Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
‘’Foi
embora, mas nunca soube se ele existia,
Nunca
olhei nos olhos dele’’
Fabiane Braga Lima
Prólogo:
Do diário de Fabiana De Lima
Eu quero deixar claro que este relato, que redijo agora mesmo, não é um
registro fiel e exato do que foi e o que é a minha vida neste exato momento.
Quero deixar o meu olhar, que é somente meu, de mais ninguém, das minhas
sensações e das impressões do que seria a minha vida até aqui e até agora. As minhas sensações do que é a realidade em que
vivo e que se mistura com um mundo muito particular das minhas angústias, os
meus medos, dos meus sonhos e de pesadelos atrozes e que eu nunca pude dividir
até agora com mais ninguém.
Escrevo em meio a uma torrente de sentimentos bons e ruins que se alternam,
este breve relato, como quem tenta olhar para si, de fora para dentro, como uma
maiêutica socrática, muito particular minha a bem da verdade. Os acontecimentos
que me forjaram para eu ser o que sou, as influências que sofri, das minhas
pequenas e grandes tragédias, permeadas por pequenas e grandes paixões, amores
e desamores.
A começar, do que eu penso do que foi a minha
infância, dos pequenos flashes difusos, que me chegam até a minha vida adulta.
Com o passar do tempo, se transformaram em fortes clarões, em meio as
escuridões abissais que existem dentro de mim.
Cresci sem conhecer o meu pai biológico, o
que me disseram é que ele exilou no estrangeiro e nunca mais voltou, logo eu
presumi que ele morreu. Quem era ele afinal de contas? A figura do meu pai era
e ainda é uma sombra difusa, que me acompanha desde a minha tenra idade até
aqui.
Assim me contaram, que ele, o meu pai, fora um promissor
e respeitado professor universitário, em tempo idos. Formado em belas-letras e,
especialista em literatura espanhola medieval e moderna e de teatro espanhol
medieval e moderno. Meu pai, me confidenciaram e, depois eu confirmei, também
era conhecido e reconhecido poeta, contista, novelista, cronista, ator de
teatro, produtor e diretor teatral e dramaturgo e por fim com uma incipiente
carreira promissora na academia interrompida de forma abrupta.
Até que um dia, ele se foi, foi arrastado e lançado
ao chão por onda reacionária e extremista, foi preso, torturado e por fim
exilado. E os detalhes explicarei mais adiante, agora falo da outra parte da
minha vida, a minha adorada mãe. Ela era jovem atriz dos palcos e das telas e
ela e o me pai se conheceram nos bastidores do meio literário e cultural. Logo
se apaixonaram e se casaram não muito tempo depois, coisas de artistas
apaixonados pela vida e pelas belas-artes e belas-letras.
A minha mãe procurou nunca escondeu nada de mim,
nada mesmo, ela não me preservou de nada na vida. Em relação ao meu pai, pelo
menos, ela me contou o que sabia e o que lhe foi revelado. Ela me contou que
seguida a prisão do meu pai e sua partida para o exílio, a minha mãe grávida de
mim, se mudou do litoral agitado. Depois ela se mudou para uma tranquila e
pequena cidade no interior do nosso estado. A minha mãe foi se dedicar ao
magistério, foi ser uma professora de crianças por fim.
Estranhamente sempre senti a forte presença do meu
pai, a cada passo que a minha mãe dava na vida, a cada decisão que ela tomava
eu sentia as digitais dele. Primeiro eram pequenos ruídos aleatórios, sempre no
alvor, no arrebol, sempre à tardinha, ao pôr-do-sol e eram sempre breves
apenas. Depois vieram as vagas sombras e
os leves ruídos suspensos no ar, que logo se transformaram em palavras difusas
e em imagens etéreas. E por fim ações e decisões no plano da realidade no mundo
real. Breves, os dois sempre sozinhos conversavam no silêncio, na quietude e na
paz nas alvoradas rubras.
Assim a minha mãe se casou novamente, com um
dedicado professor de português e inglês do ensino médio. Tivemos uma vida
tranquila, tivemos uma vida estável e eu tive uma educação acima da média das
outras crianças da minha realidade de então. Apesar do fato que vivíamos em uma
cidade pequena e longe de médios e dos grandes centros urbanos. E sobretudo
apesar de não sermos uma família de muitas posses. Sempre tivemos acessos a
muitos livros, revistas diversas, vastos catálogos de filmes variados, músicas
diversificadas e longas conversas sobre belas-letras e belas-artes.
