DIA MUNDIAL DA POESIA - 21 DE MARÇO

Por Vânia Moreira Diniz (Brasília, DF)

Dia 21 de março é a data promulgada pela UNESCO para a celebração do Dia Mundial da Poesia.
A Poesia é a forma lírica de transmitir mensagens que saem da alma com força de expressão e admiram a natureza, os sentimentos, o ser humano em geral e comunicam com vigor e graça seu canto, conceitos, sonhos, ideais e qualquer tema inspirado.
Poesia é também o entendimento no olhar, na doçura das palavras pronunciadas com suavidade e a certeza que merecemos a luz do horizonte, independente da cor, do formato do rosto, do lugar em que se nasceu, das características sexuais e cujo preconceito certamente seria repudiado pela sociedade.

Emocionalmente falando as mãos seriam dadas até nas tristezas e teríamos mais respeito por todas as diferenças existentes.
A diferença é a forma mais bonita de nos aperfeiçoarmos com as experiências mútuas e a poesia está apta para cantar esse sentimento de ternura que resplandece no amor universal. Há melhor e mais profunda forma de entendermos a alma de outra pessoa que necessita das mesmas alegrias intrínsecas como cada um de nós?
Se existisse mais poesia nas relações humanas, tudo seria mais fácil e as marcas do amor e da solidariedade estariam presentes , assim como o egoísmo se manifestaria com menos ênfase dando passagem à preocupação pelo outro cujo caminho ameno, mesmo nos momentos difíceis nos levaria à paz, na verdade, a única passagem para a felicidade.
Poesia é amor, canto e encanto, luz que não amortece os olhos, união estreita com nossos irmãos de caminhada, certeza que o sorriso seria tanto mais bonito e enternecedor quanto mais fosse dado com a alma, entrega de sentimentos, necessários à felicidade de cada um de nós. Fortuna que só se encontra no espírito e que satisfaz nosso ser interior
Poesia é beleza, não apenas enfeitando a superficialidade, mas vibrando nos acordes da emoção para que seja sentido numa extensão tão sublime que não seria possível escassear nem com a passagem do tempo e nem mesmo com a duração finita de nosso tempo.
Poesia é o que vamos legar aos nossos descendentes, mesmo que eles não sejam poetas, é a esperança que disseminamos durante a existência e cuja semente plantamos para que seja regada com amor e afinal, um dia, possa nascer os frutos para uma humanidade menos sofredora, menos perversa e onde os valores maiores não sejam tão materiais e individualistas.
Isto é a verdadeira poesia. Tentaremos transportá-la mesmo nesse instante difícil da história da humanidade, porém ela saberá florescer cada vez mais lírica e verdadeira para que o universo se transforme num oásis de paz, mesmo que tenhamos que lutar com dificuldade para encontrar o verdadeiro amor universal.
Poesia é entrega, dedicação, altruísmo nos versos rimados ou não, mas que encontram a compreensão do momento em que nascemos, aspirando o oxigênio que nos fez chorar para que a abrangência de nossos atos sejam capazes de deixar um motivo para entendermos o porquê de nossa presença neste mundo.
Poesia que o mundo todo comemora nesse dia 21 de março é vida, comemoração, entrega útil, verdadeira e crescente e que podemos repetindo mil vezes a palavra amor em todos os sentidos chegar ao cerne da expressão lírica que o entusiasmo criador expressa, transforma e entende.

Sobre a autora: Vânia Moreira Diniz, Ph. I., é presidenta da Academia de Letras do Brasil, Seccional Distrito Federal (ALB/DF)

CIDADES

Por Pedro Du Bois (Itapema, SC)

 
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CONFISSÃO

Por Pedro Du Bois (Itapema, SC)

Sintonizado em barulhos
reconheço o prego
ao ser pregado
o parafuso
ao ser enroscado
a água
ao ser fervida
o dia
ao ser mudado
para a tarde
noite
dos regressos

ser fechado
confesso o crime
de escutar a vida
por todos os lados.

CORDEL RADIOATIVO

Por Gustavo Dourado


Átomos em explosão:
O mau uso do urânio...
Radiação cancerígena:
Advinda do plutônio...
Tanta bestialidade:
Deixa todo mundo insônio...

