MEDO

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)


O medo é tamanho

Que não se percebe a vida

Entre as flores, o perfume e as cores.

O homem constrói muros

E nessa ilusão de fortaleza

A solidão lhe toma conta.

Os seus fartos,

Muitas vezes sem sentido

São farrapos

Remendados na alma.

Pisa na estrada abaixo de

Seus pés

Sem olhar para quem

Está à sua volta.

Então o medo de estar sozinho

Tira-lhe gotas de lágrimas

Dos seus olhos

E sem saber do seu destino

Sentencia a si mesmo a solidão.


 

MANDI: A LITANIA DE MOKANÂ (PRIMEIRA PARTE)

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

Dá-me uma flor...

Da mais branca, da mais bela.

Porque hoje é dia de amar-te meu sagrado amor!

Quero-te como uma flor, delicada e breve!

Hoje é dia de amar-te.

Da forma mais voraz...

Da forma mais profana!

Quero-te agora meu amor. ’’

Para Raquel da Costa e Ana Maria da Costa

— Que marca é está aí, no teu braço?

Pela expressão do rosto, ficou evidente, que ela não estava esperando por uma pergunta desse tipo, não naquela altura. Aliás, ela não espera muita coisa de Mokanã, mesmo assim a moça deu uma olhada rápida, no próprio braço, antes de dizer qualquer coisa. Por longos anos, os números tatuados no braço eram olhados, dia após dia. Lágrimas correram pelos olhos da moça, desceram pelo rosto e esvaeceram no vazio. A muito que ela não chorava, às vezes chegava a pensar, se as lágrimas tinham secado, se elas tinham ido embora com o resto da última vida mortal, em uma das suas passagem pela Terra.    

— Marcas do passado. É que temos alguns amigos em comum, você não sabia? Meu amigo! — O jovem achou graça, e não deixou de rir, agora estava ficado claro a situação. A princípio, pensou que estava ficando louco, depois, concluiu enfim que teria morrido, pois, o olor forte de cravo impregnava o ar. Vindo de onde? Mokanã não sabia explicar. Por outro lado, tinha à lua cheia, que iniciaria naquela noite. Foi aí, que outra ideia, passou pela cabeça.

— Mandi, por que veio me visitar, o que queres comigo, Mandi?

— Quem te disse que é este o meu nome? Quem te falou uma coisa destas, meu amigo?

— Senão és a Mandi? Quem poderias ser? Quem mais, iria me visitar a essa altura? A minha vida já não vale mais nada, Mandi! 

—Tu bem gostarias, que eu fosse ela, querias? Não querias?— O olhar meigo e franco, a pele alvíssima, a fala pausa da jovem, os trajes esvoaçantes e coloridos, desconcertavam Mokanã.  

— Sabes como vim parar aqui, Mandi?

— Claro que sei, já não te disse que temos alguns amigos em comum!

— Ele morreu? Nosso ‘’amigo’’ em comum morreu, Mandi? Me diz logo! Claro que não, afinal não atirei para matar! — A voz de Mokanã não era de ódio, era de calma, uma calma que assustava a moça, que estava em pé a poucos centímetros dele.

— Gostaria que o teuto estivesse morto, nesta hora, não querias? — Perguntou de forma dura, como se estivesse interrogando, um preso perigoso. A mudança de tom, não assustou o jovem guerreiro indígena. Parecia, que mais nada importava-lhe na vida. Mokanã de longe era um assassino, mas, gostaria de ter visto o teuto morto no chão, encharcado no próprio sangue.    

— Teuto? Por aqui, eles têm outros nomes, Mandi: chucrute, palmito, maionese! — Ambos riram, como se fossem crianças, durante algum tempo.

— Mandi, me diz uma coisa, chegou a hora da minha partida, vou morrer e tu ‘’veio’’ me buscar, é isso? Pode me falar a verdade, não tenho mais medo da morte, faz tempo.

— Meu nome não é Mandi, e sim Kriseide, pelo menos é assim que alguns me chamam, vez ou outra. É assim, que gostaria que me chama-se também, meu nobre guerreiro. Não posso te dizer, quando morreras, mas, te digo que não será aqui e nem agora. Um primo seu, vem te visitar em breve, trate-o bem, pois também é meu amigo, um amigo de longa data.

— Primo? Quem e de onde?

— Um jeito de falar apenas, ele é de outra tribo, de muito longe, vem do norte, vem pra te tirar daqui. Trate-o bem, é só isso que te peço por hora, nobre amigo. Agora tenho que ir, estão me chamando!

— Mandi... Mandi, não me deixe Mandi! — O guerreiro fez um esforço para não chorar, mesmo assim chorou, pois a ideia da solidão que estava por vir, o sufocava.

— Saibas que não vou te deixar, nobre guerreiro, meu querido amigo. Nunca vou te abandonar, vou ficar contigo até o fim, seguirei essa jornada ao teu lado até o fim! — A litania cessou de repente, um sorriso brotou nos lábio de Mokanã nesse instante.

MANDI: NO CÁRCERE (SEGUNDA PARTE)

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

                        Uma das mais formosas borboletas nascem nos galhos do limoeiro,                     

                                 Em seu ciclo de mutação ninguém suporta seu cheiro.

                                  Os mais belos pássaros que encontramos no sertão,

                                                       Ninguém pega nas mãos!

                                      Os felinos gigantes estão junto aos elefantes!                                                      

                                                             Longe, muito longe,                                                                                               

              Onde encontramos os reis negros dos horizontes                                                       Estas são algumas belezas da natureza, 

que o homem branco com seu orgulho destrói sem realeza!

 Sem saber das suas riquezas.

João Carlos Pereira

Para Renan Fillipi da Costa e Andrea Samara de Oliveira  

Ele caminhava com o sol abrasador, demolindo em definitivo, o mito do sul gelado e chuvoso. Missael estava bem alinhado e impecável, de terno e calça social de cor preta, gravata vermelha, sapatos pretos bem engraxados, usava um perfume unissex caro e discreto. Usava óculos solar de grife e um broche pequeno, da ordem dos advogados, na lapela esquerda, banhado em ouro e no pulso um relógio importado, também banhado a ouro. Segurava uma maleta zero, zero, sete no braço esquerdo. Missael, se perguntava diversas vezes, para si mesmo, como teria ido parado ali, naquele fim de mundo. De repente, a lembrança da frase proferida por um de seus professores, surge com toda força: ‘’Início de carreira é assim mesmo, a gente encara cada coisa’’. Ouvira diversas versões da mesma frase, assim que entrou na faculdade e quando se formou também. Parou, diante da delegacia, tomou fôlego e, por fim, recomeçou a marchar. Enfim o primeiro caso, como advogado constituído e juramentado, enfim o primeiro voo solo, da carreira e rumo ao sucesso. 

*** 

O prédio estava em ruínas, com vidros quebrados, pintura descascando e uma folhagem rasteira, seca e morta em volta do prédio. O pior para o jovem advogado, foi olhar para cima e constatar que os mastros, da frente do prédio, estavam enferrujados e sem bandeiras nas hastes. Missael então avistou, um policial militar, fazendo a sentinela do lugar. A sentinela estava, na frente da delegacia, no que parecia ser uma varanda. Estava sentado complacentemente, em uma cadeira de balanço de vime, uma arte Xocleng. Missael a reconheceu assim que pôs os olhos nela. O policial militar estava, ladeado por uma antiga carabina enferrujada e desmuniciada. O jovem advogado, tirou o óculo escuro da face, antes de encarar o policial militar de frente. Missael queria olhar bem nos olhos do policial militar, antes de falar qualquer coisa. O policial militar, de cabelo louro, olhos verdes, pele clara queimada pelo sol, baixo e gordo, vestia um uniforme em desalinho. O policial militar, mais parecia um personagem, saído de um filme antigo, um filme mudo, uma comédia de Carlito, pensou Missael. O policial militar, ao notar a presença do jovem advogado, levantou-se em um rompante. Missael pensou, que o policial militar iria bater os cascos, quando se aproximou do mesmo. 

— Doutor Da Maia! ’’Me avisaram’’ que o senhor vinha, o prisioneiro lhe aguarda ‘’preso’’ na cela. — O policial militar falava alto e com tamanha intimidade, como se conhecesse Missael Da Maia há anos.

— O delegado de plantão por favor? Queria falar com o ele em primeiro lugar, tenho o Habeas Corpus em mãos, quero ver o meu cliente fora dessa delegacia agora mesmo, policial. — O jovem advogado falava, com todo vigor e rigor possível, mas, não sabia se estava agindo corretamente, gastando aquele palavrório, com uma simples sentinela. Mas, o seu instinto estava lhe dizendo para agir dessa maneira. Uma coisa que o seu velho pai, Aristo, e seu avô viviam repetindo para Missael, para seguir os seus instintos. Fato que fazia parte da natureza de ambos, pois, foi assim que eles viveram e sobreviveram, por longos anos, em ambientes hostis.

— O delegado de plantão não está, na verdade passou mal e foi ‘’pro’’ hospital hoje no início da manhã! Mas, estou instruído para soltar o preso, assim que o doutor chegasse, como o alvará de soltura. — Missael fez um esforço para não rir diante do policial militar, estava sendo mais fácil do que pensava que seria. O próximo passo, era seguir com a coisa toda, e Missael lhe entregou o Habeas Corpus para o policial militar. Ele leu o documento, Missael teve a ligeira impressão, que o policial não sabia ler. Missael entregou a maleta, para o policial militar fazer a revista rotineira, antes de entrar na delegacia, após o policial conferir o Habeas Corpus. O mesmo se assustou como o ato do advogado.

— Não precisa doutor Da Maia, pode entrar!

Missael recolocou o óculo de novo no rosto de forma teatral. Ao adentrar no prédio, ladeado pelo militar, Missael levou um susto, o mesmo era pior por dentro, do que por fora. A comédia pastelão, agora tomava ares de filme de terror, um filme gótico à moda europeia dos anos vinte. Pintura descascando, lixeiras atulhadas e pedindo para serem esvaziados, móveis de escritório velhos e enferrujados, material de limpeza espalhados pelo chão, umidade e mofo em toda parte, banheiro sem portas e torneiras pingando podiam ser ouvidas de longe. Uma onda gélida, pairava no ar, contrariando o calor elevado de fora do prédio. Não havia quadros ou murais de avisos nas paredes, ou, qualquer outra coisa, que denunciasse que ali seria uma repartição pública. Missael não viu mais ninguém, na delegacia, o lugar parecia um deserto árido e sem vida. Missael pensou em perguntar: — O que poderia ter feito de errado, o policial militar, para parar em um lugar tão decadente? Mas, ficou calado, não sabia como aquela figura folclórica e caricata, poderia reagir a uma pergunta desse tipo: —Deus do céu! Esse maldito corredor parece não ter fim — disse Missael para si mesmo.

— Sabe de uma coisa doutor, gostei do senhor. Eu gostaria de dizer uma coisinha ‘’pro’’ doutor, se o senhor assim me ‘’permita’’ tal intimidade e atrevimento da minha parte! — Nesse momento, Missael queria que o policial militar ficasse calado, mas, achou melhor ficar com os ouvidos e olhos bem abertos, tinha que ouvir o militar. Tinha que ouvir e digerir, o que aquela figura cômica tinha para dizer, seu alarme estava disparado, Missael estava em alerta total, desde que aceitou aquele caso. A frase muitas vezes proferida pelo seu pai, lhe invadiu a cabeça, naquela hora extrema: ‘’— Meu filho, antes de tudo, procure entender as pessoas, e só assim meu filho, vás encontrar o teu lugar nesse mundo. Senão compreenderes as outras pessoas, não compreenderas a si mesmo, meu filho!’’ — Como Missael gostaria, de se livrar daquela figura lendária, de uma vez por todas, como aquela figura mitológica o angustiava. Missael ficaria contente, em ter um pai de carne e osso, não um mito como progenitor. Uma figura, que o esmagava e o anulava por completo, todos os dias de sua vida. Missael gostaria, de dizer algumas verdades para o pai, mas, não poderia e também não tinha coragem para tanto, o pai e sua história de vida o esmagava por completo.

