Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
“Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a
força do pecado é a lei. ”
1 Coríntios 15:56
Uma olhada rápida no espelho, e ela mal
pode acreditar nas marcas que o tempo imprimiu em seu belo corpo. E, parada
diante do espelho, ela está, linda e sensual, vestida de uma lingerie vermelha
exuberante! E o seu amante está na cama, deitado de bruços, complacentemente,
parecendo dormir um sono tranquilo e profundo.
Até ali, foram doze anos de agonia e
também de puro prazer para os dois; logo, ambos não poderiam reclamar de nada
até aquele momento. Pois o que é o sexo para os amantes clandestinos, senão uma
estranha conjunção entre o amor e a dor, entre o divino e o profano?
Se alguém pedisse para ela definir a sua
relação com o seu amante casado, seria assim que ela a definiria: — “Um ponto onde o amor e o ódio se
encontram!”. E acrescentaria mais: — “Seria
como um ponto obscuro na vida da gente, que às vezes parece que vai durar para
sempre! Só que, às vezes, dura mesmo! ”. — E as marcas no corpo dela são as
provas disso tudo: são cicatrizes profundas no corpo e também na alma.
E ela, parada diante do espelho, fumando
o seu cigarro tranquilamente, pensando no que fizera há poucos minutos.
Pensando no corpo imóvel do seu amásio, sem vida, deitado na cama. E na mesa de
centro do apartamento quarto e sala, que ainda conserva os dois copos de uísque
barato, com as pedras de gelo dentro, que deveriam ser para ambos desfrutarem
depois do prazer. Sylvia, desconsolada, encosta uma arma em sua têmpora...
Fragmento
do livro: Não
acordem a cidade. Texto de Samuel da Costa, contista, cronista, poeta e novelista, em Itajaí, Santa Catarina.
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