Detonaram a alma de Gaia:
Com o explosivo do inferno...
O câncer da amargura:
Em um nuclear inverno...
Peço às forças do Cosmos:
Dai-nos luz do infineterno...

Armas da estupidez:
A fome se multiplica...
A miséria só aumenta:
A ignorância petrifica...
Um mundo mal-educado:
Como é que nos explica?!

Terremoto/Maremoto:
A tsunami fatal...
A natureza está viva:
Desperte humanimal...
Preserve o meio ambiente:
Não destrua o seu quintal...

Fukushima...Chernobyl:
Prenúncio do Apocalipse...
Convulsão radioativa:
No veneno da elipse...
Mundo em metamorfose:
O Planeta em eclipse...


Os sete ventos da ira:
Natureza desvairada...
Brilham os raios da morte:
Na explosão ensolarada...
As estrelas se escondem:
Na via desmadrugada...

Parem de acumulações:
Ter, poder e lucrar...
Conjuguem o verbo ser:
Viver, sorrir e amar...
A natureza nada cobra:
Mas sabe bem reclamar...

Terremoto vai e vem:
A terra viva está...
O Planeta se sacode:
Lá, aqui e acolá...
A humanidade sofre:
Sem saber o que será?!...

Átomos armam o medo:
Energia nuclear...
O perigo é constante:
Apocalipse no ar...
Isótopos, radioatividade:
Ninguém sabe mais amar...

Indústria bem poluente:
O consumismo fatal...
Tecnologia caótica:
Automatismo letal...
Excesso de automóveis:
Tsunami cultural...

Produzem os assassinos:
Com a política bestial...
Uma educação nefasta:
Para o sistema do mal...
Promovem o crime na tv:
Manchete no telejornal...

Lucro para os tubarões:
Trabalhador na esmola...
O governo doa aos ricos:
Dá ao povo, pobre escola...
Os jovens no desemprego:
Fumam crack, cheiram cola...

Aumento para político:
Deputado e senador...
Ministro, juiz, prefeito:
Secretário, vereador...
Para o povo só arrocho:
Imposto, calote e dor...

Simulação, simulacro:
O culto à falsidade...
A mentira está no auge:
Em toda a sociedade...
Precisamos de um choque:
De amor, paz e verdade...

Priorizem a Educação:
Preservem seu orçamento...
Livro, arte e cultura:
Elevam o pensamento...
Sabedoria, paz, amor:
Bem melhor que armamento...

É o caos, devastação:
O terror da humanidade...
O homem destrói Natura:
Gera a calamidade...
Armas de todo tipo:
Civitas da insanidade...

A Terra treme, sacode:
Armagedon crucial...
Hecatombe planetária:
Cataclisma mundial...
A Natureza cobra o preço:
Do destruidor hominal...

Radioatividade contâmina:
Carcome o gen da matéria...
Energia teleletrônica:
Psinergia deletéria...
Suga sangre do robhome:
E dá um nó na artéria...

Estraçalha a medula:
Desossifica a quimera...
Silencia o pensamento:
Detona a atmosfera...
A alquímica atormenta:
Mortifica a bioesfera...

Reatores que derretam:
Ecos do Juízo Final...
Robobs em automóveis:
Pobre homem maquinal...
Perdido em seu percurso:
Pelo espaço virtual...

Germes , micróbios, bactérias:
Os vírus do assassínio...
Células são dilaceradas:
Nas câmaras do morticínio...
Os escravos pós-modernos:
Suicidas em extermínio...

Terrorismo de Estado:
Alien multinacional...
O cérebro é monitorado:
Pela mídia canibal...
Antropófaga do ser:
Via escaner digital...

Nuclearmas explosivas:
Implodem o transumano...
Hiroshima - Nagasaki:
Bombardeio inumano...
Abalo sísmico na alma:
Por um ato desumano...

O desastre é provocado:
Catacombe planetária...
Corrupção desenfreada:
A insanidade diária...
Dinheiro-carro-metal:
Trava a veia libertária...

