Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)
Primeira parte
“No alvor de um novíssimo dia
No frescor matinal
Eu vou te traduzir por inteiro
Em um instante apenas”
Samuel da Costa
A reunião fora de agenda surpreendeu o
professor de artes cênicas e música, Dionísio, e o local mais ainda. Mesmo que
o Instituto de Ensino Hermes, de longe, parecesse um tanto anárquico, ali havia
camadas e mais camadas de pressupostos que organizavam a instituição de forma dinâmica. Delimitações e disciplinas
rígidas: como ocupar os espaços físicos da instituição, assim como uma
hierarquia rígida, quase marcial, nas relações entre os vários níveis dos
membros administrativos, todos os funcionários e os alunos.
Os muitos núcleos formados dentro da
instituição de ensino eram institucionalizados; nas suas composições internas e
produções acadêmicas e artísticas, eram bem irregulares. E, do outro lado, cada
espaço físico a ser ocupado demandava pedidos previamente requisitados e uma
lista longa de espera. As ditas sociedades secretas e semiescritas raramente
apareciam nas requisições oficiais; somente os nomes dos professores prementes
e convidados apareciam nos documentos.
O professor Dionísio e seis de suas
alunas de artes cênicas estavam no alto da Torre Solaris IV, no Jardim
Margarida Buerger Gross. O glamoroso jardim greco-romano era um lugar restrito
somente aos moradores do condomínio misto residencial e comercial Solaris IV. A
bem da verdade, o lugar era mais uma das dependências anexas do Instituto de Ensino Hermes.
— Então, meninas! Senhoritas! — disse o
professor convidado de artes cênicas e música, Dionísio. — Enxuto este
manuscrito da peça teatral As Filhas do Sol. Eu quero dizer que...
— Explico! — disse Martina,
levantando-se da cadeira de vime e levando uma pequena resma de papel
encadernado ao professor.
— Agora sim, entendi. É uma peça
dividida em quatro atos. Gostei, bem simples e direta, mas cabem mais
explicações. Quem assina a peça? Como e onde será encenada? — disse Dionísio,
um tanto confuso.
— A peça será dividida em quatro partes
e encenada por quatro núcleos diferentes. Ficamos responsáveis pelo prólogo,
que é bem curto mesmo — disse Priscilla, cheia de entusiasmo. — E o nosso grupo
ficou responsável pela nota de abertura: um pequeno discurso do personagem
principal seguido de um cântico de personagens secundárias.
O professor leu a sigla I.L.Y. e deduziu que era o nome do
grupo das meninas. Não disse nada, pois aquele era um terreno pantanoso; ele
sabia do que aquelas iniciais tratavam. I love you, uma gíria das ruas
da localidade para os partidários do amor livre e garotas e garotos de
programa, e também para jovens mulheres e homens sustentados por pessoas mais
velhas.
Dionísio folheava o papel encadernado,
de frente para trás e de trás para frente. Adepto do teatro e da música
experimental, deveria estar vibrando com a história toda. Contudo, havia algo
de errado. Texto simples e claro, marcações perfeitas, descrições de figurinos
e personagens bem construídas. Dionísio logo deduziu que era um texto antigo,
atualizado a muitas mãos — mãos profissionais, possivelmente. A peça teatral, As
Filhas do Sol, era uma superprodução, e não uma simples peça escolar, de um
bairro periférico de uma cidade interiorana. A peça, cabia nos padrões do
Instituto de Ensino Hermes, uma instituição de excelência. Mesmo assim, o
professor de meia-idade — alto, moreno, de olhos negros vivos, vestido de forma
casual — sentiu algo de errado em tudo aquilo.
A narrativa era de um militar de patente
intermediária do Império Romano, na fase da República Romana. O militar, na
cena inicial, despedia-se dos familiares mais próximos: seis mulheres — a mãe,
avós, irmãs, filhas e as escravas. Voltava do estrangeiro com a patente de
general e muito rico, mas destruído por dentro. Estava tudo lá: a página de
título, lista de personagens principais e secundários, ambientação e tempo de
duração da peça, divisão em atos e cenas, diálogos, indicações e pontuação
cênica. No prólogo da peça teatral,
o personagem principal dá adeus aos familiares com um breve discurso. E, em um
cântico, as seis mulheres pedem em oração que Marte, o deus da guerra e
protetor de Roma, intervenha e traga Aurélio, o militar de média patente, de
volta para casa são e salvo.
— Os figurinos estão prontos, talvez
falte fazer alguns ajustes apenas! — disse Camilla, um tanto entusiasmada.
— Estamos prontas, professor! Já
ensaiamos e decoramos o cântico! — falou Cassilda, irmã de Camilla.
— Só falta a direção e produção do
melhor professor teatral que conhecemos! — comentou Catarina.
— Precisamos do professor no papel
inicial de Aurélio — disse Penélope, em tom de súplica.
— Entendi! Querem que eu dirija e
produza o prólogo e atue no papel do personagem principal! — disse Dionísio,
vencido por fim.
O professor convidado caminhou,
contornou o grupo de alunas sentadas à sua frente. Desceu do promontório onde
estavam e divisou o fabuloso jardim suspenso, projetado pela paisagista e
urbanista Margarida Buerger Gross. Viu o lugar como um fabuloso tributo a Baco,
o filho de Zeus e da mortal Sêmele, o deus do vinho. Baco e suas bacantes bem
poderiam, sim, fazer uma bela e grandiosa festa naquele lugar mediterrânico.
O sol se punha quando Dionísio a viu
empoleirada na lateral oeste do jardim: uma ave negra, uma agourenta ave Mori,
com seus minúsculos olhos vermelhos e bico longo e curvado. Dionísio sentiu o
gosto de cobre, de sangue fresco na boca, e o estômago embrulhar. Algo ruim
estava por vir, intuiu o jovem Dionísio.
— Eu aceito! — bradou bem alto o professor. Disse sem olhar para trás, com os olhos fechados e todos os sinais de alerta ligados ao máximo, que aumentaram quando ouviu as alunas baterem palmas e rirem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário