Por Catarina Osoegawa (Florianópolis, SC)
Uma história que começa de trás para a frente, uma revisão focal, um atalho alinhavando pontos pequenos e médios, um relance do passado vindo de surpresa acomodando as emoções, e principalmente, os desejos, atravessando desde futilidades até projetos organizados de bem-querer, tudo isso Eva reviu em décimos de segundos em sua última visita ao oncologista.
Em sã consciência, parecia apenas um dia inesperado com um misto de intuição saborosa, como um petisco quentinho antes da refeição! Sabia que temia saber o que seria revelado nesta consulta, foi-se lá buscar o calmante natural: um chá de ervas que lhe traduziria uma aura de ansiedade em uma confiança leve e etérea, podendo esvoaçar-se pelo ar, como as pétalas do bem-me-quer.
Na sala de espera, um olhar para a frente e para trás,
defesas naturalmente concentradas em uma gratidão à vida, Eva se preocupava em recuperar-se
de vários momentos assustadores desde que teve o seu diagnóstico revelado. Doce
ilusão, sabia que já teria ultrapassado obstáculos que não gostaria de
enfrentar novamente! Então, por que insistia em olhar para trás?
Nenhuma resposta pode atingir a lógica quando falamos das emoções humanas mais espontâneas, aquelas que podem ser bem frutíferas ao serem degustadas com carinho respeitoso... E de repente, Eva se surpreende consigo mesma ao associar os seus pequenos fios de cabelo em início de crescimento, como se fosse um recém-nascido saído de um parto doloroso, mas ao mesmo tempo, potencialmente liberado para todas as possibilidades de crescimento.
Eva demorou para processar tudo isso, achou que o tempo foi enormemente esticado entre ação e reação, parecia que havia paralisado o relógio, ficou em estado de inércia...levou algumas horas para processar as falas curtas e firmes do seu médico. Despediu-se dele com um olhar que dizia mais do que mil palavras.
Nenhuma palavra se tornava suficiente para expressar o
turbilhão de emoções que lhe causara aquele pequeno momento, um alvoroço que
lhe apagava até a memória, entre um lapso de impossibilidade de elaborar
rapidamente, o seu olhar fugidio trazia à consciência uma releitura de um tempo
que lhe parecera eterno. O médico lhe
diria: Daqui pra frente, Eva, você vai tomar esse medicamento por via oral.
Para o resto da vida, doutor? Sim, para o resto da vida.
E Eva só pode suportar essa emoção desabando em lágrimas,
aquelas que sempre eclodem em momentos especialmente delicados, a própria
felicidade dita em uma outra linguagem, virtude esta que nós os humanos,
acreditamos ser os únicos a deter. Levou horas até que Eva tenha recuperado a
sua memória, todos aqueles pontos alinhavados sendo ressignificados, haveria de precisar mais um bom tempo para
elaborar todos os desafios que esta passagem lhe permitira viver, costurados em
pontos firmes em um centésimo de segundo
de sua doce vida.