Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)
“Entre as
lágrimas, o silêncio e o amor…
Que os
ventos da natureza me levem...
Para onde
eu possa repousar tranquilamente.
Que a
celestial luz da poesia
Arranque
todas as dores de minha alma
E
coloque, no lugar, o puro amor.”
Fabiane Braga Lima
Um
vislumbre apenas, entre os efêmeros e os abstratos, e nada mais além das
imensidões astrais infinitas que separam as muitas hirtas realidades reinantes
dos mundos imateriais. O veículo de passeio estava em alta velocidade, seguia
pela pista azul. Luna estava com as mãos firmes e confiantes ao volante;
preferiu assim, pois gostava de dirigir em vez de acionar o piloto automático.
Se bem que a opção de usar o piloto automático também era mais do que
dispensável, pois Luna tinha o controle total do veículo.
Acima e
nas laterais da autopista de rolagem, dois trens de monotrilho passaram
simultaneamente em alta velocidade: um seguia para o norte, outro para o sul.
Luna não deveria ouvir os trens de monotrilho gritarem, pois ambos estavam
envoltos em rijos tubos de cristal líquido. Mas Luna ouvia bem o que, para ela,
soava como uma melodia eufônica — breve, a bem da verdade.
A
condutora do veículo automatizado voltou à realidade quando um veículo militar
batedor emparelhou com o seu. Ela sabia que, atrás do batedor que a ladeava,
vinha um comboio de enormes caminhões civis e militares. Apesar do vidro
blindado e escuro, Luna notou, no assento do passageiro dianteiro, um soldado
fortemente armado. Ele empunhava uma arma de grosso calibre — uma
submetralhadora com mira a laser e um lançador de granadas acoplado —, apontada
para o teto do veículo.
Quando
o militar de baixa patente fez menção de olhar para Luna, ela ergueu a mão
esquerda e apontou para frente, impedindo que o homem a encarasse. Luna não
queria ter o rosto escaneado pelas lentes dos óculos do soldado ou pelas
câmeras embutidas no uniforme e no capacete. Imagens que, invariavelmente,
iriam parar em bancos de dados de aparatos de segurança pública e seriam
vasculhadas na rede mundial de computadores.
Em vez
de acelerar, Luna pensou, e o carro dela diminuiu a velocidade. O veículo
batedor acelerou e a ultrapassou. Em seguida, passou o enorme comboio militar,
composto por pesados veículos de transporte de carga e unidades menores. O
comboio seguiu em alta velocidade e se perdeu do campo de visão da condutora
atenta.
Há
tempos a mãe e a irmã mais nova não aprovavam as longas viagens de Luna, pois
ela morava em uma cidade, trabalhava em outra e, por fim, estudava em uma
terceira. As muitas idas e vindas, dirigindo um carro de passeio em uma
autopista rápida, assustavam a família e pessoas próximas. Os muitos porquês
sempre encontravam como resposta silêncios — breves e, às vezes, longos hiatos.
A
pergunta recorrente sobre por que ela não usava o trem monotrilho tinha uma
resposta curta e direta, variando entre um simples “eu não quero” e “eu não
gosto de me misturar com multidões”. Havia ainda o pedido insistente: “Pelo
menos não dirija, use o piloto automático”. Ela ouvia isso da família e de
conhecidos. Então mentia. Dizia que sim, que usaria a ferramenta digital para
tranquilizar a todos. Na verdade, Luna precisava e ansiava por momentos de
solidão e quietude, ainda que breves.
Luna
pensava que as movimentações que fazia eram decisões que cabiam somente a ela.
E, por mais próxima que fosse da família e dos bons amigos — a maioria pessoas
pacatas, de vidas simples —, em alguns assuntos decidiu se fechar em si mesma.
Foi
quando o painel do veículo assobiou uma melodia eufônica, inaudível aos ouvidos
de muitos. Luna escutou as notas musicais, desacelerou, pegou a rampa à
esquerda e saiu do corredor azul; subiu para o corredor vermelho e, em seguida,
tomou outra rampa até alcançar o corredor amarelo. Ali, no quase deserto
corredor amarelo, geralmente usado por moradores locais e por gente sem pressa
alguma de viver, Luna reduziu ainda mais a velocidade, deslocou-se até o
acostamento e quase parou.
Ela
pensou na caixa de entrada, nas mensagens, na interface digital do painel
azul-marinho, e visualizou um recado do namorado. Pensou em qual idioma
gostaria de ouvir a voz de Yendel e escolheu o francês europeu. Era quase
meio-dia, e o sol ameno brilhava pleno a leste, em um céu azul-anil com poucas
nuvens. O portentoso oceano Atlântico, verde-esmeralda, completava o cenário ao
fundo.
Luna
abriu a mensagem, que estava apenas escrita, sem vídeo ou áudio. O texto foi
traduzido para o francês. Antes mesmo de ler, ela intuiu que algo estava
errado, pois Yendel sempre enviava vídeos ou áudios. A motorista reparou que o
veículo havia se deslocado para o meio da pista sem que ela percebesse. Pensou
novamente, e o carro retornou lentamente à segurança do acostamento.
Luna
não soube explicar por que pensou, naquele momento extremo, no lago de Hali,
nas Híades e em Aldebarã; no emblema amarelo, em Hastur, o Rei de Amarelo, na
máscara pálida da verdade, em Cassilda e Camila e, por fim, em Carcosa. Mas, lá
nas profundezas abissais, no âmago mais profundo, ela sabia o que estava por
vir. Luna leu e releu o breve bilhete de Yendel. Um texto em fonte manuscrita,
enxuto e direto, que dizia que tudo estava acabado; que ele até tentava, mas
nada dava certo na relação.
Luna,
aos tropeços, saiu do veículo. Uma onda magnética formou-se ao redor dela,
expandiu-se uma, duas vezes e explodiu, danificando os veículos que passavam
lentos e sonolentos. As câmeras de vigilância nas torres ao longo da via
estouraram. Dois pequenos drones que sobrevoavam baixo incendiaram-se e caíram
em chamas. Os aparelhos se espatifaram no chão e explodiram.
Ao
longo das três pistas, todos os instrumentos elétricos, eletrônicos e mecânicos,
pararam de funcionar. O corpo incorpóreo de Luna, em chamas, ganhou o céu e
seguiu rumo ao Páramo, deixando para trás apenas um avatar de si mesma.
Texto:
Clarisse Cristal, poetisa, contista, novelista e bibliotecária de Balneário
Camboriú, Santa Catarina.
Argumento: Samuel da Costa,
poeta, contista e novelista, Itajaí, Santa Catarina.
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