domingo, 1 de março de 2026

O VIAJANTE

Por Catarina Osoegawa (Florianópolis, SC)

Ele chegava sem avisar entre um e outro voo, levemente cansado, chegava faminto e adorava comer doces. Comia um atrás do outro, parecia nem respirar de tanta fome de açúcar. Eu dizia: “Olha a diabrura da diabetes!” Mas ele não estava nem aí, chamava os amigos e até brigavam pelos docinhos com medo que acabassem.

Um dia ele chegou de novo sem avisar com uma fantasia de Carnaval todo cheio de brilhos coloridos, dos azuis marinhos aos verdes escuros dos rosas aos roxos. E estava lindo demais, nunca o vi tão cheio de plumas, mas algo estava diferente naquele dia... Enxerguei algumas falhas na sua pele, fiquei preocupada. Ele me confessou finalmente:

“Amor, o pecado da gula está me fazendo mal, perdi os limites da ambição e da ânsia pelo poder.  Nem consigo mais viajar tranquilo como era antes, só fico de sobre aviso parado em um ponto fixo, pensando que alguém vai roubar os nossos doces, cuidando do território em alerta máximo, pronto para atacar qualquer um que se aproxime, parece que estou ficando louco... estou sofrendo demais!!”

“Depois de muitas batalhas inúteis, tomei uma decisão: Descobri que a doçura natural tem muito mais valor e não tem preço... é muito mais rica e traz a paz que eu sempre precisei... Mas eu não sabia, era um impulso muito irracional, quase animal...  Não preciso de mais nada nessa vida, quero a minha liberdade de volta.  De hoje em diante, abro mão de qualquer fonte artificial de néctar!”

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