CLARICE COM C: PLANO ESPIRITUAL

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

 

Clarice sempre foi bem espiritualizada, e  acreditar em outro plano espiritual e os desígnios de Deus sempre fez parte da sua vida. Por isso tinha certeza de quem deveria ficar na sua vida ou não. Então ela tinha suas escolhas? Sim. Mas isso não fez dela uma pessoa que escolheu demais, ela só buscava o melhor para si mesmo.

E ela não pensava mais encontrar alguém que mexesse com os seus sentimentos, no entanto ela sabia que nem sempre a vida é como a gente quer e sim como tem que ser por obra de Deus. Você que está lendo talvez não acredite em Deus, mas com certeza deve acreditar que a vida dá voltas e nem sempre para no mesmo lugar, muda o tempo todo.

E algumas coisas são como as folhas das árvores, lentamente secam e se tornam frágeis. Perdem o rumo, ganham outras  tonalidades de cores, é como a vida às vezes. E tão pouco sabemos do nosso destino. Perdemos e mesmo com o passar do tempo não sabemos lidar com a dor.

Vivemos numa balança entre perdas e ganhos, erros e acertos, tudo e muito mais. Somos personagens da nossa história. Alguns de nós morrem no abismo da falta de compreensão, outros perdem a noção da realidade presas as suas ilusões.

 

Clarisse da Costa é cronista e poetisa em Biguaçu, Santa Catarina.

Contato: clarissedacosta81@gmail.com

EM PERPÉTUOS CICLOS 2

 Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)


Em memória de João Carlos Pereira

 

 

‘’Eu prefiro as certezas do sim!

  Do que a incertezas do talvez.’’

Clarisse da Costa

           

Uma vaga e leve fragrância de flores de laranjeiras misturado com um forte olor almiscarado estava pairando no ar, de forma nada sutil. E uma explosão de fortes e vívidas cores irritou muito o agente de segurança, que vagava a esmo pelo salão de eventos, ele era o único caucasiano no recinto.

O vai e vem de uma pequena multidão de pessoas negras, de gente latino e vários tons de peles escuras, repletos de adornos nos pescoços, nos pulsos reinavam argolas e pulseiras reluzentes, enormes brincos nas orelhas, expressivos lenços nas cabeças, turbantes variados e as roupas berrantes e chamativas. Todos conversando de forma discreta.

E o som baixo e discreto de eufônicas e variadas línguas estrangeiras que falavam simultaneamente e que se lançavam no ar e intercambiavam entre as pessoas que ocupavam os espaços como se fosse uma perfeita sinfonia. O agente de segurança, de idade avançada, sentiu um frio percorrer a espinha como nunca tinha sentido antes. Ele ligou o sinal de alerta total!

            — Aquieto-me para recomeçar um novo ciclo professor Muteia. O texto soa, com o de uma pessoa a muito tempo falecida, uma autora obscura, uma escritora desconhecida do grande público, é claro. Mas a obra em si é minha com toda a certeza, compus com o meu sangue! — O rascunho estava na mesa, Adérito Muteia relutava em pegar o manuscrito para ler, pois sentia vibração que vinha dele. O literato africano, já tinha recebido e lido uma cópia em mídia digital do texto. Algo gritava, urrava dentro do texto, para além do texto e, de forma desesperada. Aquela mulher na frente dele deixava-o nervoso, como nunca antes.

            — Senhorita Fabiana de Lima, veja bem, no momento eu não creio que posso satisfazer os vossos anseios literários, da senhorita, não neste exato momento.

            O palavrório afetado, com um leve sotaque luso, irritou a jovial escritora, vestida sobriamente como uma aluna de pós-graduação diante de uma banca avaliadora para apresentar uma tese, com seu tailleur Chanel azul limão, cabelo preso, acessório discreto e maquiagem leve. Os vibrantes olhos castanhos, que ardiam em chamas, dela cravaram profundamente na mente de Muteia, o africano devolveu semicerrando os olhos negros profundos. Seria uma reunião e tanto pensou Muteia àquela hora extrema.

            O agente de segurança passou ao lado da mesa onde Fabiana e Muteia foram se alojar. O homem da lei, muito idoso para um agente de campo, parou abruptamente e voltou os olhos de para o casal a poucos centímetros dele. Mil vozes mínimas, em puro desespero, urraram dentre dele, o casal impassível sequer deu pela existência do homem idoso, impecavelmente vestido como um europeu. O agente de segurança que andava com a ajuda de uma bengala de cedro, usava óculos escuros feitos sobre medidas. Atônito  e muito cansado o homem idoso saiu do salão de festas, assim como quem foge para salvar a própria vida, ele cambaleou e com seus pés lânguidos. 

            — Então irá fazer as mudanças necessárias no texto? Olha o miúda, eu não tenho muito tempo para aspirantes a escritores, és ambiciosa demais e não creio que...

            — Balela professor Muteia! — Falou erguendo a voz e em tom de desafio, mesmo ela sabendo que era uma figura menor diante de um gigante — Não vim de tão longe, somente para ter a sua aprovação pessoal!

            — Não me interrompa de novamente ò miúda! Não vou e não quero te dar aprovação alguma, não é este o meu papel, entenda logo!

Muteia, estava falando com a jovem adulta, na frente dele como se estivesse de novo em campo de batalha. O experiente adido militar, já tinha visto isso antes, bem falantes e corajosos aspirantes a carreira militar, jovens combatentes, recém saídos de academias e campos de treinamento, sempre apressados para enfrentar o oponente, com muita fome e muita sede de ação. No calor da batalha, em meio aos estrondos de explosões, rajadas de artilharias, o cheiro de carne calcinada, o olor de pólvora queimada, corpos arremessados ao longe e jatos de sangue. Desesperados, os jovens combatentes choravam, gritavam e se escondiam quando os combates começavam de fato. Adérito pensou nela diante do conselho, diante do ciclo interminável que estava adentrando

   — Não queria ser grosseira com o professor, me desculpe, eu vim de muito longe e quero ser publicada, eu também quero ser mais útil! — O tom conciliador de Fabiana não comoveu o experiente professor. Não quero ser uma célula dormente.  

            Muteia sentiu um zumbido que crescia e crescia, um drone pensou, dois drones na verdade calculou o experiente professor africano, um bem perto e outro um pouco mais longe, calculou o comandante de campo. E o emérito literato africano, ficou relaxado e pensou em um charuto, ele sentia a extrema necessidade de um bom charuto a bem da verdade.       

          E não demorou muito, um jovem secretário indiano bem alinhado com seu multicolorido traje típico, veio com uma bandeja de madeira, com as bordas artesanalmente decoradas. Nela uma caixa de madeira pintada a mão de charutos caribenhos, uma chávena de cristal artesanalmente decorado nela havia chá de lima-da-pérsia gelado. O jovem de cabelos negros reluzentes, um pequeno piercing no nariz e olhos negros vivazes serviu o casal e desapareceu tão rápido quanto chegou. 

            — Miúda, não é somente o querer, pensar ou mesmo desejar! Na verdade, é tudo isto junto, temperado com as casualidades que a vida nos impõe! E temos que viver e conviver não somente com as nossas escolhas, mas também temos que viver e conviver com as escolhas alheias, que não são nossas. És uma célula adormecida e não és tu que decide o quando ou o como!

            O zumbido ficou mais alto e o literato esperou e esperou enquanto dentro da caixa deixada pelo secretário, Muteia pegou o cortador de charutos Don Emmanuel e o isqueiro à querosene com tanque de óleo transparente. O professor, literato e adido militar preparou e acendeu o charuto cubano que tinha levado à boca e deu uma demorada baforada.

            A jovem escritora levantou a mão, com a palma da mão aberta, de forma abrupta ela fechou na frente do Muteia, abriu e fechou novamente! O drone parado a poucos metros dos dois se esmigalhou, caiu no meio da rua, caiu na calçada sem fazer barulho e não atingiu ninguém e o aparelho retorceu diante dos transeuntes. Muteia dá uma segunda baforada seguida de um discreto sorriso de marfim e bate palmas.

            — És uma jovem e impulsiva! E nada discreta pelo que vejo!

            O segundo drone parado a quilômetros de distância caiu lentamente, foi parar em uma densa mata fechada, do que seria um jardim de uma luxuosa casa, um suntuoso solar de um potentado, muito abandonado. Muteia, muito tempo se acostumou em lidar com alunos deste naipe, estes jovens impulsivos.

            — Vamos ver com mais cuidado o que temos aqui. — Muteia pegou o manuscrito em cima da mesa e leu em voz alta: — Eu não falo com estátuas! Eu vivo no além dos astros-mortos! — Promissor miúda, espere, somente espero. Aguarde o nosso chamado.

 

Samuel da Costa é contador e funcionário público em Itajaí, Santa Catarina.

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br 

 

 

 

PRECISAMOS DE UM PAÍS MAIS SÉRIO

 Por Fabiane Braga Lima (Rio Claro, SP)

 

Assim que saí do meu trabalho ao final do dia, peguei o ônibus, como de costume. De repente, subiu um garoto vendendo balas. Pele queimada pelo sol ardente, nos pés sandálias gastas, roupas rasgadas e puídas pela ação do tempo e um caderno de anotações na mão esquerda.

Sem cerimônias, o garoto maltrapilho, se sentou ao meu lado. Entusiasmado, começou a  escrever em seu pequeno caderno de notas. Percebi a extrema dificuldade do menino, ele tentando formar palavras, parecia ser tão esforçado.

Assim os dias foram se repetindo e se repetindo, em uma nova rotina que me foi imposta, foram dias e semanas.

— O que tanto você escreve aí?— Certo dia perguntei para o garoto

— Estou tentando encontrar as palavras certas. — Sem me olhar nos olhos, tímido ele me respondeu.

—  Mas por que não estás na escola?

— Preciso trabalhar, meus pais estão desempregados. — Com a fala arrastada me disse.

Senti uma dor aguda na fala dele, um alerta dispara dentro de mim ao escutar a resposta do garoto. E decidi especular o que havia por detrás daquela escuridão aparente.

Segui mais adiante, ao invés de descer onde sempre parava, e o ônibus se foi até um ponto muito distante da cidade, uma periferia desconhecida para mim. Caminhei atrás dele, na distância segura, e por fim ele me apresentou de forma involuntária a uma casa bem simples em uma vizinhança paupérrima. E a mãe do garoto estava sentada em uma cadeira de vime, na frente da casa, a senhora estava esperando pelo filho. Então, os meninos chegavam, dando-lhe todo o dinheiro arrecadado das balas. Sim havia mais garotos, eram três crianças no total, na minha visão eram explorados pelos pais.

Sai dali com um quadro bem definido na cabeça e eu fiquei apavorada pelo eu vi ao longe. Fui procurar uma assistente social, uma amiga minha de infância. E fiquei sabendo pela minha amiga o que acontecia ali: Os garotos saíram da escola e postos a trabalhar, ficando o dinheiro arrecadado com a mãe. E a outra metade ficava com o pai que se embriagava no bar.

Mais um caso, esquecido na burocracia do conselho tutelar e da vara da infância e da juventude da justiça. Assim, aquelas crianças passam o dia, torturadas e escravizadas pelo trabalho infantil, como muitas outras no país! Quanto a mídia? Difícil um jornalismo sério que investigue, que se  aprofunde no assunto.

Precisamos de algo ou alguém que se empenhe em ajudar às crianças, o futuro do país, porque o sistema se cala. O sistema é podre! Toda criança tem o direito de estudar e ter uma vida digna.

 

Fabiane Braga Lima é poetisa e contista em Rio Claro, SP.

Contato: bragalimafabiane@gmail.com

CRÍTICA AO BOM ESCRITOR PROLETÁRIO

 Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

Para o poeta Samuel da Costa

Na minha opinião

A epigrafe não estava correta

O editor estava errado

O texto acabou muito mal

 E o poeta ali morreu

De forma trágica

***

In my opinion

Your epigraph was not correct,

The editor was wrong,

The text ended and the poet died

***

Na minha

Mais que singela opinião

A crítica inexiste

O texto não deveria ter sido

Se quer publicado

O livro ficaria no prelo

Pois o selo é amador

A editora faliu

E o livro em si é uma fraude

 

 

Clarisse Cristal é poetisa e bibliotecária em Balneário Camboriú, SC.

