MATERNIDADE

Por Leandro Bertoldo Silva (Padre Paraíso, MG)


Maternidade era uma das palavras esquecidas no seu dicionário. Era fácil demais para algumas pessoas pensarem nisso, não para ela, de corpo perfeito e vida em liberdade. Por isso, seu ventre crescido estava na contramão de todos e recordava sua rejeição. Daquele invólucro perfeito, ficariam cicatrizes, marcas que sobreporiam ao efemeramente físico e atingiriam sonhos interrompidos.

Dejanira era mulher do mundo. Esse era o resguardo que nunca pensou em abandonar, nem sequer substituí-lo por um momento que fosse. Sentia-se sem vida, apesar da vida que crescia dentro de si. E, agora, mesmo sendo duas, teimava em sua solidão. O tempo passava, mas não levava a angústia que aumentava a cada dia que a circunscrição de seu estado apontava. Já dividia seu alimento, mesmo sem sua permissão, como seria dividir o resto? Era o que pensava desolada e inquieta. Só havia um jeito: acabar logo com aquilo. Porém, o feto crescido já era uma criança e, antes mesmo de pensar em qualquer outra coisa, de seu corpo redondo começou a emergir um líquido que, ao rebentar da bolsa, jorrou junto com uma sensação indefinível que a urgência do momento não permitiu reflexões. Elas só vieram quando, já com a criança liberta deitada em seu peito em meio aos médicos, começou a cantarolar uma cantiga de ninar no mesmo momento em que seus seios saciavam o filho que calava a ouvir.

Seus olhos recém-maternos se iluminaram, e o coração, que antes rejeitava, agora acalentava e se punha a descobrir uma desconhecida impressão felina e protetora.

A mulher do mundo sem fronteiras não sabia se o choro convulso que irrompia naquele instante era amor ou remorso, talvez fossem os dois. Aquele momento eternizado na música que embalava sua criança fazia pensar: afinal, é a mãe quem dá à luz um filho ou é o filho que faz nascer a mãe?

 

SONHOS

 Por Izemar Fernandes Batista (Brasília, DF)

 

Deus sonha.

 

Sonha e cria estrelas,

galáxias,

e nebulosas.

E na Terra faz nascer

todas as rosas.

 

Sou filha.

Sonho.

 

Sonho e crio poemas,

que são minhas estrelas,

minhas galáxias

e minhas nebulosas.

 

Porque só sei fazer versos,

não sei fazer rosas.

 

                                                                             

TENTATIVAS

Por Izemar Fernandes Batista (Brasília, DF)

 

Tentei fazer um verso,

mas uma flor se abriu diante de mim,

e eu me esqueci da palavra.

 

Tentei fazer um verso,

mas um passarinho me envolveu numa canção,

e eu me esqueci da palavra.

 

Tentei fazer um verso,

mas uma árvore me ofereceu sombra,

e eu me esqueci da palavra.

 

Tentei fazer um verso,

mas veio a chuva e inundou meus pensamentos,

e eu me esqueci da palavra.

 

Tentei fazer um verso,

mas o arco-íris coloriu o meu olhar,

e eu me esqueci da palavra.

 

Tentei fazer um verso,

mas o vento esfriou minha ilusão,

e eu me esqueci da palavra.

 

Tentei fazer um verso,

mas o mar me olhou com seu olhar azul,

e eu me esqueci da palavra.

 

Tentei fazer um verso,

mas um regato sussurrou uma melodia triste,

e eu me esqueci da palavra.

 

Tentei fazer um verso,

mas uma montanha me falou de silêncio e solidão,

e eu me esqueci da palavra.

 

Tentei fazer um verso,

mas as estrelas me ofuscaram,

e eu me esqueci da palavra.

 

Tentei fazer um verso,

mas a Lua me banhou de luz,

e eu me esqueci da palavra.

 

Tentei fazer um verso,

mas o Sol nasceu

e a natureza se descortinou em temas.

E eu pude perceber,

que Deus já tinha escrito todos os poemas.

 

 

 

                                                                                     

 

A ARTE DE CRIAR TORNADOS

Por Paulo Cezar S. Ventura (Nova Lima, MG)

 

Que Vô Ventura é um artista não tenho dúvidas. Artista incompreendido, talvez, de arte desconhecida, é possível, um artista a meu ver, no entanto. Busquei no dicionário várias explicações para o verbete “arte”, para explicar um pouco das artes de Vô Ventura, e justificar minha atribuição e para a descrição de uma de suas artes: a de criar tornados. Vejamos, então:

Aptidão inata para aplicar conhecimentos, usando talento ou habilidade, na demonstração de uma ideia, um pensamento; pode se referir também ao resultado dessa demonstração: no caso em questão, o tornado. Aí vem outra necessária explicação: o que é um tornado? De volta ao dicionário encontramos várias definições. A que nos interessa aqui é o redemoinho intenso e violento em forma de cone invertido que, girando de modo muito veloz, destrói quase tudo por onde passa.

Arte pode ser também a aptidão natural para realizar algo, perícia, talento ou habilidade para fazer algo. Aqui iremos nos referir ao talento para criar tornados.

Arte pode também se referir à criatividade humana que, sem intenções práticas, representa as experiências individuais ou coletivas, por meio de uma interpretação ou impressão sensorial, emocional, afetiva, estética etc. Criar tornados é uma arte que se enquadra nessa definição, não há intensões práticas no ato e pode-se chegar a interpretações emocionais.

Essas notas são suficientes para referenciar a arte de criar tornados, então vamos logo a algumas ações que podem ser realizadas, segundo o manual proposto pelo Vô Ventura. Vamos às ações sugeridas:

Para se iniciar nesta arte é preciso abrir espaços em sua mente para pensamentos incertos e ações inesperadas: quanto mais inesperados e imprevisíveis melhor. A imprevisibilidade é a alma do negócio, ou melhor, da arte.

É preciso parar o tempo: tornados só aparecem depois de calmarias, naqueles momentos em que se esquece o instante anterior aos acontecimentos. Dominar o tempo é um dos requisitos dessa arte milenar. Os povos antigos eram mestres nela. 

Não veja televisão se deseja criar tornados, esses não acontecem quando você está paralisado assistindo aqueles programas tediosos da TV. Os canais de televisão são os principais manipuladores da mente dos candidatos à arte de criar tornados.

Estimule o frio na barriga, esse é um ótimo indicador de possibilidades de surgimento de novos tornados.

Cante no chuveiro, ou em qualquer outro lugar, sempre que tiver vontade. Se você canta bem ou canta mal, não tem importância. A música cantada com reais sentimentos irão criar tornados em algum lugar.

Se for do sexo feminino sempre saia de casa bonita: de salto bem alto e roupas que lhe vestem bem, sentindo-se a rainha da bala chita. Pode ser que escute assobios. Mas assobios e bater de asas de borboletas provocam tornados em algum lugar do planeta, segundo a teoria do caos.

Se for do sexo masculino, assobie quando vir uma mulher com ar de felicidade caminhando na rua. Mas não a incomode, assédio não produz tornados. O assédio produz ondas gigantes capazes de naufragar navios.

Seja incondicionalmente feliz: a felicidade provoca alterações orgânicas em algumas pessoas de nossa vizinhança, alterações essas que aumentam a probabilidade de surgimento de tornados exatamente por serem imprevisíveis (seja feliz por querer). Pessoas felizes são completamente imprevisíveis, fundamental para a arte de criar tornados.

Ponha um gosto de amor na tua boca, nas tuas mãos, em teus gestos. O amor é essencial para a criação de tornados, pois ele faz surgir aquela tempestade boa dentro da gente.

Se caminha com fé em si mesmo, bons tornados serão criados.

Você pode até pensar que tornados são destruidores. Sim, mas sempre acabam e sempre é possível reconstruir. Mas aí já é outra arte, a arte do recomeço, da reconstrução. Depois do tornado, sempre seremos outra pessoa, em geral bem melhor que a anterior. Portanto, segundo Vô Ventura, é melhor se esmerar na arte de criar tornados.

 

 Contato: pcventura@gmail.com

A FAMÍLIA DE EZEQUIEL

Por Fabiane Braga Lima (Rio Claro, SP)

 

       — Tenho uma surpresa, irá gostar. — Anunciou Ezequiel com sadismo para a namorada.

          Lina nada disse, se calou, pois se lembrou das cicatrizes na face, em particular, hoje no âmago as marcas ardiam de forma cruel. A estudante de medicina se arrumou, e foi estudar, como bolsista que era, queria que os pais se orgulhassem dela.

Ezequiel, se mostrou irado por não ter uma resposta da namorada. E foi encontrá-la na porta do quarto que dividiam. Pegou-a com força pelos braços e a sacudiu.

       — Tenho uma surpresa, irá gostar! — Disse novamente Ezequiel.

        — Desculpe-me, não prestei atenção. — Disse Lina, com falácia e o abraçou.

        Ezequiel, franziu a testa, agarrou Lina, a arrastou para o quarto e jogou-a com força na cama.

      — Hoje, não saíra do quarto! — Esbravejou Ezequiel. 

       Amedrontada, Lina ficou deitada, por um longo tempo, esperando a tal surpresa do namorado.

     — Arrume-se, quero que conheça meus pais! — Rosnou Ezequiel. 

     — Não posso, tenho um trabalho para entregar…

     — Cale-se e me obedeça! De hoje em diante, será minha propriedade! — Esbravejou Ezequiel.

       Lina mais uma vez, se lembrou das cicatrizes, pois não as esquecia. Mas, obedeceu! Saiu da cama e aprontou a mala com lentidão. Lina lamentava para si a cada peça que separava e colocava na mala. Sai de formas furtivas, como quem foge ou outra dor que Lina teve que suportar, notar os olhares das poucas pessoas nos corredores a machucou muito. Entrando no luxuoso e moderno carro de Ezequiel, Lina não escondeu o choro. 

            Foram mais de três horas de viagem, por caminhos tortuosos e lá estavam eles diante de um enorme portão. O portão se abriu quando o carro de Ezequiel se aproximou. Não era bem uma casa, mas sim uma suntuosa mansão, com seus toques clássico e moderno. Os pais de Ezequiel, estavam na porta, estavam sorrindo e receberam o jovem casal com cortesia. A mãe de Ezequiel, cumprimentou-a e logo encarou o filho com rigor, ela toda arrumada, com roupas de grife, porém esnobe.

        — Onde arrumaste está mendiga, meu filho? — Disse a senhora olhando profundamente para o filho.

        — Mamãe, e minha namorada! — Respondeu o filho gaguejando. 

        — Tens um nome honrado, para trazer uma qualquer para a nossa casa! — Falou a furiosa a mãe de Ezequiel.

        — Mas mamãe! Eu a amo...

        — Dormirá no cômodo dos empregados, com esta mendiga merece, apenas me obedeça! — Decretou a mão de Ezequiel. Enquanto o austero pai de Ezequiel estava completamente calado.

             Contrariando as ordens da mãe, o casal passou a noite na casa de hóspedes. Como era tóxica sua família muito explicava os atos de Ezequiel, ele tinha culpa por ser aquele vândalo, que todos comentavam aos cochichos? Logo ao amanhecer, tomaram um rápido café, arrumaram as malas e retornaram para Universidade. Na estrada tiveram o silêncio como fiel companhia. 

Ao chegarem na entrada da universidade, Ezequiel de abrupto parou o carro e olhou fundo nos olhos lacrimejantes de Lina!

— Perdoe-me? — Perguntou Ezequiel para a namorada.  

— Acalme-se, está tudo bem! — Respondeu Lina com toda a calma do mundo.


Contato: bragalimafabiane@gmail.com

 

SE ACHEGUE, TEMPO!

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

 

Pode se achegar tempo,

Estou de coração aberto

Para curar a dor

Que um dia ofuscou

A beleza da flor.

É a hora da libertação do sorriso,

De sentir a brisa do vento

Em cada parte do corpo.

Ôh tempo…

Eu quero me aconchegar

Na beleza do amor verdadeiro,

Sem feridas e atropelos.

Ter boas recomendações

E escrever uma linda história.

Pensar além da maldade humana,

Encontrar caminhos para o bem.

Ter o prazer do ritmo

Daquela melodia

Conduzir-me.

Dançar feito menina,

Sem ter hora pra fazer

Qualquer coisa.

Escolher a cor da paixão

Para vestir,

Mudar a cor do batom,

Ouvir o som da cidade

E estar em paz.


Clarisse da Costa é cronista e designer gráfico em Biguaçu, Santa Catarina.

Contato: clarissedacosta81@gmail.com

EU E ENZO

Por Fabiane Braga Lima (Rio Claro, SP)

 

Enzo estava insuportável, com este cinzeiro, bate o tempo todo na mesa de centro. Parece querer me tirar do sério. Quer saber, vou acabar com sua festa.

