Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)
“Nem sempre somos personagens de um teatro surreal,
Pois a vida é tão fugaz que passa tão depressa.
Cuidemos das nossas almas!
Chega de fecharmos os nossos olhos,
Devemos enxergar a realidade como ela é.”
Fabiane Braga
Lima
As
caixas baixas de papelão estavam dispostas sobre a mesa de alumínio; à primeira
vista, pareciam caixas sofisticadas de alguma loja de roupas de luxo e
exclusivas. Nas laterais e na parte superior, estava escrita a palavra Kavla:
uma pesada fonte bold, amarelo-ouro, em itálico e reluzente. Olhando
para elas, o professor Dionísio perdeu-se em meio a tantos simbolismos, que iam
desde os tamanhos das caixas até a forma assimétrica como estavam dispostas.
Discretas hastes de trigo e elementos marinhos em cor amarelo-ouro reluzente
ornavam aquelas obras de arte. Uma caixa maior e mais alta, feita de papelão
com gramatura superior, destacava-se à frente das outras seis. Até a mesa onde
repousavam as sete caixas parecia uma antiga mesa de autópsia, destoando do
ambiente sofisticado e rústico.
Estavam
no alto do edifício Solaris IV, no promontório do fabuloso jardim suspenso
projetado pela paisagista e urbanista Margarida Buerger Gross. O sol da tarde
adentrava aquele lugar, e os raios do astro-rei resplandeciam sobre as
superfícies, ressaltando o dourado das caixas.
Era a
segunda vez que o professor de artes cênicas e música, Dionísio, colocava os
pés naquele local; notou que não havia tomadas em nenhum ponto. Nenhuma peça
elétrica, eletrônica ou mecânica estava presente ali. As luminárias e lâmpadas,
internas e externas, eram alimentadas por energia solar.
— Não
toque nas caixas, professor! — disse Penélope, ao vê-lo levar a mão a uma
delas.
A
aluna do Instituto de Ensino Hermes apontou para a caixa no centro da mesa.
Incomodado, o professor deslocou a mão, abriu-a e espantou-se com o que viu.
Era um uniforme de centurião Primus Pilus, um traje de combate. Dionísio
pôs as pontas dos dedos no tecido militar e ficou intrigado, pois o uniforme,
feito artesanalmente, parecia novo e antigo ao mesmo tempo. Como professor
convidado do Instituto Hermes, ator e músico experiente, e folclorista de
renome, ele conhecia bem adereços de cena, tanto para o teatro quanto para
espetáculos musicais.
Dionísio,
lentamente, correu as pontas dos dedos pelos adornos do traje e sentiu uma onda
de choque atingi-lo. Notou, então, que vestia o uniforme de centurião e se
encontrava diante de uma legião em um deserto desolado; a tropa estava em
formação de guerra. O professor olhou para a mesa e viu uma espada romana ao
lado de um disco de acetato. Os objetos estavam dentro de uma caixa Kavla.
Dionísio pegou a espada e a embainhou; em seguida, tomou o disco e levou-o à
vitrola ao lado do púlpito. Colocou o disco na bandeja. O prato começou a girar
e o professor levou o braço do aparelho até o sulco. O som de tambores e
trompetes ecoou do aparelho que, paradoxalmente, não deveria estar funcionando.
Era a
peça teatral As Filhas do Sol que estava sendo encenada. Dionísio
encarnou Aurélio, o centurião Primus Pilus. Parado diante do aparelho,
viu-se dentro de um portentoso estúdio de gravação. Avistou Martina ajustando
uma bateria e Priscila inspecionando um trompete. Vestidas de forma elegante,
as duas, em uníssono, falavam francês parisiense. Ambas olharam para Dionísio e
disseram: — Tu es le soleil de ma vie.
Dionísio
viu seu reflexo no vidro do estúdio e não se reconheceu: era um homem pequeno e
negro, usando roupas afro-caribenhas muito coloridas. De volta ao púlpito,
retornou a si mesmo e caminhou em direção à extremidade. Na noite escura,
Camilla, Cassilda, Catarina e Penélope estavam presas a altas estacas.
Dionísio, vestido de frade diante das mulheres, carregava uma tocha e a jogou
na pilha de madeira sob elas; a fogueira acendeu-se. À beira do púlpito, diante
do jardim mediterrânico, seis mulheres em formação de meia-lua olhavam para o
alto; trajadas como sacerdotisas, balbuciavam em uma antiga língua fenícia.
Dionísio agora tinha uma barba longa, vestia uma bata cerimonial e um longo
solidéu na cabeça.
No
final de uma tarde de outono, sob um sol ameno no alto do conjunto Solaris IV,
foi com certa estranheza que populares observaram a formação de uma nuvem
negra. Relataram ter visto fortes raios envolverem o topo da torre.
Fragmento do livro: Sustentada no ar por negras
asas fracas, texto de Clarisse Cristal poetisa, cronista, contista, novelista e
bibliotecária de Balneário, Santa Catarina.
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