— Pelo que posso ver, o senhor é japonês, estou certo? Estou? — Disse isso enquanto segurava o braço do advogado com força, forçando-o a parar de andar. Missael Da Maia preferiu o silêncio, como resposta, para aquela pergunta tão constrangedora e despropositada. Missal pensou nas histórias, que seu avô materno contava, quando Missael ainda era uma criança e vivia no norte. Há séculos, os Macuxis invadiram as áreas de pesca e caça dos Wapichanas. Os Macuxis vieram do norte, vieram do litoral caribenho, foram expulsos pelos espanhoes recem chegados ao Novo mundo. Os Macuxis vieram, e disputaram, de forma violenta, espaços de caça e pesca, com a tribo dos Wapichanas, a tribo de Missael. Foram séculos, de disputas sangrentas entre as duas etnias, até a paz reinar, entre as duas tribos rivais. Mesmo assim, ressentimentos de vez em quando vinham à tona, afloravam de tempos em tempos para lembrar, quem é quem, para marcar as diferenças entre as duas tribos. Agora vinha este homenzinho ridículo, metido em um uniforme roto, com uma conversa racista.

            — Sabe doutor Da Maia, vim parar aqui no meio dessa indiarada vagabunda e ordinária, porque briguei com um Coronel que queriam, ‘’porque queriam’’, que eu obedecesse. Um negro, sabe doutor, se meu pai ‘’tevesse’’ vivo, para ver um troço assim, um negro mandando e desmandando, pra cima de mim. Acho que ele morria na hora, doutor. Daí sabe doutor, me mandaram pra cá, pra esse inferno de lugar, quente igual ‘’aos infernos’’. — Missael percebeu nos olhos do militar, o desespero típico dos fracos. Ele queria que o jovem e influente advogado, o ajudasse a sair dali, e voltar a conviver com as pessoas ditas ‘’civilizadas’’, pensou o jovem advogado.

            — O que posso fazer pelo senhor... — Missael olhou de relance e leu, no uniforme do militar o nome ‘’do infeliz’’— Cabo Van Peter! O que posso faz pelo senhor, Cabo Van Peter, a final de contas? 

             — Sei que o senhor é uma pessoa distinta, só quero sair deste lugar ‘’dos infernos’’, e ver a luz do dia ‘’di’’ novo. Só isso doutor Da Maia. — Missael tira os óculos de grife do rosto, encarou a sentinela bem nos olhos, não sabia onde estava se metendo, mas, de uma coisa ele sabia bem, que os corredores escuros, como aquele, exigem olhos bem atentos, mente aberta e um senso de oportunidade, que não é para qualquer um. Teria que agir assim, se pretendia sobreviver e vencer nesses tipos de ambiente. Tinha que proceder como se estivesse em uma guerra, como se sua vida estivesse em jogo em cada lance que dava. 

— Quando me encontrar com o Coronel Alencastro novamente, vou falar do seu caso. O Coronel é uma pessoa razoável e pode rever o caso do senhor. Ele é uma boa pessoa, muito amigo do meu pai, são amigos pessoais. Foi com ele, que o senhor se desentendeu? Não foi Cabo Van Peter?

