domingo, 1 de março de 2026

EDITORIAL

 Por Paccelli José Maracci Zahler, editor-chefe (Brasília, DF)


A edição de março da Revista Cerrado Cultural reafirma o compromisso da publicação com a difusão da produção artística e intelectual que emerge do Cerrado e dialoga com o cenário cultural brasileiro contemporâneo. Em um período marcado por transformações sociais e pela necessidade de fortalecer espaços de expressão, esta edição reúne conteúdos que valorizam a diversidade, a memória e a criação como pilares de cidadania.

Os autores e artistas presentes nesta edição contribuem para ampliar o entendimento sobre o papel da cultura na construção de identidades e na preservação de territórios. Suas vozes reforçam a relevância de iniciativas que promovem reflexão crítica, circulação de ideias e acesso democrático à arte.

Março inaugura um novo ciclo editorial, guiado pela responsabilidade de informar, registrar e inspirar. Que esta edição acompanhe o leitor com rigor, sensibilidade e propósito.

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AMOREIRA


Por  Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

 

No solo seco

Cresceu o pé de amora

E agora

O sol se levanta entre suas ramas,

Mais uma vez

Ele vem

Sem demora.

 

As folhas são dentadas,

Pilosas,

Gotejam hormônios,

Sangue da flora,

Fibra da seda

E têm formato de coração.

 

Quando uma amora cai

É chuva preta

Espalhada pelo chão.

 

Senhora da sabedoria

E da intuição,

Sou o pássaro pousado

No mais alto galho,

Aquele que a adora

Que suga seus licores

A cada aurora.


Sobre a autora: 

Raquel Naveira é escritora, comunicadora, conferencista, militante cultural, pesquisadora e professora. Pertence à Academia Cristã de Letras - ACL (Cadeira nº 07, patrono Castro Alves); à Academia Sul-Matogrossense de Letras, ao PEN Clube do Brasil e à Academia Paulista Evangélica de Letras - APEL. 

BOMBA

Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

 

Ouço o barulho das bombas e dos mísseis todos os dias. Os gritos dos alcançados a esmo pelas balas e fagulhas. Não importa que eu não esteja no epicentro dos fatos. A questão de hora e de lugar não conta mais. Os meios de comunicação cancelaram as diferenças. Qualquer lugar do mundo é seu centro. Fui atingida em cheio, bem no peito, pela energia contida no núcleo atômico.

O Japão não estava longe da derrota naquele mês de agosto de 1945. A Força Aérea  deixara de existir, os navios haviam afundado, a esplanada das ilhas protetoras fora perdida. A partir de suas bases, as esquadras de bombardeiros americanos devastavam as cidades. Até que duas bombas de um tipo novo, desenvolvidas pelo cientista que revolucionou a Física,  Robert Oppenheimer (1904-1967), foram lançadas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki. Cidades que eram verdadeiras joias, portos militares, onde, quatro séculos antes, europeus e japoneses pela primeira vez estabeleceram contato. Os resultados foram terríveis e o imperador decidiu salvar o seu país por meio de rendição. A Segunda Guerra Mundial chegara ao fim.

As armas nucleares são consideradas armas de destruição em massa. Os incêndios e a radiação produzem danos e ferimentos irreversíveis. O uso e o controle dessas armas têm sido um dos principais focos da política de relações internacionais. O Prêmio Nobel da Paz de 2024 será entregue à “Confederação Japonesa de Organizações de Vítimas de Bombas A e H”. Depoimentos de testemunhas tocam os corações e as mentes para a necessidade do desarmamento nuclear. O perigo é iminente. Várias nações possuem a bomba: Estados Unidos, Rússia, Inglaterra, França, China, Índia, Paquistão, Coreia do Norte, Israel. O mundo está sobre uma imensa bomba prestes a explodir pelos ares.

No livro “Os Sobreviventes”, Cassiano Ricardo (1895-1974), poeta, ensaísta, jornalista, um dos líderes da Semana de Arte Moderna em São Paulo (1922), afirma   que a palavra “sobrevivente” adquiriu uma nova acepção depois da bomba atômica. Somos todos meros sobreviventes à morte nuclear. Ao acordar, devemos nos perguntar se ainda estamos vivos. E nem é preciso que estejamos no meio do mar agarrados a um salva-vidas, nem que tenhamos sobrado de um terremoto, das lavas de um vulcão ou fugido de um acidente numa mina de carvão, ou que estejamos dentro de um submarino desaparecido para sermos sobreviventes. Somos sobreviventes fazendo de tudo para não parecer.

