
Sinto em minhalma um vazio.
***
És de todas a mais bela que conheço,
Teu encanto me acelera o coração.
As curvas do teu corpo são diferentes,
Que mais se assemelha a perfeição.
***
Vivo a seguir-te pela vida,
Por caminhos aonde vais que nem conheço.
Procuro te espiar de longe,
Pois me aproximar de ti não tenho jeito.

SOMOS MAUS E HIPÓCRITAS

 Por Humberto Pinho da Silva (Vila Nova de Gaia, Portugal)

A maioria das pessoas declaram: todos os homens são iguais: raça, religião, posição social, não é motivo de se apartarem.
Mas será que falam verdade?
Tirando excepções – sempre as há, – a maioria assevera o que é politicamente correcto.
Usam palavras, ritos, formalismos, que estão na moda. Pretendem enganar-se ou enganarem os outros? Não sei.
Dizem que não são racistas; e realmente não são, desde que tudo se passe longe e com os outros…
Mas, se filho ou filha, pretendem namorar alguém de raça diferente, a atitude muda.
No Brasil, durante anos – e ainda, infelizmente, acontece, – famílias de raízes orientais, não aceitavam casamentos mistos.
Recordo – nos anos setenta, – a mocinha que foi morta pelo pai, porque teimava namorar jovem de religião diferente da sua!...
Os homens são todos iguais…mas há, uns, mais iguais do que outros…
No tempo de juventude, tive colega no liceu, que viu o namorico terminar, porque a mocinha não queria unir-se ao filho de um polícia…
Ela pertencia a família de doutores…
Salazar não pode casar com a filha dos Perestrelos, apesar de ser professor notável, e a menina nutrir grande afeição por ele, porque era filho do feitor! …
-“ Olha António: nós somos muito teus amigos, e temos razões para isso. Tu tens sido um rapaz exemplar e a tua inteligência deve levar-te longe. Isso agrada-nos muito; mas, apesar de tudo, lembra-te de que para nós hás-de ser sempre o filho do nosso feitor.” – Palavras de D. Maria Luiza, mãe da menina. (O Príncipe Encarcerado de Barradas de Oliveira)
Quantos descendentes de humildes cavadores do campo, uma vez obtido grau académico superior, esquecem os companheiros de infância, que não tiveram igual sorte?
Até filhos, há, que escondem a origem modesta dos progenitores! …
Cada qual pensa, consoante a posição que ocupa no xadrez da vida. O povo diz – e diz com razão: “ Se queres conhecer o vilão, mete-lhe a vara na mão.” E Millôr Fernandes, definia, formas de governo, deste modo: “ Democracia, é quando eu mando em você. Ditadura, é quando você manda em mim.”
Amigo meu, dizia que os comunistas deviam ser muito felizes no amor…porque nunca ouvira dizer, que distribuíssem – pelo menos parte, – do que lhes saia, na lotaria…Nesse tempo não havia euromilhões.
O modo de pensar e agir, depende, quase sempre, das condições económicas, e do lugar que se ocupa na sociedade.
Os republicanos – nem todos, – invejam a fidalguia, porque não nasceram em família nobre. Todavia, na República, há verdadeiras dinastias. “ É a nobreza republicana…”, dizia, com graça, velha fidalga.
Em suma: asseveramos o que é de bom-tom afirmar; mas, no íntimo, por trás de cada frase, de cada palavra, muitas vezes, há outra frase, outra palavra…outro pensamento.
Queremos parecer: democratas, descomplexados, amigos de todos, e compreensivos; mas – salvo almas santas, – pouco nos importa o bem ou o mal dos outros…
“ Não preciso dele para nada!”, declarava jovem universitário, ao pai, quando este recomendava visitar velho amigo de escola; e realmente não precisava, porque se precisasse, apresava-se a telefonar, e a convida-lo para almoçar…
Como somos egoístas e maus!


TE ESPEREI

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

Eu te esperei à porta
Aprisionada ao meu desejo.
Não ouvi seus passos
Nem sua voz
A me chamar;
Fiquei
Com o teu silêncio
E o relógio a anunciar
O tempo que
Fiquei te esperando.

ALMA MATTHER (POEMA MÃE)

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

                                                                                                       Para Lara Alves e Laura Nogueira Alves
Alma pura!
Em sonho de liberdade.
Entre retratos em branco e preto!
Um sonho... Uma vida!
***
Acorda e sonha...
Um sonho de mulher
Que grita:
- Sonho em ser Mãe!
***
Alma Matther em transcendência!
Alma pura que diz:
- Quero ser Mãe!
***
Um sonho de mulher.
Alma pura que brada...
Aos quatro ventos:
- Vou ser mãe!

