COTIDIANO: NÃO HÁ AMOR AQUI

Por Fabiane Braga Lima (Rio Claro, SP)

      Um teclado voraz, uma boca faminta e tantas facilidades velozes para muitas pessoas, com tantas palavras fluidas falarem de amor, mas tão poucas destas palavras, sangram, poucas tem vísceras, poucas demonstram um sentir de verdade. Palavras imensas, porém nada intensas, meias palavras, dizendo meias verdades, expressando meios sentimentos vagos, sobre uma metade que busca satisfazer-se buscando outra metade.

Não há amor nisto, o amor está em quem é inteiro, de palavras inteiras, sentimentos inteiros a transbordar verdades inteiras, buscando outra pessoa também inteira. E esse outro inteiro, transborda um viver que se choca com as expectativas do nosso próprio ser inteiro. Um confronto de realidades diferentes, obstáculos que parecem intransponíveis que as duas verdades inteiras se completam e perpassam juntas pontes intransponíveis.

São muitas palavras de amor, enchendo os livros, as redes sociais, os ouvidos do mundo todo. Palavras dizendo meias palavras, palavras dizendo nadas, ocas rimas ecoando nos vazios no vácuo, palavras saídas de inflados egos querendo carícias e não dar amor.

Iludidos e iludidas por horóscopos poéticos de autoajuda barata que não sabem outra coisa, que não afagar egos inflados. Palavras fugazes, que falam de um amor perfeitinho, um amor mais que perfeito. Palavras nefastas, que não precisa lutar, que não precisa ceder, que não precisa se ajustar. São amores que querem moldar o outro, submeter, esculpir de acordo com um molde que afague seus próprios egos e preencham suas expectativas.

         São palavras fósseis e palavras fáceis e aos montes, mas quase nada de amores vívidos e vividos em suas plenitudes reais. São palavras de amores vãos, que quando se vão, logo são superados e substituídos, sem maiores perdas e danos, ou seja amores mentirosos e falsos, que nunca foram o que juravam com muitas palavras bonitas serem.

        Quase nada de palavras que falam como é difícil, o quanto se exige de si mesmo para manter um amor vivo, e quando não é possível isto, é este amor se vai, nada é superado com facilidade. Exige-se muito de si mesmo, para juntar se os muitos mil pedaços que sobraram, quando aos pedaços, se conclui que o amor é renúncias e não exigências. Que amor é liberdade e não posse, que amor é dar e não receber, que amor na plenitude, só o é, só o vive, quando o outro também é se amar, então há reciprocidades.

      Amor não é molhar os pés antes de entrar na água, depois ir entrando devagar, isto é medo. Amor é mergulhar com tudo de cabeça, porém de olhos abertos, para evitar chocar a cabeça em alguma pedra cada vez que chegar ao fundo,

       Amor é se sentir como criança, se entregar como um adolescente, e tratar as dificuldades, as responsabilidades, os obstáculos como adulto. Amor nunca foi a vida de um glorioso mar de rosas frescas e sim momentos em um glorioso mar de rosas. E durante uma vida inteira, que não será perfeita, que enfrentará dificuldades, dores, incompatibilidades, desajustes. E quem ama de verdade, vai ceder, vai se ajustar, vai lutar, pois os momentos de mar de rosas durante esse processo, valem a pena, não há perfeição.

      Quem não puder conviver com isto, não está pronto para o amor, muitos falam de amor, mas poucos se habilitam à dizer que o amor não tem nada de poético, muito menos de romântico, amor, é investir, lutar, insistir, ceder, ajustar, viver em plenitude Amor não é palavra, é atitudes. Nada do que dizem.

Texto de Fabiane Braga Lima, contista e cronista em Rio Claro, São Paulo.

Contato: bragalimafabiane@gmail.com

CRÔNICA CORAÇÃO BOBO

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

Duas histórias completamente diferentes,  mas ambas com um ponto em comum, o amor. Ele, um escritor promissor, tão jovem, nada parecido com o personagem Romeu  do famoso romance que conhecemos. Ela uma jovem atraente, porém nada romântica, seu nome é Julieta, mas o conceito de princesa não faz parte da sua personalidade. Aliás, nenhuma mulher precisa desse rótulo.