— Me dê este cinzeiro, mal posso assistir minha novela.

— Oras, Maria, anda estressada!? — Respondeu Enzo com desdém.

— Como é sarcástico. Faz isto para me provocar. — Devolvi com raiva.

Retirei-me da sala, mas fiquei espiando o que se passava com Enzo. Infeliz, estava me provocando. Agora, só restava saber o motivo. Arrumei a casa, e logo me sentei no sofá, ao lado de Enzo. E novamente, batendo aquele maldito cinzeiro.

— Por que tem um cinzeiro Enzo, nunca fumou!? — Inqueri Enzo com raiva

— Ah! Então, não, sabe o motivo! — Respondeu ele e emendou — Lembra- se do Senhor Lucas, dona da imobiliária, na qual trabalho!?

— Sim, lembro-me! — Respondi intrigada.  

— Ele me deu este cinzeiro, como gratidão, por tudo que faço a ele! — Falou Enzo um tanto vago.

Não, Enzo só pode ter enlouquecido. O senhor Lucas não o suporta, morre de ciúmes dele, com sua esposa, afinal Enzo sempre foi um mulherengo inveterado.

Preciso descobrir o que está acontecendo, amanhã vou até a imobiliária tentar descobrir algo.  Enzo que se prepare, pois nesta história não há nada concreto.

 — Bom, preciso dormir, estou exausta! Boa noite Enzo! — Falei, e parti para o quarto indiferente a Enzo. Mas, se Enzo pensa que vou ficar quieta, ele está enganado, eu posso ser a calmaria e às vezes posso ser o mar bravio, quando quero descobrir algo.

Acordamos cedo como de costume, eu fui dar aulas para crianças pequenas o dia todo como de costume, sou professora das séries iniciais. Já Enzo, o que me parece só bater o cartão e ir para casa ao cair da noite como um bom burocrata.

No meio da tarde, começou a chover forte e a diretora da escola resolveu soltar as crianças mais cedo. Chegando em casa, estranhei, fazia um silêncio, não escutei Enzo bater cinzeiro. Deitei no sofá para tirar um cochilo. E de repente, ouço gemidos, uma mulher gritava coisas obscenas, subi as escadas e notei que o barulho vinha do meu quarto, a porta estava semiaberta. Céus, era Enzo com uma mulher estavam nus. Estava péssima, mas fechei a porta e fingi não ter olhado aquela cena desprezível. Fui para rua e voltei para casa mais tarde, Enzo estava no sofá brincando com o cinzeiro como sempre, notei que estava de banho tomado. Não disse nem boa noite e parti para o quarto, me atirei na cama e dormi profundamente como estava.  

No dia seguinte, acordei antes de Enzo, eu abalada, engoli o choro e fui para a escola. Afinal de contas, os meus alunos estavam me esperando. Ao final do dia, eu desconsolada, voltei para casa. Enzo batia o cinzeiro, querendo me irritar, foi então que notei mordidas em seu pescoço, em sua blusa, havia marcas de batom. Respirei, ofegante, mas não puxei assunto com ele, apesar de querer uma explicação. Deixei para ele tomar a iniciativa de me contar, sobre a tal amante.

Nesses dias conturbados, avistei de longe Jhon, um velho amigo e namorado do meu tempo de faculdade.

 — Jane, sou eu Jhon! — Gritou ao longe e chegando mais de perto! — Continua linda.

 — Jhon, que bom te encontrar, precisamos marcar um dia para colocar a conversa em dia. — Disse para ele sorrindo, com os olhos.

 Despedimo-nos efusivamente com promessas mútuas de nos vermos de volta  e fui para casa. Eu não escutava mais o barulho do cinzeiro, e mais uma vez gemidos e gritos obscenos de Enzo com a amante. Como a porta do quarto estava semiaberta, comecei a gravar, assim poderia ter provas.

Fui trabalhar, ao longe divisei Jhon, ele  estava no portão da escola. Ele se aproximou de mim sorrindo e eu devolvi sorrindo com os olhos.

— Estava te esperando, não consegui parar de pensar em nós dois, como éramos felizes, e apaixonados.

As minhas pernas ficaram trêmulas, não sei se foi carência, mas ali estava um homem de verdade, e que homem, como é lindo e romântico. Segurou minha nas mãos, como adolescentes nos beijamos sem se importar com que estivesse vendo.


Contato: bragalimafabiane@gmail.com