Por Paccelli José Maracci Zahler (Brasília, DF)
Revista literária online com periodicidade mensal, uma viagem cultural pela literatura, poesia, cinema e artes. Editada, desde 2011, em Brasília, DF, pelo jornalista e escritor Paccelli José Maracci Zahler (ISNI 0000 0005 3053 7228, RP/MTE nº 14402/DF; FENAJ; FIJ nº BR20943). Poemas, crônicas, contos, ensaios, e o melhor da cultura nacional e internacional. Todas as opiniões aqui expressas são de responsabilidade dos autores. Aceitam-se colaborações. Contato: cerrado.cultural@gmail.com
SEGUINDO A ESTRELA
Por Erivelta Diniz (Divinópolis, MG)
“oh!que hora abençoada
que os três Reis aqui chegou
trazendo a santa benção
aos devotos moradores
que ao receber a bandeira
santos reis abençoou”
CANTO POPULAR DE CHEGADA
FOLIA DE REIS
As estrelas nas antigas religiões do Egito e da
Assíria revelavam os mistérios divinos. Por ocasião do nascimento de Jesus, o
evangelista Mateus conta que magos vieram do Oriente guiados por uma estrela
que os conduziu à gruta de Belém, onde acabara de nascer o Salvador (Mt 2,2).
A jornada dos Reis Magos – Gaspar, Belchior e
Baltazar – começa a partir do momento em que recebem o aviso do nascimento do
Messias, 24 de dezembro, e segue até a hora em que encontram o menino Deus na
lapinha. Cantando de casa em casa, os foliões reconstituem a historia dos Reis
Magos.
A festa dos magos recorda a extensão do compromisso de Fé. Somente a fé
vê mais longe; com os magos, é preciso
ter olhos de fé para ver muito mais além da realidade visível. A seqüência de gestos de troca, entre o dono
da casa e os foliões durante uma visita ou uma pousada segue mais ou menos
nessa ordem:
· Os
foliões cantam diante da casa, e diante do(a) dono(a) pedindo licença para
entrar;
· O
dono da casa segura a bandeira, beija-a, ou seja, aceita a folia;
· Os
foliões entram, cantam dentro da casa, em volta do presépio, pedindo as bênçãos
do menino Jesus para os moradores;
·
Enquanto o(a) dono(a) da casa pede as graças da Bandeira, passeia com
ela pelos cômodos da casa, os foliões cantam até o retorno da bandeira narrando
a viagem e a intenção da visita;
·
Assim que o(a) dono(a) da casa retorna, os foliões pedem licença para
guardar os instrumentos e parar de cantar;
· O
dono da casa beija a bandeira e a entrega aos foliões
· O
dono da casa serve aos foliões café, biscoito e doces ;
· Os
foliões cantam agradecendo cada um dos bens ofertados a eles;
·
Alguém pode intervir e dá uma
nova esmola;
· Os
foliões pedem bençãos para os parentes;
· O
dono da casa faz várias ofertas, tanto em dinheiro, quanto em material;
· A
pessoa que faz a promessa pega a bandeira, beija e oferta uma esmola;
· Os
foliões cantam anunciando que a promessa já foi cumprida;
· Os
foliões pedem licença pra saírem;
· O
palhaço sacode a “sacolinha” em frente aos donos da casa, pedindo esmola;
· De
costas, num sentido de respeito e agradecimento, saem um a um, cantando e
agradecendo.
A folia assim cumpre a sua verdadeira obrigação, de
dar, de receber e de retribuir. O ritual da folia extrapola os louvores ao
menino Jesus. O que a folia faz é proclamar
o mistério da manifestação (Epifania) de Cristo a todos, através de um ritual.
A presença dos palhaços encanta e fortalece as
folias. São considerados elementos de alegria para crianças e adultos.
Segundo a historia oral dos próprios foliões, os
palhaços representam o mal, a concretização dos soldados do Rei Herodes.