Em meio a esta pequena agitação familiar, ao longo
desta parte da minha vida, primeiro eu era uma simples espectadora e depois
incentivada pelo meio, era um elemento integrante, deste pequeno universo
cultural, pois a nossa casa era frequentada por professores e intelectuais da
localidade. Isso desde a minha mais tenra idade até eu ter idade de bater asas
e sair de casa, dos meus pais aquele pequeno universo que era bom para mim
e não me desafiava em nada.
Peço desculpas para quem lê esta pequena digressão,
desculpas os grandes saltos temporais e as letras vagas e difusas, mas este
relato tem que ser breve. Fatos de eu estar sempre sozinha, sempre ter poucos
amigos da minha idade até a vida adulta. E eu me sentia bem assim, é uma
irrelevância completa para este relato. E assim o será este meu relato íntimo!
Mas as sensações, as contradições, as falas e
imagens dispersas no ar? Desde criança tive somente a ausente fisicamente o meu
pai na minha vida, não digo que conversava com o meu pai, ou que sonhava com
ela acordada. Digo que as mensagens dele chegavam a mim, primeiro difusas e
depois claro e cristalina, trespassava o tempo e o espaço eu bem sabia. A minha
mãe nunca teve a coragem de me dizer o que ela passava pela mesma situação. A
minha mãe foi e é materialista e ateia demais para isto, presa à realidade, ao
mundo da matéria. E creio que divido com ela a mesma posição, mas tenho uma
ligação descendência e ascendência com o meu pai, com ela era uma ligação
afetiva, efetiva e mesmo etérea.
Fui procurar o meu pai, por fim, fui percorrer os
passos dele, fui cursar belas-letras na faculdade, como quem procurar algo,
procura preencher uma lacuna na própria existência. Fui vasculhar o mundo, que
outrora foi do meu pai e a minha mãe também, o mundo em que ambos estavam
imersos e submersos. Eu foi ter as minhas próprias impressões e sensações
deles, dos meus pais.
E descobri pôr fim a longa produção textual do meu
distante pai, das críticas de artes, dos poemas milimetricamente construídos,
das poesias livres em versos herméticos, das novelas e dos romances. Muita
coisa publicada para um circuito alternativo e acadêmico somente, o meu pai não
era para os grandes públicos.
Descobri também a militância de oposição ao
regime brutal que tomou o poder no país a tempos idos. Encontrei referências do
núcleo artístico que meu pai integrava, e para a minha surpresa o grupo ainda
existe, sobreviveu a forte opressão brutal por parte do regime opressivo.
Estavam dispersos e ainda ativos, e para a minha grande surpresa não eram
somente artistas que gravitavam no núcleo. Eram e são impressores de livros e
revistas, produtores executivos de veículos de comunicação de massa, também
influentes comunicadores. E uma variedade de trabalhadores no mundo das artes,
maquiladores, assistentes de produção, iluminadores, fotógrafos, revisores,
apreciadores e simplesmente consumidores de artes em geral, e por fim uma série
de profissionais liberais e uma gama de pequenos empreendedores e prestadores
de serviços.
Todos ligados de forma direta ou indireta ao mundo
das belas-artes, belas-letras, ao entretenimento, a música popular e erudita e
comunicação em geral. Através deles, colhi muito material escrito, gravações em
áudio e em vídeo e colhi depoimentos sobre o meu velho pai, por fim foi isso. O
meu pai era querido e bem aceito, em variadas esferas e unia todos esses
universos interligados e despertos. Até de opositores e críticos do trabalho
dele, o meu pai era e é bem visto.
Mas uma sombra se ergueu, palavras ditas
entredentes, sussurradas e entrecortadas, pois se a vida profissional e
artística do seu pai foi desvendada a final de contas, faltava algo. As
atividades políticas do meu pai, simplesmente não existiam, subsequentemente ao
grupo político que ele integrava não existia de fato e de direito. Simplesmente
ninguém falava e apontava o caminho para eu percorrer. Então se assim fosse eu
deixei que as coisas simplesmente acontecessem sozinhas, pura e simples, ou que
se destino bem quisesse que permanecessem nas imensidões das profundezas das
escuridões abissais do subterrâneos do mundo das lides política para todo o
sempre.
