domingo, 1 de março de 2026

OPERA MUNDI: A TURRIS EBÚRNEA (4ª Parte)

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

“Ofereço-te, negra fada
Da floresta negra,
Todo o meu etéreo amor
Em tempos de guerras,
De atrozes desesperos
E dores atrozes.”
Samuel da Costa

 

— Eu quero ir até a Turris Ebúrnea! — disse Luna Dark, incisiva, à comandante Bartira, sentada a poucos centímetros dela.

A militar de alta patente olhou profundamente para a outra à sua frente. Um tanque-robô se aproximou das duas com duas bandejas de prata. O mavioso som mecânico das esteiras em movimento chamou a atenção de Luna Dark. A afra-rainha olhou perdidamente para o ajudante de ordens mecanizado. Era um antigo modelo Aparai AS1, o primeiro modelo de vigilância, patrulha e ataque.

A sonhadora em vigília sentiu um desconforto ao olhar, de outro ângulo, para o aparelho militar, agora convertido em mero ajudante de ordens. No topo do tanque-robô, onde deveria haver um canhão positrônico, existia um pequeno platô onde repousavam as duas bandejas de prata. A sonhadora em vigília não pôde deixar de notar os ricos e delicados detalhes artesanais das chávenas, das bandejas, de todo o aparelho de chá de porcelana e das taças de cristal.

O ajudante de ordens, que lentamente trazia as duas bandejas de prata, conduzia em uma delas um aparelho com chá de ayahuasca e, na outra, um balde de prata com gelo, uma garrafa de champanhe rosé e uma taça de fino cristal. Com dois pares de pinças de titânio, dispôs lentamente as bandejas sobre a mesa de centro. A máquina serviu primeiro a afra-rainha Luna: abriu a garrafa de vinho negro e encheu a taça; depois serviu a comandante Bartira e retirou-se lentamente. O barulho das esteiras em movimento inundou o camarote particular da comandante. A imagem das pinças do ajudante de ordens, em movimento, ficou na mente de Luna e dali não saiu tão cedo.

As duas mulheres ergueram as mãos, entoaram um estrondoso evoé, ecoaram o tilintar da fina taça e da xícara de porcelana e degustaram as bebidas. O sinfônico estribilho da xícara de porcelana e da taça de cristal se encontrando fez a sonhadora em vigília lembrar de outra vida longínqua que um dia tivera, em um lugar perdido, onde um molho de chaves tilintava no ar.

Um silêncio glacial se abateu. A comandante levantou-se, moveu-se até a janela do camarote e olhou para baixo.

— A milady tem um pedido a fazer? Alguma pergunta? — falou a militar de alta patente, ainda olhando para baixo, ignorando a fala inicial da afra-rainha.

Lá embaixo, Bartira contemplava perdidamente uma embarcação interestelar Baka. O tamanho portentoso da espaçonave de combate enchia-a de orgulho. Luna Dark fechou os olhos, viu a comandante Bartira e percebeu que a face da militar havia mudado mais uma vez: metamorfoseara-se em uma mulher escandinava. Os olhos azuis, os cabelos louros e a alta estatura desconcertaram a afra-rainha.

— Milady! Há um dito popular, um ditame, na terra de onde venho, que diz assim: há um gato no telhado que tira o sono de todos! — falou ríspida a militar de alta patente, virando-se para encarar a outra.

— Volto a dizer: eu quero ir até a Turris Ebúrnea! — disse Luna Dark à comandante Bartira, outra vez.

— Pois bem! Recebi ordens. Uma delas é levá-la até a Turris Ebúrnea — algo que a senhora não pode fazer sozinha, como todos sabemos! — disse a militar, com ênfase.

A comandante caminhou até a afra-rainha e olhou profundamente para ela. Em um átimo, as duas foram teletransportadas para o deserto desolado, abaixo do dirigível Mare Crisium. Flutuavam acima de destroços de um enorme modelo Aparai AS1, municiado com mísseis de fragmentação e canhões laser, ao lado de um portentoso galeão espanhol: o San José. Ambos estavam encalhados em meio às níveas areias quentes. Acima, dois sóis gêmeos e perenes lançavam ondas de calor escaldante.

— E as outras ordens? — perguntou a sonhadora em vigília, sem desviar os olhos azuis da escandinava à sua frente.

— A cidadania da afra-rainha foi revogada em definitivo. Vou levá-la até a Turris Ebúrnea, a morada do Vate, e a milady poderá ir ao Palácio das Memórias Perdidas. A afra-rainha poderá ir à câmara-ardente e, depois, terá de retornar ao exílio, ao mundo em vigília, e nunca mais voltar à Terra dos Sonhos — falou a comandante Bartira, como se estivesse diante de um subordinado qualquer.

Não muito longe dali, uma nuvem negra formou-se no horizonte e avançou sobre as duas mulheres: eram as agourentas aves negras Moris. A revoada cobriu-as por completo. Os estridentes grasnares confundiam-se com gritos lancinantes de dor. Sons agudos de carne sendo dilacerada por açoites, o forte cheiro de pólvora queimada e de carne fresca incinerada inundaram a mente da afra-rainha. Estridentes risos desesperados misturavam-se a agonizantes gritos e copiosas lamúrias. A afra-rainha estava extasiada.

As duas mulheres foram teletransportadas de volta para a ponte do dirigível Mare Crisium, ficando frente a frente. Uma era pequena, vestida com uniforme de gala de hussardo, usando coturnos, de pele amendoada e olhos rasgados. A outra era uma mulher enorme, com ares de nobreza oriental, trajando uma alabastrina túnica núbia, sandálias greco-egípcias, pulsos adornados com braceletes, orelhas com brincos núbios incrustados de rubis e safiras, um colar de ouro romano e, na cabeça, um diadema amarelo incrustado de diamantes.

Fragmento do livro: Sustentada no ar por negras asas fracas, texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, cronista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.
Argumento de Samuel da Costa, poeta, contista e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

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