Ela na sua cama, acariciada por ele em pleno sono, o chama de Júlio, mas seu nome é Roberto. O que prova que os seus pensamentos estavam em outra pessoa. Ele por inteiro, ela pela metade.

O outro caso é um senhor extremamente romântico e completamente sozinho. Vive remoendo lembranças de um amor antigo, atropelado pela morte. Entretanto busca alguém para estar do seu lado, ao menos um pouco de carinho. Como podemos ver cada pessoa precisa uma da outra. O ser humano ainda não aprendeu a viver sozinho.

O senhorzinho se chama Lourenço, um nome um pouco incomum para quem nasceu no Brasil. Ele bebe uma taça de vinho, ouve discos antigos na sua vitrola e escreve versinhos como quem escreve para um grande amor.

O coração é mesmo bobo, sempre encontra motivos para amar.

Lourenço outro dia conheceu uma jovem mulher de cabelos curtos e muito sorridente. Esse seu jeito alegre tinha lhe chamado a atenção. Ela conversando com ele tomando uma dose de vinho num bar, disse para ele que o seu tempo passou. Ele a respondeu dizendo:

 - O coração não envelhece quando existe amor. Eu sou um jovem amante, a idade que eu tenho não me diz que o tempo passou e nem faz de mim um homem fraco.

 

Clarisse da Costa é cronista e poetisa em Biguaçu, Santa Catarina.

Contato: clarissedacosta81@gmail.com


CLARISSE CRISTAL EM DIAS DE SOL E CALOR

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

Fui eu que deixei...

A cinza das horas...

Levar o meu platônico amor!

Por ti.

Minha divina Luna!

            Alguma coisa eclodiu no âmago, mais que profundo, de Clarisse Cristal naquela hora extrema. A bibliotecária olhava nos olhos de Anna Victória, com voracidade extrema, com uma profundidade abissal para a obtusa colega de trabalho, ela parada a poucos centímetros da bibliotecária. Foi como um turbilhão de sentimentos e sensações contraditórias, que em chamas, eclodiram no jovem corpo de mulher e também na mente da entediada Clarisse Cristal.         

        Os olhos azuis piscina, os longos cabelos trigal soltos, que caem até os ombros, emoldurava o rosto de porcelana, o batom vermelho cereja nos lábios carnudos, os pequenos brincos animal e azul turquesa, o pequeno, cintilante e delicado piercing, com a sua delicada joia cor-de-rosa encravada no nariz, pareciam fazer sentido, somente naquele momento, para desesperada Clarisse Cristal. Até mesmo a voz arrastada e enfadonha dela, transmutou-se, mais que de repente, em um bel canto da mais bela e mística Kianda.

            E em um ato desesperado, em um rompante a jovem bibliotecária Clarisse Cristal tomou Anna Victória pelos braços e lhe deu um beijo ardente na boca. A estupefata Anna Victória foi apanhada em meio a turbilhões de sentimentos contraditórios. Anna Victória pensou primeiro, nas duas câmeras postadas, nos cantos superiores da sala, que estavam retransmitindo em tempo real e gravando a cena toda em alta definição. E na possibilidade de alguém estar assistindo o que ocorria ali ou ver as imagens arquivadas no disco rígido e mais tarde, caírem na rede mundial de computadores, ou mesmo alguém aparecer a qualquer momento exato. E na possibilidade de o namorado ficar sabendo do ocorrido, de uma forma ou de outra. Nas famílias de ambas, que eram bem próximas, nos colegas de trabalho e por fim na outra que a beijava com tanto ardor e a tomava pelos braços de forma vulcânica. Logo ela, que Anna Victória pensava conhecer tão bem.

           E por fim nela mesma e na própria sexualidade, pois ela, Anna Victória, que retribuía faminta não somente o beijo lascivo, mas também os toques da outra.

Texto de Samuel da Costa, contista e novelista em Itajaí, Santa Catarina. 

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br

AVES PALAVRAS

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

Para a poetisa Fabiane Braga Lima

Das tuas verves emplumadas

Que cultivastes

Com extremos afincos 

Nas cósmicas vastidões astrais 

Do teu supra-real vergel encantado

Estão sempre suspensas no ar

***

Negras Aves Palavras

Cristalinas e Sintécticas

Álgidas Palavras Emplumadas

Instáveis e Velozes

Perdidas e Voláteis

Vorazes e Sequazes

***

Ebúrneas alviarianas

 Hialinas aves palavras

Condoerias que flanam velozes 

Tristonhas e zombeteiras

Eviternas e Fugazes.

 Sampleadas e sufocadas

Lânguidas palavras flanando

Perdidamente nos teus estribilhos


Clarisse Cristal é poetisa e contista em Balneário Camboriú, Santa Catarina.

ASSIMETRIAS DESCONFORMES

 Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

Para a poetisa Fabiane Braga Lima

 

‘’Mas, quem são as outras pessoas afinal de contas?

Nada! São simplesmente nada mais para o além

De nanopartículas etéreas, alheias a nós mesmos,

Gravitando cegamente e perdidamente,

 Nas nossas subsistências,

Pós-modernas, liquefeitas e vazias...’’

Adérito Muteia

 

Em desconformidades

Com o tempo presente

Componho os meus notívagos

E sonolentos textos pós-modernos

 Na enferrujada máquina de escrever

***

Em desalinho completo

Com o tempo em que vivo

Tenho o hábito de andar sozinha

Em florias violetas horas soturnas

***

Em desacordo absoluto

Com a pós-modernidade fluída

Peguei emprestada

A velha máquina de escrever

 De papai, sem ele o saber

E onde escrevo

 A minha imagética verve maldita 

*** 

Em desequilíbrio completo

Do meio social em que vivencio

Não vou mais fazer a Gestalt-terapia

Demiti o meu teuto analista

***

Em discordância de onde convivo

Vou percorrer a orla oceânica

Em plena luz do dia

Com a minhas vestes negras

Eu a naufragada monárquica

Desterrada que sou



Clarisse Cristal é poetisa e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.

 

 

EPÍLOGO III: NEVOENTAS LÁGRIMAS DE ÉBANO

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC) 

 

  Sentada em uma confortável e funcional cadeira de escritório, em seu ateliê, a escritora de Fabiana De Lima, despertou de forma abrupta. E o olor de um perfume almiscarado se misturava com um sabor ocre e viscoso na boca, também pairava no ar o cheiro de cobre, uísque barato e o eflúvio sutil de carne queimada. Cinzas de cigarro adormeceram em um cinzeiro ao lado da máquina de escrever.

Um zunido não saiu da cabeça da escritora sênior, ela olhou em volta e percebeu que adormeceu com as mãos no teclado da máquina de escrever. Ela organizou seus pensamentos, precisava colocar os pensamentos em ordem, levou a mão ao rosto, pois precisava ver que horas eram. Aí lembrou que o relógio digital não funcionava ali. E os estranhos sabores e as sensações simplesmente sumiram, desaparecendo por completo quando ela despertou do sono profundo. Fabiana lembrou de quem era e o que estava fazendo sozinha e trancada naquele lugar. Ela tinha que terminar o manuscrito, um livro e só faltava o último capítulo da obra, o derradeiro a bem da verdade.

A escritora de meia idade percebeu que não tinha papel a mão, ela se levantou da confortável cadeira de trabalho, as pernas doíam, latejavam e os olhos estavam embaçados. Ela desistiu de se erguer na primeira tentativa, conseguiu na segunda tentativa e por fim partiu na busca das resmas de papel. As resmas estavam a poucos metros em um armário atrás dela,  

 Ao caminhar em direção ao estoque e papel, no meio do caminho a escritora sentiu uma incontrolável vontade de fumar um cigarro e beber algo forte. Ela foi encontrar os cigarros aromáticos e importados do oriente no bolso do tailleur. A escritora parou de caminhar e tirou um cigarro da cigarreira, e um isqueiro do bolso, ela acendeu um cigarro, tragou e o gosto almiscarado entorpeceu a mente da escritora a sensação de prazer a fez relaxar. Para beber, a escritora pensou em ir à adega no porão, mas não, ela lembrou da garrafa de uísque, um presente de um crítico literário, a bebida cara vinha do frio norte da Europa. Curiosamente a garrafa estava guardada na prateleira onde estavam as resmas de papel. Fabiana com o cigarro na boca, ela pegou uma resma de papel e com uma mão e com outra pegou a garrafa de uísque.

Ela se virou com uma resma de papel e a garrafa de uísque na outra, com a firme ideia de até a escrivaninha. Com dificuldades, ela abriu a garrafa de uísque e se deu conta da falta de um copo no ateliê. A escritora não pensou duas vezes, cuspiu o cigarro no chão e ela ergueu a garrafa, tomou direto do gargalo da garrafa . Fabiana De Lima trôpega retomou a marcha, a passos lentos, ela estava entorpecida pelos vapores do cigarro aromático e pelo uísque, ela parou de novo e fui até a janela do escritório. Ela moveu a cortina da janela e percebeu que agoniza o arrebol. Era um esplêndido pôr do sol em seus esplendores e de repente uma ave negra grasnou ao longe.

Fabiana De Lima, a proeminente escritora sênior, refletiu nos abissais e tortuosos caminhos escuros que a levaram até ali. E se ela merecia ou não ver o vislumbre derradeiro, se o preço a ser pago era mesmo este. Não, ela não merecia ver o tal negro vislumbre astral, para se unir aos outros humanistas.  Mesmo que o mistério a ser desvendado valeria toda a dura caminhada.         

Fabiana pensou e pensou de novo no que seria uma saída honrosa. Ela teria que terminar o livro e a obra iria ser submetida ao conselho, para ser validado ou excluído. Ou mesmo o pior, ela seria classificada como obra menor esquecida em qualquer lugar. O caminho seria outro, afinal de contas Fabiana chegou à conclusão que a vida era dela, há ela pertence e a mais ninguém. E uma lágrima de ébano brotou nos olhos de Fabiana De Lima. Escorreu e caiu ao chão.

E ela sorriu e caminhou de volta à escrivaninha, sentou, postou a garrafa de uísque na escrivaninha. Ela pegou outro cigarro, acendeu e deu uma longa e prazerosa tragada, depois apagou no cinzeiro

E agora? Quem? Quem faria o serviço? Quem a libertaria de todas as atrozes dores e infindáveis dúvidas? Madalena seria o ideal! Aquele ser amorfo que se escondia em si, a fera enjaulada que se levantava no meio da noite para se libertar e se esconder na luz do dia claro.

Sim, era Madalena. E a escritora acoplou o papel hialino na máquina de escrever, o ranger do encontro do orgânico com o metal emocionou a escritora, ao ajustar o papel na máquina de escrever era o brado libertador de Fabiane De Lima.

Entre o som do martelar dos ágeis dedos da escritora, nas teclas da máquina de escrever, atrás dela a porta se abriu e a luz inundou a sala acabando com a semi escuridão. Na porta, apareceu uma imponente major, com seu uniforme impecável, cabelo negro preso e olhos negros rasgados e vazios, ela se aproximou até onde estava a escritora. Os sons, das solas dos pesados coturnos no chão de madeira, não tiraram a concentração de Fabiana. A major de baixa estatura, ficou parada atrás da escritora de meia idade, a major sacou do coldre uma Tokarev TT-30. A agente do serviço secreto de segurança, a militar de média patente do NKVD, apontou a arma e engatilhou e por fim disparou, o estampido ecoou e tomou conta do ambiente. O cheiro de carne queimada se misturou com o do cigarro oriental, que queimava no cinzeiro e a garrafa de uísque caiu e a bebida escorreu no chão. O uniforme impecável, ainda estava impecável quando ela deixou o escritório e o jovem corpo sem vida da escritora que jazia sentada diante da máquina de escrever. 

Sentada na cadeira, no ateliê de Fabiana De Lima, a escritora despertou de forma abrupta. E o olor de um perfume almiscarado se misturava com um sabor ocre na boca, também pairava no ar o cheiro de cobre e o eflúvio sutil de carne queimada.

***

Madalena Azumi abriu os seus olhos e sonâmbula demorou uma eternidade para perceber onde estava. No alto, um céu azul sem nuvens, grasnar de aves marinhas, uma brisa outonal e um forte cheiro de água salgada denunciavam que estava no mar, ou perto dele pelo menos. Ela notou a presença de homens e mulheres uniformizados e caças de combate estacionados ao lado dela. Eram evidências concretas que estava em um navio de guerra, um porta aviões.

Flashes contínuos de uma vida remota, chegavam rápido e sem aviso algum. Era ela em um quarto, em uma cama enorme, com lençóis brancos de linho. Ela completamente despida com uma bela mulher negra corpulenta, de longos cabelos lisos dourados, olhos pequenos e rasgados, voraz por sexo e prazer extremo. Depois ela se via criança vagando a esmo por um vilarejo pobre, em um país perdido em meia a montanhas. As pessoas do vilarejo apontavam para ela e furiosos praguejavam em uma estranha língua, que ela não compreendia. Um homem idoso vestido como um sacerdote a pegando pelos braços e a entregou para um outro homem uniformizado, um jovem militar. Madalena se viu em um prédio moderno, cheio de militares, homens e mulheres e pessoas sisudas vestidas de branco. Ela se viu em uma alojamento com várias crianças de várias etnias, eram crianças assustadas e chorosas. Uma senhora idosa vestida de branco, bateu com força na face de uma criança negra. A mulher gritava alto, em um idioma, que Madalena não compreendia. Havia um pátio muito grande, ela estava perfilada com outras crianças mais velhas. E uma música tocou alto, era um hino marcial, um avião deu um voo rasante, um estrondo alto explodiu na mente de Madalena.

Agora de olhos bem abertos, Madalena estava de pé na frente de duas colunas de militares, estavam postados em posição de sentido. Madalena reconheceu os homens e mulheres de várias nacionalidades, eram oficiais de médias patentes. Madalena reconheceu todas e todos, ela sabia os nomes e as origens de cada um deles.

Madalena olhou os oficiais de comando, eram comandantes de campos, que estavam sentados por detrás de uma mesa. Madalena os reconheceu, um era o tenente-general Aristo de Sousa da Maia com seu uniforme angolano, o outro era o General de Divisão Adérito Muteia com seu uniforme de gala moçambicano, o major-general Aldo Maris com seu uniforme de gala russo e presidindo a mesa, estava o Contra-almirante Araquem Maximus com seu uniforme de gala russo.

Os militares de alta patente à mesa, estavam conversando muito baixo e animadamente. Madalena franziu seu rosto, para poder escutar o que eles conversavam de forma tão amigável. Mas só fragmentos chegaram até ela, as nomes Yara e Marcus Wolf e as palavras, total triunfo e células dizimadas chegam na mente de Madalena.

O contra-almirante se levantou e deu uma ordem unida em uma língua eslava, os ocupantes da mesa se levantaram e ficaram em posição de sentido, as duas filas de militares bateram os cascos. Madalena não soube o porquê, mas caminhou em meio as duas colunas, os militares desembainharam erguerem as suas espadas conforme ela passava em revista a tropa. Madalena Azumi se aproximou da mesa e o almirante caminhou até ela. O almirante falou alguma coisa que Madalena não entendeu, o almirante pregou uma medalha no peito de Madalena e deu um celo nos lábios de Madalena.

Ela olhou para a medalha e percebeu que trajava um uniforme militar com a patente de major.  A major chegou os olhos e quis voltar a viver em uma outra realidade, mas não poderia.  

Texto de Samuel da Costa, contista e novelista em Itajaí, Santa Catarina.  

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br 

 

 

NAS ENTRELINHAS DA HISTÓRIA: NEGROS E INDÍGENAS

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

África: Prosperidade e Riqueza

 

Vamos conhecer de uma visão diferente a real história dos povos negros e indígenas. Para começar vamos até a África, uma África que talvez você não conheça, próspera e rica.

Eu vou mostrar como os livros de histórias trazem a visão distorcida sobre a escravidão e sobre os negros africanos. A escravidão negra é apresentada como a ideia de que os africanos eram um povo pacífico, um pouco desenvolvido e nada contestador. Totalmente longe do real.

Como qualquer outro povo eles tinham uma cultura, uma organização política e econômica. Tudo isso bem próspero e desenvolvido, o que nunca foi enaltecido.

Antes da chegada dos europeus, na África, os africanos viviam uma vida diferente daquela que todos nós conhecemos. Viviam em tribos bem organizadas, sabiam ler e escrever. E muito antes de outros povos já praticavam o comércio a longas distâncias. O produto mais exportado entre tantos comercializados foi o ouro de Gana. Este comprado pelos egípcios antigos.