Especulação imobiliária:
Urbis...Autoimobilismo...
Poluição industrial:
Larva do automatismo...
Cimento, plástico, veneno:
Química do kapitalismo...

Exploração irracional:
De matéria e energia...
Consumismo excessivo:
Suicida pedagonia...
Educastração equívoca:
Do lucro e da mais valia...

Césio, bório, éter, polônio:
Gluons, quarks, tungstênio...
Deltas, sigmas, neutrinos:
Posítrons, gamas e selênio...
Os elementais do tempo:
Além do molibidênio...

Amar verbo infinito:
Que transcende a razão...
Sexo, sonho, fantasia:
O efêmero da paixão...
O Amor se eterniza:
Corpo, mente, coração...

A dor de ser sentimento:
O desejo de se amar...
Pensar em ontologia:
No sonho filosofar...
Buscar a eternidade:
Num galope a beira mar...

JOÃO DE BARRO

Por Antônio Francisco de Paula

Mês de dezembro.
Todos os passarinhos em festa,
Só o pedreiro da floresta
Não parou de trabalhar.

As andorinhas
Anunciavam o grande dia
Em que Jesus nascia,
Vindo pra nos salvar.

Nobre pedreiro,
Aquele humilde construtor,
Bateu asas em louvor
E repicou o seu cantar.

O João de Barro,
Passarinho inteligente,
Trabalhando feito gente
Lá na copa da paineira.

Num galho verde,
Protegido na ramada,
Junto de sua amada
Não parava de cantar.

Na construção
De sua moradia
Trabalhava todo o dia,
Sem parar pra descansar.


Cada viagem
Que o coitado fazia,
No seu bico ele trazia
O barro pra rebocar.

Pobre João,
De bolica em bolica,
Mais de mil idas na bica
Pra seu ninho terminar.


Sua companheira
Ficava lhe ajudando,
Com capricho alisando
As paredes do seu lar.

Preocupada,
Quando avistava o João
Subindo lá do grotão,
Começava a festejar.

Somente a Deus
É que devo agradecer,
Por ter me deixado ver
E estes versos registrar.


(Publicado na Revista Cerrado Cultural nº 05, em 2008)

TORQUATIANA

Por Gustavo Dourado


Anjo louco renascente
Anjo barroco cigano
Netuno do oceano
Sertanejo universol
Torquato fenomenal
És poeta soberano

Desfolhaste a bandeira
Da manhã luz tropical
Estrela d'alva serena
Vespertina musical
Ritmaste a nova era
Iluminando o carnaval

Combateste o arcaísmo
O modismo, a opressão,
Ao morrer eternizou-se
Sem medo da repressão
Foste vítima da tortura
Da angústia da razão

Antropófago criativo

MultiArtista criador
Mago do tropicalismo
Morreu de arte e amor
Morreste abandonado
Pelo sistema jogado
No precipício da dor...

(do livro Phalábora, 2003)

(Publicado na Revista Cerrado Cultural nº 05 em 2008)

O CAMPEÃO

Por Sérgio Moacir Pereira Fontana (Pelotas, RS)

