CHUVA NEGRA

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

            O vento álgido, que soprava forte àquela hora morta, fez rodopiar as folhas secas no asfalto. O militar contemplou absorto a dança por uns instantes e olhou para cima, viu os relâmpagos que riscavam o céu e depois levou as mãos a face e notou pequenas gotículas negras lhe banhavam. Marques lembrou dos livros de história, que lera na adolescência, sobre a chuva negra, que caiu depois do holocausto nuclear de Hiroshima e Nagazaki. Era uma chuva negra que caia, o cabo Bruno Marques levou um tempo para processar o que ocorria, se de fato estava sonhando, o pior dos pesadelos ou se era a dura realidade que se impunha com toda a ferocidade. Se todo o rigor do impossível, do pouco provável ou mesmo do inimaginável ocorria ali àquela hora e naquele lugar.

             O policial militar tirou um lenço branco, feito de algodão egípcio, do bolso e levou a peça imaculada até a face. O delicado tecido africano se recobrisse de negro, o policial militar jogou a peça no chão com força. Bruno sentiu algo que passou rápido em cima dos seus coturnos, ele olhou poucos metros à frente e viu um descomunal rato, no meio do pátio e de repente uma pequena luz vermelha fixou-se no corpo do animal. Um silencioso tiro certeiro e o roedor estava morto. Bruno olhou para cima, para a torre sul de observação, o atirador mor do coronel de ferro dando seu pequeno espetáculo tétrico com toda a certeza. Bruno por fim seguiu a sua marcha, então uma enorme nuvem de pássaros negros fez um sobrevoo pelo quartel, a revoada desceu e subiu lentamente, era uma valsa noturna, macabra e muito barulhenta. As aves caíram mortas, os pequenos corpos sem vida caíram sobre o quartel, fazendo muito barulho. Bruno ficou atônito com a cena e mais uma vez pensou logo se não estava vivendo um vívido pesadelo. Mas não estava e, mais uma vez, retomou a marcha, de jeito ou de outro ela sabia que as respostas de tudo que ocorria não tardava.

***

            Parado diante da porta de entrada da administração do batalhão, o cabo Bruno Marques com os olhos semicerrados encarou o hall de entrada, através do vidro brindado, minutos se passavam até o militar decidir, por fim, enfrentar o seu superior hierárquico. A porta abriu-se automaticamente assim que Bruno se aproximou dela. E uma olhada rápida, o cabo entranhou a solidão do recinto, pois o coronel Moreira César nunca andava só, era raro ver o militar de alta patente andar sozinho. E quando ele andava sozinho, era vista perambulando sem pressa alguma, pelas ruas do centro comercial da cidade. Como um político em plena campanha parava para conversar, com todo mundo fosse quem fosse. Sempre fardado, pois o homem nunca era visto, sem as suas pomposas imponentes dragonas ou mesmo sem seus uniformes militares para dias comuns. E outro fato curioso, ele estava sempre desarmado, nesses passeios, passeios que geralmente ocorriam nos fins de semana e feriados prolongados e sempre em plena luz do dia. Nunca parava para comer ou beber nada, mesmo que lhe oferecessem. Contudo o mais comum, era vê-lo cercado de pequenos grupos de jovens oficiais, ou mesmo, de aspirantes mais jovens ainda, todos bem armados, bem municiados e nada discretos. Poucos lembram de ter visto, o homem fora da vida militar, o coronel Moreira César é um completo mistério, em sua vida privada, que de fato não existia para o público interno e externo da vida militar.

            Ignorando as ordens do sargento, Bruno se dirigiu com avidez, até os elevadores, aí lembrou que eles provavelmente não estavam funcionando e preferiu não arriscar ficar preso dentro de um dos elevadores mesmo se estivessem em modo hidráulico: — Então tenho enfrentar de novo as obsoletas escadas? E seja o que Deus quiser e o que esse excêntrico quiser? — Cabo Bruno desapareceu, em meio a escuridão absoluta da escadaria, pois ali, muito diferente do hall de entrada, as tênues luzes de emergências não funcionavam. E andou trôpego, na escuridão completa, por três andares, até chegar ao topo, no andar do coronel as lâmpadas das luzes de emergências estavam funcionando.

            O sombrio escritório de despachos do temido coronel Moreira César estava longe de parecer de alguém que emanava poder. Pequeno, nada funcional e totalmente obsoleto, com uma velha mesa escrivaninha estilo clássico europeu de bronze marchetaria, ladeada com velho arquivo de aço, com quatro gavetas. Uma pequena mesa de trabalho do ajudante de ordens, com uma velha máquina de escrever Kanzler importada da velha Europa. Bruno contemplava o espaço minúsculo através da vidraça temperado verde fume. Outro fato que chamou a atenção do cabo foi de a sala estar bem iluminada, um contraste com o resto do prédio que estava na semi-escuridão. A sala vazia era outra coisa que o deixava intranquilo: — Onde está a dita besta fera? — Disse Bruno para si, foi quando uma mão gelada, tocou-lhe o ombro esquerdo de forma furtiva.

            — Boa noite cabo! Descansar cabo, nada de formalismo marcial hoje meu amigo, não temos tempo para isso, não hoje pelo menos. — Falou Moreira César de forma álgida ao pé do ouvido, do jovem militar que bateu os castos e prestou continência imediatamente após ouvir as primeiras palavras do superior.

            O coronel Moreira César ergueu a mão direita e as portas automáticas abriram. Para o cabo Bruno pareciam o sul do paraíso.

             — Vamos entrar, me apetece que me faça um relato oral dos teus tediosos e mais que precisos relatórios burocráticos. Quero saber o que são esses tais pontos cegos, ou melhor como tu mesmo descreveu: — Pontos nulos no céu!

            Com o braço o oficial erguido apontando para dentro do sombrio escritório, Bruno não teve alternativa, senão entrar no bunker do Coronel Moreira César. Ao entrar no escritório de despachos, Bruno sente a temperatura despencar de repente.

            — Sente-se cabo é uma ordem!

            — Então coronel? Começou por onde? — Bruno tinha acabado de se sentar na rústica, bela cadeira e também estranhamente confortável, o coronel está de costa para ele, foi buscar algo em cima do velho arquivo de aço. Ao se virar Moreira César tinha uma caixa de charutos, o objeto era ricamente decorado com detalhes artesanais, em uma mão e dois copos de uísque na outra. Bruno ficou atento nessa hora, pois nunca vira antes, um oficial de alta patente quebrar o protocolo assim, mesmo quando estavam reunidos reservadamente com subalternos ou eventos mais íntimos fora da corporação.

            O oficial graduado sorriu, era um sorriso sádico, na interpretação de Bruno e ele não poderia esperar outra coisa daquele homem na frente para ele. O homem era formado na velha guarda do militarismo, com muita força bruta e pouco tempo para analisar dados e traçar estratégias. O coronel Moreira César estava deslocado em tempo e espaço da geração do cabo Bruno. O militar de alta patente se se sentou lentamente, colocou a caixa de madeira entalhada de charutos na mesa, o cabo não parou de olhar para caixa de charutos, estava absorto com os detalhes do objeto que remetia ao Caribe dos anos quarenta e cinquenta. Bruno, alheio ao absurdo da situação, demorou para notar uma cadeira de rodas, era uma cadeira cara e nada funcional, do tipo para levar abastados pacientes debilitados para breves passeios pelo jardim em tempos de clima ameno do outono.

            A cadeira estava no canto direito do bunker do coronel, Bruno lembrou de um antigo rumor no meio policial, de um acidente nebuloso envolvendo a esposa de Moreira César e um militar de baixa patente, que fazia a segurança pessoal da esposa do coronel. A mulher, que descendia de uma família abastada, acabou indo parar em uma cadeira de rodas e o tal   militar de baixa patente acabou morto. Bruno sentiu um cheiro forte de pólvora queimada pairando no ar e a morte iminente parecia ter invadido o lugar.

            — Sabe de uma coisa cabo, o meu falecido pai, que também era militar, assim como o pai dele também o era, sempre me dizia que primeiro vem as obrigações, para muito depois as diversões. O meu velho pai disse que aprendeu o ditado do pai dele, o meu avô aprendeu de um sargento linha dura que gritava estas palavras todos os dias e a toda hora, mas hoje não meu amigo, hoje não mesmo! — O oficial ergueu a mão debaixo da escrivaninha e sacou uma garrafa de uísque importado e caro e encheu os dois copos e serviu para o cabo.      — Prefiro à americana, puro e sem gelo, cabo pode beber é por conta da casa, a viúva é quem paga a conta hoje. Sabe de uma coisa! É mesmo uma coincidência incrível, um cabo chamado Bruno, que me serviu como ajudante de ordens, me decepcionou muito há alguns anos atrás. Um militar de um futuro brilhante, mas que teve a carreira abreviada, por uma tragédia particular, que agora não vem ao caso, deixamos o outro cabo Bruno entre os mortos e saudamos a vida entre os vivos.

              Moreira César pensou em Fá Rodrigues Butler nessa hora, o oficial desejou que Sibelly Lopez a jogasse pela vidraça do alto de uma daquelas torres. Moreira César imaginou a cena toda, da mulher caindo em câmera lenta e horrorizada, depois ela no chão e a rua obstruída, cheia de policiais, jornalistas e transeuntes curiosos vendo a cena toda, por detrás das fitas de isolamento. O coronel pensou que sonhar não custa nada e não custava mesmo, mas ele tinha um problema, um sub-produto das traquitanas que a condessa aprontava, e ele estava parado na frente dele.

            — O que estou fazendo aqui, coronel?

            — Aproveite a viagem, somente isto cabo e nada mais! Pois o destino é só um detalhe desagradável de qualquer forma — O oficial ergueu o copo e o cabo também, os copos tilintavam no ar. Moreira César estava tentando arrastar aquele teatro bufo um pouco mais, pois estava se divertindo com a cena. O prólogo tinha que ser longo, mas o desfecho rápido, pois recebera ordens bem específicas. Beberam mais um gole do uísque importado, a bebida desceu macio, pela garganta do militar de alta patente, e pegou um charuto cubano, pegou outro charuto e ofereceu para o outro militar. Tirou um cortador que estava na caixa e fez o corte de três centímetros a partir da ponta, passou o charuto para o cabo e repetiu o ritual de novo. O coronel sacou um isqueiro de gás butano cromado, acendeu o charuto do cabo primeiro e depois o dele próprio.

            — Olha cabo! Já chego lá, não me demoro! Quero te falar, de alguns desígnios da natureza antes, um deles é o equilíbrio, e tudo neste mundo em que vivemos é regido por isto. A busca eterna pelo equilíbrio, da equidistância mais que perfeita entre pólos opostos em uma balança.

            — Não entendo coronel...

            — Escute cabo, somente escute! O equilíbrio meu caro é assim: "Toda ação provoca uma reação de igual ou maior intensidade, mesma direção e em sentido contrário". É uma lei simples da física, que parece reger a realidade em que vivemos. E é o que nos leva para o segundo ponto em questão, no sub-mundo do crime organizado, geralmente pequenos delitos passam quase despercebidos aos olhos de todos. Assim pequenos desvios, ficam impunes por um bom tempo, depois sem o segundo ponto da questão, os pequenos elementos criminosos mais seguros de si partem para delitos maiores e em maiores escalas. Fruto dos pequenos crimes e das pequenas impunidades. Claro que tudo isso você já sabe, li sua bela ficha pregressa academia e a militar. És versado em ciência criminal e teoria do crime, estatística e por aí a fora. — Moreira César se divertia com a cara de desespero do homem na frente dele, pois já fizeram muitos interrogatórios na vida profissional. E para Moreira César os melhores interrogatórios eram os interrogatórios velados. Quando o inquirido não sabia que estava sendo inquirido.

