MARGARETE: O FINAL!

Por Fabiane Braga Lima (Rio Claro, SP)

 

Ao acordar, de uma noite horrenda, me levantei da cama e fui tomar o meu habitual banho demorado, me vesti e tomei o meu café matinal, presa alguma. Criei coragem e fui ganhar as ruas e para a minha surpresa lá estava ele, Raul me esperava no portão, ele com um nervoso e belo sorriso amarelo na cara. Ele estava bem-vestido, para o lugar e o horário.

— Margarete, levá-la-ei para fazer compras! — Disse Raul invasivo.

E como ele ousa vir até minha casa. Pensei bem rápido, irei me fazer de vítima.

— Espera Raul...

— Quase não dormi de noite e como é terrível ter que pegar o metrô! — Disse Raul nervoso, me interrompendo, pois ele sabia que eu iria pegar o metrô. Coisa que Raul, só fazia na vida, quando ia para os grandes centros no estrangeiro.

— Querida iremos de limusine, entre! — Disse Raul ainda mais nervoso, agia como um adolescente apaixonado.

Eu nem tinha notado o veículo atrás de Raul, bom o plano parecia estar dando certo, ele parecia estar subitamente lúcido, ao me chamar de amor. Mas, ainda tinha que arrumar uma desculpa qualquer e pensar que não demoraria para dar fim em Jane e sua mamãe.

Raul, não sabia, mas eu jamais peguei o metrô na vida. E trabalhar? Uma mentira que elaborei. Coitadinho, assim, teria pena da sua Margarete.

— Entre Raul, quero que conheça o meu apartamento! — Disse eu sorrindo e cheia de malícia. Raul.

Subimos e passamos o dia juntos, pensei várias formas de me ligar ainda mais aquele homem. Ao final da tarde, mas uma vez, me senti enojada, ter que me relacionar com aquele homem. Segui em frente, pois tinha um intuito e tudo já estava milimetricamente planejado na minha mente.

Ficar com tudo que ele, Raul tinha, todo o dinheiro, propriedades e investimentos. Precisava pensar em algo, definitivamente, dar fim em Jane e Sula. Seria bem fácil!

Dias depois Raul apavorado mandou o chover me buscar, sem qualquer aviso prévio. O motorista de Raul, estava impassível, nada me disse! E como o caminho foi longo e delicioso, eu já imaginava Raul na frente da casa dele me esperando. E assim foi, lá estava ele, Raul desesperado me esperando, na frente da casa dele.

— Margarete, meu amor, Jane e Sula, sumiram! — Disse o despertado Raul. Ele olhou para os lados e me convidou com o olhar para entrar na casa e para a minha surpresa fomos ao escritório dele. Eu sabia que poucas pessoas tinham acesso ao local de Raul. Entramos no amplo e moderno escritório e Raul me convidou a sentar em um confortável sofá para recepção de escritório. Em uma olhada rápida reconheci o mobiliário, ali tinha a mão de Sula em cada item ali.

— Não é nada, devem estar se divertindo, mãe e filha! — Disse assim que ficamos sozinhos no local de trabalho de Raul.

— Estou com mau pressentimento! — Disse Raul desesperado.

Dessa vez você acertou meu querido, pensei olhando para Raul com os olhos rasos d’água!

— Raul, vou ficar aqui ao teu lado, se acalma, não aconteceu nada! — Falei para Raul pegando na mão dele e olhado bem profundo nos olhos de Raul.


Pós-escrito: nota da autora

Essa é uma história por mim inventada, na qual eu narro com todo o meu coração. Margarete, não era narcisista, mas sim uma psicopata. Psicopatas exibem comportamentos e reações prejudiciais uns com os outros. Não possuem empatia. Todos os psicopatas se tornaram assassinos em série? Leia sobre psicopatas. Quanto a Jane e sua ex-mulher, aconteceu o pior.

 

Fabiane Braga Lima, poetisa, contista e novelista em Rio Claro, São Paulo.

Contato: debragafabiane1@gmail.com

SOB A SOMBRA DA ÁRVORE YGGDRASIL

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

            Elias Grael de longe, vivia com a cabeça nas brancas nuvens, mas para um desavisado qualquer era assim que o comerciante vivia, nas brancas nuvens, alienado do que ocorria ao seu redor. A memória eidética, no entanto, do dono da barraca de cachorro quente, que ficava na praça na zona portuária, contava outra história. Mattos Gama, era um dos poucos que sabiam do dom inusitado do dono do pequeno comércio. O detetive Mattos Gama ia até a presença de Elias, por vários motivos. Motivos esses que, iam desde de fugir da cozinha sofisticada de Sófia, a amada esposa do policial civil, até colher nacos de informações que correm nos subterrâneos dos submundos, do crime organizado da cidade portuária. O outro motivo era o mutismo um sábio do senhor de idade avançada, que em poucas palavras, gestos ou olhares dizia muito e denotava uma vasta gama de conhecimentos, para um mero e simples vendeiro ambulante qualquer.

