Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)
“Todas
as ironias suspirantes
Que
ondulam no ridículo das vidas,
Caricaturas
tétricas e errantes
Dos
malditos, dos réus, dos suicidas;”
João
da Cruz e Sousa
O pequeno palco, outrora efervescente,
agora estava vazio. À frente dele, os convidados — a elite rebelde da cidade
portuária e cercanias — bebiam, fumavam e conversavam animadamente, enquanto
aguardavam a próxima encenação teatral.
De repente, o alarme interno de Fá
Rodriguez Butler ligou-se no nível máximo. No centro do salão de festas, ela
fixou o olhar no grandioso e acinzentado portal de madeira da entrada,
imaginando se próprio Mefistófeles cruzaria aquele limiar a qualquer momento.
Mas a condessa Rodriguez Butler, em seu íntimo, bem sabia: o que estava prestes
a passar por ali era algo muito pior que o arcanjo infernal.
Uma garçonete aproximou-se trazendo uma
bandeja de prata. Era uma jovem oriental vestida com uma sensual lingerie
vermelha sob um transparente roupão quimono aberto, de tom cereja-escura, e
tamancos japoneses de madeira nos pés. Fá segurou a haste da fina taça de
cristal com as pontas dos dedos, observando lentamente o champanhe rosé gelado,
enquanto a jovem a encarava de forma afrontosa. Quando tirou a peça de cristal
dos carnudos lábios, Fá percebeu que aqueles pequenos e rasgados olhos negros
não carregavam a timidez ou a docilidade estereotipada, mas sim um puro e
misterioso abismo.
— Aprecie
bem o seu Memento Mori, madame Fá Rodriguez Butler! — o álgido sussurro
da jovem garçonete ecoou na variante formal do japonês (sonkeigo),
direcionando-se à anfitriã antes de partir languidamente.
Fá Rodriguez Butler arremessou a
delicada taça contra o chão com força. O ruído do cristal estilhaçando-se no
mármore gélido atraiu os olhares do salão de festa, embora alguns convidados
sequer tenham se importado com o estridente escândalo da dona da festa. Ao lado
esquerdo do palco, alheio ao tumulto, um pintor impressionista permanecia
estático diante do magnífico trono de ouro que há pouco abrigava a imperatriz
Sibelly Lopez. Com o cavalete de madeira armado, a paleta no braço esquerdo, o
pincel fino entre os dedos e uma pequena tina de água na bancada, o artista
fitava, perdido, os detalhes funestos e alienígenas daquela peça que outrora
abrigava a soberana das estrelas, a Rainha Afra. Ele trabalhava na tela como se
fosse a única alma viva no recinto, retratando a rainha cósmica em sua
sensualidade e esplendor maléfico. Ao fundo do palco, dois operários se
movimentavam: um preparava a tela de projeção enquanto o outro ajustava os
alto-falantes. Um curta-metragem seria exibido para entreter os seletos convidados
da condessa espanhola.
Os convidados, na sua totalidade agora
curiosos, vislumbraram a dona da festa, paralisada e isolada no centro do
salão, parecendo ansiosos pelo próximo ato. A condessa sequer notou quando uma
leve brisa outonal que invadiu o ambiente, tampouco percebeu a aproximação de
um militar de baixa patente trajando um impecável uniforme de gala. Quando Fá
deu por si, já era tarde demais. Ao encarar os olhos daquele cabo, um homem
negro de meia-idade, ela enxergou toda a fúria do mundo concentrada em suas
pupilas de ébano. E então, desmaiou. Ninguém no salão moveu um dedo enquanto o
corpo elegantemente vestido da mulher colidia contra o piso frio; em seguida,
aplaudiram em uníssono e se voltaram para o telão de alta resolução acima do
palco.
Quando madame Rodriguez Butler
despertou, aturdida, não demorou a reconhecer o lugar onde estava: era o alto
do terraço da Torre Xoclengue, onde residia. Ao lado, a Torre Fiote erguia-se;
as duas grandiosas torres negras, com os seus contornos góticos, sobressaltaram
aos olhos da condessa, assim como a revoada das agourentas aves More. Os
bailados tétricos dos pássaros cobriam com a sua profusão o céu outonal noturno
e cegavam a visão da mulher. Os estridentes grasnares das criaturas fizeram a
condessa levar as mãos aos ouvidos.
A poucos metros, um homem de costas
observava o horizonte, vislumbrando o luar em sangue. De volta a si, Fá e sob o
manto da noite e vislumbra a criatura a frente dela, voltou a indagar si, se
aquela silhueta seria a materialização do próprio Mefistófeles, vindo
finalmente reivindicar a sua imortal alma condenada.
— Não sou um demônio, minha nobre
senhora. Tampouco vim lhe cobrar um pacto qualquer — ao menos, não um pacto
firmado comigo. A sua alma imortal não pertence a mim — declarou o militar, sem
se virar. O tom de sua voz era lento, duro e implacável, como o de um juiz
proferindo uma sentença irrevogável. Fá perdeu-se no corte do uniforme eslavo
do militar; era antigo.
— É uma saída honrosa, então? E Agnes, a
minha filha? O que será dela, da minha pequena? — perguntou a condessa, com a
voz trêmula de pavor.
O colossal cabo, um homem negro,
finalmente virou-se para a mulher aflita. Ele sorriu, caminhou lentamente até
ela e curvou-se a ponto de projetar o gélido hálito da morte em seu ouvido:
— Ela nos pertence, e a senhora sabe
muito bem disso. A condessa sempre soube. Agora, resta-lhe apenas uma saída,
senhora. Somente uma.
O homem estendeu o braço esquerdo e
apontou para a beira do abismo, para além da amurada do edifício, a poucos
metros dali.
Fá Rodriguez Butler caminhou em direção
ao próprio fim. Enquanto avançava, a sua mente a imaginou atravessando o
deserto desolado da Rainha Afra, Luna Dark — um desterro eviterno onde as
noções de tempo e espaço deixavam de existir e os ventos jamais sopravam. Sob
uma abóbada azul-celeste despida de nuvens brancas, os errantes condenados e
condenadas, malditos e malditas, os réus e as rés e os suicidas arrastavam-se
famintos, sedentos, ecoando em uníssono um lamento em uma língua extinta por
uma imensidão de dunas ebúrneas. Em prantos caminhavam, vez ou outra eles
tombavam e se afogavam em pequenos lagos de frias águas salgadas e azuis,
apenas para reviverem e retomarem a marcha pela escaldante areia alva, sob a
fúria implacável e escaldante de perenes sóis gêmeos.
Tudo sob o olhar tétrico, o riso
malévolo e dilacerante da Rainha Afra, Luna Dark — a exilada de Carcosa, a
filha dileta de Hastur, o Rei de Amarelo. A Rainha Negra que se alimenta e se
regozija com as dores, os choros, os sofrimentos e as culpas dos réus e das rés
condenadas ao degredo eviterno.
Fragmento
do livro: Em dias de sol e calor, em noites de tempestade e frio.
Texto de Clarisse Cristal — poetisa,
contista, novelista e bibliotecária de Balneário Camboriú, Santa Catarina.