CARTA DE REPÚDIO À VIOLÊNCIA CONTRA GENIVALDO

 Por Cedric de Oliveira Felipe (Jacareí, SP)

Matar um homem negro inocente é lamentável! Usando de força desproporcional os policiais da Polícia Rodoviária Federal, PRF, que o trancaram dentro de um camburão de uma viatura e jogaram gás lacrimogêneo e spray de pimenta. Os agentes da força de segurança mantendo a porta da viatura fechada, impedindo com que ele, a vítima, saísse, vindo ele mais tarde a óbito por asfixia.

Então fica a pergunta: Até quando o povo pobre e negro será agredido gratuitamente? Até quando aceitaremos calados a discriminação? Até seremos mortos e ainda ouviremos de um grupo de pessoas que a vítima era um marginal?

O que será que passou na cabeça desses policiais rodoviários ao ponto de matarem de forma violenta e desumana um homem honesto? Genivaldo era um trabalhador muito querido, por todos na cidade de Umbaúba no interior de Sergipe, região que vive da agropecuária, que movimenta a economia da cidade.

Genivaldo tinha problemas mentais e se valia de medicamentos psiquiátricos para o tratamento que estava fazendo administrado pelo médico psiquiátrico. Enfim, o que aconteceu é que Genivaldo pegou a motocicleta emprestada de sua irmã para levar uma compra que ele tinha efetuado. No trajeto ao seu destino ele é abordado por não estar de capacete, e de maneira violenta como bem sabemos os policiais federais rodoviários o agrediram, o algemaram e já o imobilizaram. Depois o jogaram dentro de uma viatura onde ele ficou preso e na sequência jogaram uma bomba de gás lacrimogêneo o impedindo de respirar devido a fumaça tóxica do gás. Lembrando a todos que o Presidente do Brasil em suas carreatas automobilísticas não usa capacete infringindo a lei, ou seja, as leis brasileiras não servem para todos.

 

Cedric de Oliveira Felipe é produtor cultural em Jacareí, São Paulo

Whatsapp (012) 92000-3186

 


OPERA MUNDI (DE TUDO QUE TE É AVARO)

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

''Dê-me tua mão, diz que tem saudade…

Esqueça nosso árduo passado, vaidade

Meu corpo febril, aqueça, junto ao teu

Sem receio, diz que me deseja, sempre.''

Fabiane Braga Lima 

 

            Lenny passa em revista seus equipamentos de trabalho disposto na pequena bancada de trabalho! Dispostas, de forma aleatória, as sofisticadas e importadas máquinas fotográficas, os últimos modelos lançados no mercado mundial, passando por ultrapassadas máquinas analógicas, indo parar em caros celulares e tablets. Mas tem a voz, a orientação do pai: — Filmes, tudo analógicos, nada destas bobagens eletrônicas atuais!

            — Madalena! Traga o seu kit! E a tua mochila! — A dona da casa ainda estava olhando profundamente para o que me melhor tem a disposição. Evitou olhar para a assistente de produção como quem admite uma derrota.

            — Madame? — Atônita a assistente olha para o chão sem saber o que fazer ou dizer.

            — A tua câmera bag infeliz, aquela que te dei de presente não sei quando! — Lenny se vira e joga a chave do carro para a assistente. — Deixa a tua motoneta aqui e vá pegar tudo o que tens em casa, os tripes não precisa vou usar os meus. Vai mulher!

          O grito bem alto, da dona da casa fez estremecer a pequena assistente de produção, que girou nos calcanhares e se dirigiu até a garagem.

            Lenny sabia que a assiste tem o que ela precisa naquela hora, a velha tecnologia mecânica, as velhas polaroides, Rolleiflex de uma série de câmeras analógicas difíceis de encontrar no mercado. Colecionadora da velha tecnologia, Madalena é a cara da corrente foto-arte, ela é ligada umbilicalmente de corpo e alma ao movimento do romantismo.

          A jovem sonhadora Madalena, não se encaixa mesmo na atual avalanche tecnológica digital. Lenny sabe do amor platônico da assistente por ela, muitas das vezes Lenny pensou em levar a assistente para a cama de fato. Mas Lenny não mistura trabalho com vida pessoal, em definitivos as aventuras de Lenny eram fora de casa e fora da vida profissional.

            Lenny olha para o relógio na parede, não demoraria muito para as duas modelos chegarem e fotógrafa vai vestíbulo, vai até as araras separar os figurinos que pretendia usar. A fotógrafa pensa na mãe se um dia visse a filha adorada trabalhando de camareira, a requintada senhora desmaiaria, Lenny sorri para si mesmo, pois nunca esteve tão feliz e realizada. Ela não se sentiu assim nem mesmo quando chutou o ex-namorado, um jornalista bonachão, alto e gordo, um verdadeiro imbecil, um típico membro da classe média interiorano praiana.

            A fotógrafa pensa em ligar para a assistente, para apressá-la, mas prefere ir até a varanda e acender um cigarro, os cigarros mentolados de Madalena que a cedo ela pegou da balsa da assistente. Lenny não se reconhecia, sempre fora livre é verdade, mas um alguém que sussurra ditames ao seu ouvido, um som quase inaudível. Ela sabia que não é um sentimento de não pertencimento é outra coisa, algo bem mais profundo. E de repente vem uma lembrança da infância, não muito distante, uma lembrança adormecida que ressuscitou com a visita inesperada que o senhor Otto Blumenthau. Estavam de férias no litoral, a família toda, estavam na orla da praia, que tinha sofrido um engordamento recentemente, no rádio local tinha um locutor histérico que discursava com o engordamento das areias da praia.

             O pai de Lenny estava sentado em uma cadeira alugada para turistas, ele estava com o rádio no colo. O velho Otto Blumenthau estava lendo um jornal de circulação nacional e o político tinha um charuto caribenho apagado na boca. No céu azul, as aves marinhas grasnavam no alto, a mãe de Lenny ao lado do pai, ambos bem-vestidos com suas roupas de veraneio, o casal abrigado por um guarda-sol. E os irmãos de Lenny? A fotógrafa não sabia onde estavam, só ouvia eles que gritavam um para o outro: — A bola! A bola chuta a bola! — Os dois riram alto. Também tinha o vento ameno, o barulho do vento e as ondas que quebravam na orla da praia.

            E tinha o abismo gelado, ela caminhou até a beira do abismo álgido, Lenny saiu de perto dos pais e caminhou e caminhou, e veio os gritos da mãe e Lenny voltou os olhos para trás. O pai baixou o jornal, ele estava com o charuto aceso na boca naquela hora e olhou e ergueu o jornal de volta na altura dos olhos. E mãe de Lenny correu até ela e abraçou, a ergueu do chão e voltaram para o estavam instalados. A mãe de Lenny estava chorando, parou para gritar com a babá e para os seguranças. Depois se voltou para o marido

           — Vamos embora Otto, chega Otto, vamos voltar pra casa!!! — Os gritos histéricos da esposa do político chamaram a atenção de todos e todas.

           — Cala boca mulher é só um Sphyrna, e ainda é só um filhote!

           — Um o que?

            — Um pequeno tubarão-martelo, um filhote ainda! Eu já vi maiores e mais vorazes lá no congresso! — O pai falou com o charuto na boca enquanto a mulher chorava com a pequena Lenny nos braços. A babá sorria, os seguranças sorriam e o chefe de gabinete de Otto sorriu seco!

              De volta ao tempo presente a fotógrafa, tem a fotografia do tal tubarão-martelo em toda a parte. A lembrança do pai dando a máquina fotográfica descartável que o pai de Lenny tinha comprado de um ambulante na calçada da praia. O pai somente deu a máquina fotográfica como quem dá brinquedo para uma criança. Otto simplesmente deu para a pequena Lenny, sem dizer nada, e lá foi a pequena Lenny tirar uma fotografia do sphyrna na beira mar. E foi assim que Lenny produziu a primeira fotografia, e foi assim que o pai de Lenny, mandou revelar a fotografia e orgulhoso mandou ampliar e emoldurar a fotografia da filha.

            O barulho da porta da garagem se abrindo trouxe Lenny para a realidade em que vivi. E a fotógrafa tragou a fumaça do cigarro e foi ver se Madalena cumpriu a tarefa que ela tinha dado ou escutaria uma avalanche de desculpas vagas e tolas.

 

Samuel da Costa é contador e funcionário público em Itajaí, Santa Catarina.

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br

              

IMPRESSÕES DO PARAÍSO (THE BLACK ALLEY BROOKLIN)

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

   

      O meu elemento remissivo, a minha imersão abissal, o meu voltar para minha infância, o eu ser menina travessa caminhando nas calçadas estreitas e ruas esburacadas. Passava sim, sem o meus progenitores, assim o saber é claro, era um atalho divertido e perigoso a bem da verdade. Entre uma ligeira fuga, quando a despeito de passar mais tempo, com os meus amigos e amigas da escola. Escapava da van escolar para acompanhar amiguinhos da escola até as suas casas, saímos em um pequeno bando, escapava dos olhos atentos do monitor. Desembarcava a poucos metros da minha casa, só para passar pelo beco da perdição. Ali poderia ver as criaturas nefastas, embriagadas, drogas, pervertidas e decadentes em plena luz do dia.

          Sim, era bem pequena e usava o atalho pelo temido beco, confesso que era apavorante ver aquelas pessoas falando sozinhas, com seus cachimbos e bebidas baratas em garrafas e plásticos. Claro que quando os meus pais sabiam da minha imprudência infantil explodiam, aí sobravam sermões nos meus pequenos ouvidos de criança travessa e telefonemas nervosos para a empresa que me pegava na escola particular muito cara.

           Depois da mudança de endereço acabou com a minha festa e hoje jovem mulher adulta penso onde anda o Gabriel meu amigo, o flanelinha que cuidava dos carros dos frequentadores dos prédios de atividades suspeitas do entorno do malfadado beco. Por onde anda a Judite, que fazia ponto ali bem perto e arrastava seus clientes para aventuras rápidas, nos prédios adjacentes ao beco. Por onde anda o Dagoberto o barbudo bêbedo local, que sempre me dava bom dia e perguntava o que eu fazia por ali, e claro me pedia uns trocados para um goles. Criatura efêmeras e marcantes da minha tenra meninice travessa.

            Confesso que não resisti, o eu desligada das minudências do mundo real e material, o eu cidadão das nuvens passei pelo meu recanto proíbo da minha infância e reencontrei o local modificado e sem graça. Revitalizado, com calçadas largas, capeamento nas ruas e modernos postes de iluminação. Os guardadores de carros deram lugar para estacionamentos pagos, com seus funcionários uniformizados. Os muros e fachadas dos prédios cheio de artes murais coloridas. A travessa com direito a uma cancela ao fim da fronteira, onde o submundo termina e o oceano Atlântico dá o ar da sua graça. Em suma, uma perfeita armadilha de turista à beira mar.    

 

Clarisse Cristal é poetisa e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.                                                       

 

             

 

 

 

 

 

 

 

 

O MEU LIVRE VOAR, SEM AMARRAS!

Por Fabiane Braga Lima (Rio Claro, SP)

 

Deve haver algum lugar, onde eu possa mostrar os meus ideais, pois se não houver eu me sinto uma ideia natimorta. Deve haver algum lugar, onde eu possa tirar esta maldita máscara, e mostrar minha verdadeira face, não sou a mesma pessoa de anos atrás.

Há mulheres amedrontadas com o mundo lá fora. Não, eu não tenho medo de perder os meus sentimentos bons, pois sou devota da vida! Nada melhor do que acordar e nos ver cercada daqueles que nos amam e que amamos, os nossos filhos, os nossos maridos, os nossos irmãos e irmãs, os nossos pais, enfim os nossos familiares queridos.

Eu tenho asas, e sei voar, eu sou uma poetisa, mas o perigo mora em volta. Não tenho a mesma liberdade de expor os meus desejos, as minhas insanidades, a minha audácia de mulher livre!

O mundo e o nosso país viraram um completo caos. Ser mulher não é fácil, nunca foi, somos sinônimo de eloquência, para mitos engravatados, como se não bastasse, somos assediadas e devemos resignar.

Eu jamais vou aceitar a derrota, lutarei até o fim, enfrentarei todos os perigos do meu tempo, pois nunca tive medo. Ouso ter a minha liberdade e expor as minhas ideias! Quanto maior for o nosso medo, menores serão as nossas expectativas, se perde os sonhos e a paz familiar!

Devemos seguir sem medo, sem amarras! Sego caminhando sendo insana, intensa e sem oscilar. Posso morrer, mas morro lutando pelos meus ideais, pois sou mãe e sou mulher. Estou viva e sou um grito...! Sou grito em meio ao caos.

 

Fabiane Braga Lima é poetisa e contista em Rio claro São Paulo

Contato: bragalimafabiane@gmail.com

 

CLARICE COM C (TEMPO E HUMANIDADE)

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

 

No filme a personagem diz que "tudo que você precisa é da humanidade". Mas como se a humanidade destrói a si mesmo? Eu acho que precisamos um pouco mais de fé e aprender a amar de verdade. Não vejo a humanidade salvando a si mesmo.

Clarice com C, como gostava de deixar bem claro, acreditava numa humanidade que buscava o caminho certo. A tal humanidade que Deus tanto falou nos seus ensinamentos. Mas nessa humanidade que ela via numa guerra diária, entre preconceitos, desigualdades, violências, uma guerra extrema, ela tinha pavor. Se perguntava como o mundo ia mudar se a humanidade era capaz de ficar perdendo tempo se destruindo.

Ela acordava diariamente sempre tomando o seu café e lendo trecho do seu livro favorito, "Jardins da Alma". Nas primeiras linhas do livro ela aprendeu que o tempo é determinado por nós. Você que está lendo isso deve estar se perguntando: - Mas como isso?

Segundo o livro O Sofrimento é a Casa de Todas as Dores, é o processo que nos coloca em aprendizado. Você aprende a lidar com cada dor. O choro, o que para alguns é sinal de fraqueza, o choro mostra a sensibilidade de uma pessoa. E junto ao sofrimento vem o tempo, o tempo de cada processo que o ser humano passa. Uma necessidade para a evolução humana, determinar o tempo, desacelerar as coisas...

Você determina o tempo da sua dor, das cicatrizes que se encontra na alma. Portanto, você determina o tempo que as coisas ruins ou boas vão durar na sua vida. Sempre ouvimos dizer que o tempo passa rápido, talvez essa seja a forma que muitos encontraram para ajudar outras pessoas a saírem do seu transe. Porque algumas pessoas vivem a vida estática entre o passado e o presente, perdendo o seu rumo.

 

Clarisse da Costa é cronista e poetisa em Biguaçu, Santa Catarina.

Contato: clarissedacosta81@gmail.com

ANA PAULA CAETANO

 Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

       

Estava ela pensando na figura da mulher vestida toda de branco e seu olhar sem vida, que complacentemente chamava as pacientes para o que parecia ser mais uma consulta, a voz da atendente era de um tom monocórdio e quase sem vida. Como se fosse um ato mecânico, que se repetia dia após dia.

Ela também pensava no que deixara para trás, quando passou pela porta envidraçada. Aquele local que parecia ser uma clínica hospitalar, mas na verdade o lugar cheirava a morte, pairava no ar o olor putrefato de cadáveres.

 Pensara na decisão repentina que ela tomou:

 — Por que não fiz o aborto, meu Deus?

Ana Paula Caetano pensava em tudo, na família, na vergonha e nos que os outros iriam falar e os dedos em riste. Ela pensou em todos e todas, menos no filho que teria para cuidar sozinha daqui alguns meses.  

 

Samuel da Costa é contador e funcionário público em Itajaí, Santa Catarina.

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br  

 

SUSPENSA NO AR POR ASAS FRACAS

  Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

Já pensei em demitir

O meu inepto terapeuta behaviorista

Contudo não posso

Não é meu, é de mamãe...

***

Entre tessituras

E notas remissivas

Vastos elementos de ligações

Em textos inodoros afins

Ao final do exaustivo dia, só penso

Em tirar o meu sutiã apertado

E me atirar na cama

***

Já pensei seriamente

Em de demitir

O terapeuta behaviorista

Da minha querida mamãe

Para resolver todos

Os meus comportamentos-problemas

Que surgem no cotidiano da minha vida

Mas por hora é mais prático

Levantar da cama

E ir até o roupeiro cor-de-vinho

E escolher com que roupas

E vou ao trabalho amanhã

Pela manhã bem cedo

***

Devo sim demitir terapeuta

De mamãe

Para ela deixar de ser

A mariposa fútil que realmente é

Eternamente suspensa

No ar por débeis asas fracas

Rodopiando confusa

Em torno de uma lâmpada de led.

 

 

Clarisse Cristal é poetisa e bibliotecária em Balneário Camboriú, SC.