            Moreira César levou o charuto na boca, sentiu o aroma do charuto cubana nas papilas gustativas e exalou uma baforada de fumaça nada discreta pela boca. Nessa hora a imagem do ajudante de ordens nu, deitado na cama com a esposa do coronel veio como uma cruel sentença de um juiz também cruel. Um minúsculo resquício de humanidade pairava ali por mais que adormecido e enterrado que estivesse. O coronel Moreira César se ergueu da cadeira e ele divagou consigo que era hora de terminar com a coisa toda de uma vez e ver até onde aquele homem na frente dele tinha ido. O coronel pegou em um arquivo três pastas encadernadas em capa dura, colocou embaixo do braço, voltou para a cadeira e lá estava ele de novo, sentado sem nada dizer.

            E como o coronel Moreira César odiava a rígida disciplina marcial cega, na verdade ele odiava, especialmente, quando estavam na frente de subalternos e pessoas medíocres. O coronel jogou a primeira pasta em cima da mesa e o barulho ecoou pela sala.

            — Não preciso te dizer o óbvio, meu caro! Ou preciso? — O velho coronel de ferro reapareceu com toda a força. — Primeiro ato: Kriseide — Leu o coronel de forma ríspida e prosseguiu como se estivesse em uma sala de interrogatório — Tenho que ser óbvio hoje, cabo? Foi esse o teu primeiro trabalho como policial disfarçado não foi?

            O cabo Bruno não entendia nada do que o coronel falava, estava atônito, mas decidiu entrar no jogo de cabeça.

            — Se é para ser óbvio, o serei coronel! Sim foi o meu primeiro caso, e sendo mais óbvio ainda, o senhor bem sabe que não foi nada usual, essa natureza de investigação não é nossa. Geralmente nós trabalhamos com a tática de infiltração e de vigilância pura e simples. Investigações de pós-crimes não são atribuição da nossa corporação. Mas quando o é, nós investigamos a nós mesmos e não a terceiros. Investigamos somente membros da corporação sob suspeitas de algum tipo de desvio. Sim fui eu mesmo, que redigiu o relatório Kriseide. — Bruno estava curioso para saber para onde o coronel Moreira César queria ir, desenterrando uma aberração.

            — E o caso Kriseide estava e está mais que ligado à nossa corporação cabo Bruno! — Moreira César relia o relatório como quem procurar um detalhe esquecido.

            — Sim! A arma que tirou a vida do promotor Fábio Ramos pertencia a nossa corporação. Até agora eu não sei porque tive que redigir o texto na máquina escrever e eu ter que levar direto ao estado maior em mãos o documento. Quebrando assim a cadeia de comando, a hierarquia militar. 

            — Um bom soldado nunca questiona, nunca mesmo! Um relatório cheio de lacunas .

            — A tal Kriseide é, ou era, uma cigana da tribo Caló, foi só isso que pudemos descobrir e mais nada coronel, sem parentes ou amigos conhecidos! Sim um caso nebuloso creio eu, mas de longe esse parece um crime pequeno ou leve, que passou despercebido aos olhos de todos.

            — O que não está no relatório e o senhor não falou para mais ninguém?

            — A mulher parecia um fantasma, só isso, nada, não tinha nada para relatar, nenhum vestígio dela em lugar algum, até para uma cigana aliás, nem digitais ela tinha. E quando tinha informações sobre ela, as informações eram desencontradas. O que houve de fato? Ela era amasiada com um tal Acácio Caetano, um simples pescador artesanal, homem simplório. E o promotor Fábio Ramos tirou-lhe a vida, com as próprias mãos, desafiando assim todas as leis das probabilidades em todos os termos. Depois da prisão do promotor e sua posterior soltura, ele foi encontrado morto ao lado de uma pistola Taurus.40, pertencente à nossa corporação. A referida arma, em questão, estava registrada no depósito central de armas na capital de nosso estado e não tinha registro dela saindo de depósito de armas. Como estamos até aqui?

            — Segundo ato: Otto Kürten Wagner Van Petter Meisel. — O tom de voz do coronel Moreira César foi ríspido ao extremo ao colocar o relatório em cima da escrivaninha — Uma figura menor, do submundo do crime organizado local, até aquele circo dos horrores armado, aquela execução a olhos vistos em praça pública.

            — O senhor coronel quer saber do crime em si ou do elemento?

            — Os dois é claro, 

            — Ele era mesmo uma figura bem típica do submundo do crime, daqueles que voam bem abaixo do radar! — Bruno pensou que o coronel tenha chegado onde queria. — Foi o início da vigilância eletrônica, em alta tecnologia, sigamos esse sujeito via câmeras postadas nas ruas. Um traficante, de baixo calibre, a bem verdade, que também flertava com o submundo da prostituição e pequenos contrabandos. Com ele fizemos o que é de praxe: listamos os contatos, que gravitavam em torno dele, em volta desse pequeno marginal, em questão, fizemos o monitoramento nas redes de relacionamentos digitais. E grampeamos os telefones móveis, fixos e as correspondências eletrônicas e físicas também. Confesso, que ele era mesmo uma figura excêntrica de fato, poliglota, com contatos em todo o mundo. E aquelas estranhas reuniões, com aquelas figuras obscuras em plena praça pública, em vários idiomas, em uma via movimentada próxima ao porto e na boca da noite. Até aquele infeliz e estranho incidente na mesma praça onde eles se reuniam.

            — Diga-me cabo, o que não está no teu relatório? O que não coube reportar aos seus superiores?

            — Lembro perfeitamente do corte cirúrgico, extremamente preciso na carótida, mas isso deve estar no relatório, parecia uma obra de um cirurgião muito experiente por sinal. O que me chamou a atenção, de fato, foi o pulso eletromagnético, um campo magnético de trinta metros de minutos antes do crime antes do crime e que se expandiu para trezentos metros no ato do crime. Todos os aparelhos eletrônicos e mecânicos queimaram ou simplesmente desligaram.