Em 1970 Bagé estava em expansão. E creio que foi nesse ano que os padres começaram as reformas no Colégio Auxiliadora. Desmancharam os mictórios a céu aberto, que eram encostados no muro dos fundos da casa do Carlos Theo Lahorgue, e uma parte do prédio que ficava nos fundos do cine-teatro, também pertencente ao colégio. Então começaram a reformar os corredores que ficam em paralelo com a rua Marechal Floriano, aproveitando o período de férias dos alunos para acelerar os trabalhos. Em dois anos conseguiram alcançar uma boa parte do objetivo final.
Juro que não lembro direito das etapas cronológicas da grande obra, nem mesmo quando construíram a quadra poliesportiva, a qual, nesse processo de reformas, surgiu como num passe de mágica. Nela se podia jogar o clássico futebol-de-salão - com aquela bola pra lá de pesada - o basquete, o handebol e o vôlei. Foi então que nós, os alunos, passamos a ter contato com esses esportes, cujas noções básicas foram incluídas no programa de aulas de Educação Física.
Futebol, quase todo mundo sabia jogar, mas as outras modalidades precisavam ser mais bem ensaiadas. Uns gostavam só do vôlei, outros preferiam o basquete e outros - bem poucos – o handebol. Pois eu tinha 12 anos quando comecei a jogar basquete, e logo descobri que tinha razoável aptidão para o esporte, principalmente no quesito arremesso à cesta, particularidade que me incentivou a ser candidato a uma das vagas na seleção de basquete, de 11 a 14 anos, do Auxiliadora. E consegui o meu objetivo que era fazer parte da equipe que ia competir nos Jogos Interescolares Municipais de 1972.
Como na modalidade "Basquetebol" só o Colégio Nossa Senhora Auxiliadora e a Escola Estadual Dr. Carlos Kluwe apresentaram equipes, a disputa do título se resumiu a uma só partida, por faixa de idade. Enfrentariam-se os times sub-14 e sub-18 dessas instituições, com jogos na quadra da Praça dos Esportes, ali, em diagonal com o Estadual e um pouco mais distante - mas não muito - do Auxiliadora.
Fazia frio às 9 da manhã, quando começamos a trocar de roupa, vestindo a sagrada camisa branca, sem mangas, com numeração às costas, bordada em azul escuro, e o nome "AUXILIADORA", bordado em vermelho, em forma de arco, no centro do peito, sendo o calção azul e o soquete branco. Por cima, o abrigo azul-marinho e vermelho do colégio, com a devida identificação, bordada em branco, às costas do moleton.
Mesmo sendo um dos atletas de melhor aproveitamento no arremesso à cesta, eu estava conformado em ser reserva, pois a minha estatura não privilegiada se constituía, teoricamente, em marcante desvantagem nas disputas de bola. Então que se virassem os nossos cinco titulares, capitaneados pelo nosso melhor atleta, o Alencar. Quanto aos nossos rivais, deles eu pouco sabia, mas chamava-me a atenção um jogador. Badô era o nome dele, e se movimentava com desenvoltura, e fazia cestas com certa facilidade, apesar de ter uma das pernas menos desenvolvida que a outra. Era essa a maior dificuldade que enfrentávamos, pois ninguém estava conseguindo neutralizar o Badô, capitão da equipe do Estadual.
No segundo tempo do jogo fui chamado pelo técnico da equipe que me instruiu a tentar meus arremessos de longa e média distância. Fui lá e tentei, uma, duas, três vezes. Duas tentativas deram no aro e uma outra, bisonha, nem acertou na tabela. Era hora de mudar a estratégia.
Jogo difícil, quase no final, e com vantagem de um ponto pró Escola Estadual. Quando a bola sobrou para mim, quase embaixo da cesta, eu tinha certeza que aquele era o último lance da partida. Girei o corpo e dei um impulso para o alto, ao mesmo tempo em que o sol das 11 horas me ofuscava a visão e todo o time adversário, em desespero corria, sem freios, na minha direção. Arremessei a bola sem enxergar, e recebi, de imediato, impactos múltiplos na parte superior do corpo, inclusive na cabeça.
Acordei 24 horas depois, no hospital. Lembrei de tudo, menos de uma coisa. Eu não sabia se tinha marcado os dois pontos que nos teriam dado a vitória. Ainda deitado e com os olhos semi-abertos, virei a cabeça para o lado e vi, sobre o bidê (criado mudo), um troféu que me encheu de alegria. Pedi à minha mãe que me alcançasse aquele símbolo da vitória, e para me certificar que tinha dado tudo certo, procurei, e encontrei, a palavra mágica nele gravado: "Campeão".
Sensibilizado pelo reconhecimento dos meus companheiros de time, perguntei à minha mãe se ela sabia quem tinha ido lá me visitar, enquanto eu estava inconsciente. Ela disse que quase todos, de uma vez só, foram ao hospital para saber como eu estava. Depois chegou mais um, mas esse, o que chegou com a taça na mão, ela não conhecia. Ele entregou o troféu para ela, dizendo que era um presente para mim, que eu era um herói e tinha feito por merecê-lo.
- E ele disse quem era? - perguntei à minha mãe.
- Disse sim, meu filho! O nome dele era Badô!