Segundo o poeta, um dia, todos os sobreviventes se reunirão em praça pública: os de Hiroshima e Nagasaki, os mutilados de guerra, os que escaparam do terrorismo e dos conflitos raciais, os suicidas enforcados, os mendigos esfarrapados e miseráveis, os que usam máscaras pretas nos velórios, os que se escondem nos túneis, no subsolo, os que sobem ao solo. Haverá uma promoção sangrenta dos subvivos a vivos, dos sobreviventes a viventes, dos viventes a novos entes. Assim o poeta imagina: “Ao amanhecer/ lugar ao sol dos vivos/ Eles estarão no futuro”. E ainda questiona: “Há quanto tempo/nos chamamos irmãos/ sem o sermos./ Uns matando os outros/ (já imemorialmente)/ por cidades e ermos.”

Ouvindo o barulho das bombas e mísseis sobre minha cabeça, escrevi o poema “Bomba”:

 

A bomba explode,

Tomba em forma de chuva,

Fungo

Cheio de estilhaços,

Energia,

Átomos

E farelos.

 

A bomba explode,

Zomba dos homens

Que derretem

Na pele,

No solo,

Na vertigem

Do imenso flagelo.

 

A bomba explode,

Arromba cercos,

Muralhas

E castelos,

Voam pedras,

Árvores,

Ossos

Na fumaça,

Na massa do cogumelo.

 

A bomba explode

Arrancando lascas,

Faíscas,

Cintilações de um grande martelo.

 

É força cega,

Calamidade,

Ardor e cólera,

Choque em ondas,

Destruição sem paralelo.

 

Sobrevivente,

Cadáver adiado,

Apelo apenas

Por um lugar ao sol,

Sem sede,

Sem fome,

Neste planeta amarelo.

MOÇA COM BRINCO DE PÉROLA

Por  Raquel Naveira (Campo Grande, MS)

 

Johannes Vermeer (1629-1675) foi um pintor holandês, da Idade de Ouro Holandesa, época cheia de espantosas conquistas culturais e artísticas, naquele país. Foi funcionário da Guilda de São Lucas, uma associação medieval que agrupava negociantes e artesãos, em sua cidade natal, Delf. Em 1653 casou-se com uma jovem de família rica, Catharina Bolenes. Vermeer morreu com apenas quarenta e três anos, deixando sua esposa e onze filhos com enormes dívidas. A viúva foi obrigada a vender todos os quadros ao conselho municipal em troca de uma pequena pensão.

Vermeer ficou esquecido por muito tempo, sendo “redescoberto” pelo historiador Théophile Thoré,  em meados do século XIX. Hoje é reconhecido como um dos maiores mestres da pintura holandesa de interiores. É típico de Vermeer o olhar íntimo sobre a cena, a luz meticulosa, a manipulação das cores, criando obras sedutoras. Retrata mulheres em cenas cotidianas como “A Leitora”, “Mulher com Balança”, “Leitora à Janela”, “Mulher de azul, lendo uma carta”, “A Rendeira”, entre outros quadros. Nessas mulheres de corpo presente há uma calma e uma profunda consciência espiritual. Sensação de quietude nessas camponesas absortas em suas tarefas domésticas. Mas o quadro mais famoso é, com certeza, “Moça com brinco de pérola”, também chamado de “A Mona Lisa do Norte”. Essa moça representa a beleza e a serenidade femininas, capturadas num momento silencioso por um observador encantado por aquele rosto delicado. Um rosto enigmático, que transmite, ao mesmo tempo, amor, tristeza e desprezo. Talvez um certo desdém pelo pintor.

O quadro inspirou o filme “Moça com Brinco de Pérola” (2003), do diretor Peter Webber. O roteiro conta a história da camponesa Griet (Scarlett Johansson) que é obrigada, por questões de falência da família, a trabalhar na casa do pintor Vermeer (Colin Firth). Aos poucos Vermeer presta atenção na moça e faz dela sua musa, nutrindo uma paixão secreta e contida, jamais manifestada em palavras. Vermeer percebe que ela é sensível, inteligente, curiosa para conhecer as técnicas da pintura, a textura das tintas, as combinações das cores. Tão diferente de sua esposa, que tem até medo de entrar no ateliê, que deseja apenas vender suas obras rapidamente para a sobrevivência. É um filme lacônico. Os sentimentos são passados por gestos, olhares que se cruzam em jogos de dor e cumplicidade. Os amores não realizados são intensos.

O quadro e o filme levaram-me a escrever “Moça com Brinco de Pérola”:

Como é bela a moça

Com brinco de pérola!

A pele alva,

O pescoço de cisne,

O olhar leitoso,

O cabelo oculto

Sob um turbante azul-noite.

A face brilha como lua nas águas,

De   sua orelha pende

Uma gota de orvalho

Que se cristalizou

Numa concha madrepérola.

 

“Moça com brinco de pérola”

É um retrato,

Um pintor fascinado por um rosto,

Ele a amava...

E nesse momento

Deve tê-la pedido em casamento.

 

"LIGAÇÕES PERIGOSAS"

Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)


 “Ligações Perigosas” é o título daquele que foi considerado o melhor romance francês do século XVIII, uma obra-prima da literatura erótica ocidental. O autor, Choderlos de Laclos (1741-1803), foi militar e filósofo, que viveu a tensão de uma monarquia aristocrática decadente, antes da Revolução Francesa. Conseguiu ser reintegrado ao exército como general, sob o comando de Napoleão Bonaparte. Escreveu sobre a necessidade de educação das mulheres que deveriam, segundo ele, ter uma rotina leve, com repouso, mas ativas, sem excessos, com controle emocional dos desejos que levam à frustração.

“Ligações Perigosas” (1782) escandalizou a sociedade francesa. Trata-se de um romance epistolar. São 175 cartas trocadas entre personagens da alta burguesia com pontos de vista diferentes, vozes que se opõem, expondo as vísceras de ligações políticas e amorosas, cheias de ambição, sedução e corrupção moral.

A trama foca na Marquesa de Merteuil e no Visconde de Valmont, ex-amantes, libertinos e cínicos, que manipulam e arruínam reputações por pura diversão e vingança. A Marquesa é enigmática, inteligente, calculista. O Visconde é inescrupuloso e conquistador. Quando os dois se unem é para destruir a vida deles mesmos e das pessoas que os rodeiam.

A Marquesa propõe ao Visconde que corrompa Cécile de Volanges, uma jovem saída do convento. O Visconde tem novo alvo: Madame de Tourvel, uma mulher bela, casada, fiel e virtuosa. O marido de Madame viaja. O Visconde começa a tecer uma teia de fingimentos, artimanhas e intrigas, para que ela caia em seus braços. Ataca para abalar suas convicções morais. Os planos cruéis fogem do controle. O Visconde se apaixona perdidamente por Madame de Tourvel. Caminha-se para a tragédia completa: a Marquesa e o Visconde desmascarados publicamente; Cécile desonrada; Madame Tourvel, corroída pela culpa, caindo gravemente doente. Todos devastados, dilacerados, diante de uma corte hipócrita e extravagante. Fim de uma era.

O livro foi adaptado inúmeras vezes para peças teatrais e filmes, tendo sido o mais recente o filme de 1998, dirigido por Stephen Frears, com Glenn Close no papel da Marquesa de Merteuil, Uma Thurman como Cécile, Michelle Pfeiffer como Madame de Tourvel e John Malcovich no papel de Visconde de Valmont. Que atuação impressionante a de Malkovich! No jogo de sedução, ora ele se assemelha a um anjo, ora a um lagarto. Escrevi o poema “Anjo e Lagarto”:


Meu amante é mistura de anjo e lagarto,

De lagarto tem um ar rastejante,

Serpente que ganhou pés, mãos

E língua bífida;

De anjo tem um par de asas

Que se abrem sobre mim

Como cisne no lago.

 

De lagarto tem o olhar contemplativo

De quem fica horas imóvel

Sob o sol;

De anjo tem o poder

De conduzir astros,

De executar leis,

De tornar-me rainha.

 

Quando lagarto

Posso feri-lo,

Cortar-lhe a cauda

Que se regenera;

Quando anjo

Posso derramar azeite quente

Em suas costas

E traí-lo.

 

O lagarto

Foi um pássaro gigante,

O anjo,

Uma aspiração impossível.

 

Meu amante é mistura de lagarto e anjo,

De anjo e lagarto,

Sou mulher

E temo a raça dos demônios.

  

Assistimos há pouco a uma tragédia familiar. A família é palco de amor, proteção e de traumas e conflitos. Uma mulher trai o marido. Traição é fraqueza da vontade, uma escolha. O marido, num colapso emocional, tira a vida dos próprios filhos e se mata. São batalhas espirituais movidas a paixões, a erros. Paixões que queimam, que levam a mil desordens, que enlouquecem. Misto de carência, rejeição, dependência e egoísmo. A cegueira. O momento fatal. O combustível da raiva, da tristeza, da confusão mental transformadas em lenha e fúria. Uma imensidão de sentimentos negativos que se levantaram como labaredas.

Sou movida por paixões: o desejo de amar, que me consome; a busca do meu ideal, sempre distante, nas estrelas e a compaixão terrível pelo sofrimento de todos os seres viventes.

 

PRECAUÇÃO

 Por Germain Droogenbroodt (Altea, Espanha)




AS MONTANHAS DE BOGOTÁ

 Por Germain Droogenbroodt (Altea, Espanha)


CADA ESTRIA MINHA EU AMO

Por Liécifran Borges Martins (Cariacica, ES)


Cada estria em meu corpo

eu amo.

Tem uma história.

Sou mulher da órbita.

 

Minhas curvas tem histórias.

Minhas marcas são de hora.

Sou poeta.

Sou mulher.

 

Minhas estrias tem valor.

Minhas curvas é amor.

Sou poeta.

Eu sou mulher.

 

Minhas estrias

linda é.

Cada estria tem

uma história.

 

Cada estria

eu a amo.

Amo demais

as minhas estrias.

 

MINHA SOLITUDE

Por Liécifran Borges Martins (Cariacica, ES)


Minha paz noturna

é inegociável.

Não troco os

meus momentos só.

 

Adoro ser sozinha.

Vivo muito bem.

Faço meus hobbies.

Como eu me amo.

 

Sozinha eu

me cuido.

Eu amo.

Eu me amo.

 

Minha solitude

é bom demais.

Amo e adoro

a minha paz.

 

Sozinha eu

sou feliz.

No mar eu

tenho paz querubim.

 

INSTAGRAM: @liecifranborgesmartins

Ó, LINDA!

Por Catarina Osoegawa (Florianópolis, SC)

 

Do beijo estrelado

Ao toque selado

Nos ares de Olinda

Em voo desvairado

Como um só em rede

Entre colunas, entrelaçados

 

Pouso paraíso do beija-flor

Voo direto e inesperado

Do primeiro ao infinito

O som do primeiro beijo

Sonho preciso e realizado

 

No mar azul de Olinda

A noite se ilumina

De mansinho se aproxima

O beijo roubado que não finda

 

Beijo doce, salgado

De leve a furioso

Sem performance, prolongado

Apenas delicioso

 

E nas ondas… que Ó Linda!

Nas marés do primeiro beijo

Leves fantasias de Carnaval

Olinda para sempre

No meu memorial

O VIAJANTE

Por Catarina Osoegawa (Florianópolis, SC)

Ele chegava sem avisar entre um e outro voo, levemente cansado, chegava faminto e adorava comer doces. Comia um atrás do outro, parecia nem respirar de tanta fome de açúcar. Eu dizia: “Olha a diabrura da diabetes!” Mas ele não estava nem aí, chamava os amigos e até brigavam pelos docinhos com medo que acabassem.

Um dia ele chegou de novo sem avisar com uma fantasia de Carnaval todo cheio de brilhos coloridos, dos azuis marinhos aos verdes escuros dos rosas aos roxos. E estava lindo demais, nunca o vi tão cheio de plumas, mas algo estava diferente naquele dia... Enxerguei algumas falhas na sua pele, fiquei preocupada. Ele me confessou finalmente:

“Amor, o pecado da gula está me fazendo mal, perdi os limites da ambição e da ânsia pelo poder.  Nem consigo mais viajar tranquilo como era antes, só fico de sobre aviso parado em um ponto fixo, pensando que alguém vai roubar os nossos doces, cuidando do território em alerta máximo, pronto para atacar qualquer um que se aproxime, parece que estou ficando louco... estou sofrendo demais!!”

“Depois de muitas batalhas inúteis, tomei uma decisão: Descobri que a doçura natural tem muito mais valor e não tem preço... é muito mais rica e traz a paz que eu sempre precisei... Mas eu não sabia, era um impulso muito irracional, quase animal...  Não preciso de mais nada nessa vida, quero a minha liberdade de volta.  De hoje em diante, abro mão de qualquer fonte artificial de néctar!”

A ARTE DIGITAL DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 










OPERA MUNDI: A TURRIS EBÚRNEA (4ª Parte)

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

“Ofereço-te, negra fada
Da floresta negra,
Todo o meu etéreo amor
Em tempos de guerras,
De atrozes desesperos
E dores atrozes.”
Samuel da Costa

 

— Eu quero ir até a Turris Ebúrnea! — disse Luna Dark, incisiva, à comandante Bartira, sentada a poucos centímetros dela.

A militar de alta patente olhou profundamente para a outra à sua frente. Um tanque-robô se aproximou das duas com duas bandejas de prata. O mavioso som mecânico das esteiras em movimento chamou a atenção de Luna Dark. A afra-rainha olhou perdidamente para o ajudante de ordens mecanizado. Era um antigo modelo Aparai AS1, o primeiro modelo de vigilância, patrulha e ataque.

A sonhadora em vigília sentiu um desconforto ao olhar, de outro ângulo, para o aparelho militar, agora convertido em mero ajudante de ordens. No topo do tanque-robô, onde deveria haver um canhão positrônico, existia um pequeno platô onde repousavam as duas bandejas de prata. A sonhadora em vigília não pôde deixar de notar os ricos e delicados detalhes artesanais das chávenas, das bandejas, de todo o aparelho de chá de porcelana e das taças de cristal.

O ajudante de ordens, que lentamente trazia as duas bandejas de prata, conduzia em uma delas um aparelho com chá de ayahuasca e, na outra, um balde de prata com gelo, uma garrafa de champanhe rosé e uma taça de fino cristal. Com dois pares de pinças de titânio, dispôs lentamente as bandejas sobre a mesa de centro. A máquina serviu primeiro a afra-rainha Luna: abriu a garrafa de vinho negro e encheu a taça; depois serviu a comandante Bartira e retirou-se lentamente. O barulho das esteiras em movimento inundou o camarote particular da comandante. A imagem das pinças do ajudante de ordens, em movimento, ficou na mente de Luna e dali não saiu tão cedo.

As duas mulheres ergueram as mãos, entoaram um estrondoso evoé, ecoaram o tilintar da fina taça e da xícara de porcelana e degustaram as bebidas. O sinfônico estribilho da xícara de porcelana e da taça de cristal se encontrando fez a sonhadora em vigília lembrar de outra vida longínqua que um dia tivera, em um lugar perdido, onde um molho de chaves tilintava no ar.

Um silêncio glacial se abateu. A comandante levantou-se, moveu-se até a janela do camarote e olhou para baixo.

— A milady tem um pedido a fazer? Alguma pergunta? — falou a militar de alta patente, ainda olhando para baixo, ignorando a fala inicial da afra-rainha.

Lá embaixo, Bartira contemplava perdidamente uma embarcação interestelar Baka. O tamanho portentoso da espaçonave de combate enchia-a de orgulho. Luna Dark fechou os olhos, viu a comandante Bartira e percebeu que a face da militar havia mudado mais uma vez: metamorfoseara-se em uma mulher escandinava. Os olhos azuis, os cabelos louros e a alta estatura desconcertaram a afra-rainha.

— Milady! Há um dito popular, um ditame, na terra de onde venho, que diz assim: há um gato no telhado que tira o sono de todos! — falou ríspida a militar de alta patente, virando-se para encarar a outra.

— Volto a dizer: eu quero ir até a Turris Ebúrnea! — disse Luna Dark à comandante Bartira, outra vez.

— Pois bem! Recebi ordens. Uma delas é levá-la até a Turris Ebúrnea — algo que a senhora não pode fazer sozinha, como todos sabemos! — disse a militar, com ênfase.

A comandante caminhou até a afra-rainha e olhou profundamente para ela. Em um átimo, as duas foram teletransportadas para o deserto desolado, abaixo do dirigível Mare Crisium. Flutuavam acima de destroços de um enorme modelo Aparai AS1, municiado com mísseis de fragmentação e canhões laser, ao lado de um portentoso galeão espanhol: o San José. Ambos estavam encalhados em meio às níveas areias quentes. Acima, dois sóis gêmeos e perenes lançavam ondas de calor escaldante.

— E as outras ordens? — perguntou a sonhadora em vigília, sem desviar os olhos azuis da escandinava à sua frente.

— A cidadania da afra-rainha foi revogada em definitivo. Vou levá-la até a Turris Ebúrnea, a morada do Vate, e a milady poderá ir ao Palácio das Memórias Perdidas. A afra-rainha poderá ir à câmara-ardente e, depois, terá de retornar ao exílio, ao mundo em vigília, e nunca mais voltar à Terra dos Sonhos — falou a comandante Bartira, como se estivesse diante de um subordinado qualquer.

Não muito longe dali, uma nuvem negra formou-se no horizonte e avançou sobre as duas mulheres: eram as agourentas aves negras Moris. A revoada cobriu-as por completo. Os estridentes grasnares confundiam-se com gritos lancinantes de dor. Sons agudos de carne sendo dilacerada por açoites, o forte cheiro de pólvora queimada e de carne fresca incinerada inundaram a mente da afra-rainha. Estridentes risos desesperados misturavam-se a agonizantes gritos e copiosas lamúrias. A afra-rainha estava extasiada.

As duas mulheres foram teletransportadas de volta para a ponte do dirigível Mare Crisium, ficando frente a frente. Uma era pequena, vestida com uniforme de gala de hussardo, usando coturnos, de pele amendoada e olhos rasgados. A outra era uma mulher enorme, com ares de nobreza oriental, trajando uma alabastrina túnica núbia, sandálias greco-egípcias, pulsos adornados com braceletes, orelhas com brincos núbios incrustados de rubis e safiras, um colar de ouro romano e, na cabeça, um diadema amarelo incrustado de diamantes.

Fragmento do livro: Sustentada no ar por negras asas fracas, texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, cronista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.
Argumento de Samuel da Costa, poeta, contista e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

A ARTE DIGITAL DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 








BRIAN: A PRAIA (1ª e 2ª PARTES)

Por Fabiane Braga Lima (Rio Claro, SP)

 

Chegou o dia prometido e tão esperado. Enfim, Brian me levou à praia. Por Deus, estávamos viajando, mais ou menos, umas três longas horas sem parar. E, se eu fosse uma pessoa desconfiada, poderia achar que Brian era um psicopata. Na verdade, cheguei a desconfiar, pois ele me olhou fixamente durante a viagem inteira, e senti um pouco de medo. Uma mistura de paixão e temor, pois tinha a sensação de que caminhava entre as nuvens e poderia cair, ir ao chão a qualquer momento.

— Brian, meu querido! Está demorando muito, estou em pânico dentro do carro, estamos viajando há horas. — Eu estava trêmula; não sabia mais o que dizer nem o que fazer.

— Ok, meu amor! Vamos parar o carro, assim tomamos um pouco de ar. — disse Brian, amável como sempre, e continuou: — Garota medrosa, olhe para os lados. Chegamos ao litoral há um tempão e você ainda não percebeu.

Estava completamente apaixonada por esse homem. Aflita, pensei: um mulherengo vulgar. Depois dei um longo suspiro, olhei para Brian, perdidamente, e logo divaguei: o que será que o destino me aguarda? 