 O jovem advogado pensou nas conversas, entre Alencastro e Aristo, na varanda da casa da praia. Eram longas conversas, geralmente regadas a vinho ou cerveja, dependendo muito da estação do ano. Às vezes chimarrão, bebida que o pai de Missael só apreciava na companhia do Coronel. O velho soldado vivia dizendo, para todo mundo e para quem quisesse escutar, que Alencastro era muito parecido, fisicamente e no jeito de ser, com seu antigo comandante de campo, quando servia na guerrilha angolana, tempos atrás. Muitas vezes, Missael viu o pai se comportar, como se fosse um soldado, na presença do Coronel Alencastro: — Para alguma coisa, aquela estranha, amizade poderia ser útil afinal de contas, pensou Missael.

— Obrigado doutor Da Maia, muito obrigado doutor! — O Cabo a princípio ficou impressionado com as palavras do advogado, achava estranha a amizade do pai de Missael com um negro, mesmo que fosse um Coronel. Van Peter esqueceu de quem era e de onde estava, e beijou ambas as mãos de Missael com veemência. O advogado pensava, estar em uma cena de um filme B, uma comédia ou teatro bufo de quinta categoria, era patética a atitude do policial militar, na visão de Missael.

— Cabo Van Peter, onde fica a cela do meu cliente afinal de contas? — Disse Missael, ao retirar as mãos do Cabo de forma brusca, se livrando do assédio constrangedor. O jovem advogado teve, a estranha, percepção que os corredores tinham diminuídos em comprimento e largura. O lugar literalmente parecia ter encolhido, pelo menos aos olhos de Missael.

— Fica bem ali! — apontou a sentinela para uma cela a poucos metros de onde estavam. Missael estranhou à luz, que emanava do lugar apontado pelo Cabo Van Peter. A sentinela fica parada, enquanto o advogado caminhava para a cela, Missael só notou a falta de Van Peter quando chegou à frente da cela. 

— Cabo Van Peter! Abra a cela, por favor! — Era evidente a irritação na voz de Missael, com o Cabo que permaneceu estático, Missael notou o olhar petrificado do Cabo. Os olhos estavam perdidos, em algum lugar que Missael não identificou bem onde. O advogado ficou em dúvida sobre o olhar do Cabo, se era de medo, horror ou de estupefato.

— A cela está aberta doutor Da Maia, se o senhor quiser conversa com o ‘’meliante’’ a sós, o senhor pode usar a sala do doutor delegado. Ele autorizou, caso o senhor quisesse falar com o meliante em outro lugar. — As palavras saiam da boca do Cabo sem vida, mecanizadas, o Cabo parecia um zumbi. Missael, não gostou da tom de voz do militar, ele mais parecia de uma criança assustada. O que mais irritava, o jovem advogado, era essa coisa tudo, uma irregularidade atrás da outra. Na verdade, ele, só queria tirar o seu cliente dali rápido e voltar ao litoral o quanto antes. Não viera para aquele lugar, para fiscalizar qualquer irregularidade que fosse. Bastou uma olhada, para dentro da cela e uma sensação estranha, tomou Missael de assalto. Ver aquele índio deitado na cama, de costa olhando para a parede, Missael teve a impressão de já ter vista essa cena antes. Um passado muito distante, gritos de desespero e dor vieram juntos como uma torrente, na mente do advogado. Missael abriu a cela, sem dificuldade, mas, percebeu que as barras estavam enferrujadas: - Como podem deixar as coisas chegarem a esse ponto! Missael, também, se perguntou como ele, ainda não fugiu de um lugar como aquele. O que prendia ali, o advogado sabia que é simples para um índio, como aquele, sumir no mundo, como se jamais existisse. De repente. Missael sente uma estranha presença, ele desejava estar armado naquela hora. Da Maia queria uma arma para poder se defender, de uma coisa que ele não sábia o que era, nem onde estava. Não queria estar vulnerável, alguma coisa estranha pairava no ar, para Da Maia era angustiante estar ali.    

— José Maria...

— Mokanã! É este, o meu nome, primo! — O Xocleng, nem se deu ao trabalho de olhar para Missael, enquanto proferiu essas palavras. Pois ainda estava deitado e de cara para a parede.

