domingo, 1 de março de 2026

OPERA MUNDI: NO ALTO DA TORRE, O CREPÚSCULO DOS DEUSES (2ª PARTE)

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

“Nem sempre somos personagens de um teatro surreal,

Pois a vida é tão fugaz que passa tão depressa.

Cuidemos das nossas almas!

Chega de fecharmos os nossos olhos,

Devemos enxergar a realidade como ela é.”

Fabiane Braga Lima

 

As caixas baixas de papelão estavam dispostas sobre a mesa de alumínio; à primeira vista, pareciam caixas sofisticadas de alguma loja de roupas de luxo e exclusivas. Nas laterais e na parte superior, estava escrita a palavra Kavla: uma pesada fonte bold, amarelo-ouro, em itálico e reluzente. Olhando para elas, o professor Dionísio perdeu-se em meio a tantos simbolismos, que iam desde os tamanhos das caixas até a forma assimétrica como estavam dispostas. Discretas hastes de trigo e elementos marinhos em cor amarelo-ouro reluzente ornavam aquelas obras de arte. Uma caixa maior e mais alta, feita de papelão com gramatura superior, destacava-se à frente das outras seis. Até a mesa onde repousavam as sete caixas parecia uma antiga mesa de autópsia, destoando do ambiente sofisticado e rústico.

Estavam no alto do edifício Solaris IV, no promontório do fabuloso jardim suspenso projetado pela paisagista e urbanista Margarida Buerger Gross. O sol da tarde adentrava aquele lugar, e os raios do astro-rei resplandeciam sobre as superfícies, ressaltando o dourado das caixas.

Era a segunda vez que o professor de artes cênicas e música, Dionísio, colocava os pés naquele local; notou que não havia tomadas em nenhum ponto. Nenhuma peça elétrica, eletrônica ou mecânica estava presente ali. As luminárias e lâmpadas, internas e externas, eram alimentadas por energia solar.

— Não toque nas caixas, professor! — disse Penélope, ao vê-lo levar a mão a uma delas.

A aluna do Instituto de Ensino Hermes apontou para a caixa no centro da mesa. Incomodado, o professor deslocou a mão, abriu-a e espantou-se com o que viu. Era um uniforme de centurião Primus Pilus, um traje de combate. Dionísio pôs as pontas dos dedos no tecido militar e ficou intrigado, pois o uniforme, feito artesanalmente, parecia novo e antigo ao mesmo tempo. Como professor convidado do Instituto Hermes, ator e músico experiente, e folclorista de renome, ele conhecia bem adereços de cena, tanto para o teatro quanto para espetáculos musicais.

Dionísio, lentamente, correu as pontas dos dedos pelos adornos do traje e sentiu uma onda de choque atingi-lo. Notou, então, que vestia o uniforme de centurião e se encontrava diante de uma legião em um deserto desolado; a tropa estava em formação de guerra. O professor olhou para a mesa e viu uma espada romana ao lado de um disco de acetato. Os objetos estavam dentro de uma caixa Kavla. Dionísio pegou a espada e a embainhou; em seguida, tomou o disco e levou-o à vitrola ao lado do púlpito. Colocou o disco na bandeja. O prato começou a girar e o professor levou o braço do aparelho até o sulco. O som de tambores e trompetes ecoou do aparelho que, paradoxalmente, não deveria estar funcionando.

Era a peça teatral As Filhas do Sol que estava sendo encenada. Dionísio encarnou Aurélio, o centurião Primus Pilus. Parado diante do aparelho, viu-se dentro de um portentoso estúdio de gravação. Avistou Martina ajustando uma bateria e Priscila inspecionando um trompete. Vestidas de forma elegante, as duas, em uníssono, falavam francês parisiense. Ambas olharam para Dionísio e disseram: — Tu es le soleil de ma vie.

Dionísio viu seu reflexo no vidro do estúdio e não se reconheceu: era um homem pequeno e negro, usando roupas afro-caribenhas muito coloridas. De volta ao púlpito, retornou a si mesmo e caminhou em direção à extremidade. Na noite escura, Camilla, Cassilda, Catarina e Penélope estavam presas a altas estacas. Dionísio, vestido de frade diante das mulheres, carregava uma tocha e a jogou na pilha de madeira sob elas; a fogueira acendeu-se. À beira do púlpito, diante do jardim mediterrânico, seis mulheres em formação de meia-lua olhavam para o alto; trajadas como sacerdotisas, balbuciavam em uma antiga língua fenícia. Dionísio agora tinha uma barba longa, vestia uma bata cerimonial e um longo solidéu na cabeça.

No final de uma tarde de outono, sob um sol ameno no alto do conjunto Solaris IV, foi com certa estranheza que populares observaram a formação de uma nuvem negra. Relataram ter visto fortes raios envolverem o topo da torre.

Fragmento do livro: Sustentada no ar por negras asas fracas, texto de Clarisse Cristal poetisa, cronista, contista, novelista e bibliotecária de Balneário, Santa Catarina.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário