Por Raquel Naveira (Campo Grande, MS)
A beleza é um trunfo
incontestável. Fascina. “Como um pedaço de romã, assim são as tuas faces entre
os teus cabelos”, cantou o rei Salomão à sua amada. E a alegria tornava o rosto
dela ainda mais formoso. O mais interessante é que não podemos ver a nossa
própria face. Somente através do espelho, de vidro ou de água, um mero reflexo.
O rosto nos olha do fundo mágico. Sentimo-nos questionados: onde estaria
escondida a nossa alma? A poeta Cecília Meireles (1901-1964), à beira da
velhice, contemplando o seu rosto emurchecido, confessou: “Eu não tinha este
rosto de hoje,/ Assim calmo, assim triste, /Assim magro,/ Nem estes olhos tão
vazios,/ Nem o lábio amargo.// Em que espelho ficou perdida a minha face?”
Ficar face a face, frente a
frente, significa estar diante de alguém olhos nos olhos. A coragem, o desafio
de encarar o outro sem véus, sem disfarces. Nossa identidade desnudada. A
crença interior aflorada. A pura expressão de nossas mais fundas emoções. Buscar
a Deus face a face é um risco, uma impossibilidade real. Falar face a face com
o Senhor é ter intimidade com ele, conversar como se conversa com um amigo.
Mas, aparentemente, pareceremos loucos, clamando diante de um arbusto ardendo
em labaredas ou de um punhado de estrelas fincadas no céu. Nosso rosto ficará brilhante
dentro do fogo e da poeira do espaço.
Tenho esperança de conhecer
esse mistério plenamente, no futuro, sem limitações. Volto meu rosto na direção
do sol. Só a morte revelará minha verdadeira face. Por enquanto, neste baile de
máscaras que é a vida, danço a última valsa. Escrevi estes versos:
O espírito se manifesta
Através do rosto:
Bondade,
Ira,
Desgosto,
Tudo vem à tona,
Como no vinho
Fermenta o mosto.
Queria absorver a personalidade divina,
A tal ponto
Que meu rosto
Refletisse o Dele,
Que meu olhar tivesse
Laivos de mel e compaixão
E meus lábios
Gosto de sal e sangue.
Como num espelho,
Numa foto,
Prendo a alma,
Só de ver o roso.
Caminho
Observando semblantes,
Fisionomias,
Rostos anônimos
Pelas esquinas
De sol posto;
A cada passo
Meus olhos te procuram,
Busco teu rosto,
Não ocultes teu rosto de mim,
Quando estaremos face a face?