domingo, 1 de março de 2026

OPERA MUNDI: THE QUEEN OF SORROW (2ª parte)

 

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

“Que a celestial luz da poesia

Arranque todas as dores de minha alma

E coloque no lugar o puro amor. ”

Fabiane Braga Lima

 

Ao cair de alturas impossíveis, os pés de Luna alcançaram suavemente o chão hirto de uma realidade desconhecida. A Afra-rainha, a semideusa, de olhos bem fechados, relutava em abri-los — não por medo de perder a única coisa que era só dela e que, raras vezes, ela se dava o direito de provar. Não era medo. Era algo mais profundo: um sentimento que era um misto de receios avassaladores e terrores supra-realistas. Algo havia transmutado e ela bem sabia.

Deixar a segurança tranquila do seu exílio, do mundo em vigília, foi uma opção desesperada — a única opção, aliás. Ir até a terra dos sonhos era também uma declaração de guerra a si mesma. Pois, enquanto meros sonhadores somente acessam a terra dos sonhos enquanto dormem, Luna Dark adensava a si mesma, sonhava acordada e adentrava a terra dos sonhos quando bem queria. Deixar o autoexílio e voltar para casa, sem qualquer aviso prévio, teria lá o seu preço, mas Luna não sabia o quanto lhe custaria, de fato.

Ao abrir os olhos, a semideusa percebeu que tudo estava lá — ou quase tudo. Com os olhos embaçados, ela viu o árido deserto ebúrneo da desolação, sem fim. O Deserto Desolado de Calibor, do poderoso deus soberano, o grande raptor de almas. Mesmo sabendo que seria inevitável, Luna não desejava evocar o soberano cibernético, onisciente e onipresente, pois já tinha problemas demais com Hastur, o Rei de Amarelo, o rei em farrapos. Luna Dark, a Afra-rainha, havia abandonado Carcosa sem qualquer aviso.

Foi com desespero atroz que a Afra-rainha percebeu as alterações no deserto desolado, que, apesar dos pesares, era o páramo tranquilo de Luna Dark. Onde ela, a súdita dileta de Hastur, ansiava andar de pés descalços pelas finas areias e mergulhar os delicados pés nos pequenos lagos azuis das desesperanças eviternas. Aqueles pequenos oceanos místicos onde a semideusa Luna Dark se fez mergulhar, imergir e sonhar com o seu enamorado. Aqueles minúsculos oceanos míticos e salgados, de doridas lágrimas choradas em tempos atemporais por almas desterradas e prisioneiras pelo cyberdeus Calibor. As pobres almas imortais, dilaceradas e lamurientas que, em intermináveis desesperos abissais, choraram por tempos atemporais.

A sonhadora em vigília olhou para cima e divisou uma solitária ave Mori. Luna Dark bem sabia que essas agourentas aves negras, de patas finas e longas e pequenos olhos rubros rasgados, só aparecem em bandos. E quando as aves Mori aparecem, são presságios de grandes tragédias imaginais aos olhos dos mortais.

A sonhadora em vigília foi ao páramo à procura de paz e tranquilidade, por mais breves que fossem. Mas nuvens negras se avizinhavam no longínquo horizonte carmesim. Era uma tempestade de dores e sofrimentos infindos que não tardaria a cair sobre ela, Luna Dark, a Afra-rainha.

A sonhadora em vigília olhou para dentro de si e notou que usava uma leve alva túnica núbia sacerdotal, sandálias greco-egípcias de ébano, braceletes amarelados, sofisticados anéis e brincos núbios incrustados de diamantes, rubis e safiras. Um portentoso colar romano de ouro e um delicado e fino diadema amarelo, incrustado de minúsculos diamantes rosáceos, repousavam sobre sua cabeça. Os misteriosos olhos castanhos rasgados deram lugar a intensos olhos azuis cetáceos, e a pele amendoada ainda estava lá. Lembranças esquecidas começaram a jorrar do palácio da memória da Afra-rainha.

Luna respirou fundo, avançou, levitou a poucos metros do chão e adentrou no limiar do deserto desolado. Os inaudíveis grasnares das aves Mori forçaram a sonhadora em vigília a olhar para cima e se deliciar com a revoada macabra das aves agourentas. A uma distância impossível, a Afra-rainha Luna Dark vislumbrou o improvável: uma astronave, a lendária belonave batedora Queen of Sorrow. O colossal vaso de guerra Haleto deteriorava-se em pleno deserto desolado, onde não era permitido qualquer aparato tecnológico, mecânico ou digital, fosse qual fosse.

As agourentas aves Mori bailavam acima da nave batedora; os animais místicos balouçavam a poucos metros acima. Luna Dark fechou os olhos, consultou o seu palácio da memória e confirmou que a astronave do povo Sitói fora dada como perdida em tempos imemoriais.

Um pouco mais adiante, um cemitério de embarcações e veículos de transporte se estendia a perder de vista: drácares, naus portuguesas, galeões espanhóis. Astronaves de ataque Dukhais, naves de transporte Bekamas, antigas bigas romanas e caças de combate Mikoyan MiG-35. Incontáveis veículos militares e cosmonaves interplanetárias exploradoras, abandonadas à própria sorte em meio a um nada absoluto. Tudo repousava no recanto mais obscuro da terra dos sonhos, no proibido deserto ebúrneo, o páramo da Afra-rainha, o deserto desolado do soberano Calibor.

Elevada a poucos metros do chão, a semideusa Luna Dark sentiu que o pesadelo estava apenas começando.

 

Fragmento do livro: Sustentada no Ar por Negras Asas Fracas. Texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, cronista, novelista e bibliotecária, Balneário Camboriú, Santa Catarina.

Argumento de Samuel da Costa, poeta, contista e novelista. Itajaí, Santa Catarina.

Nenhum comentário:

Postar um comentário