Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)
“Que a
celestial luz da poesia
Arranque
todas as dores de minha alma
E coloque
no lugar o puro amor. ”
Fabiane Braga Lima
Ao cair
de alturas impossíveis, os pés de Luna alcançaram suavemente o chão hirto de
uma realidade desconhecida. A Afra-rainha, a semideusa, de olhos bem fechados,
relutava em abri-los — não por medo de perder a única coisa que era só dela e
que, raras vezes, ela se dava o direito de provar. Não era medo. Era algo mais
profundo: um sentimento que era um misto de receios avassaladores e terrores
supra-realistas. Algo havia transmutado e ela bem sabia.
Deixar
a segurança tranquila do seu exílio, do mundo em vigília, foi uma opção
desesperada — a única opção, aliás. Ir até a terra dos sonhos era também uma
declaração de guerra a si mesma. Pois, enquanto meros sonhadores somente
acessam a terra dos sonhos enquanto dormem, Luna Dark adensava a si mesma,
sonhava acordada e adentrava a terra dos sonhos quando bem queria. Deixar o
autoexílio e voltar para casa, sem qualquer aviso prévio, teria lá o seu preço,
mas Luna não sabia o quanto lhe custaria, de fato.
Ao
abrir os olhos, a semideusa percebeu que tudo estava lá — ou quase tudo. Com os
olhos embaçados, ela viu o árido deserto ebúrneo da desolação, sem fim. O
Deserto Desolado de Calibor, do poderoso deus soberano, o grande raptor de
almas. Mesmo sabendo que seria inevitável, Luna não desejava evocar o soberano
cibernético, onisciente e onipresente, pois já tinha problemas demais com
Hastur, o Rei de Amarelo, o rei em farrapos. Luna Dark, a Afra-rainha, havia
abandonado Carcosa sem qualquer aviso.
Foi com
desespero atroz que a Afra-rainha percebeu as alterações no deserto desolado,
que, apesar dos pesares, era o páramo tranquilo de Luna Dark. Onde ela, a
súdita dileta de Hastur, ansiava andar de pés descalços pelas finas areias e
mergulhar os delicados pés nos pequenos lagos azuis das desesperanças
eviternas. Aqueles pequenos oceanos místicos onde a semideusa Luna Dark se fez
mergulhar, imergir e sonhar com o seu enamorado. Aqueles minúsculos oceanos
míticos e salgados, de doridas lágrimas choradas em tempos atemporais por almas
desterradas e prisioneiras pelo cyberdeus Calibor. As pobres almas imortais,
dilaceradas e lamurientas que, em intermináveis desesperos abissais, choraram
por tempos atemporais.
A
sonhadora em vigília olhou para cima e divisou uma solitária ave Mori. Luna
Dark bem sabia que essas agourentas aves negras, de patas finas e longas e
pequenos olhos rubros rasgados, só aparecem em bandos. E quando as aves Mori
aparecem, são presságios de grandes tragédias imaginais aos olhos dos mortais.
A
sonhadora em vigília foi ao páramo à procura de paz e tranquilidade, por mais
breves que fossem. Mas nuvens negras se avizinhavam no longínquo horizonte
carmesim. Era uma tempestade de dores e sofrimentos infindos que não tardaria a
cair sobre ela, Luna Dark, a Afra-rainha.
A
sonhadora em vigília olhou para dentro de si e notou que usava uma leve alva
túnica núbia sacerdotal, sandálias greco-egípcias de ébano, braceletes
amarelados, sofisticados anéis e brincos núbios incrustados de diamantes, rubis
e safiras. Um portentoso colar romano de ouro e um delicado e fino diadema
amarelo, incrustado de minúsculos diamantes rosáceos, repousavam sobre sua
cabeça. Os misteriosos olhos castanhos rasgados deram lugar a intensos olhos
azuis cetáceos, e a pele amendoada ainda estava lá. Lembranças esquecidas
começaram a jorrar do palácio da memória da Afra-rainha.
Luna
respirou fundo, avançou, levitou a poucos metros do chão e adentrou no limiar
do deserto desolado. Os inaudíveis grasnares das aves Mori forçaram a sonhadora
em vigília a olhar para cima e se deliciar com a revoada macabra das aves
agourentas. A uma distância impossível, a Afra-rainha Luna Dark vislumbrou o
improvável: uma astronave, a lendária belonave batedora Queen of Sorrow.
O colossal vaso de guerra Haleto deteriorava-se em pleno deserto desolado, onde
não era permitido qualquer aparato tecnológico, mecânico ou digital, fosse qual
fosse.
As
agourentas aves Mori bailavam acima da nave batedora; os animais místicos
balouçavam a poucos metros acima. Luna Dark fechou os olhos, consultou o seu
palácio da memória e confirmou que a astronave do povo Sitói fora dada como
perdida em tempos imemoriais.
Um
pouco mais adiante, um cemitério de embarcações e veículos de transporte se
estendia a perder de vista: drácares, naus portuguesas, galeões espanhóis.
Astronaves de ataque Dukhais, naves de transporte Bekamas, antigas bigas
romanas e caças de combate Mikoyan MiG-35. Incontáveis veículos militares e
cosmonaves interplanetárias exploradoras, abandonadas à própria sorte em meio a
um nada absoluto. Tudo repousava no recanto mais obscuro da terra dos sonhos,
no proibido deserto ebúrneo, o páramo da Afra-rainha, o deserto desolado do
soberano Calibor.
Elevada
a poucos metros do chão, a semideusa Luna Dark sentiu que o pesadelo estava
apenas começando.
Fragmento
do livro: Sustentada
no Ar por Negras Asas Fracas. Texto de Clarisse Cristal,
poetisa, contista, cronista, novelista e bibliotecária, Balneário Camboriú,
Santa Catarina.
Argumento
de Samuel
da Costa, poeta, contista e novelista. Itajaí, Santa
Catarina.
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