 

Brian: A praia, segunda parte

 

Enfim, chegamos à praia. Paramos em uma elevação não muito alta, a poucos metros do oceano. Eu, que nunca tinha visto o mar na minha vida, a imensidão azul e a morna brisa oceânica me fizeram bem, renovaram-me naquela hora.

Então Brian deu partida no motor do carro, e partimos para a nossa grande aventura. Andamos poucos metros e paramos em uma calçada; via a restinga, e o cheiro de água salgada e de clorofila me desconcertaram.

— O que está fazendo, Brian? — inquiri, ao vê-lo tirar um lenço branco de linho e levantá-lo no ar.         
          — Vendando os seus belos olhos, meu amor! — Brian abriu a porta do passageiro, apertou um botão no volante do carro e vendou os meus olhos. —        Agora desça e coloque os seus delicados pés na areia, sinta o calor morno. Tire o casaco, meu anjo lindo.

Eu havia colocado o biquíni debaixo das minhas roupas casuais. Ao descer do carro, aflita, não resisti: de repente, em um rompante, tirei a venda e olhei o que estava à minha frente. Meus olhos doeram com o brilho do sol. Havia poucas pessoas à minha frente, que desciam de seus carros, e um ônibus luxuoso de turismo estava estacionado a poucos metros de nós.

Olhei para uma placa e li, em letras garrafais: Praia exclusiva, com um símbolo que demorei para compreender.

— Nudismo! Uma praia de nudismo? Brian, seu estúpido! Como pode fazer isso sem ao menos me dizer antes? — gritei alto e soquei Brian no peito com todas as minhas forças. — Indecente! Me tira daqui, agora! — gritei, chamando a atenção de todos e todas.

Eram pessoas variadas, de idades, raças, classes sociais e etnias diversas.

— Sim, pode deixar, madame. Iremos para um hotel. Fique calma, meu amor, quartos separados, ok? — o tom debochado de Brian me enfureceu ainda mais.  
        — Pode ser…
        — Prometo que não ficarei sozinho esta noite. Bom, tenho amigas aqui, estou pensando em visitá-las! — disse Brian, e então brotou um sorriso cínico em seu rosto.

Voltamos para o carro, Brian deu partida, e fomos embora.

Texto de Fabiane Braga Lima, poetisa, cronista, contista e novelista, de Rio Claro, São Paulo.

A ARTE DIGITAL DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)

 











OPERA MUNDI: NO ALTO DAS TORRES, O TRIBUTO A BACO (1ª Parte)

 

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

Primeira parte

 

“No alvor de um novíssimo dia

No frescor matinal

Eu vou te traduzir por inteiro

Em um instante apenas”

Samuel da Costa

A reunião fora de agenda surpreendeu o professor de artes cênicas e música, Dionísio, e o local mais ainda. Mesmo que o Instituto de Ensino Hermes, de longe, parecesse um tanto anárquico, ali havia camadas e mais camadas de pressupostos que organizavam a instituição de forma dinâmica. Delimitações e disciplinas rígidas: como ocupar os espaços físicos da instituição, assim como uma hierarquia rígida, quase marcial, nas relações entre os vários níveis dos membros administrativos, todos os funcionários e os alunos.

Os muitos núcleos formados dentro da instituição de ensino eram institucionalizados; nas suas composições internas e produções acadêmicas e artísticas, eram bem irregulares. E, do outro lado, cada espaço físico a ser ocupado demandava pedidos previamente requisitados e uma lista longa de espera. As ditas sociedades secretas e semiescritas raramente apareciam nas requisições oficiais; somente os nomes dos professores prementes e convidados apareciam nos documentos.

O professor Dionísio e seis de suas alunas de artes cênicas estavam no alto da Torre Solaris IV, no Jardim Margarida Buerger Gross. O glamoroso jardim greco-romano era um lugar restrito somente aos moradores do condomínio misto residencial e comercial Solaris IV. A bem da verdade, o lugar era mais uma das dependências anexas do Instituto de Ensino Hermes.

— Então, meninas! Senhoritas! — disse o professor convidado de artes cênicas e música, Dionísio. — Enxuto este manuscrito da peça teatral As Filhas do Sol. Eu quero dizer que...

— Explico! — disse Martina, levantando-se da cadeira de vime e levando uma pequena resma de papel encadernado ao professor.

— Agora sim, entendi. É uma peça dividida em quatro atos. Gostei, bem simples e direta, mas cabem mais explicações. Quem assina a peça? Como e onde será encenada? — disse Dionísio, um tanto confuso.

— A peça será dividida em quatro partes e encenada por quatro núcleos diferentes. Ficamos responsáveis pelo prólogo, que é bem curto mesmo — disse Priscilla, cheia de entusiasmo. — E o nosso grupo ficou responsável pela nota de abertura: um pequeno discurso do personagem principal seguido de um cântico de personagens secundárias.

O professor leu a sigla I.L.Y. e deduziu que era o nome do grupo das meninas. Não disse nada, pois aquele era um terreno pantanoso; ele sabia do que aquelas iniciais tratavam. I love you, uma gíria das ruas da localidade para os partidários do amor livre e garotas e garotos de programa, e também para jovens mulheres e homens sustentados por pessoas mais velhas.

Dionísio folheava o papel encadernado, de frente para trás e de trás para frente. Adepto do teatro e da música experimental, deveria estar vibrando com a história toda. Contudo, havia algo de errado. Texto simples e claro, marcações perfeitas, descrições de figurinos e personagens bem construídas. Dionísio logo deduziu que era um texto antigo, atualizado a muitas mãos — mãos profissionais, possivelmente. A peça teatral, As Filhas do Sol, era uma superprodução, e não uma simples peça escolar, de um bairro periférico de uma cidade interiorana. A peça, cabia nos padrões do Instituto de Ensino Hermes, uma instituição de excelência. Mesmo assim, o professor de meia-idade — alto, moreno, de olhos negros vivos, vestido de forma casual — sentiu algo de errado em tudo aquilo.

A narrativa era de um militar de patente intermediária do Império Romano, na fase da República Romana. O militar, na cena inicial, despedia-se dos familiares mais próximos: seis mulheres — a mãe, avós, irmãs, filhas e as escravas. Voltava do estrangeiro com a patente de general e muito rico, mas destruído por dentro. Estava tudo lá: a página de título, lista de personagens principais e secundários, ambientação e tempo de duração da peça, divisão em atos e cenas, diálogos, indicações e pontuação cênica. No prólogo da peça teatral, o personagem principal dá adeus aos familiares com um breve discurso. E, em um cântico, as seis mulheres pedem em oração que Marte, o deus da guerra e protetor de Roma, intervenha e traga Aurélio, o militar de média patente, de volta para casa são e salvo.

— Os figurinos estão prontos, talvez falte fazer alguns ajustes apenas! — disse Camilla, um tanto entusiasmada.

— Estamos prontas, professor! Já ensaiamos e decoramos o cântico! — falou Cassilda, irmã de Camilla.

— Só falta a direção e produção do melhor professor teatral que conhecemos! — comentou Catarina.

— Precisamos do professor no papel inicial de Aurélio — disse Penélope, em tom de súplica.

— Entendi! Querem que eu dirija e produza o prólogo e atue no papel do personagem principal! — disse Dionísio, vencido por fim.

O professor convidado caminhou, contornou o grupo de alunas sentadas à sua frente. Desceu do promontório onde estavam e divisou o fabuloso jardim suspenso, projetado pela paisagista e urbanista Margarida Buerger Gross. Viu o lugar como um fabuloso tributo a Baco, o filho de Zeus e da mortal Sêmele, o deus do vinho. Baco e suas bacantes bem poderiam, sim, fazer uma bela e grandiosa festa naquele lugar mediterrânico.

O sol se punha quando Dionísio a viu empoleirada na lateral oeste do jardim: uma ave negra, uma agourenta ave Mori, com seus minúsculos olhos vermelhos e bico longo e curvado. Dionísio sentiu o gosto de cobre, de sangue fresco na boca, e o estômago embrulhar. Algo ruim estava por vir, intuiu o jovem Dionísio.

— Eu aceito! — bradou bem alto o professor. Disse sem olhar para trás, com os olhos fechados e todos os sinais de alerta ligados ao máximo, que aumentaram quando ouviu as alunas baterem palmas e rirem.



A ARTE DIGITAL DE CLARISSE DA COSTA (BIGUAÇU, SC)