EM PERPÉTUOS CICLOS

 Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

‘’Foi embora, mas nunca soube se ele existia,

Nunca olhei nos olhos dele’’

Fabiane Braga Lima                                        

 

 

Prólogo: Do diário de Fabiana De Lima

 

            Eu quero deixar claro que este relato, que redijo agora mesmo, não é um registro fiel e exato do que foi e o que é a minha vida neste exato momento. Quero deixar o meu olhar, que é somente meu, de mais ninguém, das minhas sensações e das impressões do que seria a minha vida até aqui e até agora. As minhas sensações do que é a realidade em que vivo e que se mistura com um mundo muito particular das minhas angústias, os meus medos, dos meus sonhos e de pesadelos atrozes e que eu nunca pude dividir até agora com mais ninguém.

            Escrevo em meio a uma torrente de sentimentos bons e ruins que se alternam, este breve relato, como quem tenta olhar para si, de fora para dentro, como uma maiêutica socrática, muito particular minha a bem da verdade. Os acontecimentos que me forjaram para eu ser o que sou, as influências que sofri, das minhas pequenas e grandes tragédias, permeadas por pequenas e grandes paixões, amores e desamores.

A começar, do que eu penso do que foi a minha infância, dos pequenos flashes difusos, que me chegam até a minha vida adulta. Com o passar do tempo, se transformaram em fortes clarões, em meio as escuridões abissais que existem dentro de mim.

 Cresci sem conhecer o meu pai biológico, o que me disseram é que ele exilou no estrangeiro e nunca mais voltou, logo eu presumi que ele morreu. Quem era ele afinal de contas? A figura do meu pai era e ainda é uma sombra difusa, que me acompanha desde a minha tenra idade até aqui.

Assim me contaram, que ele, o meu pai, fora um promissor e respeitado professor universitário, em tempo idos. Formado em belas-letras e, especialista em literatura espanhola medieval e moderna e de teatro espanhol medieval e moderno. Meu pai, me confidenciaram e, depois eu confirmei, também era conhecido e reconhecido poeta, contista, novelista, cronista, ator de teatro, produtor e diretor teatral e dramaturgo e por fim com uma incipiente carreira promissora na academia interrompida de forma abrupta.

Até que um dia, ele se foi, foi arrastado e lançado ao chão por onda reacionária e extremista, foi preso, torturado e por fim exilado. E os detalhes explicarei mais adiante, agora falo da outra parte da minha vida, a minha adorada mãe. Ela era jovem atriz dos palcos e das telas e ela e o me pai se conheceram nos bastidores do meio literário e cultural. Logo se apaixonaram e se casaram não muito tempo depois, coisas de artistas apaixonados pela vida e pelas belas-artes e belas-letras.

A minha mãe procurou nunca escondeu nada de mim, nada mesmo, ela não me preservou de nada na vida. Em relação ao meu pai, pelo menos, ela me contou o que sabia e o que lhe foi revelado. Ela me contou que seguida a prisão do meu pai e sua partida para o exílio, a minha mãe grávida de mim, se mudou do litoral agitado. Depois ela se mudou para uma tranquila e pequena cidade no interior do nosso estado. A minha mãe foi se dedicar ao magistério, foi ser uma professora de crianças por fim.

Estranhamente sempre senti a forte presença do meu pai, a cada passo que a minha mãe dava na vida, a cada decisão que ela tomava eu sentia as digitais dele. Primeiro eram pequenos ruídos aleatórios, sempre no alvor, no arrebol, sempre à tardinha, ao pôr-do-sol e eram sempre breves apenas.        Depois vieram as vagas sombras e os leves ruídos suspensos no ar, que logo se transformaram em palavras difusas e em imagens etéreas. E por fim ações e decisões no plano da realidade no mundo real. Breves, os dois sempre sozinhos conversavam no silêncio, na quietude e na paz nas alvoradas rubras.

Assim a minha mãe se casou novamente, com um dedicado professor de português e inglês do ensino médio. Tivemos uma vida tranquila, tivemos uma vida estável e eu tive uma educação acima da média das outras crianças da minha realidade de então. Apesar do fato que vivíamos em uma cidade pequena e longe de médios e dos grandes centros urbanos. E sobretudo apesar de não sermos uma família de muitas posses. Sempre tivemos acessos a muitos livros, revistas diversas, vastos catálogos de filmes variados, músicas diversificadas e longas conversas sobre belas-letras e belas-artes.

