Por Clarisse da Costa (Balneário Camboriú, SC)
“Fui eu que deixei…
A cinza das horas…
Levar o meu platônico amor! Por ti.
Minha divina Luna!
E o olhar da Medusa…
Sepultou o meu profano amor! Por ti…
Para todo o sempre.
Minha Beltia imortal…”
Samuel da Costa
Luna
Dark flanava acima do deserto da desolação, a poucos metros do solo. A
afra-rainha olhou para baixo e viu o impensável: destroços de veículos
militares, de transporte e de exploração. A afra-rainha deteve-se em particular
em uma belonave exploradora interestelar Bororo. Com muitas dificuldades, Luna
fez um escâner e descobriu que não havia restos mortais dentro da belonave. Fez
o mesmo com outra aeronave interestelar transportadora Yatê, que estava ao lado
da belonave exploradora Bororo. O resultado foi o mesmo: não havia sinais
aparentes das tripulações dos veículos, apesar do estado de deterioração
avançada das astronaves.
As
pontes de comando dos veículos estavam intactas, assim como os interiores e as
couraças exteriores. Em suma, os aparelhos não entraram em combate; não havia
sinais dos tripulantes nos aparelhos, nem sinais aparentes de fuga ou
desembarque. Luna Dark, a sonhadora em vigília, tentou acessar os arquivos e os
diários de bordo, os manifestos de carga, os inventários bélicos e civis nas
aeronaves interestelares. A semideusa não teve acesso aos dados arquivados:
estavam hermeticamente fechados dentro de arquivos selados, que, por sua vez,
estavam resguardados em outro arquivo impenetrável.
Luna
já tinha visto algo assim antes: sequestraram os aparelhos, capturaram as
tripulações para extrair as lembranças e os códigos genéticos de quem quer que
estivesse na maquinaria estelar. Depois escanearam as máquinas, acessaram os
bancos de dados dos aparelhos, baixaram os arquivos, apagaram-nos e deixaram
para trás apenas cascas ocas. Calibor, o raptor de almas. Eram as digitais dele
em toda parte.
Luna
Dark vislumbrou-se em total êxtase ao ver as negras aves Moris empoleiradas nos
veículos. Os grasnares das aves mais velhas e os piares das mais novas eram
agourentos — e, ao mesmo tempo, maviosas sinfonias para a sonhadora em vigília.
Luna
Dark, a sonhadora em vigília, olhou para cima e divisou ao longe o lendário
dirigível Mare Crisium. A belonave intergaláctica locomovia-se
rapidamente, manobrava como se fugisse de alguém ou de alguma coisa. Luna
tentou ver quem estava na ponte de comando da belonave, mas não conseguiu.
Tentou entrar em contato com o comandante da ponte e também não obteve
resposta. Um enorme alerta disparou no âmago mais profundo da afra-rainha. Luna
decidiu ir até o dirigível para ver de perto o que ocorria.
O
dirigível Mare Crisium diminuiu a velocidade. Então, Luna Dark flanou
até ele e resolveu tentar a sorte, batendo à porta do ignoto. Ao se aproximar
da célebre belonave de combate, a porta lateral esquerda abriu-se lentamente. A
sonhadora em vigília adentrou triunfante na belonave, e a escuridão abissal a
tragou por completo.
—
Bem-vinda, milady! Minha afra-rainha! — falou, curvando-se de forma solene, a
comandante Bartira, devidamente trajada com seu uniforme de hussardo. De longos
e reluzentes cabelos negros, olhos castanhos rasgados, a militar era de baixa
estatura e alta patente.
A
situação sui generis trouxe lembranças à sonhadora em vigília —
lembranças que ela queria esquecer. Lembranças de Carcosa. Luna também pensou
em Madalena Assumi ao observar mais atentamente o traje militar de Bartira.
—
Comandante…
— Sei
o que a negra rainha quer saber e, para encurtar a conversa, só posso dizer que
é o Lord Calibor. E não posso dizer mais nada! — proferiu, seca, a comandante,
aproximando-se de Luna. A militar colocou a mão esquerda no peito e a direita
nas costas, curvou-se lentamente e ergueu-se com rapidez.
Luna
escaneou o dirigível de popa a proa e notou a presença de gatos domésticos —
vários, de diversas raças, cores e tamanhos.
—
Procuro a Turris Ebúrneas.
Preciso ter uma audiência como Vate de Ébano! — sentenciou Luna Dark, a
sonhadora em vigília.
—
Vamos ao meu camarote privativo, milady Luna Dark! — convidou a comandante
Bartira, curvando-se novamente de forma solene.
Ao
adentrar as dependências do dirigível, Luna confirmou o que já suspeitava:
havia uma quantidade enorme de gatos e gatas circulando livremente pelo Mare
Crisium. Os ronronares e os miados simplesmente não existiam, e o que
saltou aos olhos de Luna Dark foi a quantidade de felinos — muito maior do que
indicava a leitura que acabara de fazer.
A
afra-rainha estava curiosa com toda a situação. As duas caminharam entre os
felinos, subindo as escadarias de mármore Carrara. À frente, a militar conduzia
o caminho rumo ao segundo piso. Luna não se conteve e ia abrir a boca para
fazer uma pergunta.
—
Antes que milady pergunte, eu vou levá-los de volta à cidade de Ulthar. Estavam
em conferência, debatendo uma constituição! — explicou a comandante Bartira.
Ao
olhar para trás, a afra-rainha notou que o rosto da militar havia mudado.
Agora, quem estava à frente da sonhadora em vigília era uma belíssima mulher
afro-albina. Mais uma vez, a curiosidade se agigantou dentro da afra-rainha
Luna Dark, pois ela sabia muito bem quem era a comandante Bartira: uma fiel
serva do ciberdeus Lord Calibor.
Enquanto
subia as escadarias de mármore, a sonhadora em vigília começou a repensar os
passos que a haviam conduzido até ali.
Fragmento do livro: Sustentada no ar por negras asas fracas, texto de Clarisse
Cristal, poetisa, contista, cronista, novelista e bibliotecária em Balneário
Camboriú, Santa Catarina.
Argumento de Samuel da Costa, poeta, contista e novelista em Itajaí, Santa
Catarina.
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