Falo agora sobre a minha pessoa, ao final da minha
vida acadêmica, lá estava eu e o meu gato, o meu bichano, o meu animal de
estimação, que um dia simplesmente apareceu na minha casa e nunca mais foi
embora. Eu estava em paz e na paz comigo mesma, pela primeira vez na minha vida.
Eu e o meu fiel companheiro, por horas gostava de se esconder debaixo da minha
cama, eu ficava preocupada e levantava a pesada cama para ver se ele estava
vivo ou morto. Mas, em uma noite remota, o meu amigo de quatro patas pulou pela
janela do meu pequeno apartamento. Ele se espatifou do terceiro andar, vi o
pequeno corpo morto do meu bom amigo no meio da rua deserta, se retorcia,
agonizava, uma tragédia para mim. Não tive nem coragem de recolher o corpo do
meu amigo e dar um fim digo aos restos mortais dele. A tristeza se abateu em
mim.
Até que, simplesmente, o vi dias depois caminhando
calmamente pelos telhados das casas próximas. E, não demorou muito para vê-lo
vagando pela minha casa, e foi assim por dias e meses, o via morrer e renascer
por várias vezes de várias formas. Estava vivendo esse pesadelo muito
particular, os olhos, tinha os olhos castanhos claros brilhando do gato amarelo
malhado, que um dia fora meu. Os olhos vazios de significados simplesmente me
encaravam, os miados e ronronados desapareceram por completo. E a tigela de
água fresca e ração sempre estavam intocadas. O que sobraram foram somente as
carícias gélidas de corpo sem vida nas minhas pernas e pular dele em cima de
mim quando estava sentada no sofá e deitada na minha cama.
Era um prelúdio, que algo ou alguma coisa que
estava chegando e por fim chegou atrás de um convite de gente próximas de meu
pai. Um convite para integrar um coletivo literário recém aberto. De fato, o
mesmo grupo que o meu pai um dia fez parte que foi recém reativado. Era para
ser um grupo de debates, cursos rápidos, palestras, aulas, leitura de textos e
por tudo que se refere à produção e difusão de textos, escritos e falados. Sem
início, meio ou fim, sem locais, datas e horários pré-definidos com muita antecedência,
ou sem métodos e sem as hierarquias predefinidas das academias. Nem tendo
tabus, somente o respeito às pluralidades de ideias era a lei. Vários
profissionais e amadores do texto escrito e falado se reuniam esporadicamente
em locais variados para ler, recitar, debater e apreciar textos variados em
mídias variadas do moderno ao antigo.
Como nunca gostei de me misturar com outras
pessoas, de coletivos e de multidões aleatórias, escutava mais do que falava
nas reuniões. E foi assim que ele entrou na minha vida, Adérito Muteia, o
emérito professor luso-africano. Um pós-doutor a bem da verdade, conheceu o meu
pai no exílio no velho mundo, no distante e gélido leste europeu. E através
dele, descobrir muito de quem era o meu pai, de boa parte das atividades de
resistência políticas dele. Aquela figura difusa e distante que mais de repente
tomou formas mais concretas. E descobri muitas coisas, o professor também não
me poupou detalhes, por mais que cruéis que fossem, o fala de Muteia é muito
parecido com o da minha mãe. O como, o quem e os muitos porquês do exílio
forçado do meu pai, se afloraram como um torrente de dores, amores e paixões
desmedidas e entregas totais. Descobrir o irmão do meu pai, um delegado da
polícia civil, que hoje é aposentado e sua neta, depois falo deles, aqui o foco
é outro. O papel do meu tio delegado, na evasão das presas, do meu pai para o
estrangeiro foi preponderante.
Agora, relato que as minhas percepções da
realidade, pura e simples, para mim se converteu em outras coisas, o professor
luso-africano desnudou os multiversos infinitos, para além das minudências que
nos permeia. O professor Adérito Muteia por pois sim aos ruídos e sombras que
sempre me acompanhavam desde a minha tenra idade.
Agora posso dizer que escrevo e reescrevo, com
sangue e com as iras dos deuses e deusas que reinam no além do tempo e do
espaço, para o além da realidade em que existo neste plano. Não como uma
profissão de fé, componho para mudar a minha realidade como alguém preso a uma
realidade agonizante e cruel.
Samuel da Costa é contador e funcionário público em Itajaí,
Santa Catarina.
Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br
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