Em meio a esta pequena agitação familiar, ao longo desta parte da minha vida, primeiro eu era uma simples espectadora e depois incentivada pelo meio, era um elemento integrante, deste pequeno universo cultural, pois a nossa casa era frequentada por professores e intelectuais da localidade. Isso desde a minha mais tenra idade até eu ter idade de bater asas e sair de casa, dos meus pais aquele pequeno universo que era bom para mim e não me desafiava em nada.

Peço desculpas para quem lê esta pequena digressão, desculpas os grandes saltos temporais e as letras vagas e difusas, mas este relato tem que ser breve. Fatos de eu estar sempre sozinha, sempre ter poucos amigos da minha idade até a vida adulta. E eu me sentia bem assim, é uma irrelevância completa para este relato. E assim o será este meu relato íntimo!

 Mas as sensações, as contradições, as falas e imagens dispersas no ar? Desde criança tive somente a ausente fisicamente o meu pai na minha vida, não digo que conversava com o meu pai, ou que sonhava com ela acordada. Digo que as mensagens dele chegavam a mim, primeiro difusas e depois claro e cristalina, trespassava o tempo e o espaço eu bem sabia. A minha mãe nunca teve a coragem de me dizer o que ela passava pela mesma situação. A minha mãe foi e é materialista e ateia demais para isto, presa à realidade, ao mundo da matéria. E creio que divido com ela a mesma posição, mas tenho uma ligação descendência e ascendência com o meu pai, com ela era uma ligação afetiva, efetiva e mesmo etérea.     

Fui procurar o meu pai, por fim, fui percorrer os passos dele, fui cursar belas-letras na faculdade, como quem procurar algo, procura preencher uma lacuna na própria existência. Fui vasculhar o mundo, que outrora foi do meu pai e a minha mãe também, o mundo em que ambos estavam imersos e submersos. Eu foi ter as minhas próprias impressões e sensações deles, dos meus pais.

E descobri pôr fim a longa produção textual do meu distante pai, das críticas de artes, dos poemas milimetricamente construídos, das poesias livres em versos herméticos, das novelas e dos romances. Muita coisa publicada para um circuito alternativo e acadêmico somente, o meu pai não era para os grandes públicos.

 Descobri também a militância de oposição ao regime brutal que tomou o poder no país a tempos idos. Encontrei referências do núcleo artístico que meu pai integrava, e para a minha surpresa o grupo ainda existe, sobreviveu a forte opressão brutal por parte do regime opressivo. Estavam dispersos e ainda ativos, e para a minha grande surpresa não eram somente artistas que gravitavam no núcleo. Eram e são impressores de livros e revistas, produtores executivos de veículos de comunicação de massa, também influentes comunicadores. E uma variedade de trabalhadores no mundo das artes, maquiladores, assistentes de produção, iluminadores, fotógrafos, revisores, apreciadores e simplesmente consumidores de artes em geral, e por fim uma série de profissionais liberais e uma gama de pequenos empreendedores e prestadores de serviços.

Todos ligados de forma direta ou indireta ao mundo das belas-artes, belas-letras, ao entretenimento, a música popular e erudita e comunicação em geral. Através deles, colhi muito material escrito, gravações em áudio e em vídeo e colhi depoimentos sobre o meu velho pai, por fim foi isso. O meu pai era querido e bem aceito, em variadas esferas e unia todos esses universos interligados e despertos. Até de opositores e críticos do trabalho dele, o meu pai era e é bem visto.

 Mas uma sombra se ergueu, palavras ditas entredentes, sussurradas e entrecortadas, pois se a vida profissional e artística do seu pai foi desvendada a final de contas, faltava algo. As atividades políticas do meu pai, simplesmente não existiam, subsequentemente ao grupo político que ele integrava não existia de fato e de direito. Simplesmente ninguém falava e apontava o caminho para eu percorrer. Então se assim fosse eu deixei que as coisas simplesmente acontecessem sozinhas, pura e simples, ou que se destino bem quisesse que permanecessem nas imensidões das profundezas das escuridões abissais do subterrâneos do mundo das lides política para todo o sempre.