Neste período de prosperidade e riqueza vivia um Príncipe chamado Aluarki. Aluarki era filho do rei Jabu Anali. Dono do maior comércio na tribo de Yorubá. Lá como quase toda parte da África, o povo era monoteísta. Cultuavam um único Deus. Em Yorubá o Deus era Olorum. Ali o Príncipe vivia em fartura e diante de um povo que dominava bem o sistema matemático para contabilizar as suas mercadorias comercializadas.

Os africanos, nada do que sempre foi nos apresentados eram bons conhecedores das técnicas de fundição de ferro e além do mais tinham conhecimentos sobre astronomia. Não o bastante, seus conhecimentos como a literatura estendia-se à medicina natural, bem como às artes. Nas artes seus conhecimentos, melhor dizendo ‘’dons’’ eram na pintura, artesanato e música.

A arte africana, como toda arte negra, não só representa como retrata os usos e costumes das tribos africanas. Muitos objetos de arte são funcionais e expressam fecunda sensibilidade.

Tanto nas pinturas, como também nas esculturas, é forte a presença da figura humana. A figura humana na arte negra identifica a preocupação com valores étnicos, morais e religiosos.

E foi nas artes que Aluarki  conheceu Safira Naal. Uma jovem de sorriso largo e de família simples, que adorava cantar enquanto fazia seus colares africanos.

Seus colares eram os mais bonitos de toda região, tinham um colorido harmonioso que encantava as mulheres de toda a tribo. O lucro que conseguia com a venda dos colares era o suficiente para manter a sua família, incluindo até seus sobrinhos.

Na África o sistema político e administrativo se destacava. O seu território era organizado em diversos reinos. Para se ter uma ideia, oito deles eram os mais estruturados e ricos. Como exemplo, Kongo, Ndongo, Songhay e Mossi. Nesses reinos que acabo de citar existia uma hierarquia por um grupo de anciãos ao qual desenvolviam as leis e regiam o poder dos reinos.

Kongo era o reino que mais se destacava. Hoje atual Republica Democrática do Congo, no século XV era formado por aproximadamente três milhões de pessoas. Economicamente próspero, tinham um grande exército. Este era comandado por ‘’manikongos’’, um termo muito usado para designar o governante do reino. O seu significado era ‘’senhor do kongo’’.

Os habitantes do Kongo viviam em Clãs e principalmente na prática da agricultura e do comércio de tecidos. Outras matérias, sal, metais e marfim, eram feitos à base de trocas.

Os impostos pagos eram feitos ao manikongo com a finalidade de proteção contra ataques de outras tribos. E não somente isso, também para que mantivessem a sua segurança espiritual.

Em súmula, o governador do reino era tido como o mediador entre o mundo terrestre e o mundo espiritual, pelos africanos. O lado espiritual é um campo misterioso, uma indagação até hoje para os cientistas.                                                                                                    

          Ndongo pertencia ao território do Kongo, localizado no território que atualmente é a   Angola. Mas devido a inúmeras disputas, lideradas pelo Rei Ngola. Como se percebe, esse nome originou o termo ‘’Angola’’ e com a ajuda dos portugueses, após aportarem à África, conseguiram a tão sonhada conquista. A sua independência e o fim dos pagamentos de impostos aos manikongos era uma realidade. O seu império destacava-se em comercializar ferro e sal.

            Financeiramente próspero, Songhay era estabelecido em Mali. E sua prosperidade era devido às relações comerciais que mantinha com os árabes.  O sustento dos habitantes era por meio da criação de rebanhos de animais. E como religião os habitantes seguiam o islamismo, uma crença monoteísta. Como bem sabemos é o culto a um único Deus. Esta religião é fundamentada no Alcorão. Este fora revelado e escrito pelo Profeta Maomé.

       Já o povo Mossi existe até hoje, estima-se que são cerca de quatro milhões de pessoas. Este reino fazia parte da atual região de Burkina Faso. Sua fama deu-se por sua prosperidade econômica e seus soldados considerados implacáveis de toda a     África.

          Seu desenvolvimento era a base da agricultura e do comércio. O povo da região de Mossi, diferente dos outros, seguiam a religião animista. Esta religião crê que os seres humanos, os animais, as plantas e rochas são compostos de alma, ou seja, espíritos.


Clarisse da Costa é cronista e poetisa em Biguaçu, Santa Catarina.

Contato: clarissedacosta81@gmail.com