DONA LAVÍNIA E O GINO

Por Urda Alice Klueger (Blumenau, SC)                             

(Excerto do livro “No tempo da Ana Bugra”, publicado em 2016)


Quando o meu pai e o seu sócio desfizeram os negócios, na Praia de Camboriú, ele logo veio para Blumenau para recomeçar a trabalhar no velho emprego e arranjar casa para nós, e a minha mãe com suas crianças moramos algum tempo na Vila Real, Camboriú, na casa da dona Lavínia, antiga cozinheira do nosso restaurante. Penso agora que nunca soube o sobrenome da dona Lavínia, embora tivesse continuado a visitá-la pela vida afora, até muito próximo da sua morte, e me lembrar dela como alguém que fazia comidas deliciosíssimas, como uma carne assada de panela que comi na casa dela muito pouco antes de ela vir a falecer. Maga da cozinha, dona Lavínia também ficou na minha memória como uma mulher de grande coragem, por dois motivos: um deles era a falta de respeito que ela tinha para com as religiões africanas que existem no Brasil: viúva, com diversos filhos para criar, enquanto caminhava, de manhã cedo, pela Praia de Camboriú, para vir trabalhar, encontrava belas oferendas feitas aos orixás africanos, e não tinha a menor dúvida: ensacava as galinhas assadas ou outros quitutes que houvessem sido deixados nos lugares das cerimônias noturnas, e sem nenhum constrangimento levava aquelas iguarias para os jantares com os seus filhos.
                          A outra coisa que me suscitava admiração era a sua coragem diante das águas. Enquanto estivemos morando na casa dela, ela resolveu fazer uma cerca nova, e para tal precisava de bambus novos, muitas canoas cheias de bons bambus novos. Então, nas manhãs, munida de um facão, ela entrava numa canoa ancorada no rio próximo, e remava para algum lugar remoto onde havia grandes bambuais à beira do rio. Voltava nas tardes com a canoa chapada de feixes de bambu, e depois que houve bambus suficientes, ela refez toda a cerca em torno da sua propriedade, uma coisa que me impressionou deveras.
                          Nesse tempo em que moramos na casa da dona Lavínia, o meu pai vinha nos ver nos seus dias de folga, e era uma alegria muito grande escutar a sua chegada, vê-lo de novo com a gente! Estava difícil conseguir uma casa – essas coisas de falta de moradias no terceiro mundo, pelo jeito, são endêmicas. Então um dia ele veio dizendo que o nosso tio Júlio Klueger estava nos cedendo para morar a antiga casa do seu boleeiro. Tio Júlio, dono de vistosa parelha de cavalos, que lembro, marrons, tinha um “carro de mola na praça”, o que equivale a dizer que tinha um antepassado de um táxi puxado a cavalo, e assim como os táxis de hoje precisam de motoristas, os carros de mola precisavam de boleeiros para guiá-los. Então, num certo pedaço de terra do tio Júlio, havia uma casinha onde tradicionalmente morava um boleeiro dele com sua família. Penso, agora, que aquela casinha estava vazia porque tio Júlio deixara de ter o carro “na praça”, mas não tenho certeza. Também não sei quem foi o último boleeiro que ocupou aquela casa – mas tenho lembrança de um boleeiro anterior, chamado Gino, que fazia coisas insólitas para a nossa cabeça tacanha, como ir dormir na grama dos pastos circundantes nas noites de grande calor.
                                 

                                               Escrito em julho de 2010, época de grande frio.

NO DIA DA MÃE, É BOM RECORDAR: UMA MÃE COMO POUCAS!

Por Humberto Pinho da Silva (Vila Nova de Gaia, Portugal)

