CLARISSE CRISTAL E A CINZA DAS HORAS

 


Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

Em dias de sol e calor

Minha alma serena

Passeia livremente

Pela charneca em flor

Nesses dias de extrema felicidade

Eu tenho sentimentos bons

Eu tenho pensamentos probos

Eu sou feliz

 

Quando as duas jovens mulheres, por fim, se desvencilharam de forma abrupta, elas não tinham a noção exata de quanto tempo a cena, de fato, decorreu. Foi como se uma enorme fossa oceânica abissal, em equidistâncias mais que perfeitas, tivesse se materializado entre ambas, que ali permaneciam estáticas.

Clarisse Cristal, com os olhos negros em chamas, não parava de olhar para Anna Victória. Não a desejava em absoluto, mas sentia uma curiosidade profunda pela bela e jovem companheira de trabalho, parada a poucos centímetros e, ao mesmo tempo, tão distante. Já a outra estava confusa e atônita; olhava para o chão, em desespero e perdidamente, como quem procurasse algo que acabara de perder. Estava corada e sem nada a dizer.

Era constrangedora a cena que se desenrolava ali, no terceiro andar, o recanto mais obscuro da editora e livraria independente, localizada na praia central. Ambas entenderam que as coisas não seriam e não poderiam mais ser como antes; nada seria igual, tudo mudara de forma absoluta. Para Clarisse Cristal, enclausurada naquele minúsculo universo onde passava horas trabalhando sozinha entre livros antigos e empoeirados, o espaço onde se debatia violentamente teve a incrível capacidade de ficar ainda menor e mais claustrofóbico do que realmente era.

A bibliotecária, avaliadora e restauradora de livros antigos, com o corpo em chamas e a compreensão súbita de que precisava viver a vida, que exigia prazer imediato e entrega total, fosse o que fosse, fosse como fosse. O amor platônico e pueril já não se justificava e assim se exauria por completo; foi ao chão e quebrou-se em mil nanopedaços. A recente paixonite adolescente pelo motoboy da livraria foi sepultada em definitivo; virou uma lembrança vaga e vaporosa, perdida não só no tempo, mas também no espaço.

A mais nova cidadã das nuvens revogou a sua cidadania nas tensas e condoreiras alvas nuvens por completo e em definitivo. Já não existia mais aquela figura evasiva e sonhadora; Clarisse Cristal tinha agora os pés bem fincados no chão. Um novo mundo, cheio de infinitas possibilidades, erguia-se diante dela naquele exato momento. Antigos desejos ardentes, que vinham e evanesciam ao sabor das ocasiões, agora não pareciam querer ir embora nem soavam tão distantes assim. Clarisse, não queria e não poderia mais olhar pelas frestas da vida; queria viver ao máximo, para além do imaginável das finitas possibilidades cotidianas. Ela decidiu começar com o que tinha ao seu alcance; o mundo liquefeito enfim bateu à porta da jovem e bela Clarisse e lhe lançou um desafio.

Anna Victória, a vendedora sênior de livros, lembrou-se do que fora fazer ali de prático, na seção de análises e reparos de obras raras. A vendedora levou a mão até a pesada prateleira de madeira Palo Santo e, com o dedo indicador esquerdo, passou em revista os volumes de livros ali dispostos; encontrou o que queria e o alcançou, por fim. Era a primeira edição de um livro autografado, raro e muito caro; o título era A Cinza das Horas. A moça virou-se de forma intempestiva, deu as costas para a outra sem nada dizer e saiu sem pressa — arrastando-se, na verdade, como se um enorme peso lhe caísse sobre os ombros.

— Foi bom pra tu, minha querida? — A pergunta de Clarisse Cristal, alcançou a outra não muito distante; o tom da jovem bibliotecária era alegre e descontraído.

A outra olhou para trás e sorriu, amarela e temerosa. Já não estava enrubescida e passou a achar graça da situação embaraçosa de há pouco. Afinal, o que é um beijo entre boas amigas de trabalho? Nada de mais. E foi assim que a vendedora especialista em livros estrangeiros, Anna Victória, pensou naquela hora.

 

Fragmento do livro: Em dias de sol e calor, em noites de tempestades e frio. Texto de Samuel da Costa, contista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina.