INCENTIVE AS MULHERES NEGRAS


Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

A mulher negra precisa de alto confiança. Para isso acontecer ela precisa de espaço e reconhecimento. Acima de tudo muitas mulheres buscam o seu respeito e sair do cenário ‘’mulher objeto sexual’’, ao qual a sociedade insiste em colocá-la. Nos últimos meses temos visto mulheres negras em grandes cargos e outras lutando pelo seu espaço. É necessário que isso se propague, que essa mulher sinta-se acolhida e respeitada pelos seus.
Mulheres negras podem e devem ir além do quadro empregada doméstica. Não estamos mais no período escravocrata onde a vida da mulher negra era resumida em trabalhos domésticos, ama de leite e o objeto sexual do senhor de escravos. Vamos incentivar as nossas mulheres negras de tal forma que elas se sintam capazes de enfrentar qualquer obstáculo, incentivem seus trabalhos, apoiem e compartilhem. Não deixem no anonimato essas mulheres e suas histórias de luta e resistência.
Mas esse papel de apoio não se deve somente ao homem e o núcleo familiar dessas mulheres, nós mulheres também temos que nos apoiar. Nada de críticas e julgamentos. Ninguém nasce pronto para vida e cresce um ser perfeito. A gente vai crescendo na medida em que a gente vai avançando.

Clarisse da Costa é cronista e poetisa em Biguaçu SC
Contato: clarissedacosta81@gmail.com  



A FALTA DE ACESSIBILIDADE E SENSIBILIDADE


Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

Primeiro, que você perde toda a sua mobilidade; segundo, que você vê a sua vida parar e depois de toda transformação você se vê parado novamente, pois os amigos te abandonam. As pessoas começam te tratar de forma diferente, em algumas pessoas é visível ver essa indiferença através do olhar. Outras simplesmente querem saber o que houve com a sua pessoa e começam a falar de Deus como se o tempo todo você pensasse acabar com a sua vida. Algumas vezes parece que somos anormais, não porque nos achamos anormais e sim porque as pessoas nos tratam assim.
Já tive taxista que recusou a minha corrida. E isso é algo decorrente com qualquer pessoa que tenha problemas físicos. Então você caminha pela cidade e não se sente incluso e vê que muitas pessoas são excluídas pela sociedade e autoridades. Não há acessibilidade e nem sensibilidade. Você tem o direito à vida, mas não o direito de viver. O seu espaço de vida se limita do quarto até a sala. Mas essa condição não é você que impõe e sim a sociedade.
O ser humano busca entender e conhecer aquilo que lhe convém. Então o deficiente físico geralmente fica de lado. Aí vêm aqueles questionamentos que muitas vezes é uma ofensa para nós e nos machucam. Dói na alma.
— Você consegue fazer sexo com esse seu problema?
— Você consegue namorar de mãos dadas?
— Como você faz para beijar na boca?
O que falta para o ser humano é se colocar no lugar do outro. Eu sou o estranho para você, mas o contrário do que pensas o estranho é você mesmo.

Clarisse da Costa é cronista e poetisa em Biguaçu, SC
Contato: clarissedacosta81@gmail.com 


AMO-TE

Por Fabiane Braga Lima (Rio Claro, SP)



Mas nunca esteve comigo....

Acho que foi imaginação,

Mas doí demais no peito...

***

Parece um tormento!

Me destruiu em segundos,

Me faz ficar em silêncio...

***

Tornou-se uma cicatriz

Sei como arde...

Peço a Deus que feche!

Esta ferida criada pelo tempo...

***

Mas vou reerguer-me

Lembrarei de todo o amor vivido

Quero viver!

Apesar de todo sofrimento....

***

Lembrarei dos belos momentos

Te eternizarei guardado comigo

Dentro do peito....

***

Mas,

Alma minha requer

Demais, este aconchego…!


Fabiane Braga Lima é poetisa em Rio Claro, SP

 Contato: bragalimafabiane@gmail.com

MANIFESTO


 Por Urda Alice Klueger (Palhoça, SC)


                                    Saibam todos que, nesta data, coloquei no correio carta registrada dirigida à presidência do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, pedindo o meu desligamento do mesmo.
                                    Pertencia a ele desde 22 de novembro de 1991, quando para ele fui indicada pelo queridíssimo embaixador Licurgo Costa, quase centenário então, coisa que naquele momento me encheu de prazer e de admiração e esse pertencimento muitas vezes fez com que o citasse com grande alegria. Este tempo de três décadas que desde então transcorreu, no entanto, foi aos poucos fazendo com que eu olhasse para o referido Instituto com olhos de maior clareza, até chegar a esta data, quando já me é muito incômodo pertencer a tal entidade sem me sentir bastante ferida por ali estar.
                                    Vejamos o que acontece: o Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, mesmo sendo uma entidade mais que centenária neste Estado, bem como outras agremiações que por aqui existem, com mui raras exceções, compõem-se de reuniões de homens brancos, muitos deles de viés fascista, onde não se vê o amanhã. É uma sociedade solidária que vive das glórias do passado, tendo pouquíssimos elos entre o passado e o presente e onde quase nada se vislumbra em direção ao futuro. A cada ano faz-se uma série de reuniões e/ou atividades com pessoas escolhidas dentro do espírito machista, patriarcal, ultraconservador, não-transversal, apresentando as histórias dos heróis e da elite, onde o povo aparece muito pouco e a mulher aparece quase nada, em reuniões estanques, onde se abordam só determinados períodos da História e muito pouco da Geografia. São os membros do Instituto os donos do conhecimento institucional, nada (ou muito pouco) fazendo para criar caminhos para o futuro através de diálogos com a juventude e inserção nos campos escolares.
                                    Neste momento em que vivemos envoltos em brumas, escapando-se delas e bradando em voz alta pelas ruas a cadela do fascismo, não vi nenhuma iniciativa do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina no sentido de combater tal barbaridade (como outras entidades já o fizeram), pois para tal doutrina não há meio termo ou tolerância: com fascistas não há diálogo, mas combate. Não se trata de se respeitar pensamentos diversos, mas da própria sobrevivência do que de humano há em nós.
                                    Qual a importância de quem não dialoga com o mundo? Para que serve um Instituto Histórico e Geográfico que se fecha sobre si mesmo e só permite a palavra dos que lhe interessam? Em que momento da História que se perdeu a oportunidade de trazer a construção intelectual política, geográfica e territorial de Santa Catarina para que tais campos dialogassem com a sociedade contemporânea? Que se respeite a sociedade, que seja ele um local de conclaves abertos e não apenas de convidados que vão fazer a fala que o Instituto quer. Há que haver um espaço aberto para todos, para as mulheres, para os negros, para os caboclos, para os indígenas, para os LGBTs e a outras fatias da sociedade porventura existentes. Tal não há, no entanto, e se mantém o Instituto Histórico e Geográfico impassível diante de um futuro que já chegou, e quando não se dialoga com o futuro, está-se fadado a morrer.
                                    Não quero estar para esse triste momento fúnebre, no entanto. Assim, nesta data, tomo a iniciativa de me separar do mesmo.

                                    Palhoça, SC, 05 de Março de 2020.
Urda Alice Klueger
Escritora, historiadora e doutora em Geografia pela UFPR.

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Desacato
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UFRGS
Unicamp
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UDESC
UFSC
FURB
UEL
UFBA
UFPE
Lilia Moritz Shwarcz
TV 247
DCM
Blog da Cidadania
Pragmatismo Político
Galãs Feios
Vozes Latinas
Espaço Literário Marcel Proust
A nova máquina do tempo
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro




AOS QUE VIRÃO


Por Paccelli José Maracci Zahler (Brasília, DF)


"Ide e derramai sobre a terra as sete taças da ira de Deus".
Apocalipse, 16:1


É triste pensar que, dentro de mais alguns dias, seremos pessoas do século passado. Mais triste ainda é pensar no quanto a violência tem aumentado nos últimos anos, tanto nas áreas urbanas quanto nas áreas rurais, tanto nos países desenvolvidos como nos subdesenvolvidos.
Aparentemente, pode-se pensar que se trata de um fenômeno comum quando ocorre uma mudança de século.
Nesses períodos de transição, são comuns o surgimento de seitas e profecias apocalípticas e o aumento do número de suicídios e homicídios, causados pelo desespero das pessoas e pela falta de esperança em um mundo melhor.
Isto parece estar nos afetando neste momento, agravado pelo grande desenvolvimento dos meios de comunicação, o avanço da informática e a popularização dos computadores pessoais interligados na rede mundial de computadores.
A informação tem chegado em tempo real. Chega-se ao preciosismo de se assistir a uma guerra, ao assassinato de um importante líder mundial ou a um espetáculo de rock n roll em uma ilha longínqua do Oceano Pacífico ao vivo.
Com toda certeza isso está afetando o pensamento das pessoas.
Nós, homens do século XX, talvez não estejamos preparados para todo esse desenvolvimento tecnológico aplicado ao nosso cotidiano.
Somos de uma época mais tranqüila, mais romântica, mais sonhadora. Todo esse arsenal que hoje se encontra disponível nas lojas de eletro-eletrônicos não são novidades. Já o conhecíamos através das histórias de Flash Gordon, Dick Tracy, Super-homem, Batman e Buck Rogers, que devorávamos com atenção máxima.
Apesar de quase perdermos as esperanças algumas vezes, ainda sonhamos com um mundo melhor e mais justo.
Ainda queremos passear de mãos dadas com a amada em um jardim florido, ouvindo o canto dos pássaros, respirando o ar fresco das manhãs e sentindo o calor do sol aquecendo o corpo.
Esquecemos que hoje, o namoro acontece através do computador, em um quarto fechado, luz fluorescente, ar condicionado ligado, bebendo refrigerante e comendo sanduíche.
Queremos sentir o toque da pele, o carinho, o olhar de cumplicidade em nossos momentos mais íntimos a dois. Porém, não levamos em conta que, nos dias de hoje, o amor pode ser feito através do telefone ou do computador, em qualquer parte do mundo, em qualquer horário, por cinco dólares o minuto.
Quase não se vê crianças brincando ao ar livre de amarelinha, de roda, pular corda, soltar pipa ou jogar bola de gude.
As brincadeiras foram transformadas em softwares, receberam mais velocidade e uma boa pitada de violência, podendo ser processadas através do computador ou do videogame. Assim, em um mundo virtual, o sangue jorra, personagens são mortos com requintes de crueldade mas retornam para mais uma rodada do jogo.
Suspeita-se que o excesso de fantasia esteja afetando o cérebro dos adolescentes, condicionando suas mentes e afastando-os do mundo real. Pelo menos, é a explicação mais plausível para os recentes assassinatos ocorridos nas escolas americanas, onde jovens fortemente armados atiraram contra professores e colegas, suicidando-se depois. Alguns deles eram aficionados de jogos eletrônicos e planejaram seus ataques de acordo com a mesma trama do jogo.
Que dizer do novo modelo econômico mundial - a globalização? Pois é, tem se incentivado, através da televisão e da propaganda, a competitividade, o êxito profissional, o sucesso, somente os fortes conseguem vencer e assim por diante. E o que acontece com os excluídos? Como sobreviver em um mundo competitivo se não se tem acesso às condições materiais mínimas, a uma formação intelectual e profissional adequadas para competir em pé de igualdade com os demais?
A exclusão também gera desespero, agressividade, violência.
Pois é, dentro de mais alguns dias, seremos gente do século passado. Seremos também ultrapassados? Não sei, contudo, talvez algum dia nos orgulhemos de termos brincado ao ar livre, pulado corda, subido em árvore, namorado no banco da praça vendo a banda municipal tocar marchinhas no coreto e termos tido inspiração para escrever poemas.
Quanto aos que virão... Coitados!

COTIDIANO BRASÍLIA


Por Paccelli José Maracci Zahler (Brasília, DF)

Não dá para descrever a sensação de estar chegando em Brasília pela primeira vez. Meus olhos interioranos pareciam estar a ponto de saltar das órbitas de tanta vontade de ver e sentir tudo de uma vez só. Porém, Brasília é uma cidade diferente. Para conhecê-la, só vivendo nela.
Fiquei me sentindo minúsculo ante a largura das avenidas e a imponência do prédio do Congresso Nacional. Que dizer, então, do Palácio do Planalto, da Igreja Dom Bosco e da Catedral Metropolitana? Era como entrar em um cartão postal!
E lá se foram dezoito anos! Período no qual acredito já ter devassado todos os segredos da capital do meu país.
Preso às tradições do meu Estado natal, o Rio Grande do Sul, jamais me imaginei entrando em contato com "hare krishnas", tarólogos, astrólogos, naturalistas, iridiologistas, radiestesistas, espíritas, médiuns, pais-de-santo, com pessoas que buscam a energia das pirâmides e dos cristais, sem falar naquelas que têm contatos imediatos com seres extraterrestres.
Em toda essa diversidade de religiões e crenças, evoluí espiritualmente. Muito mais do que esperava. Penetrei nos meandros do misticismo, busquei o equilíbrio mental e emocional através da prática do "tai-chi-chuan". Coisas desta cidade magnífica que exerce poderes mágicos sobre seus habitantes.
Brasília desperta curiosidade de quem a visita pela primeira vez; ódio em quem se estabelece, devido às grandes distâncias; e amor em quem permanece. É uma terra de contrastes. Em um mesmo local podem ser faladas todas as línguas e ouvir-se todos os sotaques. Ela mesma já começa a desenvolver o próprio sotaque.
A beleza das mansões convive com os barracos dos migrantes. As crianças abandonadas e famintas aguardam ansiosamente os pães que são jogados fora nas padarias por não terem sido vendidos. Alguns homens são vistos buscando comidas nos latões de lixo dos restaurantes luxuosos.
Tais coisas não maculam a imagem de Brasília. São reflexos de uma cidade que cresceu além de sua capacidade e da crise social e econômica pela qual o país vem passando. Brasília não tem culpa, assim como nenhuma outra terra tem culpa da ambição, dos desmandos e das mazelas dos homens.
O céu continua lindo, provavelmente, o mais belo do país tanto na estação chuvosa como na estação seca.
A vegetação do cerrado, com suas árvores tortuosas que assustam o visitante casual, ao mesmo tempo encanta os olhos com a beleza rústica de suas flores.
As águas cristalinas brotadas da rocha do Parque Nacional de Brasília, em meio às árvores do cerrado, as quais exalam um perfume característico, formam um verdadeiro templo ao ar livre. Lá, as pessoas vão buscar as energias para restabelecer aquelas perdidas nos momentos de tensão e estresse do trabalho.
Seriam estas as razões de Brasília ser uma cidade mística? Só quem aceita viver nela sabe a resposta. Eu sei, mas não conto pra ninguém!

MEMÓRIAS DE PIRACICABA


Por Paccelli José Maracci Zahler (Brasília,DF)

Eu havia visitado a cidade em 1991, porém minhas incursões tinham ficado restritas à universidade. Essa é uma das desvantagens de se viajar a serviço. Tudo é programado. Tem de se estar no lugar estipulado em uma determinada data e retornar em outra pré-estabelecida. Como resultado, dificilmente se conhece os lugares visitados como se desejaria. Mesmo assim, tive a oportunidade de visitar a Catedral e o Mercado Público.
Uma das cenas que me marcaram aconteceu na Estação Rodoviária, enquanto eu esperava o ônibus para São Paulo.
Um rapaz havia adquirido uma ficha para tomar um copo de suco na lanchonete de um japonês. Como o suco não lhe agradara, ele estava reivindicando a devolução do seu dinheiro ao que o dono do estabelecimento não concordava.
- O suco estava horrível!
- "Non" estava!
- Estava, sim, e eu quero meu dinheiro de volta!
- O suco está "bon" e "non" devolvo "dinhelo"!
- Então, eu levo o copo!
- "Non" leva!
- Levo!
O rapaz saiu correndo com o copo na mão e o japonês correndo atrás dele.
Fiquei um pouco impressionado e, de onde estava, era possível ouvir os gritos:
- Devolve copo!
- Não devolvo!
- Devolve copo!
- Não!
- Devolve!
Ouvi, então, o ruído de algo quebrando e o japonês xingando enraivecido.
Minutos depois, o japonês voltou cabisbaixo à lanchonete e um conhecido lhe perguntou:
- O que aconteceu, "japa"?
- "Fataputa" quebrou meu copo!
Não resisti e desatei a rir, assim como todos os que esperavam o ônibus para São Paulo naquela manhã.
Tempos depois, voltei à cidade e, para variar, novamente a serviço.
Próximo ao meio-dia, meu colega e eu demos uma volta pela cidade e nos deparamos com uma ponte pênsil o que, para mim, foi uma grande surpresa.
Maravilhado com o Engenho Central, passei pela experiência mística de senti-lo em pleno funcionamento como no início do século.
Meu colega sugeriu almoçarmos no restaurante Parque do Mirante. Entre um gole de cerveja e outro, fiquei observando da janela o santo do rio Piracicaba e três garças esperando por um longo tempo o peixe que não vinha. Segundo me informaram, anos atrás não faltava peixe. Hoje, no entanto, o volume das águas baixou, há um leve cheiro, não muito agradável, de dejetos de esgoto e, em alguns pontos, pode-se observar a formação da espuma característica da poluição.
Um passeio pelo bosque do Parque do Mirante, com suas escadarias e suas árvores de troncos grossos, foi capaz de me transportar para o início do século XX. E lá, quantas moças casadoiras passearam com suas famílias e sonharam em encontrar um namorado, fosse ele um funcionário do Engenho Central ou um estudante da Escola Superior de Agricultura; quantas pessoas não haviam caminhado por aquelas calçadas, à sombra das árvores, admirando as águas límpidas e piscosas do rio Piracicaba?
Pois é, o rio pode estar morrendo ou até secando pelo mau uso de suas águas. Ainda assim, tenho a esperança de retornar àquela cidade muitas outras vezes e desfrutar a vista do salto do rio Piracicaba, já imortalizado pelo cancioneiro sertanejo. Quem sabe até tomar um suco de laranja na lanchonete do japonês da Estação Rodoviária.