— Primo? Não sou seu parente! — Missael então percebeu, o que se passava ali — Sou do norte, nasci longe daqui, mas, quem te contou quem sou, Mokanã? — A voz de Missael sai embargada.

 — E isso importa?

           — No pé que está à coisa, isso não importa mesmo! Consegui a sua liberdade provisória, mas, creio que você vai passar um tempo curto no presídio agrícola, por uns meses apenas. ‘’Me diz’’ uma coisa primo, por que atirasse naquele homem desarmado afinal de contas? — Mokanã, virasse para encarar Missael de frente, o olhar do Xocleng, deixou-o sem palavras. Jamais vira um olhar daquele em toda sua vida. Um olhar selvagem e cheio de ira.

            — Aquele chucrute maldito, veio com uns vinte homens, tomaram o nosso gado. Fui buscar de volta, eles devolveram, mas, quando todo o gado já estava de volta na nossa aldeia, aquele palmito dos infernos, quis bancar o engraçadinho, e sacou o revólver da cintura. O que eu ‘’podia’’ fazer, com uma arma apontada pra mim? Desarmado? Essa é boa! Acho que ele deve ser o pior atirador do mundo, por isso não estou morto, se o teuto não está morto, é porque não quis que morresse!              

— Não tem nada disso nos autos do processo, nem no inquérito, que eu li e reli várias vezes! — Missael não disse nada sobre o fato do homem, que era de descendência italiana e não teuta. Mas, para aquele índio, era a mesma coisa pensou Missael. Branco é sempre um branco, e se comportam da mesma maneira, desde há séculos, agem como se a terra fosse deles por direito, sem ter na consciência de quem por aqui já vivia. Era assim que o jovem advogado pensava.

— Quando saio daqui? — Esbravejou o índio com fúria.   

— Agora mesmo, mas, que cheiro forte é esse. É florada de mangueira?

CLARA

 Por Fabiane Braga Lima (Rio Claro, SP)

            Sou o nome dela por acaso! Clara, um lindo nome, daquela mulher que morava na frente da minha casa. Passava as manhãs tomando banho de sol, isto é quando tinha sol. Mas voltamos ao início, que é um bom lugar para se começar, ela passava as manhãs de sol ameno se banhando de luz solar. Fora assim por meses a fio, até a Maria das Saudades, minha conhecida do bairro, passou na frente da casa dela e simplesmente disse: — Bom dia professora Clara! Um mistério para se dissipar, um bem pequeno a bem da verdade.

            Não me contive e fui ter uma conversa com Maria das Saudades e logo perguntei quem era  minha nova vizinha. E como ela foi para na cadeira de rodas, eu estava afoita e queria detalhes atômicos.

            — Como ela foi parar na cadeira de rodas eu não sei dizer, ela foi a minha professora no jardim de infância! Simples assim! Ela me acompanhou por anos, uma excelente professora. Todos a amam, agora eu tenho que ir!

            Fui acompanhando com o olhar Maria das Saudades sumir rua abaixo, andava aos saltos, chamando a atenção de todos naquela rua bucólica. Mais tarde soube que a professora Clara, dedicou toda a vida à educação. Filha de família pobre, estudou, entrou na faculdade e dedicou toda a vida à educação. Casou tarde e teve três filhas. E o que a levou a decadência, eu não soube e nem queria saber.

            Aí veio a tormenta, os gritos, era Clara e seu marido, que discutiam e discutiam. Não tinha hora certa, só o turbilhão quebrando a rotina daquela rua, daquele pequeno bairro afastado. Porquê brigavam? Por tudo creio eu! Mas o que mais me tocava eram as meninas, que raro saiam da casa e sempre que saiam pareciam sempre tristes e assustadas.

