domingo, 1 de março de 2026

OPERA MUNDI: DE TUDO O QUE HÁ DE TRANSITÓRIO PERMANENTE (1ª PARTE)

 

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

“Entre as lágrimas, o silêncio e o amor…

Que os ventos da natureza me levem...

Para onde eu possa repousar tranquilamente.

Que a celestial luz da poesia

Arranque todas as dores de minha alma

E coloque, no lugar, o puro amor.”

Fabiane Braga Lima

 

Um vislumbre apenas, entre os efêmeros e os abstratos, e nada mais além das imensidões astrais infinitas que separam as muitas hirtas realidades reinantes dos mundos imateriais. O veículo de passeio estava em alta velocidade, seguia pela pista azul. Luna estava com as mãos firmes e confiantes ao volante; preferiu assim, pois gostava de dirigir em vez de acionar o piloto automático. Se bem que a opção de usar o piloto automático também era mais do que dispensável, pois Luna tinha o controle total do veículo.

Acima e nas laterais da autopista de rolagem, dois trens de monotrilho passaram simultaneamente em alta velocidade: um seguia para o norte, outro para o sul. Luna não deveria ouvir os trens de monotrilho gritarem, pois ambos estavam envoltos em rijos tubos de cristal líquido. Mas Luna ouvia bem o que, para ela, soava como uma melodia eufônica — breve, a bem da verdade.

A condutora do veículo automatizado voltou à realidade quando um veículo militar batedor emparelhou com o seu. Ela sabia que, atrás do batedor que a ladeava, vinha um comboio de enormes caminhões civis e militares. Apesar do vidro blindado e escuro, Luna notou, no assento do passageiro dianteiro, um soldado fortemente armado. Ele empunhava uma arma de grosso calibre — uma submetralhadora com mira a laser e um lançador de granadas acoplado —, apontada para o teto do veículo.

Quando o militar de baixa patente fez menção de olhar para Luna, ela ergueu a mão esquerda e apontou para frente, impedindo que o homem a encarasse. Luna não queria ter o rosto escaneado pelas lentes dos óculos do soldado ou pelas câmeras embutidas no uniforme e no capacete. Imagens que, invariavelmente, iriam parar em bancos de dados de aparatos de segurança pública e seriam vasculhadas na rede mundial de computadores.

Em vez de acelerar, Luna pensou, e o carro dela diminuiu a velocidade. O veículo batedor acelerou e a ultrapassou. Em seguida, passou o enorme comboio militar, composto por pesados veículos de transporte de carga e unidades menores. O comboio seguiu em alta velocidade e se perdeu do campo de visão da condutora atenta.

Há tempos a mãe e a irmã mais nova não aprovavam as longas viagens de Luna, pois ela morava em uma cidade, trabalhava em outra e, por fim, estudava em uma terceira. As muitas idas e vindas, dirigindo um carro de passeio em uma autopista rápida, assustavam a família e pessoas próximas. Os muitos porquês sempre encontravam como resposta silêncios — breves e, às vezes, longos hiatos.

A pergunta recorrente sobre por que ela não usava o trem monotrilho tinha uma resposta curta e direta, variando entre um simples “eu não quero” e “eu não gosto de me misturar com multidões”. Havia ainda o pedido insistente: “Pelo menos não dirija, use o piloto automático”. Ela ouvia isso da família e de conhecidos. Então mentia. Dizia que sim, que usaria a ferramenta digital para tranquilizar a todos. Na verdade, Luna precisava e ansiava por momentos de solidão e quietude, ainda que breves.

Luna pensava que as movimentações que fazia eram decisões que cabiam somente a ela. E, por mais próxima que fosse da família e dos bons amigos — a maioria pessoas pacatas, de vidas simples —, em alguns assuntos decidiu se fechar em si mesma.

Foi quando o painel do veículo assobiou uma melodia eufônica, inaudível aos ouvidos de muitos. Luna escutou as notas musicais, desacelerou, pegou a rampa à esquerda e saiu do corredor azul; subiu para o corredor vermelho e, em seguida, tomou outra rampa até alcançar o corredor amarelo. Ali, no quase deserto corredor amarelo, geralmente usado por moradores locais e por gente sem pressa alguma de viver, Luna reduziu ainda mais a velocidade, deslocou-se até o acostamento e quase parou.

Ela pensou na caixa de entrada, nas mensagens, na interface digital do painel azul-marinho, e visualizou um recado do namorado. Pensou em qual idioma gostaria de ouvir a voz de Yendel e escolheu o francês europeu. Era quase meio-dia, e o sol ameno brilhava pleno a leste, em um céu azul-anil com poucas nuvens. O portentoso oceano Atlântico, verde-esmeralda, completava o cenário ao fundo.

Luna abriu a mensagem, que estava apenas escrita, sem vídeo ou áudio. O texto foi traduzido para o francês. Antes mesmo de ler, ela intuiu que algo estava errado, pois Yendel sempre enviava vídeos ou áudios. A motorista reparou que o veículo havia se deslocado para o meio da pista sem que ela percebesse. Pensou novamente, e o carro retornou lentamente à segurança do acostamento.

Luna não soube explicar por que pensou, naquele momento extremo, no lago de Hali, nas Híades e em Aldebarã; no emblema amarelo, em Hastur, o Rei de Amarelo, na máscara pálida da verdade, em Cassilda e Camila e, por fim, em Carcosa. Mas, lá nas profundezas abissais, no âmago mais profundo, ela sabia o que estava por vir. Luna leu e releu o breve bilhete de Yendel. Um texto em fonte manuscrita, enxuto e direto, que dizia que tudo estava acabado; que ele até tentava, mas nada dava certo na relação.

Luna, aos tropeços, saiu do veículo. Uma onda magnética formou-se ao redor dela, expandiu-se uma, duas vezes e explodiu, danificando os veículos que passavam lentos e sonolentos. As câmeras de vigilância nas torres ao longo da via estouraram. Dois pequenos drones que sobrevoavam baixo incendiaram-se e caíram em chamas. Os aparelhos se espatifaram no chão e explodiram.

Ao longo das três pistas, todos os instrumentos elétricos, eletrônicos e mecânicos, pararam de funcionar. O corpo incorpóreo de Luna, em chamas, ganhou o céu e seguiu rumo ao Páramo, deixando para trás apenas um avatar de si mesma.

Texto: Clarisse Cristal, poetisa, contista, novelista e bibliotecária de Balneário Camboriú, Santa Catarina.
Argumento: Samuel da Costa, poeta, contista e novelista, Itajaí, Santa Catarina.

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