domingo, 1 de março de 2026

OPERA MUNDI: MARE CRISIUM (3ª PARTE)

Por Clarisse da Costa (Balneário Camboriú, SC)

 

“Fui eu que deixei…
A cinza das horas…
Levar o meu platônico amor! Por ti.
Minha divina Luna!
E o olhar da Medusa…
Sepultou o meu profano amor! Por ti…
Para todo o sempre.
Minha Beltia imortal…”

Samuel da Costa

 

Luna Dark flanava acima do deserto da desolação, a poucos metros do solo. A afra-rainha olhou para baixo e viu o impensável: destroços de veículos militares, de transporte e de exploração. A afra-rainha deteve-se em particular em uma belonave exploradora interestelar Bororo. Com muitas dificuldades, Luna fez um escâner e descobriu que não havia restos mortais dentro da belonave. Fez o mesmo com outra aeronave interestelar transportadora Yatê, que estava ao lado da belonave exploradora Bororo. O resultado foi o mesmo: não havia sinais aparentes das tripulações dos veículos, apesar do estado de deterioração avançada das astronaves.

As pontes de comando dos veículos estavam intactas, assim como os interiores e as couraças exteriores. Em suma, os aparelhos não entraram em combate; não havia sinais dos tripulantes nos aparelhos, nem sinais aparentes de fuga ou desembarque. Luna Dark, a sonhadora em vigília, tentou acessar os arquivos e os diários de bordo, os manifestos de carga, os inventários bélicos e civis nas aeronaves interestelares. A semideusa não teve acesso aos dados arquivados: estavam hermeticamente fechados dentro de arquivos selados, que, por sua vez, estavam resguardados em outro arquivo impenetrável.

Luna já tinha visto algo assim antes: sequestraram os aparelhos, capturaram as tripulações para extrair as lembranças e os códigos genéticos de quem quer que estivesse na maquinaria estelar. Depois escanearam as máquinas, acessaram os bancos de dados dos aparelhos, baixaram os arquivos, apagaram-nos e deixaram para trás apenas cascas ocas. Calibor, o raptor de almas. Eram as digitais dele em toda parte.

Luna Dark vislumbrou-se em total êxtase ao ver as negras aves Moris empoleiradas nos veículos. Os grasnares das aves mais velhas e os piares das mais novas eram agourentos — e, ao mesmo tempo, maviosas sinfonias para a sonhadora em vigília.

Luna Dark, a sonhadora em vigília, olhou para cima e divisou ao longe o lendário dirigível Mare Crisium. A belonave intergaláctica locomovia-se rapidamente, manobrava como se fugisse de alguém ou de alguma coisa. Luna tentou ver quem estava na ponte de comando da belonave, mas não conseguiu. Tentou entrar em contato com o comandante da ponte e também não obteve resposta. Um enorme alerta disparou no âmago mais profundo da afra-rainha. Luna decidiu ir até o dirigível para ver de perto o que ocorria.

O dirigível Mare Crisium diminuiu a velocidade. Então, Luna Dark flanou até ele e resolveu tentar a sorte, batendo à porta do ignoto. Ao se aproximar da célebre belonave de combate, a porta lateral esquerda abriu-se lentamente. A sonhadora em vigília adentrou triunfante na belonave, e a escuridão abissal a tragou por completo.

— Bem-vinda, milady! Minha afra-rainha! — falou, curvando-se de forma solene, a comandante Bartira, devidamente trajada com seu uniforme de hussardo. De longos e reluzentes cabelos negros, olhos castanhos rasgados, a militar era de baixa estatura e alta patente.

A situação sui generis trouxe lembranças à sonhadora em vigília — lembranças que ela queria esquecer. Lembranças de Carcosa. Luna também pensou em Madalena Assumi ao observar mais atentamente o traje militar de Bartira.

— Comandante…

— Sei o que a negra rainha quer saber e, para encurtar a conversa, só posso dizer que é o Lord Calibor. E não posso dizer mais nada! — proferiu, seca, a comandante, aproximando-se de Luna. A militar colocou a mão esquerda no peito e a direita nas costas, curvou-se lentamente e ergueu-se com rapidez.

Luna escaneou o dirigível de popa a proa e notou a presença de gatos domésticos — vários, de diversas raças, cores e tamanhos.

— Procuro a Turris Ebúrneas. Preciso ter uma audiência como Vate de Ébano! — sentenciou Luna Dark, a sonhadora em vigília.

— Vamos ao meu camarote privativo, milady Luna Dark! — convidou a comandante Bartira, curvando-se novamente de forma solene.

Ao adentrar as dependências do dirigível, Luna confirmou o que já suspeitava: havia uma quantidade enorme de gatos e gatas circulando livremente pelo Mare Crisium. Os ronronares e os miados simplesmente não existiam, e o que saltou aos olhos de Luna Dark foi a quantidade de felinos — muito maior do que indicava a leitura que acabara de fazer.

A afra-rainha estava curiosa com toda a situação. As duas caminharam entre os felinos, subindo as escadarias de mármore Carrara. À frente, a militar conduzia o caminho rumo ao segundo piso. Luna não se conteve e ia abrir a boca para fazer uma pergunta.

— Antes que milady pergunte, eu vou levá-los de volta à cidade de Ulthar. Estavam em conferência, debatendo uma constituição! — explicou a comandante Bartira.

Ao olhar para trás, a afra-rainha notou que o rosto da militar havia mudado. Agora, quem estava à frente da sonhadora em vigília era uma belíssima mulher afro-albina. Mais uma vez, a curiosidade se agigantou dentro da afra-rainha Luna Dark, pois ela sabia muito bem quem era a comandante Bartira: uma fiel serva do ciberdeus Lord Calibor.

Enquanto subia as escadarias de mármore, a sonhadora em vigília começou a repensar os passos que a haviam conduzido até ali.

 

Fragmento do livro: Sustentada no ar por negras asas fracas, texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, cronista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.

Argumento de Samuel da Costa, poeta, contista e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

 

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