            — Elias, meu bom e velho amigo, quero saber quais são os segredos do teu molho à vinagrete! — Desse o detetive, que estava com as mãos em cima do frio balcão do trailer.

            — Não mesmo, não repasso o meu segredo, que recebi da minha falecida mãe, que recebeu da mãe dela. Também faço isto por causa da Sófia, meu bom e ainda jovem amigo, nem a conheço, mas sei da luta da mulher, para te prender pelo estômago, como toda boa esposa deve fazer e ela o faz! — Elias tinha passado o cachorro quente, para o freguês ocasional, Elias estava falante e com elevado bom humor naquela noite fria de outono.

            — Ainda fico abismado, com as tuas tiradas, amigo velho, como sabe que a minha Sófia cozinha bem? Anda me fazendo visitas, quando não estou em casa por acaso? — Fez troça o policial civil.

            Elias ficou um tempo parado e olhando para Mattos Gama, com profundidade, parecia que o estava medindo por inteiro e escolhendo as palavras certas, para responder a pergunta fatídica. Para Elias, aquele homem parado bem na sua frente, não era um mistério em si, mas o merceeiro se divertia com os joguinhos infantis que ele vivia fazendo.

            — Simples, meu bom amigo e bom freguês, a tua cintura não nega, cresce sem parar dia-a-dia! — Respondeu o merceeiro de ascendência hispânica. Elias às vezes dizia que as vezes quando perguntado de onde era ele respondia que as famílias maternas e paternas eram oriundas da lá grana espana de gente guapa que ia e vinha da velha Espanha para a América espanhola. E ele, Elias Gael ao contrário da família, se alojou na América portuguesa porque gostava de sofrer.

            — Tens coragem, meu amigo, pois se ela sabe que tu andas falando de mim assim vai me mandar te prender! E me mandar fazer academia depois, como não te quero ver preso e nem puxar ferros em um lugar cheio de gente suada, não vou fazer nem uma coisa nem outra. — Devolveu Mattos Gama.

            Ambos riram muito, como se fossem crianças travessas e chamaram a atenção dos transeuntes ocasionais, que passavam ao largo. Elias deu as costas para o policial civil, foi buscar azeite de oliva e colocou na fritadeira elétrica. O alarme interno, do a muito calejado policial civil disparou naquela hora.

            — Outro mistério Elias? Como tu bem sabes que tenente Bastos adora este prato! E ele raramente vem aqui! — Dize alarmado o policial civil.

            — Sei que é da tua profissão, mas tu faz perguntas demais, meu bom amigo policial. Eu senti de longe, o cheiro da colônia barata, que ele gosta de usar, é o mesmo que usam os brutamontes, quando não estão fardados, ficam mais humanos e é por isso vou fazer o que ele mais gosta de comer. — Falou o merceeiro enfático.

            — Como tu sabes que ele não está de serviço hoje? — Perguntou Mattos Gama.

            - Mais uma pergunta? Que coisa! Olha meu bom amigo detetive, às vezes se extrai confissões dos piores facínoras, fazendo simples colocações. Mas, é bom mesmo o amigo ir até a mesa de costume, pois o teu primo policial militar, não demora, vem vindo por aí, e deixa que eu o sirvo quando ele chegar daqui a pouco. — Respondeu Elias sem responder nada à moda de um político que se escada de perguntas óbvias.

            — Um dia desses vamos trocar um bom e longo papo, lá na minha delegacia, meu amigo merceeiro, um bom e longo papo amigável. — Falou Mattos Gama como quem fala com um marginal barato de cidade pequena.

            — Isto é uma ameaça? — Falou Elias de forma hirta.

            — Que nada! É um convite amigável para tomarmos juntos um bom café, não me arrisco a ficar sem as minhas fugas dos fogões sofisticados da minha amada esposa Sofia. Não vou nem pedir, pois creio que a minha lata super gelada de refrigerante de lima limão já deve estar na tua mão.

            Elias colocou de fato na bandeja de vime, a lata gelada de refrigerante de lima limão junto com um copo de uísque com duas pedras de gelo. O detetive pegou a pequena bandeja de vime e partiu para a cadeira não muito longe do pequeno trailer. Mattos Gama, calculou que teria poucos minutos sozinho, antes da chegada de Bastos, que morava em um apartamento funcional a poucos metros dali. O policial civil puxou da memória, de como a praça era antes do dia fatídico, da mais que estranhíssima morte do marginal do baixa escalão Otto Kürten Wagner Van Petter. E como tudo mudou, naquele lugar outrora sombrio e nada convidativo, agora irradiava luz e paz, a fauna e flora do submundo do crime que estavam em cada canto escuro do lugar e agora estavam bem longe daquele cenário.

            E as inocentes crianças, acompanhadas com seus jovens pais e avós, que brincavam alegremente no parquinho, vorazes morcegos, em sobrevoo, atrás de insetos nas copas das árvores deram lugar a noturnas aves mais amenas. E cães vadios, deram lugar a cães de raças e vira-latas bem cuidados, que guiavam jovens e idosos casais naquele começo de noite outonal. Casais de namorados caminhavam tranquilamente de mãos dadas, não muito longe de Mattos Gama. Mas um casal chamou a atenção do policial civil, por mais mente aberta que tivesse, achou aquilo inconcebível, àquela hora e naquele lugar, duas mulheres que se beijavam lascivamente. Uma era uma mulher indo para a meia idade, era loura, de cabelos curtos, estava vestida como uma professora universitária. O policial esticou os olhos e leu o nome Agnes tatuado no braço da jovem senhora. A outra era a antítese, no começo da vida adulta, usava roupas leves e coloridas, mantinha solto o cabelo longo e negros que brilhavam. De fato, não transpareciam amor ou mesmo paixão e sim o mais despudorado puro desejo. Mattos Gama também notou, que as pessoas em volta pareciam não se importar com a cena descabida, e mais que isso, pareciam ignorar a existência de ambas as mulheres.

            O policial civil voltou a si, para as coisas mais práticas e prementes, para o amigo e primo o policial militar Basto, que estava para chegar e provavelmente ia demorar um pouco mais, por causa da esposa Sumiko Yamaguchi. Ela como uma flor rara e delicada nascida no extremo oriente, que necessita de cuidados mais que especiais, para além das presas, das imperfeições e das improvisações de como as coisas são feitas no ocidente.

            Indo para além das coisas práticas, Mattos Gama, teve que buscar o elemento remissivo, para se localizar naquele momento. O policial civil, foi encontrar, nas lendas, no longínquo folclore escandinavo, na mitologia nórdica, no frio norte europeu. Na Bifrost, a ponte que estabelecia a ligação entre o domínio dos deuses, e o domínio dos mortais homens e das mulheres.  Entre os reinos de Asgard e Midgard, o reino da terra dos mortais, a ponte arco-íris e seu guardião era Heimdall. E naquele momento era o vendeiro Elias Grael, ele é o único elemento intacto e presente, um elemento de ligação entre o passado sombrio da praça e os dias amenos atuais. O dono do trailer era Heimdall, na alusão fantástica do policial civil, naquele exato momento, por mais estapafúrdia que fosse a ideia. As duas mulheres que se beijavam lascivamente, se comportavam como se vivessem em outra dimensão, muito distante, em tempo e também em espaço. As duas pareciam no imaginário de Mattos Gamas, que elas atravessaram a ponte arco-íris, a Bifrost, para somente afrontar e assombrá-lo então somente. Ele foi dar uma olhada, mais atenta nas duas mulheres, que o policial civil percebeu que as tuas tinham desaparecido por completo, como jamais tivessem existido.

           — Me atrasei muito Gilberto? — O enorme, policial militar, estava atrás de Mattos Gamas quando proferiu a pergunta. E se adiantou e se sentou diante do amigo.

           — Claro que não Jorge! Mas, imagino a tua preocupação, a delicada flor do extremo oriente deve te dado para tomar aqueles chás digestivos, pois ela sabe que tu vai comer porcarias na rua. Pelo que vejo a senhora Yamaguchi andou riscando os braços de novo! — Disse Mattos Gama.

            Os longos e musculosos braços de Jorge Bastos, eram todos fechados, com o Horimono, um estilo japonês de tatuagem. Mattos Gama notou, o inchaço no antebraço esquerdo do primo, era um dragão, que serpenteava o antebraço do policial militar, a biqueira de aço de Sumiko trabalhou ali delicadamente por umas duas horas ou mais, calculou Gilberto.

            — Se acomoda direito ai, homem de Deus! Ainda não sei, como tu se submete a essas torturas orientais dessa mulher, tu deve amar muita a senhora sua esposa. Olha que ela tem a metade de sua altura, esse vaso de porcelana japonesa! — Disse Mattos Gama e emendou — Ela te dobra direitinho!

              — Da minha mulher cuido eu parceiro! — Disse o policial militar que se recompôs na cadeira abruptamente e emendou — E eu nem sei, como tu sobrevive com a Sofia, naquele cemitério europeu pós-modernista sem graça. Chego a ter pesadelos horríveis, com a decoração à Bauhaus, correndo atrás de mim. Mas, chega mesmo de conversa fútil, sobre decoração e vamos em frente, temos assuntos mais graves, para resolver.

            — Concordo! Vamos ao que interessa! — Falou Mattos Gama.

            — Mas antes! — Jorge virou o dorso e levantou a mão direita, mas Elias já estava atrás dele. O merceeiro, estava com uma bandeja nas mãos, com o pedido que o policial militar iria fazer. Uma pequena tina oriental, com uma porção de batatas fritas, um copo médio de cristal, com refrigerante mate, com duas pedras de gelo e um segundo copo com uísque sem gelo.

            — Chegou o nosso Heimdall trazendo o hidromel! — Falou de forma solene Gilberto, o policial civil

            — Bruxo! Como tu sabia o que ia pedir? — Disse Jorge, o policial militar.

            — Simplesmente coma e beba e, acima de tudo, aproveite a viagem, pois a vida é curta e muito curta, alias. — Grael, tirou cada item da bandeja de forma solene e depois se retirou como se fosse um velho mordomo de uma enorme mansão do século Alex.

            — Parei, de tentar entender o Grael faz tempo, Jorge não fique olhando para o relógio, aqui ele não funciona, aliás nenhum funciona de fato aqui! — Falou Gilberto, o policial civil.

            — Então vamos logo começar, a pauta não era esta, mas vamos começar, ainda não compreendo o porquê aqui nada funcionar. Nada elétrico, mecânico ou eletrônico não funciona nesta praça dos infernos. — Disse Jorge o policial militar e olhou para cima, para a iluminação pública. — Somente estas lâmpadas e não vejo nenhum inseto em volta das lâmpadas.

            — O primeiro ponto nulo meu caro, o marco zero dizem! O obscuro Otto Kürten Wagner Van Petter foi a primeira vítima fatal destes pulsos magnéticos. — Gilberto levou a mão direita ao queixo barbudo, como um velho sábio que procurava o que dizer e então veio a resposta, em um instante. — Vamos sair daqui Jorge, vamos lá pra a minha casa! — Sugeriu Gilberto.

            — Mas tu, nunca faz reuniões de trabalho na tua casa! — Ponderou o Jorge.

            — Sofia não está em casa, saiu com as meninas, foram ver a minha estimada sogra que anda um pouco doente. Vou me juntar à elas amanhã ao cair da noite! — Disse Gilberto.

            — Aposto que tu vieste caminhando, da tua casa até aqui. Não responda, como também não posso perguntar como o táxi que vem chegando logo ali, um carro de aluguel veio nos servir sem que a gente a peça. O teu amigo Heimdall é mesmo o máximo, um dia descubro qual é a desse cara! — Disse Jorge o policial militar.

            — Chega destas inutilidades! Vamos embora o tempo urge! — Disse Gilberto.

            E foram até a trailer de Grael, pagar a conta de ambos, os policiais sacaram seus respectivos cartões de créditos, pagaram sem problemas, ambos não cansavam de estranhar como a única coisa que funcionava ali era o comércio de Grael. Depois foram até o táxi que estava estacionado a poucos metros da praça, esperando por eles. Gilberto Mattos Gama sentiu um alívio, ao evadir da praça e dos olhos famintos de Elias Grael. O policial civil tinha a estranha impressão que mil olhos funestos, o vigiavam quando estava na presença do velho merceeiro da praça. Não por menos, Jorge Bastos estava com o alarme ligado ao máximo quando saía ladeado do amigo de profissão e primo da praça. E ainda estava com muitas dúvidas, a respeito, do que realmente aconteceu e que ainda acontece com a praça e a ligação com o merceeiro ambulante. Outra coisa que o policial militar não entendia era as longas caminhadas do primo, sempre desarmado, um sentimento também tomava conta do policial militar, algumas das dúvidas iriam dissipar naquela mesma noite.

 

Fragmento do livro: Em dias de sol e calor, em noite de tempestades e frio.

 

DOS RIDÍCULOS DA VIDA: NOTA DO MEU PEQUENO LIVRO VERMELHO

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

            Dos muitos ridículos dos cotidianos diários, do dia-a-dia dos subsolos das máquinas públicas, geralmente são mais atrozes e muitos rasteiros. Onde chacoalhares de chaves ao ar não deveriam ser nada, não para mim pelo menos, mas tem o elemento remissivo aqui, para elucidar ao menos o quem vem pela frente:  ̶ Estas são as chaves da repartição pública! O senhor está me entendendo?  Estás chaves que são da repartição pública, o senhor me faça o favor de repassar para a outra agente, estas chaves que são da repartição pública. O senhor está me entendendo bem?  ̶  Monólogo monocórdio suprareal dito na alvorada de um novo dia, de forma teatral e pausadamente, proferido há época por uma jovem superiora hierárquica, uma habitante do nível superior, dito para a minha pessoa, eu um habitante mor dos subterrâneos do poder público local.   

         As chaves, chaves são chaves e servem para abrirem e fecharem coisas, portas em geral é claro. Contudo na máquina pública, chaves têm outros pesos, poder puro e simples. Por isto, vezes ou outras, são chacoalhadas no ar, por superiores hierárquicos para os habitantes dos subsolos das máquinas públicas. Aí, eu me recordo de um caso em específico, eu fui convocado, para ir ao último andar da repartição que estou ligado.

      E não é sempre que um membro menor, um elemento efetivo do aparato repressivo é convocado a ir até as densas alturas, da torre de marfim. Eu me lembro bem de eu de trajes civis, diante da lei, sentado diante do meu chefe de departamento, encarando o meu superior. Ele me passou uma tarefa bem simples, eu assumiria um novo posto de trabalho, uma unidade de saúde as beiras de ser inaugurada, localizada na periferia da cidade onde vivo, perto da minha casa.

        E como nada é simples, na dita máquina pública, onde reinam pequenos e pequenas personalidades ditatoriais, onde os poderes simbólicos, no caso aqui são as chaves, não mudam de mãos tão fáceis. Pelo menos as chaves em locais menores, não em pomposos palacetes e finas chapelarias da vida, as chaves representam poder e o passar das chaves remetem a troca de poder.

      Lembro-me de perguntar ao meu superior, um sargento reformado, das chaves, como eu poderia entrar na unidade de saúde sem elas, as chaves? Uma pergunta simples a bem da verdade, o meu superior liga para um dos andares abaixo, um habitante do andar de baixo avisou que não tinham as chaves. Eu insolente que era e ainda sou, ponderei que não assumiria o novo posto, sem elas, as chaves. O meu superior, ponderou que as chaves chegariam às minhas mãos quando assumisse o posto de trabalho. E ponderei de novo, que não assumiria o posto sem elas, as tilintantes chaves suspensas no ar.

            O que se seguiu foi uma saga pelos departamentos da máquina pública e suas linhas auxiliares. Foi o meu superior hierárquico que ligou para a da secretaria de obras, que repassou para um departamento, que solicitou agentes do aparelho supressor do Estado, esse encaminhou o meu superior para um outro departamento de assuntos aleatórios. Esse disse que não tinha as chaves, e repassou a ligação para a secretária de saúde, que repassou para outro departamento de assuntos aleatórios da secretária de saúde. O departamento de assuntos aleatórios da secretária de saúde, disse que não tinha as chaves e repassou para a empresa que estava tocando a obra. O meu superior ligou para a empresa que alguém disse que não tinha as chaves e passou o telefone do mestre de obras que tinha as chaves. O meu superior ligou para o mestre de obras, que disse que não tinha as chaves, esse repassou um número de telefone da empresa terceirizada, que fazia a segurança da unidade de saúde. O meu superior ligou para a empresa de segurança, ele foi informado que quem tinha as chaves era a secretária de obras da cidade. Fechando assim o ciclo das chaves.

        As chaves, que tilintavam em mãos aleatórias, que teimam em não sair de mãos aleatórias, não sem muitos custos, não sem muitas lutas. Sai da sala do meu superior hierárquico, sem as chaves, do meu novo posto de trabalho, sai das densas alturas, com a imagem do meu superior hierárquico vencido por elas, as chaves.

 

Fragmento do livro: Em dias de sol e calor, em noite de tempestades e frio. 

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br

 

REMINISCÊNCIAS DE UM PASSADO QUE NÃO PASSOU

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)        

 

Fui encontrar Adérito Muteia, um ícone cult da literatura subterrânea da atualidade, no deck do Café Ivory Tower, em meio de flores negras e as flores vagas, tendo o mar como testemunha. ‘’Nada é de verdade e vivemos em um mundo de mentiras e de doces ilusões, minha querida Clarisse Cristal! ’’ — Confidenciou-me o grande escritor, poeta, ensaísta, crítico de arte e professor africano de literatura moderna e pós-moderna.

            Sim, subterrâneo e com o direto as todas as negras linhas em imaculadas páginas em branco, deste mundo e de outros mundos também. Pois o artista neo-simbolista e neossurrealista luso-africano se escondeu, até a pouco tempo, se resguardava entre vários pseudônimos e heterônimos.

            A obra do pensador Adérito Muteia está distribuída em textos disseminados em várias revistas de pequenas tiragens, jornais obscuros, em livros de tiragens limitadas, livros digitais, textos espraiados em redes sociais digitais e opúsculos. Perguntei sobre o seu obscuro e nevoento passado de luta armada na velha África e no norte da Europa, o professor luso-africano foi enfático: — Fui abduzido das salas de aula que tanto amava e ainda amo, de forma virulenta, fui convocado para luta armada, pela libertação do meu país natal, países irmãos africanos e no norte do continente europeu. Eram tempos da guerra fria, do dito mundo bipolar, do equilíbrio do terror. São coisas do passado, não muito distante, minha querida Clarisse Cristal, de um mundo que já não existe mais e que a tua geração não pode compreender em absoluto! — Desconversou o professor luso-africano, não querendo aprofundar-se em demasiado em fundas vermelhidões de velhas chagas, ainda abertas, que ainda escorrem em rios, de um passado que na verdade não passou. Sobre as suas aventuras e desventuras de guerrilheiro comunista no velho mundo, deixaram profundas marcas na literatura de Muteia.

            Prossigo a entrevista e perguntou sobre a profissão de escritor independente, nos dias de hoje, de escrita cibernética, instantânea e rasa, na era da imagem e da sociedade dos mega espetáculos e a resposta foi enfática: — Escrever é transcender para além das infinitudes, é fugir das obviedades da vida cotidiana! E não conhecer limites algum! — E para definir o que é o mundo em que vivemos hoje o literato assim definiu: — O que é realidade? No mundo de hoje, a realidade é o que a gente quer que ela seja por fim! — E mostrando toda a sua perspicácia e tempo exato, em que as coisas ocorrem, ao antecipar uma pergunta subsequente que estava na ponta da minha língua: — E antecipando a tua inevitável pergunta, respondendo que eu navego, ou melhor flano livremente, entre aos movimentos estéticos simbolista e surrealista. Trafego livremente por estas tendências estéticas, mesmo que esteja fora de moda falar em movimentos estéticos e literários nos dias atuais. E vós digo que para os padrões de hoje, estás duas tendências literárias e estéticas que mais podem representar o que costumeiramente se chama pós-modernidade! E te digo do alto da minha frágil mente difusa, que estes dois movimentos estéticos, um pré-modernista e outro modernista, são as linhas mestres estéticas, que melhor definem o pós-modernismo caótico contemporâneo em que vivemos hoje, o dito mundo liquefeito, como nominou um filósofo do leste europeu!                      

            O catedrático prosseguiu a conferência, me dizendo que no passado, não muito distante da humanidade, a arte escrita, em específico, era produzida no bico da pena, tinta, mata-borrão, papel e iluminada por luzes de velas e lampiões, produzida por poucos e consumida por poucos. E tudo mudou, avançou com o processo da mecanografia, da cultura de massa. Então livros, jornais e revista passam a ser produzidos em larga escala e para uma população cada vez mais maior e urbanizada e o letramento se expandiu a índices nunca visto pela humanidade: — Escritores, e artistas em geral, deixaram o mundo seguro da proteção de poderosos potentados, de reis e rainhas, da elite monárquica e de ricos mecenas. Escritores, e artistas em geral, passaram a servirem e serem sustentados por um público leitor/consumidor de artes, da então nascente cultura de consumo em massa. Isso tudo predominantemente no dito ocidente judaico/cristão e greco/romano no novo e velho mundo. — E em uma divagação sobre passado, presente e futuro, Muteia evoca a Akademos. A academia fundada por Platão, que foi construída nos jardins consagrados em homenagem ao herói ateniense Academus, um dos heróis troianos, da mais que famosa Guerra de Troia (século XII a.C.), que originou o nome Academia.

            Nas palavras de Muteia: — Se no passado mais distante os pensamentos, as dúvidas e as divagações mais profundas eram restritos para poucos, na academia e lugares de meditação. Os atuais avanços tecnológicos, vulgarizaram demais o saber, a tal ponto que promoveu os tolos, os imbecis e os rasos de pensamentos em sábios e catedráticos, que no passado somente falavam para uma diminuta população também de tolos, imbecis e rasos. Mesmo que se de um lado o conhecimento esteja democratizado, pelo menos um pouco mais, há hoje uma enorme biblioteca pública digital e acessível a um crescente público, porém há uma enormecidade de pessoas produzindo muitas inutilidades, promovendo massacres teóricos e banalizando questões seriíssimas.

            Para finalizar esta primeira parte da longa entrevista, com o emérito professor luso-africano Adérito Muteia. E com a promessa, de irmos até o cerne da produção literária do proeminente professor e pôr fim ao semianonimato do literato luso-africano. Ficam muitas perguntas e poucas respostas no ar para serem desenhadas por Adérito Muteia e captadas em um gravador digital e trespassada para o subconsciente e inconsciente meu para depois ganharem vida própria nas páginas da revista da Astro-domo.

 

Fragmento do livro: Em dias de sol e calor, em noite de tempestades e frio

 


 

OPINIÃO: NÃO EXISTE MAIS LUGAR SEGURO

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

Até que ponto podemos dizer que uma pessoa jovem é vítima da sociedade? Um adolescente entra com uma faca na escola em que estuda e comete crime. A justificativa do adolescente é o bullying. Algo recorrente nas escolas? Sim. O que não justifica o seu ato criminoso.

A verdade deve ser dita, ações violentas fazem parte da personalidade de algumas pessoas. Essa personalidade criminosa às vezes é perceptível através de pequenos detalhes que muitas vezes surgem já na infância. Claro que algumas vezes isso é imperceptível, por isso que os pais devem estar atentos a tudo que seus filhos fazem.

Essa ideia de "lar seguro" é uma falsa realidade sobre a vida. Não estamos seguros em lugar algum. Não pense você que crianças e adolescentes diante de uma tela de celular ou computador estão seguros, pelo simples fato de estarem dentro de suas casas. A violência também é de fora pra dentro, a criminalidade está na Internet. Não adianta você que é pai ou mãe pôr toda criação de seus filhos nas mãos de escolas e aparelhos eletrônicos. Ou você mesmo põe limites ou a vida fará isso e talvez dê forma cruel.

Outro ponto que se deve salientar é o seguinte: - Como um jovem entra dentro de uma escola armado com uma faca? Lembro do meu tempo escolar, era completamente diferente. No colégio não se entrava sem a carteira de estudante e muito menos no horário fora do seu turno escolar. Tinha um guarda na portaria com a lista de todos os alunos, quem chegasse atrasado só podia entrar com a permissão da diretora e ainda tinha o sistema de alarmes e câmeras. Hoje não é mais assim, as escolas perderam o controle sobre seus alunos. Infelizmente ir para escola também tem seus riscos.

 

Clarisse da Costa é poetisa, contista, cronista e designer gráfico em Biguaçu, Santa Catarina.

Contato: clarissedacosta81@gmail.com

 

DOS RIDÍCULOS DA VIDA

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

           Instado, por uma amiga poetisa a falar da minha hora mais negra, do meu decorrer, do meu mergulho no negro abismo. Porque ela quis saber disso eu não sei dizer. Eu disse, que eu era o membro efetivo do aparato de repressivo do estado, eu tinha e tenho muito o que contar. Nestes e nesses anos todos, vivendo uniformizado, estacionado nas portas dos vários aparatos estatais, eu tenho um momento exato, congelado na minha débil mente.

         Eu o paramilitar, eu o marxista materialista gramsciano, eu o poeta, contista e novelista, que flano entre o neossurrealismo e o neossimbolismo. Eu com livros lançados, com textos publicados em veículos de comunicação e eu quase publicitário. Eu amargava o meu exílio, imposto pela luta de classes, em um lugar ermo, sem vizinhança, em uma repartição pública colegiada. Eu na minha hora mais negra, com vários problemas pessoais e familiares, o eu devidamente uniformizado. O eu pleno nas minhas convicções, ao estilo de um militante comunista leninista legítimo e convicto aparelhava um computador na recepção da repartição pública, logo pela manhã de outono feliz. Eu estava compondo o meu livro de versos: Poesia na árvore, e lá estava ela, na minha frente, a jovem e bela funcionária pública recém-empossada. Ela tinha acabado de terminar o plantão noturno, embora não tivesse aparência soturna, de quem passou a noite acordada, ela se aproximou da minha pessoa decrépita. Eu com as minhas negras mãos, postadas no teclado, de um ultrapassado microcomputador, a dita cuja ergueu e chacoalhou, plena de si um molho de chaves, e repito aqui textualmente o que ela disse:  ̶  Estás são as chaves da repartição pública! O senhor está me entendendo?  ̶  E chacoalhou as chaves na minha cara novamente, e só pude dizer que sim, pois estava atônito com o tom pueril da voz dela. E ela continuou dizendo, como quem fala com uma criança pequena ou ser adulto com poucas compreensões da realidade:  ̶  Estás chaves que são da repartição pública, o senhor me faça o favor de repassar para a outra agente, estas chaves que são da repartição pública. O senhor está me entendendo bem?  ̶ Eu disse que sim, pois a dita cuja era minha superiora hierárquica, e peguei o molho de chaves, como se eu fosse tragado para dentro de um sonho kafkiano.

            Vi a minha colega de repartição pública, a minha superiora hierárquica, trespassar as portas dos fundos da repartição pública, a vi ser tragada pela luz do dia. E hoje, não sei quais os motivos, de ser tratado como uma criança pequena, ou um adulto débil, por alguém, que tem, quase a metade da minha idade.

       E de volta ao início deste texto, no suprassumo do elemento remissivo, eu e a minha amiga poetisa, que estávamos no nosso Páramo, mais que tranquilo, depois que eu relatar esta opereta bufa e sem graça. Então Clarisse Cristal me alertou para o poema A arte de perder da poetisa Elizabeth Bishop, a poetisa favorita dela, aliás. Mas não, eu não tinha perdido as chaves de mamãe e nem perdido casas e continentes 

       Mas voltando para a minha hora negra, o meu mergulho abissal no álgido abismo, que ainda não passou a bem da verdade, pois só vi as luzes de dias felizes, somente em pequenos lampejos. Pergunto-me por onde e aonde anda a minha ex-colega de trabalho? A minha superiora hierárquica, será que ela pensa ainda que eu não sei o que é uma chave?

 

Fragmento do livro: Em dias de sol e calor, em noite de tempestades e frio, de Samuel Costa, contista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

 

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br

 

JULIETA, NARCISISTA?

Por Fabiane Braga Lima (Rio Claro, SP)

 

Resolvemos fazer uma festa de última hora, pois Jane se encontrava desmaiada, no chão, há horas. Festas com os amigos mais próximos somente. Na piscina, havia umas dez pessoas bêbadas comemorando o aniversário de Jane, que ainda se encontrava desmaiada no chão. Resolvi ir embora, o clima estava ficando pesado demais. Foi quando apareceu Raul, o pai de Jane, seu semblante estava literalmente abatido. Afoito ao ver Jane no chão, pegou a filha, levou-a para o quarto. Ao descer as escadas Raul estava zangado.

— Vândalos, era para comemorar o aniversário de Jane. — Gritou Raul, 

 Todos fingiram não o ouvir.

— Que absurdo! — Esbravejou Raul o dono da casa.O meu nome é Julieta, sou amiga íntima de Jane há anos, sabe que estava enjoada de tudo aquilo. Jane, ingênua, queria ser a garota mais popular do pedaço. Como era tola, a minha amiga e como todos se aproveitavam dela. Embriagavam-na, e sei lá mais o que, arrastava a minha amiga para festas alucinadas. Naquele exato momento, Raul estava intacto, sem saber o que fazer. Um homem divorciado, não havia ninguém para lhe aconselhar.

Subi as escadas, fui até o quarto da minha amiga, a vi deitada na cama, fui até ela em desespero e tentei acordar Jane, que ainda estava desmaiada. Por fim ela acordou, estava pálida e ainda embriagada. Raul apareceu na porta, estava nervoso, adentrou no quarto e me abraçou e me agradeceu. Fiquei arrepiada e excitada. Que homem meu Deus, ele com os seus cinquenta anos de idade, não muito mais velho que o meu pai. Senti-me tola, em pensar que um homem como ele, iria querer alguma coisa comigo, foi apenas um abraço.  E que abraço! O nosso desenlace foi abrupto e difícil para mim.

— Até mais Raul, logo Jane ficará bem! — Disse para o pai da minha amiga.

— Obrigada, Julieta, volte quando quiser! — Falou Raul com rouquidão na voz. 

Desci as escadas e nem me importei com os poucos seres humanos que ainda estavam na casa.

Bom! E tenho que arrumar, uma desculpa qualquer para voltar. Preciso vê-la novamente, quem sabe, eu possa dar alguns bons conselhos amigáveis, para aquela família.

Uns dias depois fui até a casa da Jane, apertei a campainha, uma mulher me atendeu. Logo chegou Raul!

— Julieta, está bela mulher, é a mãe de Jane! — Falou Raul com terno carinho.

— Prazer, sou amiga de sua filha! — Falei enciumada e irada, eu precisava tirar aquela infeliz do meu caminho, logo pensei, pois eu desejava Raul, eu o queria, como meu homem.

Lembrei-me então que, Jane tomava soníferos, então, pensei em algo. Oferecer uma taça champanhe, para a ex-mulher de Raul, com algumas gotas de sonífero. Depois é esperar que a jovem senhora, dormir como um anjo. Enquanto, eu e Raul, ficaríamos a sós.


 Fabiane Braga Lima, poetisa, contista e novelista em Rio Claro, São Paulo.

Contato: debragafabiane1@gmail.com