            — O que não está no relatório ?

            — Elias Grael que tinha um reboque de cachorro quente, e na verdade ainda o tem, não foi atingido pelo pulso eletromagnético. O que não está no relatório, que eu mesmo redijo, na máquina de escrever. Não fui orientado para o fazer assim, mas o fiz assim. O que se contava na boca pequena é claro, era que Grael colabora como informante, para a nossa corporação. 

            — Terceiro ato: Aderito Muteia, o exilado luso-africano! — Moreira César separou a terceira pasta, mas tanto o ato e o tom de voz foram sutis. 

            — Uma figura ímpar, nunca vi um sujeito tão inocente e tão culpado, ao mesmo tempo em toda a minha vida de policial militar. Uma pessoa envolta em uma rotina diária de um exilado estrangeiro, uma rotina que parecia saída de um roteiro de um filme de espionagem de péssima qualidade. Fiquei meses, e mais meses, de olho nesse tal professor africano e nada. O homem, até então, era mais puro e inocente que um bebê recém-nascido. Já tinha estudado gente assim, em estudo de casos na academia de direito e estudando a teoria do crime na academia militar. Grandes criminosos e grandes criminosos posando de bons homens e boas mulheres protegidos em rotinas diárias insuspeitas. E só isso por si justificava a vigilância em cima desse homem mais que insuspeito. E nem de longe é este o real motivo que o senhor me convocar aqui é claro. — Bruno tentou uma jogada perigosa — Só o vejo como um elemento equidistante entre os outros dois relatórios, racionalizando que sou eu o único elo que liga os três casos entre si. Sou eu a pessoa que fez as duas vigilâncias e redigiu os relatórios é isso que não está no relatório, e ressaltar que no primeiro caso eu só redigi o relatório, pois não houve vigilância e o trabalho de coleta de dados em campo foi feito por uma equipe que eu supervisionava. Eu não assinei nenhum dos relatórios, aliás ninguém assina os relatórios, pois nem o timbre da corporação há nos relatórios. 

            — Estava esperando mais da tua dita memória eidética cabo!

          — Então vamos apelar para ela. O policial de plantão, que estava no arsenal de armas, de onde saiu a arma que matou o jovem promotor Fábio Ramos, é o mesmo que estava sob suspeita de envolvimento com o elemento criminoso Otto Kürten Wagner Van Petter. Segundo ponto tem a ver com o seu quarto ato que vem a seguir. Os três policiais foram dizimados na solidão da praia agreste e deserta, na mesma hora que Otto Kürten Wagner Van Petter foi executado. São elementos aparentemente aleatórios, mas interligados entre si. Não estão nos relatórios, porque de direito nunca houveram relatórios.

            — O que mais cabo?

            — A viatura que os três policiais militares estavam também foi atingida por um pulso eletromagnético, mas esse era diferente do outro da mesma noite na área portuária e dos que seguiram depois.

            — Até aqui tudo bem cabo!

            — Antes que o senhor coloque outro relatório na mesa, quero saber o que faço aqui de fato e de direito coronel!

            Uma mulher loura de cabelos curtos e meia idade sai das sombras, nas costas do coronel, sorri para o cabo Bruno, estava elegantemente vestida. Segurou com uma mão a testa de Moreira César e com a outra usando um bisturi cortando a garganta do militar. Um jato quente cobriu o atônito Bruno. O cabo pode ler no braço da mulher, uma tatuagem, estava escrito Agnes.

            — Cabo! Cabo! — As pontas dos dedos do coronel Moreira César estavam no ombro esquerdo de Bruno sacudindo-o freneticamente. — Acorde homem… acorde! Estamos quase no fim!

            — Então coronel, quem é Agnes afinal? Vou sair vivo nesta sala? Deste prédio? — Bruno lembrou do nome da mulher, era outro elo entre os relatórios. — Também quero saber o que não está escrito nos relatórios coronel.

            — Espere cabo! Mais adiante chegamos lá. Tenhas paciência homem! — Moreira César ergueu-se de forma majestosa da cadeira e foi buscar outro relatório, este era de capa dura branca, esteve impresso e melhor encadernado. José Carlos Couto estava escrito na capa em letras garrafais. Ainda de pé o coronel jogou o relatório em cima da mesa, com bastante força, o homem estava enfurecido. — Este aí meu velho é o marco zero, o real princípio de tudo!

            Bruno lembrou do caso, bem típico e também fora do comum ao mesmo tempo. José Carlos Couto era mais um dos muitos bêbados típicos de bairros periféricos. E como tal, ia e vinha livremente na segurança de um espaço, que ele conhecia muito bem. Sem nunca incomodar ninguém, para além dele mesmo. Pois como uma figura folclórica a caminhar e cair de bêbado pelas calçadas da vida de forma caricata. O povo estava mais que acostumado com ele, até aparecer morto, boiando no rio, longe da segurança dos caminhos que ele conhecia muito bem. Bruno lembrou do caso, pois foi ele, junto com os militares do bombeiro, quem ajudou a tirar o cadáver do pequeno rio que corta a cidade portuária. E lembrou das palavras do coronel: ‘’...no submundo do crime, geralmente pequenos crimes passam quase despercebido aos olhos de todos.’’

            — É o primeiro pequeno delito?

            — O Big bang meu caro, o início que te trás e justifica a tua presença na minha presença aqui e agora. — Moreira César leva a charuto à boca e solta uma baforada, no ar de forma vulgar — O que também nos leva por fim para onde vamos, a morte dessa figura opaca e menor é o elo que liga os teus relatórios não-oficiais e esse pontos cegos, esses subprodutos do pulsos magnéticos, que provocam todas as inutilidades dos nossos aparatos tecnológicos digitais e mecânicos. Por fim meu caro cabo Bruno, mais um crime comum, sem testemunhas. Em suma um crime perfeito, se é que isso existe crime perfeito.

            — O homem pulou da ponte coronel e mais nada…

            — As luzes, as luzes e toda a rede elétrica queimada, da ponte de onde o infeliz caiu. Por fim, um corpo sem vida no chão, ou nas águas que é o caso aqui, não é mais que um corpo sem vida de uma pessoa anônima. Mas é relevante e o passo seguinte meu caro é que você vai fazer por nós e por nós. Pois já sabemos do antes e o depois e o elo que liga o antes e o depois. E posso resumir assim, o que vem do antes e do que vem depois desses atos de pura violência, você vai matar alguém para nós, simples assim. Mas não um alguém qualquer, ou anônima! — Moreira César se levantou e ficou de costas para o cabo — Agora vá, vá para tua casa e aguarde as ordens, que logo chegarão! Saia daqui! E saia agora é uma ordem!

            — Coronel?

            O homem ainda de costa, ergueu a mão direita e com o punho fechado, balbuciou palavras inteligíveis para Bruno. O cabo se levantou e sai trôpego da sala do todo poderoso coronel de ferro. O som de um disparo e um corpo que ficou ao chão deixou o cabo aterrado a poucos metros do sombrio bunker do coronel.

 

Clarisse Cristal, bibliotecária, poetisa e cronista em Balneário Camboriú, SC.

 

 

 

FILHA DO VENTO

Por Fabiane Braga Lima (Rio Claro, SP)

 

Tenho uma sede incontrolável pela vida... quando me sinto ausente e calada é a minha fome por sentimentos verdadeiros, por toques que me acalentam. Sinto necessidade de acordar, sentir o sol me tocar... viver intensamente.

Quando anoitece, a minha mente fica inquieta, tenho necessidade de escrever e ler, até que eu possa adormecer. Caminho de acordo com o vento, deixando o meu rastro, conhecendo mundos opostos, assim crio minhas histórias, utopias, muitas vezes complexas e outras não.

Em meus versos grito por liberdade.... a vida é a minha poesia. E, assim deixo, a minha marca, a minha escrita, os meus gritos contidos, o meu silêncio e as minhas lágrimas de poeta. Reinvento-me, sou filha do vento, caminho por horizontes, nos quais deixo sempre um pouco de mim. Filha do vento, errante, estrangeira, caminho por horizontes, sem fim...!

 

Fabiane Braga Lima, é poetisa, contista e cronista em Rio Claro, São Paulo.

MÁQUINAS HUMANAS DO SÉCULO XXI

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

Não é a tecnologia o problema de tudo. As pessoas que se tornaram máquinas. Nem dá para saber se o que dizem é de verdade, coloca uma palavra-chave nas máquinas computadorizada que as frases se formam. Daqui algum tempo vão atrás do Mágico de Oz à procura de um coração. Porque o sentimento hoje em dia parece mais rabisco de um poeta com suas poesias românticas, outras dramáticas do que um coração humano que sente de verdade.

Ao invés do ‘’turo turo’’ do coração que tanto se falou na canção que diariamente tocava nas rádios na minha saudosa juventude o que toca é o celular. Aquele barulho constante se torna um vício, se não toca o celular as pessoas parecem enlouquecer. As pessoas saem com eles nas mãos e não desgrudam os olhos, parece que tem uma cola em suas mãos.

Eu mesma uso muito o celular, mas entre um papo virtual e um bom papo ao vivo, prefiro estar cara a cara com a pessoa. Ou então num beijo bem gostoso. Afinal de contas, a vida tem coisas melhores a nos oferecer do que essas tecnologias.

A realidade é cruel às vezes, mas é nela onde se encontra a vida. Ou você achou que aqueles ‘’likes’’ te trariam vida, atenção, amor e afeto? Acorda. Infelizmente Natal não é o ano todo. É tão fácil brincar on-line, as pessoas acham que podem fazer tudo até ser o que elas não são usando suas máscaras. O irônico é que o carnaval é uma vez no ano.

Sinceramente, eu prefiro ser eu mesma, até mesmo porque ‘’faz de conta’’ só existe no mundo da fantasia. E eu nem sei como chegar lá. Você sabe? De cavalo branco como os príncipes encantados fazem acho que não é.

 

Clarisse da Costa é cronista e poetisa em Biguaçu, Santa Catarina.

Contato: clarissedacosta81@gmail.com

PONTO NULO NO CÉU: EU VEJO ESTRELAS NO CHÃO

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

            Fá Rodrigues Butler estava sozinha novamente, mas ainda detinha na cabeça a imagem dos dois homens da lei, que acabaram de esvaecer porta afora, tragados pela noite. Desde de a entrada deles e a posterior saída, um forte cheiro acre de traição pairava no ar e ela sentiu no seu âmago mais profundo. A mulher sentiu o ar pesar, ela queria vê-los agonizando em morte lenta, não somente as suas pobres alma miúdas, mas sim o que eles representavam por debaixo dos moribundos mantos apodrecidos dos códigos, das leis, a hierarquias escravizantes que eles representavam por si. Gente pequena, interligada e ligada em minudências apenas, incapazes de cosmos visões, do ver além do limitado mundo material e cotidiano em que viviam.

            Fá levou a mão até a bolsa e pegou um isqueiro de bronze alemão, e em cima do balcão pegou mais um cigarro, a chama do isqueiro azul clareou a semiescuridão do lugar. As sombras esculpidas nas paredes fizeram com que ela lembrasse que tinha passado da hora de voltar para casa.

            — Ponto nulo no céu, que coisa mais ridícula, não faltava mais nada nesta vida! Audácia dessa gente miúda de vir até aqui me importunar com minudências! — Falou em voz alta como se existisse alguém ali para dividir as suas angústias e continuou. — Passou da hora de ir, de ganhar as ruas e ver o que a noite me traz afinal, chega de gente pequena! — Fá olhou com profundidade abissal, para a floricultura e de deixar, o seu sagrado refúgio da fullgás realidade líquida. Ela tragou o cigarro com prazer, como se fosse a última tragada da vida, antes de enfrentar um pelotão de fuzilamentos, antes de enfrentar o mundo real.

            Ao atravessar a porta da floricultura, o álgido vento notívago tocou-lhe o corpo incorpóreo por inteiro como um alento avassalador. Ao longe o piar de uma coruja soou como uma sinfonia aos ouvidos de Fá. E o bailar frenético dos morcegos no ar, na busca de presas fáceis, para saciarem a fome noturna a deixaram em êxtase completo. Todo o espetáculo noturno encheu a negra alma de Fá Rodrigues Butler de entusiasmo.

            — Mil olhos postados em mim? — Disse ela em um tom bem baixo, quase um sussurro, então acenou com a mão direita, em sentido anti-horário, para uma câmera instalada na loja de roupas femininas no outro lado da rua. — Não hoje meus queridos! Não hoje! E nem nunca meus amores! — Fá começou a sua marcha sem pressa alguma, ia para casa, seu sacrossanto lar, tinha uma festa para organizar, amigos para saudar e uma família para cuidar. Tendo as ruas desertas, como únicas testemunhas, ela então entra em ação, o que não seria mais uma rotineira volta para casa depois do trabalho, seria algo mais além.

            Não era uma distância muito longa do trabalho de Fá até a casa onde vivia, mas a fauna e flora notívaga era abundante e muito variada naquela hora extremada. E se a avenida principal, aonde ela andava, era muito bem iluminada, as ruas, as ruelas, os becos e as travessas vicinais eram mal iluminadas e mal frequentadas. Era onde a vida noturna marginal realmente ocorria. Um relâmpago rasgou o céu da negra noite, e o forte estrondo que se seguiu, em três segundos a posteriori, assustou muita gente, menos Fá.

            Andando a poucos passos, ela viu pequenos clarões em uma via escura, Fá pensou nas efêmeras estrelas cadentes, e também logo a imagem em preto e branco de criaturas esquálidas e semi mortas alvoroçaram a tétrica imaginação da paisagista.

            — Quem sabe algum dia meus ufanos amores! Hoje não dá, preciso de uma mão de obra um pouco mais robusta e qualificada! — As duas mulheres e os três homens esquálidos e de olhos vermelhos injetados escutaram a profunda voz de Fá, como se ela estivesse a poucos centímetros deles, todos foram ao chão de forma abrupta e violenta. Fá sorriu com o que ocorrido, parecia uma criança travessa, que acabara de ganhar um brinquedo novo.

            — A noite é só uma criança! — E ela prosseguiu sua sombria marcha, estava cheia de si novamente. E só foi andar uns poucos metros adiante, que Fá avistou em outra ilha degredo, na escuridão abissal, duas criaturas andróginas se beijavam. Dois transgêneros estavam se se beijando lascivamente, em um ponto de ônibus decadente. Era início da função e as duas criaturas notívagas se davam ao luxo de se divertirem, antes dos clientes fiéis e ocasionais chegarem em busca, de prazeres efêmeros e clandestinos em pequenas aventuras marginais. Fá não gostou nada da falta de glamour das duas criaturas noturnas, mas era quase isso, ela pensou que estava perto de encontrar o que tanto precisava. Ao passar pelas duas pessoas, ela sentiu o forte olor de perfume barato e de cigarro de quinta no bolso de uma delas.

            — Hoje não amores! Hoje não para mim, então divirtam-se na função! — A voz de Fá cheia de malícia cravou nas mentes das duas criaturas da noite. As duas pararam de se beijar, viram, olharam e sorriram cheias de desejo para Fá. Ela simplesmente devolveu o olhar lascivo e o sorriso malicioso para as duas. Elas voltaram para si e recomeçaram o que estavam fazendo. As luzes do ponto de ônibus acendem, expondo as duas criaturas noturnas, uma segurava o sexo da outra, o caixa de som instalado no alto do abrigo do ponto do ônibus tocaram uma música, uma antiga canção romântica francesa, era um sucesso obscuro, do meio do século XX, ambos os equipamentos estavam quebrados há meses.

            Então ela voltou para a sua marcha, como se nada tivesse ocorrido. Fá sentiu o vento álgido da noite outonal trazer, um olor forte no ar, era sangue jorrando em rios, medos, desesperos e a iminência da morte por fim. Um negro oceano de infindas possibilidades se descortinou diante dela, e um grito primal ecoou na mente da dama da noite. Fá sorriu mais uma vez, mas dessa vez foi por dentro. Andou mais alguns metros, ela sentiu o cheiro de sangue e puro desespero aumentar mais e mais. Em uma via vicinal escura, cinco homens grandes e musculosos chutavam violentamente três homens no chão. Os homens de pé eram brancos, tatuados, usavam camisas brancas, calças sociais pretas, suspensórios, coturnos bem engraçados e eram totalmente carecas. Eles sorriram e gritavam eufóricos enquanto espancavam os homens que estavam no chão. Os homens, que apanhavam ao chão, eram usuários de drogas, maltrapilhos e moradores de rua. Para os agressores, eles cruzaram uma linha geográfica imaginária proibida, onde negros, judeus, índios, gays e toda a sorte de minorias não deveriam passar, segundo o ideário dos agressores. Os cinco homens, que promoviam a surra monumental, estavam cansados, suados e felizes de repente pararam para contemplar a obra que realizaram, com sorrisos largos olhavam nas caras os três homens decrépitos no chão frio que sangravam, choravam e se lamuriam pela má sorte na vida.