Há interpretações de que o rei Herodes teria mandado
espiões pra seguirem os reis Magos a fim de localizar exatamente o lugar onde
se encontrava o Messias e assim matá-lo. Os soldados disfarçavam usando
mascaras, evitando o seu reconhecimento. Os palhaços teriam função de desviar
os reis Magos do caminho, distraindo-os com brincadeiras.
Numa outra interpretação, os palhaços representam o
próprio demônio, para impedir que haja aproximação de pessoas do caminho dos
Reis Magos.
Com a ligação ao mal, estes palhaços são impedidos
de tocar a bandeira sagrada da folia, nunca podendo estar à frente nos
Cortejos, também impedidos de cantar as musicas dos devotos dos Reis Magos.
Há outras proibições para os palhaços, como a
impossibilidade de se aproximarem do presépio e tocar no menino, ou em alguns casos de só entrarem na casa
visitada após os cantos finais, sem as
mascaras.
Enquanto os foliões cantam as “chulas” – danças e cantos de origem
portuguesa – os palhaços fazem acrobacias, dando cambalhotas, rodopiando em um
pé, lutando com os bastões.
Na cultura popular de nossa região do Oeste de
Minas, diante da pureza e da força do menino Jesus se converte e decide
acompanhar os reis para sempre, abandonando o rei Herodes. Quem se encontra
verdadeiramente com Jesus não retorna mais pelo mesmo caminho. A vida prossegue
com novo sentido.
Antigamente em muitos sermões de domingo, o povo
aprendia o cristianismo ouvindo os
sacerdotes, ensinavam que os festejos dos reis representavam atos nocivos à
moral, havendo presença do demônio.
Hoje a situação é nova e há uma clara inversão desta
rejeição da igreja: alguns sacerdotes procuram valorizar as folias nas
liturgias, a tradição religiosa da Folia de Reis no período natalino.
Propiciando liberdade, alegria e fortalecimento
em festejar durante a missa.
A folia de Reis encerra o ciclo natalino, visitando
as casas até o dia 06 de janeiro que é o dia da comemoração da Epifânia.
Depois as festividades seguem até o dia de São
Sebastião, ampliando o caminho da estrela até o dia 20 de janeiro.
“Os três reis
Quando souberam
Viajaram sem parar
Cada um trouxe um presente
Pro menino Deus, ofertar”
(Sobre a autora:Erivelta Diniz é historiadora e pesquisadora da religiosidade popular do centro-oeste de Minas Gerais)
TAMBÉM HÁ SANTOS NAS IGREJAS EVANGÉLICAS!
Diogo Cassels
Por
Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)
Se pensam que nas Igrejas
Evangélicas – e até nas seitas, – não há santos, estão redondamente enganados.
Claro, que não aparecem nos
altares, nem são canonizados; mas que são santos; ah!: isso são!
Havia – já lá vão muitos anos,
– na 1ª República, em Vila Nova de Gaia (Portugal), um homem bom. Homem rico,
que por muito amar os pobres ficou pobre, por amar muito a Deus.
Era pastor anglicano. Sabia ser
justo viver do altar, mas preferiu ser o altar a viver do seu trabalho e da sua
grande fortuna.
Seu nome era: Diogo Cassels;
mas o povo, os operários, os carenciados, por muito lhe quererem, chamavam-no,
carinhosamente: o Sr. Dioguinho.
Dioguinho, junto com as tarefas
pastorais, mantinha: escola – para educar os meninos cristãmente; – e, a “ Sopa
dos Pobres” – para alimentar os que tinham fome.
Portugal, naquele tempo, estava
atulhado em terríveis dívidas. Havia desemprego generalizado, e os que
trabalhavam, mal granjeavam para sustento dos filhos.
Como cristão, como sacerdote
temente a Deus, sentia obrigação: de cuidar, de zelar, de amenizar, o
sofrimento dos operários; e pobreza envergonhada – que sempre atinge a classe
média, em anos de crise.
Todos os meses, o bom homem, ia
de porta em porta, pelas casas inglesas – o Sr. Dioguinho era britânico, – e
pedia…tornava a pedir… rogava, suplicando, contributo para a “ Sopa dos
Pobres”; porque, o que possuía, da sua grande fortuna, já não bastava para
acudir a tanta necessidade.
Certa ocasião, as casas de
pasto, as mercearias, que lhe forneciam os alimentos, disseram-lhe, perentoriamente:
“ Ou paga o que nos deve, ou nada mais haverá fiado! …”
Dioguinho levou as mãos à
cabeça, desesperado. Aflito, atormentado, recorreu a amigos. Calcorreou as
firmas de origem inglesa, da baixa portuense; bateu à porta da colónia inglesa,
e arrecadou substancial quantia… Assim supunha.
Regressou radiante. Contou e
recontou o dinheiro recebido. Fez contas e mais contas… Fez cálculos e mais
cálculos… mas nada: faltavam cinco contos para saldar a divida aos fornecedores…
- “ Os necessitados ficarão
sem a “ Sopa dos Pobres.” - Pensou.
Nervoso, mordendo os lábios
ressequidos, procurou descortinar amigo, que lhe acudisse a tal aperto. Mas as diligências
foram em vão.
Só Deus o
poderia ajudar. Mas seria ele merecedor de tal auxílio? …
Dirigiu-se, estonteado, à
capela; pelo caminho, encontrou a Bertinha – mocinha que lhe servia de
secretária, – agarrou-a com ansiedade, pelo braço, e, numa súplica, disse-lhe:
- “ Peço-te, menina, um
grande favor: Vem comigo à capela, orar a Deus, para que me acuda! …”
No dia seguinte, pela manhã.
Manhã luminosa, cheia de Sol, chegou o carteiro. Entre a correspondência vinha
uma…que incluía cheque no valor de cinco contos!
Junto, trazia bilhete: “ Sei
que veio procurar-me, para acudir os seus pobres. Não estava; mas ai vai
“isso”, para ajudar.”
Após o almoço o Sr. Dioguinho,
agradecendo a Deus, dirigiu-se ao Banco de Londres, para receber o dinheiro.
Mal lhe entregaram os cinco mil
escudos, o rosto desfigurou-se de contentamento. Cambaleou. Agarrou-se ao
balcão…Escorregou… e caiu. Antes de morrer, ainda teve tempo de pronunciar:
- “ Graças a Deus! Os
pobres não passaram fome! …”
Assim morreu o pastor, o santo,
que tudo doou aos pobres. O sacerdote, que sendo rico, se tornou pobre, para
que os pobres fossem menos pobres.
Também há santos nas Igrejas
Evangélicas! …
LÁBIOS
Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)
Nos lábios o som uníssono
da dor teatral e o gesto
de defesa no grito expandido
em palavras sem salvação
nos lábios o prazer da voz
tempestuosa alardeia o sentido
no instante em que acredita
no que diz e se satisfaz
nos lábios a certeza da ideia feita
palavra e a corrente se apresenta
como verdade: espanto.
REPETIR
Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)
Repito o tempo
lenta hora
esperada
aguardo o ponteiro
em movimento
reparo o tormento
incorporo a máscara
macabra: o ponteiro
ceifa a hora
vou embora
sem olhar à frente
tantos caminhos dementes
passos rápidos sobre a grama
o ponteiro estático e errante
pergunta sobre o instante.
ANTES DO FIM...
Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
Meu
sinhô..
A
colheita foi boa!
Este
ano… Este século...
Para
o meu sinhô!
Tudo
vai bem!
***
Meu
sinhô...
Alguns
negros forros!
Outros
negros ficaram.
Alguns
negros partiram,
Já
outras negras pariram...
Muitos
outros negros!
***
Contudo
para o meu sinhô!
Tudo
vai bem...
Mas
a correntes enferrujaram.
Samuel
da Costa é poeta em Itajaí SC
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