"ESTRELAS"

Por Fernanda Cabral (Brasília, DF)

 

CD PRAIANOS @ 2011 Producción Musical: Cope Gutiérrez. Rodado en IBIZA _ España @ 2013. Dirección: Juan Martín Edición: André Amaro Imagen y vestuario: Juanjo Manez y Paloma Alvarez Fashion Stories. Maquillaje y Pelo: Paloma Alvarez. Página oficial: www.fernandacabral.com Fonte: YouTube. (Fernanda Cabral, além de cantora, atriz, compositora, cineasta, é professora do IESB, Brasília, DF)

CALENDÁRIO


Por Márcia Duro Mello (Bagé, RS)

Mais duas estações riscadas
na folhinha da vida.
É o tempo hibernal!
Ele escorre no cotidiano:
hora  gota a gota,
hora em profusas cascatas.
Goteja o inverno...
No calendário, agoniza o ano;
mas o vento bate nas esquinas;
e a caneta , encantada,
procura palavras como setas.
O inverno bate à porta!
Não há quase tempo,
ele  voa com o vento!
Arrancou-se a folha do calendário;
e as imagens ficam nas lembranças
da realidade e do imaginário.
A geada, pelos pés, é quebrada...
Minha alma fica congelada!
O que marca são os fatos,
são os atos,
são as chamas, na lareira,
que brincam com nossa memória
para, depois, hibernarem...                            

(Marcia Duro Mello é presidente do Movimento dos Escritores Bageenses – MEB)

MAGIA DO INVERNO


Por Ayeza Maria Ranquetat Ferreira (Bagé, RS)

Vento minuano como lobo uivando
nas frestas da janela e nas campinas vastas.
Arrepio perpassando, corpo congelando,
o sangue escasso nas artérias gastas.
O tempo frio, no inverno sulino,
traz anúncios de geadas,
branqueando campos qual cristal reluz!
Gelo enfeita galhos esqueléticos;
árvores despidas de folhas sepultas
são açoitadas, sem piedade, em dias invernais.
Dias frios e úmidos de garoa mansa
cascateiam com brancura
e a cerração avança , castiga e ofusca...
Lareira crepitante de fogo e brasa
aconchega  em amor e ternura.
O inverno transmuta em oração,
momento consagrado de paz e comunhão.

( A autora é membro do Movimento dos Escritores Bageenses - MEB )

DEVANEIO EM MANHÃ DE VERÃO


Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)
  

Caminho tranquilamente, passo a passo, para os oitenta anos, e estou numa esplanada, à beira-mar, olhando o manso ondear das águas, do imenso oceano.
Longe, vejo o mar verde – verde glauco, – beijando suavemente as areias morenas; e mais além: barcaça, embrulhada em alva e diáfana névoa, esfumando-se rumo ao horizonte.
Por cima de tudo, rebrilha, esplêndido céu azul; azul intenso e fresco.
A manhã é macia, quase sem brisa, convidativa a doce sonolência.
Lentamente…lentamente…muito lentamente, dentro de mim, languidamente, tudo se vai esvanecendo…
Apaga-se o leve murmúrio embalador do oceano; o sussurro alegre de vozes perdidas, e risos escangalhados de crianças brincando.
Fecho os olhos. Abre-se, na memória, saudoso recorte do passado. Estampado na retina, vejo: cândido rosto de menininha:
Tem faces trigueiras, cor de pão centeio, tostadinho; olhos fogosos e ternurosos; lábios vermelhinhos, cor de cereja, cheios de risos festivos; epiderme, acetinada, doirada, sedosa, fresca, cheia de Sol.
Era ela; a garotinha que abria a porta da casa, quando era menino e moço.
Lançava os frágeis bracitos, ao pescoço; circundava-me, a cinta, com as perninhas roliças e finas; e, com infantil gesto carinhoso, lambuzava-me, as faces, de doces beijinhos.
Beijinhos húmidos, salivados. Beijinhos acariciadores, imbuídos de palavrinhas ternas, de sincera e ingénua amizade.
Depois…depois, pelo sombrio corredor, corria, balanceando a farta cabeleira, apanhada em rabo-de-cavalo, avisando, alegremente, a minha inesperada visita.
A saudosa cena familiar, que aflorou, arrancada à gaveta da memória, nesta serena manhã de Verão, encheu-me, o coração de terna saudade; saudade do passado, que passou, de passado, para sempre, perdido…; mas, intensamente, ainda vive, dentro de mim.

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Numa tépida manhã de Maio, banhada de morna luz rosácea, parti…As lágrimas escorriam-me pelo rosto, mal escanhoado, e a voz, embargada de saudade, tremia, soluçando.
Acreditava que o amor platónico, não teria fim…Enganei-me. Até a conversa epistolar, extinguiu-se, como nuvem passageira…
Meio século, passou… Passou a juventude e as ilusões…e passou, também, a amizade…
Eu sei… eu sei (mas, queria não saber,) que a amizade, depende, quase sempre, da idade, e da posição social, que se ocupa, no tabuleiro do xadrez da vida…
Muitas vezes – para meu mal, – mergulho em melancólicos devaneios, recordando amorosos episódios do passado. Transformo-os, então, em letra de forma. Servem-me para refletir: nos enganos e desenganos, que tive ao longo da vida.
Sei, ao passa-los ao papel, que são motivo de riso e galhofa, para insensíveis, e para muitos e muitas, que conheci no meu triste peregrinar.
Revelar o que nos vai na alma, é puro desconchavo. É que quem não pensa com a maioria; de acordo com o desvario, que é moda, é: anátema ou bobo….

VERDADES


Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)


Das verdades escombros

e os últimos tons da música

em despedida

dolente

tristes verdades

se afastam do continente

e o homem perde a vertente

vórtice vértice

vontade de se posicionar

no entreaberto espaço



música acabada

ressurgente

na guitarra elétrica

do poente



o ponto principal

na tangência

do acorde.

PROPORCIONALIDADE


Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC) 

Em exatas proporções

a tempestade principia

e depois

o caos

se encarrega

de carregá-la

para longe

no longo caminho

onde se dispersa

em miúda chuva

de poucos ventos



as proporções

se restabelecem

em nova tormenta.

DA SÉRIE AMOR EM VERMELHO: PÉRIPLO

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

A minha real
Beleza de ébano
É o que eu vejo diante de mim
Neste exato momento
Em que vivo na minha plenitude
Em tempos vorazes
De infindas dores e infindáveis ódios
Expostos à luz do dia
***
Ester é o melhor momento
Para eu refletir e meditar
Os muitos nãos
Que a vida me impõe
Cruelmente
E é contemplando a lídima natureza
Que arde em chamas
Ou mesmo eu totalmente imersa
Em límpidas álgidas águas tranquilas
***
O meu cândido coração dilacerado
Tem sido indubitavelmente
 Paciente comigo
Durante a minha transição
Do eu criança infanta
Para o eu mulher madura
E realizada
Que eu desejo ser
***
Eu confessei para eu mesma
No meu diário íntimo
Há tempos idos
O amor enlevado e abstraído
Do poeta de ébano em dor
Por mim
***
Agora peço ao negro aedo
 Para deixar eu ir
E seguir em frente
Mesmo sabendo
Que é muito mais difícil
Quando que você é liberada
Do que é bom
E já jamais voltara