            Um dia de sol ameno, vi o casal,  de olhar severo o elegante marido de Clara a empurrava, ela triste na cadeira de rodas. Para onde foram eu não sei dizer, só sei que o marido da professora Clara, voltara em poucos minutos, logo não foram muito longe. Vi o marido de Clara adentrar sorridente na casa de uma vizinha, quem era? Era uma jovem muito bonita, uma ave noturna, La belle de jour, era assim a chamavam. O marido da professora Clara, ficou ali por pouco tempo, saiu e foi buscar a esposa sabe-se lá onde. Pois o bem o fato em si não chamou a atenção de ninguém.

               Um dia não me contive e fui ter uma conversa com o marido de Clara, Eu diante daquele homem alto e bem vestido: — E as crianças pequenas? Elas ficavam sozinhas por um bom tempo, também não frequentavam escola! Ele nada disse, mas o semblante assustado com a reação raivosa do senhor eu foi embora. Teve que me afastar daqui.

Não demorou para descobrir por vias tortas, que o motivo das brigas do casal, era porquê Clara dava aulas para as filhas. E, ali estava uma guerreira, que nunca se deixou levar, pela estupidez do esposo abusivo. Com as mãos ensanguentadas em dores, mas com alma tranquila e serena, nada impediu aquela mãe de alfabetizar as suas filhas, nem mesmo suas pernas paralisadas.

Um ano depois, fiquei sabendo que as filhas da professora Clara estavam estudando e vivendo como todas as crianças merecem. Quanto ao marido de Clara? Ele deixou a família, esposa em uma cadeira de rodas, debilitada, filhas ainda pequenas, homem amargurado, ele nunca quis aceitar a verdade. Toda criança merece um estudo adequado!

LUA NOVA, LUA MÍSTICA (ANOITECE EM MIM)

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)


Anoiteceu em mim!

Nix se foi... O sono se foi...

Morfeu se foi...

O sonho não chegou.

Hipnos há muito partiu!

E a negra musa sagrada...

Não veio!

***

Amanheceu em mim!

Mas ainda é noite...

No meu coração!

E o sono não vem...

O sonho não chega!

***

Anoiteceu em mim!

E a negra Valquíria há muito se foi...

Partiu em meia as brumas encantadas!

Ascendeu aos céus...

Foi para todo o sempre...

Sem dizer sequer um adeus...

***

Amanheceu em mim!

Atravesso sozinho...

O deserto do real!

Campo estéril do cotidiano.

Mundo quasímodo e sem vida!

Perco-me! Em meio

À multidão resoluta.

Entre vidas vazias...

Por fim!



HOMENAGEM À VÂNIA MOREIRA DINIZ


Vânia Moreira Diniz, escritora, poetisa, acadêmica, musa e incentivadora da Revista Cerrado Cultural e, sobretudo, amiga.

MUSA

(à Vânia Moreira Diniz)

 

Por Paccelli José Maracci Zahler (Brasília, DF)

 

Ó, Vânia Moreira Diniz,

Poetisa de alma luminosa,

Com tua pena, fazes feliz

Quem mergulha na tua prosa.

 

Em teus versos, sentimos

Pulsar da vida e a emoção,

As palavras que escolhemos,

Refletem a tua inspiração.

 

Da Revista Cerrado Cultural,

És a musa inspiradora,

Com teu talento especial,

Encantas cada leitor(a).

 

És a voz do coração,

Cantas as belezas do Amor,

Com teus versos, dás emoção,

Ao cotidiano desolador.

 

Ó, Vânia Moreira Diniz,

Em teus versos espelhas,

A riqueza da nossa raiz,

E a magia que nos rodeia.

 

 




 

AOS 102 ANOS DO IMBA

Por Paccelli José Maracci Zahler (Brasília, DF)

 

Instituto Municipal de Belas Artes,

Tua história é centenária e rica,

Promoves a cultura com maestria,

Inspiras gerações com tua magia.

 

Da música erudita à popular,

Com instrumentos diversos,

A dança tem seu lugar,

Encantando com gestos universos.

 

São 102 anos de dedicação,

À promoção do Belo e da emoção,

Fazendo de Bagé um Polo Cultural.

 

E assim, segues em frente,

Ensinando e encantando a gente,

E deixando um legado imortal.