Falo agora sobre a minha pessoa, ao final da minha vida acadêmica, lá estava eu e o meu gato, o meu bichano, o meu animal de estimação, que um dia simplesmente apareceu na minha casa e nunca mais foi embora. Eu estava em paz e na paz comigo mesma, pela primeira vez na minha vida. Eu e o meu fiel companheiro, por horas gostava de se esconder debaixo da minha cama, eu ficava preocupada e levantava a pesada cama para ver se ele estava vivo ou morto. Mas, em uma noite remota, o meu amigo de quatro patas pulou pela janela do meu pequeno apartamento. Ele se espatifou do terceiro andar, vi o pequeno corpo morto do meu bom amigo no meio da rua deserta, se retorcia, agonizava, uma tragédia para mim. Não tive nem coragem de recolher o corpo do meu amigo e dar um fim digo aos restos mortais dele. A tristeza se abateu em mim.  

Até que, simplesmente, o vi dias depois caminhando calmamente pelos telhados das casas próximas. E, não demorou muito para vê-lo vagando pela minha casa, e foi assim por dias e meses, o via morrer e renascer por várias vezes de várias formas. Estava vivendo esse pesadelo muito particular, os olhos, tinha os olhos castanhos claros brilhando do gato amarelo malhado, que um dia fora meu. Os olhos vazios de significados simplesmente me encaravam, os miados e ronronados desapareceram por completo. E a tigela de água fresca e ração sempre estavam intocadas. O que sobraram foram somente as carícias gélidas de corpo sem vida nas minhas pernas e pular dele em cima de mim quando estava sentada no sofá e deitada na minha cama.

Era um prelúdio, que algo ou alguma coisa que estava chegando e por fim chegou atrás de um convite de gente próximas de meu pai. Um convite para integrar um coletivo literário recém aberto. De fato, o mesmo grupo que o meu pai um dia fez parte que foi recém reativado. Era para ser um grupo de debates, cursos rápidos, palestras, aulas, leitura de textos e por tudo que se refere à produção e difusão de textos, escritos e falados. Sem início, meio ou fim, sem locais, datas e horários pré-definidos com muita antecedência, ou sem métodos e sem as hierarquias predefinidas das academias. Nem tendo tabus, somente o respeito às pluralidades de ideias era a lei. Vários profissionais e amadores do texto escrito e falado se reuniam esporadicamente em locais variados para ler, recitar, debater e apreciar textos variados em mídias variadas do moderno ao antigo. 

Como nunca gostei de me misturar com outras pessoas, de coletivos e de multidões aleatórias, escutava mais do que falava nas reuniões. E foi assim que ele entrou na minha vida, Adérito Muteia, o emérito professor luso-africano. Um pós-doutor a bem da verdade, conheceu o meu pai no exílio no velho mundo, no distante e gélido leste europeu. E através dele, descobrir muito de quem era o meu pai, de boa parte das atividades de resistência políticas dele. Aquela figura difusa e distante que mais de repente tomou formas mais concretas. E descobri muitas coisas, o professor também não me poupou detalhes, por mais que cruéis que fossem, o fala de Muteia é muito parecido com o da minha mãe. O como, o quem e os muitos porquês do exílio forçado do meu pai, se afloraram como um torrente de dores, amores e paixões desmedidas e entregas totais. Descobrir o irmão do meu pai, um delegado da polícia civil, que hoje é aposentado e sua neta, depois falo deles, aqui o foco é outro. O papel do meu tio delegado, na evasão das presas, do meu pai para o estrangeiro foi preponderante.  

 Agora, relato que as minhas percepções da realidade, pura e simples, para mim se converteu em outras coisas, o professor luso-africano desnudou os multiversos infinitos, para além das minudências que nos permeia. O professor Adérito Muteia por pois sim aos ruídos e sombras que sempre me acompanhavam desde a minha tenra idade.  

Agora posso dizer que escrevo e reescrevo, com sangue e com as iras dos deuses e deusas que reinam no além do tempo e do espaço, para o além da realidade em que existo neste plano. Não como uma profissão de fé, componho para mudar a minha realidade como alguém preso a uma realidade agonizante e cruel.   

 

Samuel da Costa é contador e funcionário público em Itajaí, Santa Catarina.

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br

 

 

PENHASCO...

Por Fabiane Braga Lima (Rio Claro, SP)

 

           Richard era um homem solitário rodeado de livros raros e caros vinhos. Acordava cedo, tomava seu demorado banho, tomava seu requintado café e então saia para correr. Adorava olhar as paisagens, ele morava próximo de montanhas, longe de tudo, de todas e de todos.

          Porém, no passado adorava frequentar festas, Richard era um homem de muitas posses, que de repente largou tudo, pois se sentia exausto de pessoas fugazes e interesseiras, nas quais diziam ser amigos, entre aspas.

Certo dia, como de costume saiu para correr, mesmo se sentindo cansado continuou o trajeto. De repente, se viu cercado por um nevoeiro, e já não enxergava mais nada. Ficou intacto sem saber o que fazer, foi quando sentiu uma mão lhe guiando. Amedrontado, abriu os olhos, era uma senhora, confuso, não sabia o que fazer, quis fugir, mas foi barrado por uma jovem mulher.

– Calma rapaz, onde pensa que vai!?  

           – Minha família me espera – Respondeu mentindo, como sempre quando perguntavam pela família.

              Foi conduzido até uma casa simples, pelas duas mulheres, ele parecia estar em um sono profundo e preso em um sonho denso. A casa não era estranha para Richard.  Ele olhou para os quadros nas paredes e os muitos porta-retratos espalhados pela casa, ficou perplexo e mudo. Eram fotografias de pessoas conhecidas, eram fotografias de sua família e muitas dele.

 – Essa casa humilde foi tudo que nos restou, papai. – Disse a jovem olhando nos olhos de Richard

          – O senhor perdeu a imobiliária em jogos e com suas amantes.

         – Preciso ir embora, preciso! – Gritou não aguentando a pressão.

         – Sim, papai, mas antes de ir embora olhe bem para esta senhora que lhe salvou do nevoeiro, olhe bem!?

        Aquietou-se ao ver a mulher, ele sabia que era sua esposa Catharina. Mas se angustiou e saiu correndo, ele queria voltar para casa. Enfim, chegando em casa, não a encontrou, infelizmente. Catharina jazia morta, ela caiu em um penhasco.

       O penhasco, no qual ele nunca tinha avistado na vida. Mas a imagem da amada esposa morta depois que se lançava em um penhasco abraçada com a filha deles nos braços. Richard não conteve as suas lágrimas,

        Ao acordar do pesadelo terrível o insípido corretor de imóveis, que passava pela crise da meia idade. Que a tempos se isolava da família, indo viver sozinho no meio da nada decidiu voltar para casa.

          Quem te ama de verdade não desiste, supera junto as crises, os erros. Te respeita, apoia e abraça forte, mesmo triste. Quem te ama fica. Beleza acaba em frações de segundos.

            Ao ficar de frente da esposa e com a filha pequena nos braços ele não se conteve

       – Perdoa-me Catharina!? – Perguntou à esposa – Sempre! Mas não se jogue num penhasco novamente.

 

 

Fabiane Braga Lima é poetisa e contista em Rio Claro, São Paulo.

Contato: bragalimafabiane@gmail.com

 

 

ENTRE ESTRELAS

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)


Eu não saberia falar das estrelas

Sem pensar em você,

Elas me lembram as luzes dos teus olhos.

O encontro delas com a lua

***

Remete o nosso encontro,

Tão sutil, leve e cheio de aconchego.

É como se o universo

Fizesse parte da gente,

Ou a gente parte dele.

***

Eu vejo a nossa terra florida,

Dá saudade do teu perfume,

O barro vermelho não tem mais

A marca das tuas pisadas.

Sabe a flor de hibisco?

Está cada vez mais linda,

***

Vermelha como a intensidade da paixão!

A revoada de passarinhos

Sobre as flores

É a coisa mais linda pela manhã!

A cantoria do sabiá

Às vezes me acorda,

É como uma poesia que

Deus escreveu para mim.

Eu estou bem,

***

Seguindo, me renovando,

Buscando sempre florescer

Mesmo com tantas dificuldades.

 

 

Clarisse da Costa é cronista e poetisa em Biguaçu, Santa Catarina.

Contato: clarissedacosta81@gmail.com