domingo, 1 de março de 2026

OPERA MUNDI: NO ALTO DAS TORRES, O TRIBUTO A BACO (1ª Parte)

 

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

Primeira parte

 

“No alvor de um novíssimo dia

No frescor matinal

Eu vou te traduzir por inteiro

Em um instante apenas”

Samuel da Costa

A reunião fora de agenda surpreendeu o professor de artes cênicas e música, Dionísio, e o local mais ainda. Mesmo que o Instituto de Ensino Hermes, de longe, parecesse um tanto anárquico, ali havia camadas e mais camadas de pressupostos que organizavam a instituição de forma dinâmica. Delimitações e disciplinas rígidas: como ocupar os espaços físicos da instituição, assim como uma hierarquia rígida, quase marcial, nas relações entre os vários níveis dos membros administrativos, todos os funcionários e os alunos.

Os muitos núcleos formados dentro da instituição de ensino eram institucionalizados; nas suas composições internas e produções acadêmicas e artísticas, eram bem irregulares. E, do outro lado, cada espaço físico a ser ocupado demandava pedidos previamente requisitados e uma lista longa de espera. As ditas sociedades secretas e semiescritas raramente apareciam nas requisições oficiais; somente os nomes dos professores prementes e convidados apareciam nos documentos.

O professor Dionísio e seis de suas alunas de artes cênicas estavam no alto da Torre Solaris IV, no Jardim Margarida Buerger Gross. O glamoroso jardim greco-romano era um lugar restrito somente aos moradores do condomínio misto residencial e comercial Solaris IV. A bem da verdade, o lugar era mais uma das dependências anexas do Instituto de Ensino Hermes.

— Então, meninas! Senhoritas! — disse o professor convidado de artes cênicas e música, Dionísio. — Enxuto este manuscrito da peça teatral As Filhas do Sol. Eu quero dizer que...

— Explico! — disse Martina, levantando-se da cadeira de vime e levando uma pequena resma de papel encadernado ao professor.

— Agora sim, entendi. É uma peça dividida em quatro atos. Gostei, bem simples e direta, mas cabem mais explicações. Quem assina a peça? Como e onde será encenada? — disse Dionísio, um tanto confuso.

— A peça será dividida em quatro partes e encenada por quatro núcleos diferentes. Ficamos responsáveis pelo prólogo, que é bem curto mesmo — disse Priscilla, cheia de entusiasmo. — E o nosso grupo ficou responsável pela nota de abertura: um pequeno discurso do personagem principal seguido de um cântico de personagens secundárias.

O professor leu a sigla I.L.Y. e deduziu que era o nome do grupo das meninas. Não disse nada, pois aquele era um terreno pantanoso; ele sabia do que aquelas iniciais tratavam. I love you, uma gíria das ruas da localidade para os partidários do amor livre e garotas e garotos de programa, e também para jovens mulheres e homens sustentados por pessoas mais velhas.

Dionísio folheava o papel encadernado, de frente para trás e de trás para frente. Adepto do teatro e da música experimental, deveria estar vibrando com a história toda. Contudo, havia algo de errado. Texto simples e claro, marcações perfeitas, descrições de figurinos e personagens bem construídas. Dionísio logo deduziu que era um texto antigo, atualizado a muitas mãos — mãos profissionais, possivelmente. A peça teatral, As Filhas do Sol, era uma superprodução, e não uma simples peça escolar, de um bairro periférico de uma cidade interiorana. A peça, cabia nos padrões do Instituto de Ensino Hermes, uma instituição de excelência. Mesmo assim, o professor de meia-idade — alto, moreno, de olhos negros vivos, vestido de forma casual — sentiu algo de errado em tudo aquilo.

A narrativa era de um militar de patente intermediária do Império Romano, na fase da República Romana. O militar, na cena inicial, despedia-se dos familiares mais próximos: seis mulheres — a mãe, avós, irmãs, filhas e as escravas. Voltava do estrangeiro com a patente de general e muito rico, mas destruído por dentro. Estava tudo lá: a página de título, lista de personagens principais e secundários, ambientação e tempo de duração da peça, divisão em atos e cenas, diálogos, indicações e pontuação cênica. No prólogo da peça teatral, o personagem principal dá adeus aos familiares com um breve discurso. E, em um cântico, as seis mulheres pedem em oração que Marte, o deus da guerra e protetor de Roma, intervenha e traga Aurélio, o militar de média patente, de volta para casa são e salvo.

— Os figurinos estão prontos, talvez falte fazer alguns ajustes apenas! — disse Camilla, um tanto entusiasmada.

— Estamos prontas, professor! Já ensaiamos e decoramos o cântico! — falou Cassilda, irmã de Camilla.

— Só falta a direção e produção do melhor professor teatral que conhecemos! — comentou Catarina.

— Precisamos do professor no papel inicial de Aurélio — disse Penélope, em tom de súplica.

— Entendi! Querem que eu dirija e produza o prólogo e atue no papel do personagem principal! — disse Dionísio, vencido por fim.

O professor convidado caminhou, contornou o grupo de alunas sentadas à sua frente. Desceu do promontório onde estavam e divisou o fabuloso jardim suspenso, projetado pela paisagista e urbanista Margarida Buerger Gross. Viu o lugar como um fabuloso tributo a Baco, o filho de Zeus e da mortal Sêmele, o deus do vinho. Baco e suas bacantes bem poderiam, sim, fazer uma bela e grandiosa festa naquele lugar mediterrânico.

O sol se punha quando Dionísio a viu empoleirada na lateral oeste do jardim: uma ave negra, uma agourenta ave Mori, com seus minúsculos olhos vermelhos e bico longo e curvado. Dionísio sentiu o gosto de cobre, de sangue fresco na boca, e o estômago embrulhar. Algo ruim estava por vir, intuiu o jovem Dionísio.

— Eu aceito! — bradou bem alto o professor. Disse sem olhar para trás, com os olhos fechados e todos os sinais de alerta ligados ao máximo, que aumentaram quando ouviu as alunas baterem palmas e rirem.



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