            Foi como se uma explosão tivesse atingido os neonazistas, os corpos dos quatro agressores foram projetados contra o muro da casa atrás deles, de forma violenta, estavam mortos quando chegaram ao chão e em cima das suas três vítimas. O quinto elemento do bando, que liderava o massacre, nada sofreu e sentiu uma pequena e frágil mão de mulher, envolver-lhe a garganta, ele foi erguido do chão. Também sentiu um forte cheiro de rosas frescas e um ar álgido que envolveu seu corpo. E diante da morte iminente, todo o orgulho pela superioridade de pertencer a raça ariana desapareceu por completo. E uma face de uma bela mulher, com os seus olhos verdes ficou de frente para ele, ela sorri enquanto a vida se esvai dele.  

 

 Clarisse Cristal, bibliotecária, poetisa e cronista em Balneário Camboriú, Santa Catarina.

 

 

O PAI DA UNIÃO!

Por Marcelo de Oliveira Souza, IWA (Salvador, BA)

 

Nesse dia de alegria

Também cabe reflexão

A vida, vira nostalgia

De tamanha comunhão.

 

Famílias incompletas seria

Se o pai não tivesse sua mão

O lar desfeito seria

De grande comoção.

 

Tempos difíceis, agonia

Pós doença da população

Louvemos com alegria

Cada tempo com o pai, satisfação.

 

Tão bonita a vida ungia

Com o óleo da união

Braço forte encantaria

Se a força tem carinho então.

 

Não adianta pai de confraria

Na nebulosa compleição,

O pai é pai todo dia

Até n'outro mundo, pai comemoração.

 

No Dia dos Pais, enfatização,

Também cresce com o filho

Quando dada a mão,

Feliz seja seu dia

É dito com todo coração.

TODOS OS MEUS PERDIDOS VERSOS AGRAFOS

 Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

O flanar lento e lânguido

Nas infinitudes cósmicas

Dos apopléticos e perdidos

Versos agrafos do poeta de ébano

Em hialinas dores

Na pós-modernidade fluída

 ***

O livre flanar

Em tempos intempestivos imemoriais

Onde tudo parecia fazer sentido

***

São os nossos corpos incorpóreos

Alquebrados que caem

Em queda livre

Na álgida fossa abissal

***

São todos os celestiais

Versos agrafos

Do negro aedo nefelibata

 Em eviternas dores atrozes

São sintécticos estribilhos

Velozes e vorazes  

Sussurradas ao pé-de-ouvido

Para a astral negra ninfa dos bosques

Em horas impróprias

Em um tempo difuso e incerto

 

Texto de Samuel da Costa, é poeta, novelista e contista em Itajaí, Santa Catarina.  

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br

AS VALQUÍRIAS

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

Tell me why you look at me in the dark

In the shadows in fluid modernity

And the reasons for not fully unveiling what's inside of me

 

       Não sou uma pessoa apegada ao passado e também não gosto de começar os meus textos e falas com as palavras que eu escrevo neste relato. Mas aqui estou eu mirando um terreno vazio, mais um passo à frente na corrida da especulação imobiliárias.

       Só posso lembrar, rememorar no meu palácio das memórias o que tinha ali antes, uma casa simples de madeira, coisa brega mesmo casa de madeira branca na beira mar. Congelada no tempo, tinha uma senhora de cabelos brancos, muito idosa que ficava na janela e às vezes no portão falando em um dialeto que eu não entendia.

        Pois bem, a minha história se cruza com a história da Gioconda, vamos chamá-la pois Macabéa e Margaridas já estão por aí faz tempo, foi destes trabalhos escolares estúpidos. Pois bem, mais uma vez, ter que entrevistar moradores antigos da minha cidade, cidade de veraneio amorfa, na verdade uma colônia de pescadores artesanais não a muito tempo.

       Pois bem, mais uma vez, eu legítima cidadão das nuvens, fiz o que qualquer pessoa normal faria, fui buscar informações com o porteiro do meu prédio. Depois das telefonistas e frequentadoras de qualquer salão de beleza, todo mundo sabe que porteiros são os que melhores sabem e comentam das vidas alheias. Já ia me esquecendo dos ascensoristas de elevadores, mas deixa pra lá.

          Foi ter com Roberval, chamamos eles assim, foi ter com Roberval um papo sobre a mulher idosa e a nossa vizinha. Roberval com seu uniforme impecável e sandálias de couro nordestina, que estava lendo um jornal. Pois os porteiros de prédios residenciais, quando não estão no hall de entrada ou estão escutando música brega em um pequeno rádio a pilha barato ou estão lendo um jornal.  

      Pois bem, Roberval que estava sempre lendo jornais e revista, levantou os olhos para me atender. Engraçado que nunca tinha escutado uma só palavra da boca, nada para além de bons dias e boas noites, com aquele sotaque agudo nordestino.

         Roberval se abaixou para trás do balcão e sacou de um arquivo, eram recortes de jornais e revistas. O cretino tinha um pequeno arquivo da Gioconda, foi difícil tirar o arquivo das mãos dele, nem dinheiro ele aceitou, foi bom ele não ter aceitado, pois não tinha dinheiro. Sai dali do hall, segurando firme nas minhas mãos de criança, o arquivo de Roberval, o clipeiro, sai dali quase correndo.

         O clipping do porteiro era de primeiro, trabalho de profissional, o sujeito só pode ser um jornalista de profissão, expatriado da terra seca por algum coronel interiorano qualquer. Mas deixamos o porteiro de lado e vamos nos ater na Gioconda

       Típica filha e neta de imigrantes, expatriados exilados pela fome ou pela guerra. Gente que sai da terra mãe forçosamente e não consegue se desligar de onde veio para uma terra estranha para nunca mais voltar. Lá estava a senhora idosa e mais velha nascida e criada na velha colônia de pescadores, vivenciou de longe as guerras e distúrbios políticos e econômicos. A mulher sobreviveu a urbanização e elitização da cidade com uma bravura ímpar. E lá estava ela ora bem vestida ora trajando roupas simples em fotografias, ganhando prêmios de prefeitos e do parlamento local e dando entrevistas, dando entrevistas para rádios e tvs.

      Pois bem, o que colhi foi que era uma típica mulher empobrecida e sofrida, filha e neta de europeus do mediterrâneo do sul da Europa. Gente ligada ao mar, pescadores, piratas e marinheiros e toda a malta de gente litorânea ao sul da velha Europa. Parole era a dialeto que dominava, era a última de uma grande família, que ou morreu ou emigrou para outras paragens.

      Fui para a internet, fui buscar as entrevistas em áudios e vídeos, com a voz firme e lúcida a atração turística da cidade, os turistas gostavam de tirar fotografias dela quando estava na janela. E ela falando o dialeto estranho, na frente da casa para turistas variados, que comovidos, sorriam e choravam diante da mulher.

       Triste? Não sei, só sei que fui ver o terreno onde era a casa dela, e tinha algo a mais, o entre linhas, entre textos falados e escritos. Tinha algo errado ali, tinha e tem algo a mais, sempre tem algo ou alguém nas entrelinhas. Fui buscar, fui procurar.

       Parti para a lateralidade, comecei no óbvio, no café colonial perto de casa, onde as fofocas rolam soltas, onde a Gioconda faz suas compras do dia a dia. Onde a dona, vamos chamá-la de Maria, simples assim, ela sabe de todos os babados, do que rola na cidade. E não foi difícil arrancar preciosas informações da mulher de ascendência portuguesa, bastou perguntar se era verdade que ela ainda tinha seu uniforme do movimento integralista bem guardado e bem passado.

        E era verdade, com brilho nos olhos ela me falou com muito orgulho que conheceu o Plínio Salgado em sua breve e tumultuada passagem pela região e a confraternização entre nazistas e integralistas no hotel Muller. Estavam festejando a partida do então filho do Herr Muller para front de guerra, o jovem promissor aviador Carl Muller, vamos chamá-lo assim. O jovem com a patente de tenente aviador da Luftwaffe fora convocado para lutar nos céus europeus, para defender a grande pátria ariana.

        Mas o que tem a ver e haver esta digressão com a Gioconda? A nossa Gioconda que vivia tranquila na então pacata vila de pescadores! A inauguração, na verdade reforma do hall do hotel Muller, vamos chamá-lo assim. Vários quadros foram expostos ali, de vários artistas teutos-italos-latinos. Segundo a afável portuguesa de quatro costado, dona da casa colonial, ela me confidenciou entre pedaços de pedaços de bolos e xícaras de café, ou chávena de café como a dona da casa colonial gosta de falar.

        As Valquírias, tendo como modelo central, a nossa jovem Gioconda de longos cabelos alourados e de olhos azuis, ela foi contratada como modelo para os vários artistas para expressar a bela ideal do nazifascismo. E eu pedi provas, na verdade eu exigi provas e é claro e a dona Maria estalou os dedos e chamou um secretário, chamou com o olhar. Um jovem negro, de pela bem escura, a dona do café falou em francês com o seu funcionário, que desapareceu. Ele voltou com clipping bem robusto e ela mandou em francês que o submisso empregado abrisse e o arquivo mostrasse para mim.

       E lá estava ela em meios a ensaios, posando para artistas variados, em cenas de bastidores, tomando café com os pintores, músicos, escritores, atores, dramaturgos e fotógrafos, servindo-se de vinhos, champanhes, cafés, fumando charutos e cigarros. A dona Maria não deixou que eu tocasse no precioso arquivo. E arrebatou:  — Ora pois, é pouco miúda? Vá ao hotel, a exposição é permanente! E quem sabe podemos te convidar para o nosso evento anual. — Disse isso e lentamente levou a chávena de café até os lábios.

       Sai dali correndo, foi até o hotel, que não era muito longe dali, foi mesmo ver a exposição permanente As Valquírias. No pequeno e aconchegante hotel a beira mar, logo percebi que li todos os funcionários eram negros e negras. Vi também homossexuais também trabalhando no local. Quem me atendeu foi um solicito jovem teuto, um subgerente muito bem vestido, eu me apresentei como estudante do ensino fundamental que estava fazendo uma pesquisa escolar.

       O jovem falou em alemão para um funcionário com trajetos afeminado, ele me conduziu até uma parte do hall. E lá estava o envelhecido Carl Muller, com seu charuto entre a mão esquerda e um copo de uísque na outra, dando atenção a um pequeno grupo. Estavam falando em alemão, logo vi que eram jornalistas estrangeiros, falavam baixo e olhavam os retratos expostos. Eram várias versões da Gioconda, na verdade tinham um quadro que evocava uma heroína amazona, outra no meio da mata brasileira em meio a antas, capivaras e aves. Outras ela nórdica, eram quatro formando um círculo, uma enorme fotografia em preto e branco mostrando os seios com uma lira nas mãos. Outra em um coreto segurando uma corneta como se fosse um arauto anunciando a nova ordem. Bati umas boas fotografias de todas as obras, quando o dono do hotel me notou e sorriu, acenou com a cabeça. O jovem subgerente tocou no meu ombro e fez menção para que eu me retirasse. Perguntei se poderia olhar os arquivos do hotel, solicito o subagente me deu alguns livros. Dois de fotografias do hotel, um contando da construção do hotel, até a última grande reforma, outro das festas e eventos que ali ocorreram, outro de uma grande reportagem contando sobre o dia a dia do hotel, com depoimentos de funcionários, donos e frequentadores do hotel. E por último uma biografia romanceada dos donos do hotel.

        Todos com um enorme vazio, As valquírias, nada, coisa alguma. Agora caminhando para o fim. Estou olhando do alto do meu apartamento para o terreno vazio, com máquinas pesadas terraplanando o lugar a especulação imobiliária seja tragando o pesado em vista de lucros altos futuros. Lembrando de quando entreguei o meu trabalho na escola, a diretora chamou os meus pais para uma conversa franca. A Gioconda descansa em paz em um simples jazigo discreto no cemitério local.      

 

 Clarisse Cristal é poetisa e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.