Genciana é a caçulinha querida de velho e austero médico do interior. É ainda adolescente. Adolescente, robusta e fogosa. O rosto, é trigueiro; a pele: macia e sedosa.
Mudara-se, recentemente, para os subúrbios, para casa bem construída e bem espaçosa.
O pai, jaz no leito, vítima de doença, que não costuma perdoar.
 Estirado na cama, o velho médico, é um homem triste, desolado. A barba escurece-lhe e azula-lhe as faces amarelecidas. Desanimada, a mulher, olha-o angustiada. Está compungida. O doente parece dormir, mas pressentindo gente, descerra levemente as pálpebras envelhecidas.
Circunvaga, desalentado, a vista pelo quarto, que permanece em repousante penumbra, e, volvendo os olhos embaciados, para a esposa, numa expressão dolorosa, profere apagado e triste sussurro:
- “ O que será de meus filhos! … Meu Deus! … Tão novos! … e tão desamparados! …”
A mulher consola-o. Incute-lhe animo. No íntimo, sabe, que é caso quase perdido. Só um milagre…mas milagres raramente acontecem…
Está desolada. Receia ficar só, com um ranchinho de filhos…Ela, que sempre se apoiou no marido, encontra-se na iminência de ficar com escassa pensão, e rendimentos de poucos bens herdados.
Genciana pressente o drama, mas pensa, confia – confia em quê?!Nem ela sabe em quê, - que o pai seja imortal.
Está feliz: tem casa nova e tem quarto novo, que reparte com a irmã.
Genciana tem um primo. O primo Alberto. É um jovem tímido, de olhar vago e triste. Seus olhos castanhos, fulgem, quando está com ela…
Vive longe, muito longe, no litoral; por isso, raras vezes se encontram, raras vezes se veem.
Este Verão, estando de férias, foi visitar o primo doente, que tanto estima, e tanto o estima.
Genciana recebeu-o, com os belos olhos castanhos, radiantes de júbilo.
Terminada a curta visita, ao enfermo, ela logo o segura pela mão.
E de mãos enlaçadas, como duas crianças, ambos, galgam, dois a dois, os degraus da escada de madeira, que dão acesso ao andar superior.
Penetram num quarto sombrio, mergulhado em silêncio, onde há duas camas de ferro, esmaltadas a branco, cobertas de alva colcha de fustão:
- “ Este é o meu quarto! …” – informa a menina, emocionada, de olhos saltando de alegria.
Alberto estaca. Cresce-lhe a emoção. Passeia calmamente a vista: ao lado de cada cama, há mesinha de cabeceira, com porta retrato, em cada uma.
O quarto é espaçoso. Tem poucos móveis, e recebe a luz, de ampla claraboia.
E sempre de mãos bem enlaçadas, sentindo o agradável contacto da pele juvenil, Alberto, mira-a com carinho; e imensa onda de ternura alaga-lhe a alma perturbada.
Seus olhos brilhantes, ensombrassem. Em breve; quando? – só Deus o sabe, – será órfã. Órfã de pai. Jamais receberá o carinho paterno, a protecção de quem que tanto lhe quer…
E enxurrada de nebulosos pensamentos, fervem-lhe na mente excitada:
“ Como gostava de ajudar! …”
“Mas, como?!”
“ Aceitariam ajuda? … Certamente que não…”
……………………………………....................................................
……………………………………....................................................

O tempo passou…O tempo tudo apaga. Tudo esquece…
Até amizade! … Até amizade! …
Hoje, Alberto e Genciana, estão velhos: ele, vive no litoral, sofrendo os tristes achaques da velhice; ela, no interior, numa estância, em constante labuta, cuidando dos filhos.
O que o velho médico tanto temia, não aconteceu:
A mulher cuidou das crianças, buscando forças, que não conhecia. Privou-se de muito, para que nada lhes faltasse.
Quantos vestidos gostaria de ter comprado, que não comprou?
Quantas viagens gostaria de ter feito, que não fez?
Quantas horas de aflição passou, em silêncio?
Quantas lágrimas derramou, na solidão do seu quarto de viúva?
Só ela e Deus é que sabem. Foi Mulher e Mãe exemplar. Mãe, com poucas…até morrer…
O que descrevi, é verídico. Passou-se no Nordeste. No árido Nordeste brasileiro; em pequenina cidade sertaneja, perdida nesse imenso Brasil.

Que Deus se compadeça dessa MÃE.

MEU UNIVERSO

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

Não me olhe
eu posso me perder
nos teus olhos,
no espaço infinito
do teu desejo oculto.
***
Já me bastam
as flores de plástico,
o tempo passa
e elas permanecem.
***
E o espelho
dos seus olhos
o tempo não para
pra mim.
***
Logo 37
e quando perceberes
já serão 40 anos.
***
Ai de mi
se o espaço
a minha esquerda
continuar vazio.
***
Eu só posso estar
maluca
prevendo o futuro!
***
Até ontem vi
o meu corpo
colado ao seu;
Saí literalmente
do meu universo,
trespassei meu verso
e compus vida!